Ingenuidade: o pecado assassino

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Certa vez, uma ex-namorada minha estava com um gato no colo. O gato dormia, de forma extremamente confiante. E ela me disse: “É bonita a confiança do animal. Eu poderia fazer o que quisesse neste momento, tamanha a confiança dele. Não é belo?”. Claro que eu respondi afirmativamente, embora em meu interior via toda aquela situação com desprezo. Para mim aquilo não passava de uma glorificação da ingenuidade.

A tradição religiosa nos fala de 7 pecados capitais. Uma olhadela mais cuidadosa nestes pecados nos mostra que eles provavelmente foram criados para que as pessoas norteassem suas vidas. Segundo a Igreja Católica, os sete pecados capitais são condições humanas definidas como vícios e que causariam danos aos seus portadores. Entretanto, mesmo que esses vícios sejam danosos, e perigosos, acho que a Igreja errou na listagem.

Senão, vejamos. A gula, como um desejo insaciável além do necessário, poderia prejudicar a vida do pecador com o fato dele nunca estar satisfeito com nada, e então sendo incapaz de curtir aquilo que já conseguiu. A avareza seria um apego excessivo aos bens materiais, muitas vezes com alguém esquecendo-se de si próprio. Como um adepto da dinâmica social, devo reconhecer que o pecado da luxúria (que pode ser definido ao ato de se deixar dominar pelas paixões, ou melhor, pelos instintos) é um do qual dificilmente se pode fugir. Quanto a ira, não passa de um sentimento e raiva, ódio ou rancor descontrolado. Os “irados”, em geral, se desconcentram e se desfocam. A inveja seria um deslocamento de sua esfera de ação quando se entristece com o que os outros possuem. A preguiça é um pecado óbvio, que obviamente leva a autodestruição. Já o orgulho seria contraprodutivo por não só conter automaticamente um componente de auto-engano como também vender aos outros uma imagem negativa de si próprio. Como se vê, há justificativas para a definição de cada um dos sete pecados.

Entretanto, acho que a Igreja falhou no mapeamento destes pecados que, a meu ver, não seriam 7, mas no mínimo 8. A omissão que acho imperdoável é a do pecado da ingenuidade, que é extremamente devastador. Quem gosta de Segurança da Informação, sabe que dia a dia estamos testando ingenuidades. Por causa destas ingenuidades, 80% das brechas em sistemas de informação são causadas. A grande maioria dos ataques sofridos pelas surgem a partir de dentro da própria organização, pela malícia ou ignorância dos profissionais que lá atuam.

Certa vez, durante uma investigação sobre controles, um analista chegava perto de um funcionário e pedia gentilmente para usar a máquina do outro, instalando seu pen drive ali, somente para imprimir um documento. O documento era impresso, e nenhuma consequência ocorria. A grande maioria das pessoas era solícita ao permitir que o outro conectasse o pen drive em sua máquina, e não faziam qualquer tipo de questionamento. Mas e o risco de contaminação por vírus? Ou mesmo a inserção de um software malicioso que, rodando na máquina, poderia funcionar como um Cavalo de Tróia? Questionamentos desse tipo (ao menos visivelmente) não foram feitos por cerca de 70% dos profissionais. O objetivo desta investigação não era contaminar o micro de ninguém, mas entender o nível de ingenuidade dos profissionais. O estudo da engenharia social no âmbito da segurança da informação estuda exatamente esses padrões de comportamento, que tem como consequência o estabelecimento de vulnerabilidades.

Assim como ocorre nas organizações, tudo isso acima tem a ver com uma ingenuidade com a qual encaramos as declarações dos outros. É claro que é mais fácil fazer uso de truques linguísticos para enganar os outros. Mas mesmo o uso dos truques linguísticos não passa de uma forma de se explorar a ingenuidade alheia.

Quando os marxistas começaram sua campanha pré-Revolução, muitos acharam bonitinho. Quando os corpos começaram a ser empilhados nos gulags, isso era apenas a cobrança do preço da ingenuidade de outrora. Nas fases iniciais da Revolução Russa, tivessem sido os russos mais céticos (e proporcionalmente menos ingênuos), teriam evitado tais consequências. Em termos políticos, a grande maioria das consequências mais abjetas podem ser rastreadas a focos de ingenuidade por parte de uma dada população. No ambito político, a ingenuidade tende a ter seu preço cobrado em rios de sangue.

Entender as consequências da ingenuidade significa ao mesmo tempo entender que todos nós seremos vez por outra acometidos por ela, mas também temos que estar conscientes de quando somos ingênuos, e, então, tentar combater ao máximo essa deficiência. Aos poucos, devemos ter a consciência de que a ingenuidade não é “bonitinha”, mas extremamente perigosa. Tanto para você, como para os outros que o rodeiam. Isso deve ser feito com análises, cada vez mais constantes, do quanto é possível destruir com manifestações de ingenuidade, aqui e ali.

Um desafio que faço é a auto-análise. Tanto para mim, quanto para você. Estude seu historico ideológico, e veja as coisas nas quais você acreditou, e, posteriormente, estude as consequências da implementação de uma ideia aceita por causa desta ingenuidade. Isso vale por exemplo para o ato dos nazistas não terem sido levados tão a sério quando começaram com sua campanha anti-semita (para quem viveu naquela época, é claro), como para as risadinhas que muitos deram no passado quando o Foro de São Paulo começou a ser denunciado. Não se deve ter medo de reconhecer, ao menos para si próprio, o quanto sua ingenuidade já causou em termos de danos a você e aos outros. Isso implica também reconhecer que em alguns casos, você teria a co-responsabilidade por várias atrocidades. Assim como nos demais pecados estipulados pela Igreja, este também é um daqueles que você deve julgar a si próprio.

