Técnica de propaganda: Discurso inquestionável

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Última atualização: 26 de janeiro de 2013 – [Índice de Propaganda][Página Principal]

Imagine que você esteja no ambiente corporativo e andando a largos passos para a conquista de uma função gerencial. Entretanto, sua maior habilidade é focada na gestão de pessoas, enquanto um outro candidato à mesma vaga opta por gastar uma boa parte do tempo nos corredores usando um discurso como o abaixo:

Não há nada mais inspirador para um grande profissional do que a busca por resultados. Estar orientado por resultados, a cada segundo de seu dia, é o suficiente para encher o coração deste tipo de profissional assim que ele sai de casa. Me sinto revigorado, pela mera inspiração da luta e conquista de resultados, assim que chego na empresa. A cada minuto, ou melhor, a cada segundo, essa busca contínua deve ser a essência de cada um que adentra a esta empresa.

Tudo bem que o sujeito acima é um pouco exagerado, mas quem, em sã consciência, iria questionar tal discurso? Como se posicionar a favor da idéia de que a luta contínua por resultados deve ser o norte de cada profissional, especialmente aqueles que vão para a gestão?

Só que há uma regra de ouro para jamais esquecermos (e que funciona impecavelmente no mundo corporativo): o mero fato de alguém declarar publicamente que apóia uma idéia não serve, por si só, para provar que esta pessoa de fato apóia esta idéia, ou, indo além, sequer prova que esta pessoa está aderente a esta idéia em sua prática ou vivência.

É exatamente por esta regra que é fácil encontrar tamanhas afirmações irracionais de gente como Sam Harris e Bertrand Russell, mesmo que ambos tenham como discurso padrão “a defesa da razão”. Basta aplicar a regra de ouro que conseguimos testar se o comportamento deles é congruente com o discurso.

Reparem bem: como a alegação é inquestionável, é obvio que não vale a pena questioná-la, especialmente em termos políticos.

Neste caso, como o uso do discurso inquestionável tem por objetivo obter um “cartão VIP” direto para o coração da platéia, devemos questionar o comportamento desta pessoa e avaliar se ele é congruente com o discurso, e nada mais.

Um exemplo é o da defesa ao darwinismo feita por muitos neo-ateus, que se configura em um discurso inquestionável (ao menos para mim, que não discordo do darwinismo). Entretanto, o comportamento deles não é coerente com o discurso, pois noções como “fim do gregarismo com o fim da religião” ou até mesmo “a crença no homem” não são congruentes com o discurso darwinista.

Antes que surja a gritaria “ad hominem, ad hominem”, isso seria irrelevante, pois estamos de fato investigando comportamentos. E até a própria alegação central não está sendo colocada sob questionamento, mas sim a coerência do comportamento com o discurso.

Nas empresas, em relação ao gerente que passa 20% do seu tempo com o discurso de “luta e paixão por resultados”, ele também será testado na próxima avaliação de desempenho para ver se de fato existe coerência entre o discurso (inquestionável) e o seu comportamento.

Nada mais justo, pois quem faz um discurso e se responsabiliza pela propagação de suas idéias, deve ser pressionado em suas avaliações “de desempenho”.

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7 COMMENTS

  1. O Friedman fala algo na mesma linha que tem me ajudado bastante nessa questão:
    parar de olhar e discutir as intenções e justificativas para as intervenções econômicas e olhar, pura e simplesmente, os resultados e efeitos obtidos.

  2. Pedirei que o dono deste blog dê uma olhada neste vídeo em que Marilena Chauí destila seu ódio àquilo que ela chama de classe média paulistana, ao que eu chamo de um mal-educado em um Mercedes que se praticasse sua falta de educação em um Opala ou Santana velho e caindo aos pedaços (só para pegarmos um carro de tamanho parecido ao que me parece ser um Mercedes Classe C, que de fato está comum na cidade de São Paulo) não receberia as mesmas críticas iradas nem teria seu ato individual transferido para a conta de um todo:

    Sugiro inclusive ao dono do blog que faça uma análise a respeito desse fenômeno de ódio aos habitantes de São Paulo (tanto fazendo aqui se capital ou estado) que vemos grassar em esferas ditas intelectualizadas, ódio no qual por ora, e graças a Deus, não estamos vendo os habitantes comuns de outros estados embarcar.

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