André Barcinski é um campeão da intolerância

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Recentemente, vi o texto “Brasil é ouro em intolerância”, uma das mais arrojadas e insanas tentativas de controlar o frame por parte de André Barcinski, usando um discurso claramente neo ateísta.

Vejam abaixo e depois comento:

Já virou hábito: toda vez que um time ou uma seleção do Brasil ganha um título, os atletas interrompem a comemoração para abrir um círculo e rezar. Sempre diante das câmeras, claro.

O mesmo aconteceu sábado passado, quando a seleção feminina de vôlei conquistou espetacularmente o bicampeonato olímpico em cima da seleção norte-americana, que era favorita.

O Brasil é oficialmente laico desde 1891 e a Constituição prevê a liberdade de religião.

Será mesmo?

O que aconteceria se alguma jogadora da seleção de vôlei fosse budista? Ou mórmon? Ou umbandista? Ou agnóstica? Ou islâmica?

Alguém perguntou a todas as atletas e aos membros da comissão técnica se gostariam de rezar o “Pai Nosso”?

Ou será que alguns se sentiram compelidos a participar para não destoar da festa?

Será que essas manifestações públicas e encenadas, em vez de propagar o caráter multirreligioso do país, não o estão atrapalhando?

Claro que ninguém questiona a boa intenção das atletas. Mas o gesto da reza coletiva está tão arraigado, que ninguém pensa em seu real simbolismo e significado.

A questão não é opção religiosa, mas a liberdade de escolha. Qualquer pessoa pode acreditar no que quiser, contanto que deixe a outra livre para fazer o mesmo. Sem constrangimentos. E não é o que está acontecendo.

Liberdade religiosa só existe quando não se mistura religião a nada. Nem à política, nem à educação, nem à ciência e nem ao esporte.

Em 2010, a Fifa acertou ao proibir manifestações religiosas na Copa da África do Sul. A decisão foi tomada depois de a seleção brasileira ter rezado fervorosamente em campo depois da vitória na Copa das Confederações, um ano antes, o que provocou protestos de países como a Dinamarca.

Em 2014 e 2016, o Brasil vai sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas. A CBF e o COL precisam tomar providências para que os eventos não se tornem festivais públicos de intolerância.

Atletas precisam entender que estão representando um país de religiosidade livre. Eles têm todo o direito de manifestar sua crença, mas não enquanto vestem uma camisa laica.

Claro que atitudes assim serão impopulares e gerarão protestos. Muita gente confunde a garantia da liberdade de opção religiosa com censura.

Quem disse que é fácil viver numa democracia?

O sujeito (provavelmente neo ateu, ou ao menos humanista) usa o manjadíssimo truque do “defensor do estado laico” para defender a imposição de sua doutrina humanista. Ou seja, enquanto ele viola os princípios do estado laico, finge defendê-lo.

O fato do Brasil ser oficialmente laico não significa que cristãos tenham que ser PROIBIDOS de manifestar sua fé. Na verdade, é exatamente o oposto. Pelo fato do Brasil ser oficialmente laico, aí sim é que os cristãos tem o direito de manifestar sua fé, desde que não sejam ofensivos aos outros. Por exemplo, se alguém chegasse com uma placa dizendo “Deus odeia gays” ou “Cristãos devem morrer”, poderia até ser acusado de intolerância, ao contrário de alguém que somente está rezando.

Por este mero truque de inversão do sentido da expressão estado laico para implementar sua agenda anti-religiosa, Barcinski por si só já pode ser qualificado como um picareta intelectual do pior naipe.

Segundo Barcinski, a reza pública das atletas implica na “ausência da liberdade de escolha”, mas novamente ele distorce toda a situação para fazer sua propaganda. O fato é que é até possível que um atleta ateu se sinta constrangido em participar de uma oração pública, mas ele nem de longe sabe se isso aconteceu. Suponha que um ateu se recusasse a participar da roda de oração e fosse insultado ou agredido. Aí sim ele teria um “caso” a favor de ter ocorrido um ato intolerante. Mas ele não sabe absolutamente nada a respeito do ocorrido. E se todas as atletas fossem de fato religiosas? Que ato de intolerância existe ao ocorrer uma reza neste caso? Aliás, mesmo se nem todas fossem cristãs, nem assim ele teria um “caso” a favor de que lá tenha ocorrido um ato de intolerância.