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9 COMMENTS

  1. Luciano essa é uma passagem da biblia muito conhecida mas muito deixada de lado, no novo testamento:

    Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e inofensivos como as pombas.
    Mateus 10:16

    Ou seja, um conselho contra a ingenuidade e um alerta para que não se use a mesma tática de gente perversa para não se tornar um igual (inofensivos como as pombas. )

  2. Entendo perfeitamente a sua indignação em relação à ingenuidade, mas se me permite, você está equivocado na definição de um dos pecados capitais capitais, a inveja, ela não consiste em desejar algo do outro, isso é ambição, que pode ser ruim ou boa, dependendo do fim a que se destina, no entanto, a inveja consiste de se entristecer com algum bem do próximo, esse bem pode ser material ou espiritual, a incapacidade de ficar alegre com a superioridade moral, intelectual, financeira, etc., do próximo, e não conduz, necessariamente, a um desejo de ter pra si aquele bem.

  3. **Virtudes e Vícios**

    Castidade (latim: castitas) — opõe luxúria.
    Auto-satisfação, simplicidade. Abraçar a moral de si próprio e alcançar pureza de pensamento através de educação e melhorias.
    Generosidade (latim: liberalitas) — opõe avareza.
    Despreendimento, largueza. Dar sem esperar receber, uma notabilidade de pensamentos ou ações.
    Temperança (latim: temperantia) — opõe gula.
    Auto-controle, moderação, temperança. Constante demonstração de uma prática de abstenção.
    Diligência (latim: diligentia) — opõe preguiça.
    Presteza, ética, decisão, concisão e objetividade. Ações e trabalhos integrados com a própria fé.
    Paciência (latim: patientia) — opõe ira.
    Serenidade, paz. Resistência a influências externas e moderação da própria vontade.
    Caridade (latim: humanitas) — opõe inveja.
    Auto-satisfação. Compaixão, amizade e simpatia sem causar prejuízos.
    Humildade (latim: humilitas) — opõe soberba.
    Modéstia. Comportamento de total respeito a Deus e em segundo lugar ao próximo.
    =================================================================
    Ceticismo (francês: scepticisme) — opõe ingenuidade.
    Desconfiança, dúvida, incerteza. Vigilância em relação a ideias e pessoas, a fim de evitar malefícios.

  4. Só um esclarecimento sobre as definições que a Igreja dá a este assunto. Até porque sei que vc admira as definições precisas. Logicamente estas definições usam outras definições, como todo conhecimento humano.

    Os vicios capitais nao sao exatamente “pecados” (como eh o homicidio, por exemplo), ainda que recebam tradicionalmente esta denominação. Os vicio sao predisposições estaveis ao mal, assim como as virtudes sao predisposicoes estaveis ao bem. Esta é a definicao da Igreja catolica (nem estou entrando no merito de concordancia ou nao). Todos tem vicios, mas controlando-os nao é necessariamente o mal, nao é necessariamente o pecado. É normal sentir inveja, mas é moralmente reprovavel dar vazao a esta inveja, nao a combater. Os vicios sao consequencia natural da concupiscencia da carne. Como as paixoes sao moralmente neutras, por serem natural do homem em nosso estado, o certo e o errado se dão na recepção de nossas paixões por nós. É moralmente reprovavel aceitar a propria inveja, como é moralmente reprovavel nao recepcionar um bom sentimento, como solidariedade com os injustiçados.

    O que Sao Gregorio Magno (sec VI) fez foi compilar – a luz das Escrituras – os vicios que julgou serem os que levam a outros vicios. Isto é importante, porque os vicios capitais na verdade é uma compilação teologica dos vicios mais graves. Vc vera estes vicios capitais citados no AT, nos evangelhos e nas cartas paulinas. E mesmo em fontes nao-cristãs.

    Estes vicios sao capitais porque vem de “capitas” = cabeça. Ou seja, eles são os “maiores” da coleção dos vicios. (Assim como você tem as virtudes teologais e cardeais)

    Observe que dentro dos vicios capitais há um grande grupo dedicado ao apego desordenado.

    GULA – apego desordenado ao prazer da mesa
    LUXURIA – apego desordenado ao prazer fisico (nao necessariamente sexual)
    COBICA – apego desordenado a posse e as coisas materiais
    (Em certo sentido PREGUICA – apego desordenado a evitar a dor que a saida do estado de repouso causa)

    Os vicios capitais se inter-relacionam e se influenciam. Sendo assim, Gula e Preguiça de fato sao os mais inofensivos da lista (se eh que podemos chamar de inofensiva uma predisposicao ao mal e ao pecado!) porém podem levar a outros maiores. Um exemplo classico é a Cobiça levando a Inveja. Estas definições sao abstrações conceituais de estados de espirito.

    E nao necessariamente os vicios capitais quando estimulados geram prazer (as pessoas so pensam na Luxuria quando falam disso). Eles podem gerar dor, como é o caso da Inveja. Quem sente prazer em sentir inveja? Hoje em dia é legal admitir que se transa feito uma ninfa ou um fauno, mas nao que se é um invejoso incorrigivel.

    Explico nao porque é proselitismo. Explico apenas para colocar as posições da teologia moral bem claras. Logicamente, num justo ato de ceticismo, você pode me questionar das fontes. OK. As fontes sao os proprios escritos de Gregorio Magno, a Summa Teologica e o Catecismo da Igreja (a versao atual e a antiga). Muito disto voce encontra (de maneira nao-sistematica) na fiilosofia, especialmente na escola estoica (Seneca, por exemplo). Mas digitei tudo isto aqui de cabeça.

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