Evitando a banalização do termo “crença no homem”

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Um leitor escreveu o seguinte: “considero a ‘religião tradicional’ tão tóxica e nociva quanto à ‘crença no homem’.” No que eu lhe respondi o seguinte: “Henrique, seu argumento sobre a religião tradicional ser tão tóxica quanto a ‘crença no homem’ não se sustenta. Vou dar um exemplo. Suponha que você revele suas senhas de banco para um Deus inexistente. Agora suponha que você revele suas senhas para uma outra pessoa. Qual é a situação mais perigosa? Entendeu por que não é possível que a religião tradicional seja tão perigosa quanto a ‘crença no homem’?”

Washington, por sua vez, fez um interessante comentário que poderia (a primeira vista) ser desafiador em relação ao que falei, tanto que decidi fazer um post, para esclarecer um ponto importante de minha tese sobre a religião política. Abaixo, o comentário dele:

Mas, e se minha crença na religião tradicional porventura me leva a revelar minhas senhas de banco não para um deus, mas pra um líder ou uma instituição religiosa, sendo eu levado a considerá-los “representantes de deus”, “totalmente dignos de confiança” e “acima dos seres humanos comuns” por tal crença?  Será que eu posso dizer que muitas crenças consideradas tradicionais (como o tele-evangelismo “deposite-nesta-conta” neopentecostal), na verdade são pregações humanistas travestidas de religiosidade tradicional, pra ludibriar pessoas desesperadas ou com pouca formação?

Antes de tudo, eu também acho que muitos dos que caem no engodo de alguns pastores neo-pentecostais estão entre as pessoas desesperadas ou com pouca formação. Mas, curiosamente, tenho alguns amigos que estão distantes de estarem em condição de “desespero”, possuem ótima formação, e até doam seu dinheiro para entidades como a de Edir Macedo. No caso de um desses amigos, por exemplo, ele comentou a respeito de uma das divisões da Igreja, algo como Congregação dos 318 pastores, que é praticamente um grupo especializado em executivos e empresários. Ele também comentou que os 10% que paga são muitíssimo bem compensados pelos contatos feitos e o networking. Enfim, esse tipo de declaração para mim foi algo revelador. Mas não é o assunto central de minha resposta.

Eu posso ter induzido o leitor ao erro com meu exemplo sobre as senhas de banco, que não foi diretamente relacionado à “crença no homem” dos religiosos políticos. O termo “crença no homem” refere-se à expansão ao absoluto da confiança na espécie humana. Nesse sentido, “crença no homem” significa a crença em que o ser humano poderá, por sua ação, interferir na natureza, através da ciência, razão ou outros rótulos auto-atribuídos pelos líderes de grupos humanistas e esquerdistas, e então mudar a natureza humana, para enfim criar a sociedade perfeita. Este tipo de confiança resulta de confianças de menor escala, e foi aí que citei o exemplo das senhas do banco, onde ao se entregar as senhas a uma pessoa, ao invés de revelá-las psicologamente a um Deus, torna-se logicamente muito mais perigoso. Ora, neste caso, entregar as senhas para um pastor é tão perigoso quanto entregá-las a um líder de esquerda. Ou até a uma pessoa da direita. Mas isso ainda não significa a absoluta confiança que a “crença no homem” dos religiosos políticos.

Washington afirma que é possível que um fiel religioso considere os líderes religiosos como “representantes de deus”, “totalmente dignos de confiança” e “acima dos seres humanos comuns”, e isso é verdade. Mas aí é que está a grande diferença. Embora seja possível que um religioso tradicional confie de tal maneira em seus líderes religiosos, isso não é uma condição necessária. Meu pai, por exemplo, é católico, e não gosta dos padres. Entretanto, no caso da esquerda, não há uma válvula de escape. A “crença no homem” levará necessariamente o esquerdista a acreditar que grupos poderão tomar o poder de forma absoluta (e, em alguns casos, totalitária), para “criar o mundo melhor”. É por isso que surgem crenças na ditadura do proletariado, no estado inchado, etc. Por exemplo, para acreditar que a “ditadura do proletariado” vai funcionar de acordo com os interesses do proletariado, é preciso antes de tudo acreditar que as pessoas que irão compor essa ditadura refrearão seus instintos naturais de territorialismo, luta pelo poder e auto-preservação para enfim fazer aquilo a que se propuseram, e entregar, ao final de um determinado período, uma sociedade “sem classes”. Claro que isso nem de longe ocorreu em Cuba, Venezuela, China, Cambodja ou Rússia. Esse tipo de aposta altíssima é característica inerente do pensamento de esquerda.

