Darwin X Dawkins OU A vida em negação dos humanistas

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Como já disse no passado, uma das características que assimilei nos meus tempos de neo-agnostico foi a capacidade de ler materiais contraditórios e aprender com estas contradições. E pelo estudo de filósofos da guerra, especialmente Clausewitz, aprendi a mapear o que significa uma guerra. Autores como Olavo de Carvalho e David Horowitz só deram um empurrãozinho para o contexto da guerra política.

Seja lá como for, livros como “A Grande História da Evolução” e “O Maior Espetáculo da Terra: As evidências da evolução”, de Dawkins, são parte da minha biblioteca sobre darwinismo (embora existam outros autores muito melhores no tema). Se eu e Dawkins estamos em lados opostos na guerra cultural (ele, um humanista, portanto um esquerdista, e eu, um cético quanto ao humanismo, portanto alguém de direita), não significa que eu não possa assimilar conhecimentos sobre darwinismo exatamente vindos de um adversário. Se eu sou inimigo de Dawkins, não o sou quanto ao darwinismo, mas sim quanto ao humanismo.

O que acho mais divertido ao ler o discurso de Dawkins é que ele jamais levou o darwinismo às últimas consequências, mas somente utilizou-o como instrumento para tentar provar a inexistência de Deus, o que é uma bobagem extrema, pois o darwinismo não serve para desprovar a existência de Deus. Basta alguém crer em Deus que poderá dizer que “Ele” criou a evolução para enfim chegar um momento onde *plim* o ser humano apareceria, diferenciado dos outros animais. A única questão é que esta não é uma argumentação científica, e nem poderia ser, mas não pode ser negada pelo darwinismo. Podemos constatar que a maior utilidade do darwinismo para Dawkins se baseia em uma deturpação. Por outro lado, o darwinismo é extremamente poderoso como ferramenta de estudo para explicar as nossas características.

Em um escopo de discussão agnóstico (ou seja, que não tenta validar ateísmo nem teísmo), o darwinismo explica nossa relação com as demais espécies animais. Dawkins, a partir daí ignorando tudo que o darwinismo tem a nos dizer, afirma que ele e seus amigos humanistas são capazes de superar as limitações humanas (inclusive instintos de luta pelo poder) para se tornarem auto-questionadores ao ponto de jamais terem suas idéias afetadas por paixões, ou seja, interesses pessoais. Entretanto, um autor darwinista como Robin Baker diz algo bastante diferente. Segundo ele, nosso comportamento “foi programado e forjado por forças evolucionistas que atuavam sobre os nossos ancestrais – e que continuam agindo em nós, até o dia de hoje”.

Baker conclui: “O vetor principal dessas forças foi direcionado para nossos corpos, e não para a consciência. Nossos corpos simplesmente se utilizam do cérebro para fazer com que nos comportemos do jeito ditado pela nossa programação”. Veja a diferença total: de um lado a razão (para alguns “iluminados”) dominaria o corpo. Mas uma visão mais realista, como a de Baker, mostra que os corpos fazem uso do cérebro para enfim ocorrer a manutenção da espécie.

Entender isso é aceitar a consequência (terrível, no início, mas após alguns tempo nos acostumamos) de que o método científico, por exemplo, não é nada mais que uma ferramenta de gerenciamento de riscos. Explica-se: se tomássemos nossas decisões a respeito do que constitui uma doença, um princípio ativo em um medicamento ou até mesmo as leis da física, veríamos que foguetes se explodiriam a todo momento antes mesmo de serem lançados, e os medicamentos se tornariam venenos. Como mecanismo de auto-proteção da espécie, o método científico é utilizado para que os vícios humanos não interfiram em excesso, portanto, em questões que resultem geralmente em risco, e muitas das pesquisas científicas resultarão nisto. O método científico, por sua vez, por ter aplicação restrita, não nos ajuda  a “moldar a moral humana” ou mesmo “ser um direcionador da humanidade”.

Vejamos a diferença: 

  1. A água entra em ebulição a 100 graus Celsius, no nível do mar 
  2. vm = d / D t 
  3. Uma ditadura do proletariado permitirá que, ao final de um período X, o poder seja transferido ao povo, que enfim, viverá em uma sociedade sem classes 
  4. Um governo global habilitará a felicidade aumentada para todo o globo e, enfim, conquista-se um período de paz e prosperidade absoluta

Todas as quatro afirmações acima, são afirmações sobre o mundo. E todas elas estariam passíveis de investigação científica. Só que enquanto as afirmações (1) e (2) são plenamente científicas, (3) e (4) são mitos cientificistas que nada possuem de ciência. Mesmo assim, por outro lado, estas duas últimas afirmações tornaram-se discurso corrente de todo acadêmico doutrinado em esquerda. Se ele não segue a cartilha de Marx, seguirá a de Comte, e alguns seguirão uma mistura das duas. O grande detalhe é que as afirmações (1) e (2) são questões que foram submetidas ao crivo científico, também por serem pequenos recortes da realidade que cabiam facilmente dentro de uma pesquisa científica, ao passo que nos itens (3) e (4) ninguém sequer empreendeu qualquer estudo neste sentido. Ao menos um estudo científico.

Para piorar, os alegadores humanistas e marxistas ignoraram tudo que a ciência tinha a nos dizer sobre as contingências humanas. Sob outra análise, as afirmações (1) e (2) geram riscos automáticos para todos aqueles que aceitam estas afirmações. Por exemplo, ao ignorarmos a fórmula da velocidade no desenvolvimento de um novo protótipo de carro, obviamente causaremos algum desastre. Da mesma forma, se um cozinheiro se recusar a esperar que a água chegue a 100 graus Celcius para a fervura, ele poderá ser demitido. Esses são os riscos a que me refiro e servem para explicar por que o método científico se desenvolveu como uma ferramenta de proteção ao animal humano.

