As redes sociais como um “dojo” para o duelista cético

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Demóstenes, que viveu entre 384 a.C e 322 A.C., foi um exímio orador e político grego em Atenas. Tendo uma vida de dificuldades após a morte de seu pai (quando Demóstenes tinha apenas sete anos),  viu sua herança ser roubada por seus tutores. Posteriormente, processou esses tutores e recuperou parte do que havia perdido. Aos 27 anos, começou uma carreira de orador e não demorou para se tornar provavelmente o maior orador de seu tempo. Sua inspiração para a oratória veio quando assistiu um julgamento no qual o orador Calístrato teve um excelente desempenho, mudando um veredito que parecia selado. Ao mesmo tempo em que viu Calístrato ser felicitado pela multidão, adquiriu a noção de que a palavra realmente tinha poder. Só que Demóstenes era gago, o que complicaria seus planos de ser um orador. Por isso, praticou treinos declamando poemas enquanto corria na praia contra o vento, além de falar com pedrinhas na boca. Com esse treinamento, Demóstenes venceu a gagueira e tornou-se o maior orador grego.

O que mais me interessa na história de Demóstenes, no entanto, é seu método, que aprendi no mundo corporativo como Método Demóstenes. Em resumo, o método diz “Faça o que é mais difícil, e você será capaz de fazer o que é comum”.

Não deixa de ser curioso o fato de quando eu ter começado a fazer meus primeiros testes naquilo que futuramente eu definiria como duelo cético (embora eu sequer tivesse a concepção do que isso viria a se tornar), usei bastante as redes sociais de uma forma interessante. Se você se lembrar daquele caso de um cético anti-paranormal desafiando os projetistas, notará que eu tratava ali de um duelo. Um cético quanto ao paranormal desafiava projetistas astrais, e enquanto isso ele solicitava evidências da existência da projeção astral aos praticantes. Na ausência de evidências fornecidas pela outra parte, ele retornava com uma ridicularização. Enfim, ele marcava o seu território através do questionamento cético. Tínhamos um conflito territorial (no caso de um espaço virtual), no qual a conquista ocorria sobre a mente da platéia.

Neste tipo de contexto, é importante notar que é extremamente necessário ter uma série de recursos para se reagir às diversas informações advindas na interação com a outra parte, que está sendo colocada sob questionamento. Sob estrito questionamento, esta outra parte tentará lhe atacar das mais diversas formas, usando todos os recursos possíveis. Jogos psicológicos com certeza farão parte do cardápio, e agressão verbal é um componente que não faltará no menu. Em muitos casos, o outro tentará jogar com a emoção da platéia. Aprender a reagir a todo esse tipo de evento é uma espécie de treino no ato de aplicar o ceticismo em um ambiente de combate político.

Eu mesmo atuei nas redes sociais, fazendo a aplicação incisiva de ceticismo contra marxistas, neo ateus e céticos de Sagan, por um bom tempo. Pude, ao mesmo tempo em que conhecia todos os truques vindos daqueles que tem agenda política, receber também alguns questionamentos válidos de volta. Sim, o ambiente é sujo, mas nem tudo que lá ocorre pode ser classificado como lixo.

Não posso me esquecer de que ao adentrar os duelos céticos no Orkut, eu conhecia muito pouco do método científico. Mas ao descobrir isso, adquiri o livro “A Lógica da Pesquisa Científica”, de Karl Popper, além de conhecer diversos outros autores do gênero (incluindo Kuhn e Feyerabend). Com o tempo, notei que muitos que vinham  me dizer “defender o método científico” nada sabiam dos principais autores do gênero, e a partir daí no quesito “método científico” passei a ganhar debates.

Quando eu criei meu blog, em 2009, eu já estava treinado para uma série interminável de estratagemas e truques vindos do lado esquerdista, mas isso só foi possível pela prática que eu tive nas redes sociais.

Em resumo, qual foi portanto a serventia das redes sociais em meu empreendimento no duelo contra esquerdistas? A meu ver, as redes sociais serviram como um “dojo”, que é o termo que os praticantes de artes marciais usam para definir o local onde os treinos ocorrem. Se a política (e a consequente guerra política) é uma arte, tal qual são as artes marciais, precisamos de um aprendizado para termos uma prática robusta.

Nesta prática, alguns cuidados devem ser tomados, pois em muitos casos poderão tentar atacar seus familiares, ou até prejudicá-lo profissionalmente. O uso de um perfil anônimo pode ser extremamente útil para se proteger deste tipo de ataque. Lembre-se do efeito backfire, que faz com que aquela pessoa questionada em suas crenças mais apaixonadas tende a reforçá-las, e então vê-lo como um inimigo, pelo mero fato de você estar questionando-o. Cada esquerdista que me vê pela frente, sabe que está diante de alguém que questionará crenças pelas quais ele demonstra um carinho profundo, e que estão sendo chicoteadas diante de um extensivo questionamento, muitas vezes até cruel.