Em resumo, baseado em alguma suposição, não provada (de que uma suposta atleta atéista ficaria tristinha ao ver todas as atletas rezando, e daí não participando) Barcinski acusa os oponentes de intolerantes, quando na verdade o intolerante é ele. Ele é um intolerante em relação a atletas cristãs que resolveram rezar.

É por isso que ele entra em contradição consigo próprio ao escrever o trecho a seguir: “A questão não é opção religiosa, mas a liberdade de escolha. Qualquer pessoa pode acreditar no que quiser, contanto que deixe a outra livre para fazer o mesmo. Sem constrangimentos. E não é o que está acontecendo.”

Ora, se a questão é a liberdade de escolha, como pode Barcinski proibir alguém de executar sua opção em público? Um atleta ateu, inclusive, poderia ter a opção de pedir para sair antes da comemoração, indo para o vestiário, por exemplo.  Neste cenário, o ateu tem a liberdade de escolha, e os religiosos também.

Vamos a um outro exemplo. Suponha que seja feita uma confraternização de universitários, e eles resolvam fazer uma oração. Um neo ateu poderia ficar irritado, mas ele teria pleno direito de não participar. Alguns poderiam dizer “Mas e se ele for discriminado?”. Daí sim ele pode lançar uma acusação de intolerância contra o outro lado. Mas ao tentar proibir o restante de fazer uma roda de oração, ele é que estaria sendo intolerante.

Quando ele diz “Liberdade religiosa só existe quando não se mistura religião a nada”, obviamente está delirando. Como sempre, a verdade é o oposto do que ele afirma:  liberdade religiosa só existe quando você pode misturar religião ao que quiser, desde que não ataque os direitos de outras pessoas que não compartilhem de sua fé. Novamente, Barcinski inverte os conceitos de forma bizarra.

Ao afirmar que no passado existiu proibição da Fifa em relação às orações, por causa de “protestos de países como a Dinamarca”, aí sim é que temos um caso de intolerância, pois pessoas foram proibidas de manifestar sua fé, em uma situação em que não iriam desrespeitar o direito de ninguém. Se na Dinamarca existe uma anti-religiosidade radical (de estilo neo ateísta), são eles que devem ser acusados de intolerantes.

Esta constatação dele, portanto, é um sinal de como Barcinski não passa de alguém que vive de truques linguísticos: “A CBF e o COL precisam tomar providências para que os eventos não se tornem festivais públicos de intolerância.”. O que ele quer é impor um festival público de intolerância humanista, contra as religiões tradicionais, mas chamar a livre manifestação de religião dos seus adversários de… intolerância. Justiça seja feita, esse tal de André Barcinski não é jornalista, mas um engenheiro comportamental especializado em manipulação linguística.

Outro truque divertido é quando ele diz que “eles têm todo o direito de manifestar sua crença, mas não enquanto vestem uma camisa laica”. Mas não existe isso de “camisa laica”, mas sim ESTADO LAICO. Notem que ele vai inventando conceitos novos não por seu grau de validade, mas de propaganda anti-religiosa.

Barcinski, no entanto, sabe que é um desonesto. Ele tem a plena noção disso ao final do texto, quando afirma que atitudes de proibição da manifestação religiosa em jogos “serão impopulares e gerarão protestos”. Ele diz que “muita gente confunde a garantia da liberdade de opção religiosa com censura”, entregando os pontos, pois na verdade ele descobriu que está defendendo a censura e tenta se antecipar as críticas dizendo que os outros vão reconhecer este fato.

Eu, como sou ateu, não sou lesado pelo texto de André Barcinski, mas qualquer religioso tradicional (especialmente cristão) poderia inclusive PROCESSAR o jornalista pelo ato de discriminação religiosa. O que ocorreu é que, enquanto fingia truques linguísticos para simular lutar pelo “estado laico”, “tolerância” e “liberdade de expressão”, ele de fato lutava pelo estado anti-religioso, de orientação neo ateísta, intolerância quanto aos cristãos e censura.

Por fim, vou dizer como eu resolveria a questão para eliminar qualquer tentativa de algum neo ateu dizer que Barcinski está correto (na verdade, ele errou em tudo). Se alguém é ateu, poderia participar da roda de oração, com a diferença que enquanto os outros estivessem dizendo “Jesus é meu senhor”, este poderia dizer “Eu sou meu senhor”, e coisas do tipo. Quer dizer, o mero ato de alguém participar de uma rodinha NÃO É imposição religiosa. Eu já fui a casamentos na Igreja, e no meu íntimo NUNCA fui forçado a dizer qualquer coisa contra minha consciência.