Por outro lado, as afirmações (3) e (4) podem muito bem serem falsas, e causarem benefício aos que as aceitam (ou especialmente para os que as propagam). Com o discurso de ditadura do proletariado, alguém poderá chegar ao poder, como fez o PT, e se dar muito bem, como no caso do Mensalão. Essas afirmações não precisam de “validação”, mas sim de aceitação, para que enfim, gerem benefícios para alguns (em detrimento de outros). Por serem alegações políticas, mas jamais afirmações científicas, ideologias como marxismo e humanismo naturalmente jamais se submetem ao método científico. Pelo contrário, ignoram os estudos científicos sobre a espécie humana.

É por isso que quando Dawkins diz que “ele e seus amigos já se auto-validam na aceitação das idéias”, sabemos que é tanto um truque como uma mentira deslavada, haja vista que o aceite de afirmações como “o gregarismo será reduzido com o fim da religião” (tese escrita por ele em “Deus, um Delírio”) jamais passou pelo crivo científico, e obviamente é uma declaração que não condiz com a realidade. Mesmo sendo uma afirmação falsa, o seu aceite gerará benefícios automáticos ao alegador. É como convencer que há fantasmas na fazenda de seu vizinho no campo, apenas para desvalorizar a propriedade do outro.

Atenção: as declarações (3) e (4) podem ser passíveis de investigação pelo método científico, mas jamais o foram pois são coisas que jamais geraram riscos para seus alegadores, apenas benefícios, independente de terem seu valor de verdade ou não. Sendo assim, essa história de cientificistas dizerem que “tudo deve passar pelo método científico” não passa de conversa fiada, pois a coisa tende a passar pelo crivo mais detalhado apenas quando for algo que gerará risco não só para seu alegador, como para todos os outros, em caso de não consonância com a realidade.

No caso de afirmações políticas, que geram benefícios automáticos para um alegador (independente de sua veracidade ou não), temos um benefício garantido ao invés de um risco. É claro que nesses momento gente como Dawkins pensará em capitalizar politicamente, ao invés de buscar “a coisa em si”, como diria Kant.

Esse tipo de reação humana em relação ao risco mostra que o método científico é uma ferramenta útil, mas tem suas limitações, e, para piorar, mesmo que seja possível aplicá-lo até às ideologias políticas, isso não vai acontecer de forma alguma, pois a veracidade das afirmações políticas não gera riscos para seus alegadores, somente para os adversários destes alegadores.

Um comportamento assim é completamente previsto pela teoria da evolução, e por uma análise que mostra que o cérebro é apenas um componente para auxiliar a sobrevivência dos nossos corpos, e o método científico, resultante de um trabalho intelectual, é um mecanismo para nos livrar de riscos a respeito de recortes da realidade para os quais é importante termos definições claras e tão inequívocas quanto possível.

Mas novamente ressalto: tal tipo de análise, que não faz mistificação do método científico e nem da razão, depende da premissa número 1 defendida por este blog (premissa que se tornou mais sólida após meu aceite pleno da dinâmica social). Esta premissa se resume a ver o ser humano como ele realmente é, com seus vícios, com suas armadilhas mentais, com seu territorialismo, enfim, como um animal humano.

Eu agir assim tenho a satisfação intelectual de poder ir a fundo na pesquisa do darwinismo e não precisar “editar” a teoria de Darwin para vender suas próprias idéias. Humanistas, por outro lado, ao declararem “defender a teoria de Darwin” (mas omitirem uma de suas conclusões principais, a de que o homem não é uma “espécie a parte, capaz da perfectibilidade proposta por Rousseau”), vivem em traição intelectual e hipocrisia.

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13 COMMENTS

  1. Eu realmente não ligo pra parte do seu texto sobre as aplicações sociais e políticas do método científico ou a especulação do que causou a existência dele.

    A teoria sintética da evolução influenciou o ateísmo do Dawkins? Sim.
    A validade da evolução é uma premissa do ateísmo dele? Não.

    Eu li um tanto os livros do Dawkins. O que me deu vontade de comentar foi saber de onde exatamente você tira esta afirmação:

    “Dawkins, a partir daí ignorando tudo que o darwinismo tem a nos dizer, afirma que ele e seus amigos humanistas são capazes de superar as limitações humanas (inclusive instintos de luta pelo poder) para se tornarem auto-questionadores ao ponto de jamais terem suas idéias afetadas por paixões, ou seja, interesses pessoais.”

    O que eu lembro de ler que soa parecido com esta “afirmação”, em síntese é que o ser humano possui o comportamento mais diversificado e menos limitado do que outros animais próximos (ou seja, menos ditado pelas “forças evolutivas”) porque subprodutos evolutivos (como ler e escrever e a plasticidade do córtex cerebral) causou uma evolução cultural mais intensa.

    Essa afirmação é uma hipótese. Ele comenta sobre isso no gene egoísta e no relojoeiro cego. Ele apresenta alguns exemplos pra defender essa idéia (como escolher transar e não reproduzir ou casos de verdadeiro altruísmo).
    Mas não é difícil achar na literatura por exemplo.. algo como estatísticas de uma certa população de animais tomando decisões com um padrão “não-ótimo” que seria esperado para a reprodução. (Não é minha área)

    Mas eu ja li também num livro do Antonio Damásio ( o erro de descartes) e nele ele conta de um experimento mostrando como o sentimento influencia de forma não consciente “decisões racionais”.

    Meu ponto é: “Cérebro ou corpo”? Ovo ou a galinha?
    Dane-se, não importa. as duas coisas funcionam juntas. você precisar definir contexto e parâmetros para começar com afirmações biológicas.

    • Lá vem o Leonardo Polon tentando defender seu humanismo retinto
      A teoria sintética da evolução influenciou o ateísmo do Dawkins? Sim.
      A validade da evolução é uma premissa do ateísmo dele? Não.