Somente se as pregações de líderes religiosos fizerem tais tipos de apostas, e exigirem tal tipo de devoção (à noção de que o ser humano pode, por sua ação, remodelar sua natureza e enfim criar o paraíso em terra),  é que poderiam ser comparadas aos humanistas. Pode-se dizer, aliás, que os religiosos tradicionais são adversários naturais dos humanistas.

Religiosos tradicionais tendem a acreditar que somente Deus poderia interferir para mudar o curso natural das coisas. Ele poderia criar um dilúvio e fazer seu filho nascer a partir de uma virgem. É por isso que escrevi o texto “O milagre que veio, o milagre que virá”, falando sobre milagres que teriam ocorrido no passado (com a interferência de Deus), mas que não ocorrem atualmente, a não ser quando Deus interfira. Já os religiosos políticos acreditam no milagre futuro, em que as contingências humanas serão superadas. Só que se os religiosos tradicionais acreditam em Deus para quebrar a ordem natural das coisas, os religiosos políticos acreditam que o homem fará isso, através de coisas como “ciência e razão”. 

Enfim, espero ter esclarecido o que significa “crença no homem”, no contexto deste blog (de investigação da religião política, usando o ceticismo político), e mostrado que ele nem de longe tem a ver com as pequenas confianças que temos em pessoas, do dia-a-dia, embora possa ser resultante de uma ampliação absurda dessas confiança para uma crença de forma absoluta na espécie humana.

Alguém poderá questionar: “Mas você quer dizer que a religião tradicional é totalmente inofensiva?”. Não, não digo, pois nada é totalmente inofensivo nas mãos do ser humano. Qualquer coisa pode ser transformada em algo periculoso nas mãos de uma espécie predatória como a nossa. Inclusive a ciência. Entretanto, tanto ciência como religião tradicional não são necessariamente perigosas. Por outro lado, as ideologias da esquerda são SEMPRE perigosas, especialmente por causa da “crença no homem”, além, é claro, da obtenção de autoridade advinda desta crença.

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3 COMMENTS

  1. Bom exemplo do seu pai. Alias, no catolicismo isto é frequente. Ouso dizer que o catolicismo é a religião mais “iconocastica” em relação ao seus lideres, e só quem é católico de carteirinha sabe disto. Talvez seja a longa historia da Igreja com sua colecao de santos e pecadores, talvez seja que se coloca uma expectativa muito grande no clero a luz dos grandes santos que já houve na Igreja.

    Sou catolico e tenho a mais absoluta descrença na grande maioria do clero que governa a Igreja no Brasil. São homens despreparados, covardes, tolos e indignos de seus cargos. Desconhecem a doutrina pela qual militam e sao em grande parte responsaveis pela espiral do silencio que caimos. Logicamente nao sao todos. Há os bons. Contam-se nos dedos. E irrita-me profundamente que a conta caiba nos meus dedos.

    Ironicamente, isto mais aumenta minha Fé, já que só mesmo Deus para sustentar a Igreja com esta zona aqui. Foi como a anedota de Napoleao com Pio VII preso:

    – Ou você concorda comigo ou eu vou destruir a Igreja!
    E Pio VII responde a L´Empereur:
    – Nós, do clero, já tentamos há milênios destruir a Igreja com nossos erros e não conseguimos ainda…

    • Antunes, entendo o que você diz. Entretanto, quanto a Pio VII X Napoleão, a diferença é que naquela época não haviam técnicas como a estratégia gramsciana. Hoje, se a Igreja relaxar, será destruída, como já aconteceu em vários países europeus. Abs, LH.

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