Os religiosos em geral entendem o fato de você não ter fé na religião tradicional. São os neo ateus que não entendem o fato de alguém ter fé da religião tradicional.

A luta contra o neo ateísmo é uma luta contra intolerantes e totalitários. E o texto de Barcinski é uma prova cabal desta intolerância dos discípulos de Richard Dawkins.

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11 COMMENTS

  1. Parabéns, Luciano. Infelizmente, alguns imbecis ainda creem numa lógica do absurdo na qual, pelo simples motivo de você não ter um militante totalitário anti-religião como eles, você não é ateu. Ignore e continue seu bom trabalho denunciando o neo-ateísmo. Sou teísta e aprecio quando você o faz. Abs, Jules

  2. Acho engraçado os neo-ateus saírem por aí se auto-plocamando como livres-pensadores, enquanto tentam ”ensinar” ateus a serem ateus: como se existisse alguma classificação como ”ateu de verdade” e ”pseudoateu”, e o tal ateu de verdade seria para eles o humanista secular militante. O próprio Eli Vieira chegou a dizer que é contra ”ateus de dicionario”, como se o um ateu para ser ateu de verdade precisasse ser militante , e ainda abraçar a doutrina religiosa que é o humanismo secular. Patético.

  3. A reação dele seguiu a da comunidade ATEA no facebook, então com certeza ele é um neo ateu, a parte mais bonita é como algo muido mais divulgado, o encerramento das olimpiadas e a aparição de Iemanjá, não fere o “estado laico” desses socio…psicopatas…

  4. Muito bom, Luciano! Tentei explicar essas coisas todas quando estava comentando no Blog dele e sabe o quê ele fez quando provei que o texto dele fazia confusão com os conceitos de Laicismo e Ateísmo e com os conceitos de Estado, Nação e País? Parou de publicar meus comentários! Fantástico, né? Hahahaha Como ele mesmo diz: “Quem disse que é fácil viver em uma democracia?”

  5. O problema aqui é de escolarização. É impressionante como as pessoas não sabem interpretar textos. Aonde foi que ele defendeu o ateísmo no texto? Vocês repetem essa bobagem de “estado laico, não ateu” porque estão com medo de perder privilégios. E numa democracia, não devem existir privilégios. Palavras de um católico praticante que tem vergonha de ser par de seres tão ignorantes!

    • Você é que não sabe interpretar textos, e vou DEMONSTRAR seu fracasso aqui. Primeiro, eu não disse que ele defendeu “ateísmo” no texto, mas sim que defendeu a proposta humanista de banimento do cristianismo. Além do mais eu não usei a expressão “estado laico, não ateu” (que inclusive seria cabível neste caso). Se eu sou ateu, eu não teria privilégio algum a perder, mas acho que um humanista não pode usar a desculpa de estado laico para violar os princípios do mesmo, e por isso o denunciei (e vc não me refutou). Se é democracia, não deve ser dado privlégio a um humanista em PROIBIR a manifestação pública de religiosos. Ademais, duvido que você seja católico praticante.

    • Meu querido, antes de tudo acho que você deve ter muito cuidado antes entrar nessa de dizer que as pessoas não conseguiram interpretar o texto por causa da “escolarização”. Você pode estar falando com pessoas muito mais escolarizadas e com muito mais bagagem de leitura do que você.

      É muito fácil identificar incoerências no texto do Barcinski. Como ele pode se dizer preocupado com o cerceamento das liberdades de budistas, mórmons e islâmicos e logo depois dizer que achou correta a decisão da FIFA de proibir manifestações religiosas na Copa da África do Sul? Com um texto desse ele não passa nem no vestibular

      Se o cara quer trocar uma situação em que o Estado não interfere no direito das pessoas em manifestarem a sua fé publicamente (Estado Laico) por uma situação em que o autoridades impedem as pessoas de manifestarem sua fé, então ele é mesmo simpatizante da ideia de submeter as outras religiões a uma ideologia ateísta ou humanista “oficial”, o tal do “Estado Ateu”

  6. barcinski cometeu um texto ingênuo (vc diria mal intencionado), mas não defendeu o banimento do cristianismo. não exagere. e nem o texto é pro-ateísmo.