      Acho que você nem entendeu o contexto do meu texto e de minha abordagem. O que denuncio é que o humanista só gosta da teoria da evolução até o ponto em que ela é usada politicamente para negar o teísmo. Mas no momento em que o darwinismo mostra que o humanismo é mais estúpido que qualquer religião tradicional, eles ignoram o que o darwinismo tem a nos dizer sobre a espécie humana. Esse era o ponto do texto. Prestar mais atenção da próxima, ok?
      Eu li um tanto os livros do Dawkins. O que me deu vontade de comentar foi saber de onde exatamente você tira esta afirmação: “Dawkins, a partir daí ignorando tudo que o darwinismo tem a nos dizer, afirma que ele e seus amigos humanistas são capazes de superar as limitações humanas (inclusive instintos de luta pelo poder) para se tornarem auto-questionadores ao ponto de jamais terem suas idéias afetadas por paixões, ou seja, interesses pessoais.”
      Ué, basta assistir ao vídeo “Enemies of Reason” (ou “Root of all evil”, mas com certeza é um dos dois), onde Dawkins diz que “basta perguntar a um cientista e ele somente falará em termos de evidências”, que era a tentativa de vender a idéia de que o “cientista” (no caso, cientistas humanistas) seriam os julgadores universais imparciais, que somente tomam “decisões por evidências”. Esse truque do Dawkins (que é o truque de Carl Sagan, e de todo o cientificismo) é o que está denunciado aqui. De novo, você se perdeu no contexto dos textos daqui.
      Mas eu ja li também num livro do Antonio Damásio ( o erro de descartes) e nele ele conta de um experimento mostrando como o sentimento influencia de forma não consciente “decisões racionais”.
      Que eu saiba, a teoria de Antonio Damasio está perfeitamente alinhada com o que este blog descreve. Ao estudar o ser humano como ele realmente é (e não como é “idealizado” por humanistas), vemos que o discurso de “sou da razão” não tem valor algum, pois qualquer um poderá ser afetado por fatores emocionais ao definir o que irá defender via argumentação.
      Meu ponto é: “Cérebro ou corpo”? Ovo ou a galinha?
      Dane-se, não importa. as duas coisas funcionam juntas. você precisar definir contexto e parâmetros para começar com afirmações biológicas.

      Não enrole. Você entendeu absurdamente errado o que estava escrito (talvez por não ter visto os textos anteriores), e tenta afirmar que o oponente “não definiu contexto”. Sim, defini. Aliás, “cérebro ou corpo” não importa? Estranha sua afirmação de “não importa”. Para mim, importa sim.

      • “Aliás, “cérebro ou corpo” não importa? Estranha sua afirmação de “não importa”. Para mim, importa sim.”

        São coisas que andam juntas há muito tempo. Uma não se sobrepõe a outra, elas cooperam. Exatamente como o ovo ou a galinha, brincando com definições, palavras e conceitos eu posso concluir que uma ou outra vem primeiro.

        Citando Robin Baker você trás a idéia de que os “impulsos” são mais importante do que a “razão” para ditar o comportamento. Isso é algo que Dawkins e sua ralé não aceitam e esta afirmação é uma consequencia direta da teoria sintética.
        É isso que eu entendi do seu complicadíssimo texto.

        com a citação genérica de “corpo” e “cérebro” do Baker e seu passe de mágica você tem agora a premissa “biológica” para escrever e basear todo o resto do texto que eu não ligo.

        O meu ponto é que este texto, porque tem uma premissa “biológica” é completamente BANANAS! Qualquer coisa.

        ” O que denuncio é que o humanista só gosta da teoria da evolução até o ponto em que ela é usada politicamente para negar o teísmo. Mas no momento em que o darwinismo mostra que o humanismo é mais estúpido que qualquer religião tradicional, eles ignoram o que o darwinismo tem a nos dizer sobre a espécie humana[que a evolução prova que a razão não manda no corpo]. Esse era o ponto do texto. Prestar mais atenção da próxima, ok?”

        Nem Baker, nem Dawkins nem ninguém. Nem uma coisa nem outra é uma consequencia direta da teoria evolutiva. Não há nas ciências biológicas uma teoria capaz de prever como as pessoas tomam decisões.

      • São coisas que andam juntas há muito tempo. Uma não se sobrepõe a outra, elas cooperam. Exatamente como o ovo ou a galinha, brincando com definições, palavras e conceitos eu posso concluir que uma ou outra vem primeiro.
        Não é verdade. Além do mais, a pergunta de “ovo ou galinha” não faz sentido em termos científicos. Mesmo que seja uma ironia, não serve como analogia. Ademais, a razão humana é citada como um INSTRUMENTO do corpo.
        Citando Robin Baker você trás a idéia de que os “impulsos” são mais importante do que a “razão” para ditar o comportamento. Isso é algo que Dawkins e sua ralé não aceitam e esta afirmação é uma consequencia direta da teoria sintética.
        É isso que eu entendi do seu complicadíssimo texto.