A prática nas redes sociais (e se eu usei o Orkut em meu tempo, hoje temos o Facebook, o YouTube, Twitter e diversos outros meios) me mostrou que o efeito backfire é mais forte do que pode parecer a primeira vista, e que uma diversidade de truques é geralmente lançada contra aqueles que questionam uma determinada crença, seja esta crença no aquecimento global, nos memes, na ditadura do proletariado ou no governo global.

Quando eu comecei a escrever meu blog, por sua vez, eu já tive acesso a um grande compêndio de truques e estratagemas, que foram todos aqueles lançados pelos meus oponentes nas redes sociais. Ficou muito fácil para mim mapear rotinas vindas da outra parte, mas isso só foi possível pelo fato de eu jamais ter encarado as redes sociais como um lugar onde eu fosse fazer uma manifestação de meu self, mas sim como um lugar onde eu estava aprimorando minhas técnicas. Ao não levar nenhum de meus embates para o terreno pessoal, apenas usando meus oponentes como se fossem pessoas cujas técnicas e truques estavam sob mapeamento (e denunciação), fazia com que cada duelo virtual se tornasse um momento de aprendizado. (Note que eu adentrei ao Orkut utilizando-me de um perfil que não era direcionado a minha identidade real, portanto ficou fácil para que eu não levasse as questões para o lado pessoal. Entretanto, caso você use um perfil real, e a outra parte use de calúnias e difamações, nada impede de você lançar um processo judicial)

Enfim, quando se começa a ganhar a mente da platéia nas redes sociais, mesmo em territórios abertos (ou seja, comunidades e locais frequentados por pessoas de ambos os lados do espectro político), isso significa que você está ficando a cada dia mais apto.

E se você consegue ganhar debates na Internet (onde temos uma terra de ninguém, sem leis nem regras), significa que você está pronto para conquistar espaços no debate público, pois conseguiu fazê-lo no território mais complexo. Ter essa noção é entender as redes sociais apenas como um “dojo” para o duelista cético.

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5 COMMENTS

  1. Agora eu tenho certeza de q o duelo em redes sociais é um treinamento para nos tornar aptos na guerra política em q vivemos. Os cristãos tbém poderão vislumbrar a guera na dimensão espiritual.
    Obrigado novamente, Luciano.

  2. Diferente da maioria das pessoas que conheço, sempre vi as comunidades do orkut, por exemplo, como um lugar para testar minha própria argumentação. Lembrando que foi num debate com o próprio Luciano que percebi como eu estava enganado, e como minha argumentação estava contaminada por “chavões” do neo ateísmo. Percebi que, como neo ateu, eu me tornara tão extremista (ou mais) quanto aqueles que eu tanto criticava. Aquele debate não foi suficiente para me tornar teísta, mas serviu para identificar minhas falhas e, desde então, passei a me declarar agnóstico. Na medida do possível, tento acompanhar este blog. Parabéns, Luciano. Se não tivesse encontrado você naquele “tatame”, sabe lá onde a “espiral da bobagem” teria me levado?

  3. Estou no meio de um debate com um parente distante que é neo-ateu, daqueles bem doutrinados, que não tem nenhum argumento próprio, só copia coisas que lê no facebook da ATEA.

    Como estou prestando muita atenção pra não só responder, mas manter sempre o controle do frame, o debate está sendo um massacre. O problema é que, por se tratar de um parente – ainda que distante – , minha intenção final não é ridicularizar. Eu tenho a esperança (talvez ingênua) de que talvez eu consiga fazer pelo menos o cara deixar de ser “neo” pra ser só ateu, mas tem o problema do efeito backfire.

    Então, minha pergunta é: em seus debates, você já viu quantos casos de gente desse nível de doutrinação que conseguiu “se recuperar”? É claro que você não conhece o indivíduo, mas pode contar com um daqueles bem doutrinados e radicais, que não sabe nem o que é ciência, quanto mais religião. Do tipo que passa o dia inteiro republicando os posts da ATEA, sem nem pensar.

    Ou melhor: tendo em mente meu objetivo, essa discussão tem algum futuro?

    Valeu!

    • Cebolinha, logo acima de vc, Übermensch, é um exemplo marcante. Esta pessoa q teve a humildade de dizer q foi vencido num debate com Luciano, outrora quase virou minha cabeça para o lado do neo-ateísmo. Mas quando presenciei as refutações do Luciano contra ele, tanto eu quanto o próprio Übermensch resgatamos nossa liberdade de pensar. Hoje acho ele um sujeito admirável. Hoje ele é um testemunho para mim. Mas foi a iniciativa do Luciano q, graças a D’us, causou essa revolução. E olha q o Luciano nem era tão forte quanto hoje.

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