    (ele errou especialmente no título)

    acho chata essa mania brasileira de rezar o tempo todo, pra tudo, em toda situação, mas não acho que esta mania mereça uma cruzada. o gesto é inócuo, não machuca nem prejudica ninguém. seria estranho (e condenável) se fosse imposição da comissão técnica ou algo assim. sendo decisão do grupo, por que não? se atletas querem rezar, que o façam. até porque o pai-nosso é (ou pode ser considerada) uma oração ecumênica, não?

    os jogos olímpicos são dos poucos eventos mundiais que podemos dizer inclusivos. seria uma pena começar a barrar manifestações religiosas/políticas individuais. não tendo caráter de pregação, acredito que as rezas e a manifestação política (como na olimpíada do méxico, p. ex.) dos atletas são manifestações legítimas (embora os atletas da manifestação no méxico tenham sido banidos).

    por outro lado, se tem alguma coisa que sempre admirei nos brasileiros é a tendência de fundir elementos de diferentes religiões. acho, de nossas características, a mais fantástica. por isso lamento que estejamos perdendo essa tolerância. não sei se isso se deve ao crescimento dos neopentecostais (esse negócio de ‘neo’ me incomoda muito), seus preconceitos religiosos e a busca até um tanto desonesta por fiéis, ou ao crescimento do número de pessoas que acredita na falsa oposição entre ciência e religião. e essa falsa oposição é fomentada tanto por ateístas quanto por religiosos.

    agora, você fala de um jeito como se os cristãos estivessem sendo perseguidos. isso não é verdade. a icar tem força política no brasil e não hesita em utilizá-la na interferência em políticas públicas, vc sabe disso. e, quando isso acontece, merece ser veementemente criticada. como os neopentecostais. as religiões e seus métodos não estão imunes às críticas. e criticá-los não significa persegui-los.

    • barcinski cometeu um texto ingênuo (vc diria mal intencionado), mas não defendeu o banimento do cristianismo. não exagere. e nem o texto é pro-ateísmo.

      Eu até acharia que o texto fosse ingênuo não fossem os truques linguísticos lá cometidos. Truques linguísticos por si só já denotam má intenção, especialmente quando arquitetados em prol de uma agenda clara. Não fossem os truques linguísticos, aí sim eu até aceitaria a hipótese de engano, ao invés de fraude.

      acho chata essa mania brasileira de rezar o tempo todo, pra tudo, em toda situação, mas não acho que esta mania mereça uma cruzada. o gesto é inócuo, não machuca nem prejudica ninguém. seria estranho (e condenável) se fosse imposição da comissão técnica ou algo assim. sendo decisão do grupo, por que não? se atletas querem rezar, que o façam. até porque o pai-nosso é (ou pode ser considerada) uma oração ecumênica, não?

      Essa é a minha opinião também.

      os jogos olímpicos são dos poucos eventos mundiais que podemos dizer inclusivos. seria uma pena começar a barrar manifestações religiosas/políticas individuais. não tendo caráter de pregação, acredito que as rezas e a manifestação política (como na olimpíada do méxico, p. ex.) dos atletas são manifestações legítimas (embora os atletas da manifestação no méxico tenham sido banidos).

      Exato.

      agora, você fala de um jeito como se os cristãos estivessem sendo perseguidos. isso não é verdade. a icar tem força política no brasil e não hesita em utilizá-la na interferência em políticas públicas, vc sabe disso. e, quando isso acontece, merece ser veementemente criticada. como os neopentecostais. as religiões e seus métodos não estão imunes às críticas. e criticá-los não significa persegui-los.

      Para responder a isso, segue o meu novo post:
      http://lucianoayan.com/2012/08/18/como-o-caso-do-femen-em-alianca-com-os-neo-ateus-comprova-que-o-neo-ateismo-e-exatamente-igual-ou-ate-pior-que-o-anti-semitismo-nazista/

  7. É impressionante! Os leitores do Barcinski já provaram por A + B que ele não compreendeu direito o conceito de ‘Estado laico’, mas ele não dá o braço a torcer. O mínimo que ele poderia fazer é admitir que errou e pedir desculpas aos leitores. Mas o ego inflamado de colunista da Folha não permite que ele tenha uma atitude tão humilde.

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