        Note que você ainda tem o vício de tratar a “razão” como algo a parte do que são os impulsos para a sobrevivência. Na verdade, a razão é “parte” destes impulsos. A razão permite uma ordenação melhor das ações para, enfim, direcionar melhor os impulsos de sobrevivência. Se Dawkins não aceita isso, é um direito dele, mas cabe a alguém que o defenda provar o contrário.
        com a citação genérica de “corpo” e “cérebro” do Baker e seu passe de mágica você tem agora a premissa “biológica” para escrever e basear todo o resto do texto que eu não ligo.
        “Não ligar” é uma tática que você pode utilizar como um recurso de hipnose ericksoniana, mas não fará nada para refutar o que foi apresentado aqui. Isto é no que você deveria se concentrar, e não em afirmar sensações pessoais, que apenas atendem ao padrão já mapeado aqui.
        Aliás, não há passe de mágica, mas observações a respeito do que a ciência tem a nos dizer.
        O meu ponto é que este texto, porque tem uma premissa “biológica” é completamente BANANAS! Qualquer coisa.
        Como humanista, você está apenas irritado, só isso. É normal, mas um dia passa. Ou talvez não. Mas você não mudará os fatos com essa encenação.
        Nem Baker, nem Dawkins nem ninguém. Nem uma coisa nem outra é uma consequencia direta da teoria evolutiva. Não há nas ciências biológicas uma teoria capaz de prever como as pessoas tomam decisões.
        Delírio. Cientificamente o que podemos dizer que é que a razão ATENDE ao nosso corpo, e aos nossos instintos. Uma forma de você provar uma tese em contrário, é citar aquilo que você chama de tomadas de decisões “racionais” que não possam ser explicadas como elementos que atendem à nossa sobrevivência. Ou seja, a razão como serviçal do corpo, e não o contrário.
        É claro que não há nas ciências biológicas uma ciência que preveja EXATAMENTE todas as decisões, como, por exemplo, saber se você vai assistir o Hobbitt no cinema ou não. Mas já podemos mapear todos os padrões de comportamento em uma linha geral, e a psicologia evolutiva nos ajuda nisso.
        E mesmo que não pudesse, a esperança de Dawkins (“ser humano perfectível”) seria baseada em uma perfectibilidade das lacunas. Ou seja, nas lacunas onde a psicologia evolutiva (ainda) não explica, inventa-se que o ser humano pode vir a ser o que ele quiser. Bobagem. Ele só vai ser aquilo que sua estrutura biológica o permitir. Ou seja, seu corpo.

        Vamos lá:

        Humanistas dizem que a “razão humana” poderá criar um mundo próspero para todos. DÊ uma hipótese científica para isso.
        Dizem que isso é possível por uma “perfectibilidade” humana (Rousseau). Também dê uma hipótese científica para isso.
        Por fim, Dawkins diz que o fim das religiões reduzirá o gregarismo. Dê uma hipótese científica para isso também.

  2. O Bruno Almeida também tem teses:

    “Já dizia Carl Sagan:

    Devemos manter a mente aberta,
    mas não tão aberta a ponto do cérebro cair.

    É o que acontece a uma certa categoria de pseudocéticos: em seu devaneio de que são justificados em suas crenças, afirmam serem eles os verdadeiros céticos e não aqueles que aplicam a dúvida de forma metódica. Tipo, segundo essas pessoas duvidar demais é um problema e o verdadeiro cético é aquele que tem a mente aberta para certas verdades. Só que eles abrem a mente demais e o cérebro deles acaba caindo pra fora da cabeça.

    Vamos ver um trecho de um artigo de Thomas Talbott chamado The Outsider Test for Faith: How Serious a Challenge Is It? que diz um pouco sobre o que ele acha que é ceticismo.

    Um segundo tipo de ceticismo deriva da tradição do ceticismo filosófico. Milhões de pessoas ao redor do mundo acreditam em reencarnação, uma ideia que nunca fez parte da minha herança religiosa. Então eu rejeito essa ideia completamente? Não. Eu aceito qualquer argumento tolo, quando os vejo, de que a reencarnação é logicamente inconstente com os ensinamentos bíblicos? Não. Será que eu adotei essa ideia então? Não. Apesar de eu acreditar que nossas vidas terrenas não são nada além do prefácio de uma história mais longa, eu estou aberto a uma série de pontos de vista diferentes sobre como o futuro pode ser depois de nossa vida terrena chegar ao fim. Assim, com relação à crença na reencarnação, eu sou um verdadeiro cético no seguinte sentido: embora eu não adote tal idéia religiosa, eu também não a rejeito completamente. Eu não tenho nenhuma crença estabelecida em nenhum dos dois sentidos sobre o assunto. Chame isso, então, de ceticismo de crença em suspenso, porque ele é incompatível com certeza dogmática e às vezes surge quando se tem a humildade de reconhecer os limites do próprio conhecimento. Para colocar de outra forma: em relação à proclamação cristã de que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos, um cético neste sentido não será menos aberto para a possibilidade de que tal proclamação é verdade do que ele ou ela também será à possibilidade de que é completamente falsa.

    Interessante, não? Em Pseudoceticismo: Pode isso, Arnaldo? e em inúmeras outras ocasiões, defendi que não precisa ser cético para duvidar de nada. Se alguém aplica a dúvida a algum assunto do qual discorda, simplesmente porque discorda, e investiga sem o compromisso de estabelecer algum resultado que possa te fazer mudar de ideia, então essa pessoa não age conforme o ceticismo. E se tal pessoa se alega cética, então ela é pseudocética. Também tem sido defendido aqui no blog que certos cristãos vivem na ilusão de que são os únicos certos, os únicos racionais e os únicos detentores da verdade metafísica. Então do que diabos eu to reclamando nesse discurso do cara?

    Aha! é agora que a porca torce o rabo. Vejam que ele diz que o verdadeiro cético deve estar igualmente disposto a crer em A e em não-A. Mas não existe nada mais falso do que isso. Um biólogo que examina uma espécie até então desconhecida, não precisa estar disposto a considerar a veracidade da evolução das espécies da mesma forma com que considera a sua falsidade. Quando um cosmologista investiga o universo, ele não precisa considerar que a chance do big-bang ser falso é a mesma dele ser verdadeiro. Pré-concepções são válidas dentro do ceticismo, especialmente quando já sobreviveram a um longo período de questionamento. Segundo Talbott, um físico só poderia ser verdadeiramente cético se acreditasse que a chance da II Lei de Newton ser falsa é a mesma de estar correta! Só que isso é muita viagem, né? Não dá pra levar a sério…

    Mas porque ele comete tal engano? Simplesmente para se esquivar de alegações ou argumentos de que ele não examinou as evidências para o cristianismo com ceticismo. Daí, ele reinventou ceticismo como sendo algo que só acontece quando a pessoa acredita em algo apesar de reconhecer que pontos de vista opostos são igualmente válidos. Ele distorceu o conceito para se chamar de cético; ele trapaceou paa conseguir o rótulo de cético. E que toma para si esse rótulo de forma ilícita é justamente o pseudocético.

    Não confundam ceticismo com alguma forma de agnosticismo. O ceticismo não requer um grau de suspensão do juízo tão elevado ou coisa parecida. É lógico que requer um grau mínimo, mas é só algo que fica no campo das possibilidades. Um biólogo precisa saber que alguém pode provar algum dia que a evolução seja falsa. Isso não quer dizer que ele deva ter um terço no bolso dele para começar a orar por perdão assim que ocorra a eminente descoberta científica de que o criacionismo seja verdadeiro. Na verdade, as evidências apontam hoje com muita força para a teoria da evolução e ninguém deixa de ser cético porque despreza as chances dela ser falsa. A evolução é tão certa quanto a seguna lei de Newton, queiram ou não. Não que sejam verdades absolutas, mas a chance de descobrirmos que estão completamente equivocadas é muito pequena, quase nula. Pequenas correções continuarão a ser feitas, mas acho difícil que algum campo da ciência hoje se mostre completamente equivocado.

    Que quem se abre a todas as possibilidades de maneira igual não está agindo de forma dogmática, pode até ser. Mas de forma cética, definitivamente não está agindo também. Talvez de forma ingênua ou, como neste caso, de forma malandra. Para não adimitir que é menos cético com suas crenças, ao invés de mostrar que foi tão rigoroso ao analisar as evidências do cristianismo quanto foi com aquelas fornecidas pelas outras religiões, ele alega que foi tão ingênuo com as outras quanto foi com as próprias… HA! É como se defender da acusação de estar inventando que foi abduzido por ETs dizendo que também já participou de um chá das cinco com as fadas e que visitou Asgard na compania de Thor.”

    • É, o humanismo realmente causa seríssimos problemas mentais:
      Já dizia Carl Sagan: ‘Devemos manter a mente aberta, mas não tão aberta a ponto do cérebro cair.’
      Tradução: ‘se a mente do outro está aberta ao que eu não acredito, o cérebro do outro cai’. Vejam o nível de “filósofos” que influenciam o pensamento do menino.
      em seu devaneio de que são justificados em suas crenças, afirmam serem eles os verdadeiros céticos e não aqueles que aplicam a dúvida de forma metódica.
      Uma prostituta ideológica está tão acostumada a se vender que quando vê um oponente acha que é igual a ele. A declaração “eu sou verdadeiro cético” (no quesito cético universal) é auto-venda. A própria declaração “eu sou o verdadeiro cético, em comparação ao outro”, mesmo que não seja de forma universal, também é auto-venda, oras.
      Tipo, segundo essas pessoas duvidar demais é um problema e o verdadeiro cético é aquele que tem a mente aberta para certas verdades. Só que eles abrem a mente demais e o cérebro deles acaba caindo pra fora da cabeça.
      De novo?
      Assim, com relação à crença na reencarnação, eu sou um verdadeiro cético no seguinte sentido: embora eu não adote tal idéia religiosa, eu também não a rejeito completamente. Eu não tenho nenhuma crença estabelecida em nenhum dos dois sentidos sobre o assunto. Chame isso, então, de ceticismo de crença em suspenso, porque ele é incompatível com certeza dogmática e às vezes surge quando se tem a humildade de reconhecer os limites do próprio conhecimento.
      Mas se o sujeito é tão “cético” (em termos de cético universal), por que está tão ardorosamente envolvido da noção de que temos que aceitar que dentro da mente dele tem um “ceticismo de crença em suspenso” (pois ele é “incompatível com a certeza dogmática) como se fosse uma certeza? Ora, a alegação de que “dentro de minha mente, há uma serenidade de crença em suspenso, ao invés da intolerância” não é uma alegação A SER PROVADA? Na cabeça do Bruno, esta é uma afirmação que não pode ser questionada, senão ele fica bravinho… rs.
      Se alguém aplica a dúvida a algum assunto do qual discorda, simplesmente porque discorda, e investiga sem o compromisso de estabelecer algum resultado que possa te fazer mudar de ideia, então essa pessoa não age conforme o ceticismo. E se tal pessoa se alega cética, então ela é pseudocética.
      Sendo assim, o método do Bruninho para definir que é “pseudo” ou “verdadeiro” se baseia em uma declaração de “posso mudar de idéia”. Mas crer nessa declaração não é um ato de credulidade? Realmente, o sujeito precisa aprender algo sobre ceticismo…
      Vejam que ele diz que o verdadeiro cético deve estar igualmente disposto a crer em A e em não-A. Mas não existe nada mais falso do que isso. Um biólogo que examina uma espécie até então desconhecida, não precisa estar disposto a considerar a veracidade da evolução das espécies da mesma forma com que considera a sua falsidade. Quando um cosmologista investiga o universo, ele não precisa considerar que a chance do big-bang ser falso é a mesma dele ser verdadeiro. Pré-concepções são válidas dentro do ceticismo, especialmente quando já sobreviveram a um longo período de questionamento. Segundo Talbott, um físico só poderia ser verdadeiramente cético se acreditasse que a chance da II Lei de Newton ser falsa é a mesma de estar correta! Só que isso é muita viagem, né? Não dá pra levar a sério…
      Não sei o que Bruninho tenta refutar aqui mas se for o texto que escrevi refutando-o por completo, ele falhou miseravelmente.
      Segundo o Bruninho, existem duas opções:
      (1) Alguém que é cético de verdade, e deixa a mente aberta para a idéia oposta
      (2) Alguém que não é cético de verdade, e proíbe (100% de certeza) que entre uma idéia oposta
      O problema é que ele não consegue categorizar ninguém em (1) e (2) a não ser pela declaração destas pessoas. Aliás, o próprio item 2 é inviável, pois basta o estímulo adequado que algúem pode mudar de opinião.
      Falta ele definir o CRITÉRIO para definir o “verdadeiro cético”.
      Segundo o que se entende, este é o sistema filosófico de Bruno:
      (1) um amigo dele (ou seja, da ideologia dele) declarará que “tem em sua mente somente dúvidas, mas não certezas”. É o verdadeiro cético.
      (2) um inimigo dele (ou seja, oponente) pensa em “certeza 100% de sua crença, mas jamais mudará de idéias em relação aos fatos apresentados, e duvidará da crença oposta”. É o pseudo-cético.
      A partir daí o truque passa a ser repetir (1) e (2) com uso da ênfase.
      Simplesmente para se esquivar de alegações ou argumentos de que ele não examinou as evidências para o cristianismo com ceticismo. Daí, ele reinventou ceticismo como sendo algo que só acontece quando a pessoa acredita em algo apesar de reconhecer que pontos de vista opostos são igualmente válidos. Ele distorceu o conceito para se chamar de cético; ele trapaceou paa conseguir o rótulo de cético. E que toma para si esse rótulo de forma ilícita é justamente o pseudocético.
      Aqui há de novo um problema linguístico de Bruno (ele realmente tem falhas cognitivas sérias). Se eu rejeito o rótulo “cético” (no sentido de cético universal) da mesma maneira que rejeito a existência de fadas, como poderia me declarar um cético universal?
      Se assim fosse, eu teria que ter feito um argumento assim:
      (1) Seres verdes que transitam entre o mundo natural e sobrenatural não existem)
      (2) Duendes são estes tipos de seres mencionados acima
      (3) Logo, duendes não existem
      (4) Logo, eu sou um duende
      Interpretar um texto onde eu demonstro a inviabilidade do cético, no sentido de “cético universal”, e sair fingindo que eu escrevi ser um “cético universal” é no mínimo bizarro.
      Aliás, Bruno também omitiu que eu mostrei um argumento (que ele não refutou) de que a única parte observada do ceticismo é… o questionamento que dele resulta.
      O ceticismo não requer um grau de suspensão do juízo tão elevado ou coisa parecida. É lógico que requer um grau mínimo, mas é só algo que fica no campo das possibilidades. Um biólogo precisa saber que alguém pode provar algum dia que a evolução seja falsa. Isso não quer dizer que ele deva ter um terço no bolso dele para começar a orar por perdão assim que ocorra a eminente descoberta científica de que o criacionismo seja verdadeiro. Na verdade, as evidências apontam hoje com muita força para a teoria da evolução e ninguém deixa de ser cético porque despreza as chances dela ser falsa. A evolução é tão certa quanto a seguna lei de Newton, queiram ou não. Não que sejam verdades absolutas, mas a chance de descobrirmos que estão completamente equivocadas é muito pequena, quase nula. Pequenas correções continuarão a ser feitas, mas acho difícil que algum campo da ciência hoje se mostre completamente equivocado.
      O problema é que o exemplo acima de Bruno refuta a própria idéia dele.
      Ele diz que é possível que alguém que seja cético “em relação a um ponto” (ou seja, cético em relação ao criacionismo) seja “verdadeiro cético”.
      Neste ponto, então, ele não precisaria ser um cético universal, ou seja, alguém que é cético em todas as questões relevantes da existência humana (ex. governo global, humanismo, marxismo, cobrança de impostos, legislações, etc.)
      Daí na lógica dele, se alguém crê no darwinismo, e descrê no criacionismo, temos então um “cético” quanto ao criacionismo.
      Mas se algúem crê no criacionismo, e descrê no evolucionismo, não temos mais um “cético” em relação ao evolucionismo.
      Motivo: no sistema lógico de Bruno, o critério que ele definiu para definir alguém como cético é estar do lado do que ele acredita (e eu acredito no darwinismo também, mas não tenho problemas cognitivos como ele), e definir como pseudocético é estar do lado do que ele não acredita. Enfim, o blogueiro mais dogmático da Internet ainda quer falar de ceticismo. rs.
      Que quem se abre a todas as possibilidades de maneira igual não está agindo de forma dogmática, pode até ser. Mas de forma cética, definitivamente não está agindo também.
      Segue a ladainha. “Eu estou aberto a ouvir a opinião do outro, e estou aberto a mudar de idéia viu, creia em mim”. Aí, se não tivermos “certeza” de que de fato a mente dele está aberta para mudar de idéia, então o outro vira pseudo-cético.
      O método do Bruno é claramente fruto de uma mente incapaz de entender o que é ciência ou sequer os conceitos básicos de lógica.

  3. Aqui vai o meu comentário perfeitamente inútil 🙂

    Gostei de que você tenha escolhido o retrato do “jovem Darwin” em vez do manjadíssimo “velho Darwin” para ilustrar este artigo. O Darwin “barbudo e careca” é o preferido dos neo-ateus, obviamente porque, segundo eles, Deus é um velho barbudo, logo o velho Darwin foi um deus. 😀

  4. Independentemente da sua ‘tese’ da apropriação seletiva, de caráter oportunista, dos humanistas da teoria da seleção natural, convém uma ponderação relevante:
    Como um crítico lá em cima, já li um bocado do Richard Dawkins, aliás, que eu me lembre, tudo. Não sou um exatamente um fã do sujeito, acho-o um bocado cricri (mas quem não é?), mas dizer que ‘(Dawkins) somente utilizou (o evolucionismo) como instrumento para tentar provar a inexistência de Deus’ é uma afirmação profundamente equivocada. Ora, o sujeito investe muitíssimo do seu tempo com divulgação cientítica, sendo que a maioria dos seus artigos e livros são alheios à questão ateísta, reduzir sua apropriação da teoria da seleção natural a uma ferramenta neoateísta é, no mínimo, inapropriado. A argumentação do post continuaria a fazer sentido simplesmente apontando uma relação entre as duas coisas, sem pressupor esse nível de generalização em sua obra.
    Segundamente, esse binômio proposto de humanismo-esquerda x não-humanismo-direita me parece uma caricatura das atuais discussões axiológicas sobre a ação pública. Quando pesquiso por humanismo, a sua associação com esquerdismo ou simplesmente não existe ou é marginal: Humanismo é um campo da filosofia muito mais amplo do que a filiação ideológica aqui apresentada.
    Preocupa-me as generalizações problemáticas que são tomadas como pressupostos aqui, como dizer que ‘esquerdismos’ não entendem o que o ser humano ‘de fato é’ (seja lá o que isso for). Ou dizer que a teoria da evolução não pode subsidiar uma problematização da religião e da crença: é como se limitasse o evolucionismo a um oposto do criacionismo, e não atentasse que este subsidia estudos interessantíssimos sobre a fisiologia da percepção e da construção de conhecimento.
    Enfim, revalido minha admiração por esse blog e suas elaborações, procurei aqui apenas compartilhar algo do rigor que o autor se propõe em suas análises.

    • Olá Danilo, obrigado pelas palavras. Preciso fazer umas ressalvas:
      Como um crítico lá em cima, já li um bocado do Richard Dawkins, aliás, que eu me lembre, tudo. Não sou um exatamente um fã do sujeito, acho-o um bocado cricri (mas quem não é?), mas dizer que ‘(Dawkins) somente utilizou (o evolucionismo) como instrumento para tentar provar a inexistência de Deus’ é uma afirmação profundamente equivocada. Ora, o sujeito investe muitíssimo do seu tempo com divulgação cientítica, sendo que a maioria dos seus artigos e livros são alheios à questão ateísta, reduzir sua apropriação da teoria da seleção natural a uma ferramenta neoateísta é, no mínimo, inapropriado. A argumentação do post continuaria a fazer sentido simplesmente apontando uma relação entre as duas coisas, sem pressupor esse nível de generalização em sua obra.
      Pode até ser que eu tenha me excedido ao escrever que Dawkins somente utilizou o darwinismo “como instrumento para tentar provar a inexistência de Deus”, mas este é o cerne da ação política dele. Não significa que ele não tenha escrito boas obras somente sobre darwinismo, como “A grande história da evolução”, que citei inclusive. O fato é que mesmo que ele invista muito do tempo dele em “divulgação científica”, isso ainda não serviria como comprovação do uso adequado da ciência, ou mesmo seria uma prova de que a ciência seria citada por ele de forma adequada, o que poderia encampar a rotina de representante da ciência. Ora, se ao “representar a ciência”, Dawkins fica dizendo que quer que “Deus seja uma hipótese científica”, ele está deturpando a ciência, não divulgando-a. A teoria da memética também é totalmente sem provas, e é usada como instrumento para pregação neo-ateísta. Mas o mais interessante é que Dawkins, ao ser humanista (e já recebeu premios de associações humanistas), ignora as descobertas centrais do darwinismo. Por isso digo que ele mesmo que tenha estudado darwinismo a vida toda, ignora tudo que o darwinismo tem a nos dizer sobre a espécie humana para manter a crença da “perfectibilidade”, de Rousseau.
      Segundamente, esse binômio proposto de humanismo-esquerda x não-humanismo-direita me parece uma caricatura das atuais discussões axiológicas sobre a ação pública. Quando pesquiso por humanismo, a sua associação com esquerdismo ou simplesmente não existe ou é marginal: Humanismo é um campo da filosofia muito mais amplo do que a filiação ideológica aqui apresentada.
      Quando falo do humanismo, não falo do movimento cultural da época da Renascença, mas sim do sistema filosófico de origem positivista, e inspirado nas idéias da mentalidade revolucionária. Neste caso, o humanismo moderno (que é o criticado aqui) tem a crença central de que o “homem é perfectível”, e portanto isso legitimaria ações para “projetos” de remodelação (incluindo ditadura do proletariado, ou governo global). A crença no homem é, para a esquerda, o mesmo que a crença em Deus é para os religiosos tradicionais. Aliás, eu trarei um material de Erich Fromm divertidíssimo, mostrando que o humanismo não passa disso.
      Preocupa-me as generalizações problemáticas que são tomadas como pressupostos aqui, como dizer que ‘esquerdismos’ não entendem o que o ser humano ‘de fato é’ (seja lá o que isso for). Ou dizer que a teoria da evolução não pode subsidiar uma problematização da religião e da crença: é como se limitasse o evolucionismo a um oposto do criacionismo, e não atentasse que este subsidia estudos interessantíssimos sobre a fisiologia da percepção e da construção de conhecimento.
      Qualquer esquerdismo defenderá coisas como ditadura do proletariado, governo global ou estado de bem estar social, todos estes baseados em concentrações de poder nas mãos de poucos que poderão “levar o ser humano a ser algo mais”. Mas, para isso, será preciso ignorar o que ser o humano realmente é, ou seja, um animal que busca o poder e a auto-preservação (e, exatamente por isso, os conservadores preferem o estado enxuto).
      Sobre o darwinismo, eu não disse que a teoria da evolução não pode estudar a origem da crença humana (o que é diferente de discutir a existência de Deus), mas eu afirmo o oposto: se o darwinismo pode estudar a origem da crença humana, e pode, então pode estudar também a origem do esquerdismo e da crença no homem.
      Um abraço,

  5. Aproveito este texto citando Darwin para fazer uma pergunta,já que você é um grande adepto do Darwinismo,poderia me dizer como o Darwinismo explica a aparição do homo sapiens sem pelos?

    Se aceitarmos que a evolução sempre busca a melhor forma de sobrevivência,o homo sapiens sem pelos não faz tanto sentido assim.Pois na quela época eles usavam casacos de pele para se aquecerem,se não morreriam de frio.Então porque perderíamos os pelos se precisávamos de pelos para nos aquecer?

    • O homo sapiens como espécie começou na áfrica entre 500 e 100 milhões de anos atrás) e só mais recentemente migrou para todas as outras regiões do planeta. Não subestime o quando um ser humano poderia se tornar peludo em umas dezenas de gerações se houve pressão seletiva para tal

      No entando, com certeza a capacidade dos homo sapiens de suportar o frio em relação aos outros hominideos poderia ser uma bela questão para estudar.

      Procurei rapidamente e achei um autor mostrando que a frequência de um gene que nos ajuda a gerar mais calor aumentou de frequência num intervalo de 50 mil anos (Ruiz-Pesini et al. 2004)

      jogando no google achei 2 textos de divulgação que desenvolvem um pouco algumas hipoteses (e algumas evidências para cada uma delas) sobre a nossa perda de pelos
      http://users.utu.fi/mjranta/reprints/Rantala%202007.pdf
      http://www.nytimes.com/2003/08/19/science/why-humans-and-their-fur-parted-ways.html?pagewanted=all&src=pm

  6. O Bruno definitivamente espanou:

    “Olha galera: parece muito conveniente eu publicar isso aqui hoje, mas juro que não foi de caso pensado. Esse post estava escrito há mais de 10 dias, como a maioria dos textos aqui do blog. Tento deixar tudo na geladeira pelo menos uns 10 dias antes da publicação.
    Mas de fato é uma excelente resposta a objeções que foram feitas contra meu texto anterior. O ceticismo não pressupõe nenhum tipo agnosticismo, mas também rejeita a certeza absoluta. Um policial que investiga um suspeito deve preparar seu “sistema límbico” (aff pseudociência alí é mato) para o caso do culpado ser outra pessoa. Caso contrário, não faria nem sentido o termo investigação. Investigar o que, quando se tem certeza? Torno a repetir: demonstração planejada não é ceticismo.
    Peço a quem duvide do que digo aqui que se pergunte: “Dentro do meu mind set investigador, existe algum conjunto de fatos que, caso exista e surja, irá modificar meu pensamento atual? Existe a chance de fatos me provarem que estou errado? Eu estaria disposto a aceitar os fatos em detrimento dos meus posicionamentos?”
    E ainda tem mais: alguém consegue me dizer a diferença entre alguém que acredita ingenuamente na ideia “A” e alguém que é cético contra a ideia “não-A”? Uma pessoa que se auto-intitula ser a segunda, pode ser muito bem ser a primeira fingindo de cética. E como alegações de ceticismo requerem PET SCANS, peço que qualquer pessoa alegadamente cética que me critique apresente seu PET SCAN.
    Bem já escrevi demais sobre esse looser neste comentário. O que eu queria dizer é que esse post não foi feito pensando nele, apesar de tratar de boa parte de suas objeções. As que restavam, tratei aqui.”

    • Realmente, está dramática a situação dele:
      O ceticismo não pressupõe nenhum tipo agnosticismo, mas também rejeita a certeza absoluta.
      Sendo assim, problema resolvido:
      http://lucianoayan.com/2012/09/22/rotina-cetico-verdadeiro-contra-os-falsos-ceticos/
      Há algumas formas de se usar ceticismo em debates:
      1) Usar o termo “cético” de forma a convencer a platéia de que se é um cético universal
      2) Usar o termo “cético”, no sentido de validador das próprias idéias, um auto-cético
      3) Usar o termo “cético”, no sentido de alguém que, mesmo com uma posição específica, promete que mudará de sua idéia
      Todas as 3 são alegações que não são comprovadas…
      Ih… como Bruninho resolve essa equação agora?
      Um policial que investiga um suspeito deve preparar seu “sistema límbico” (aff pseudociência alí é mato) para o caso do culpado ser outra pessoa. Caso contrário, não faria nem sentido o termo investigação. Investigar o que, quando se tem certeza? Torno a repetir: demonstração planejada não é ceticismo.
      Segundo ele, reconhecer a função do sistema límbico é pseudo-ciência, mas fontes para demosntrar isso que é bom, ele não traz. Patético.
      Além do mais, se a pessoa tem “certeza” antes da investigação, isso não implica que durante a investigação ela ache novas coisas sobre novos fatos, e pode ter certeza sobre estes NOVOS FATOS. De novo, será que o cara nunca viu uma investigação de fato?
      Para piorar, a alegação de que um investigador “tem certeza, mas não mudará de idéia” ficará no domínio puramente mental, ou seja, nada se pode alegar de fato sobre ela.
      Peço a quem duvide do que digo aqui que se pergunte: “Dentro do meu mind set investigador, existe algum conjunto de fatos que, caso exista e surja, irá modificar meu pensamento atual? Existe a chance de fatos me provarem que estou errado? Eu estaria disposto a aceitar os fatos em detrimento dos meus posicionamentos?”
      É isso que ele ainda “não está entendendo”. No caso de alguém responder “sim”, ainda teremos que CONFIAR UNICAMENTE NA PALAVRA da pessoa, e esta confiança significa EVIDÊNCIA ANEDOTAL.
      E ainda tem mais: alguém consegue me dizer a diferença entre alguém que acredita ingenuamente na ideia “A” e alguém que é cético contra a ideia “não-A”? Uma pessoa que se auto-intitula ser a segunda, pode ser muito bem ser a primeira fingindo de cética.
      Claro que o fingimento pode acontecer, e justamente para evitar isso, só consideramos aqui o QUESTIONAMENTO RESULTANTE de um ceticismo (alegado ou não). O resto fica relegado ao universo das alegações A SEREM PROVADAS.
      Exemplo didático:
      (1) Eu garanto que em minha mente há dúvida, e eu mudo de opinião se os fatos aparecerem <- alegação disputada
      (2) Eu garanto que já validei minhas idéias <- alegação disputada
      (3) Eu acabei de fazer um questionamento a respeito das contas do PT <- esta alegação, ao contrário das outras duas, fala de um evento que pode ser rastreado e verificado empiricamente (pois saiu do domínio puramente mental), logo, enfim, fala de um CETICISMO OBSERVADO.
      Aliás farei um texto para explicar esta diferença, pois parece que o único ceticismo, para Bruno, é o ceticismo DECLARADO. Enfim, ele cria um tipo de "ceticismo da credulidade".

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