Rótulo: Cético verdadeiro, contra os falsos céticos

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Última atualização: 26 de julho de 2012 – [Índice de Técnicas][Página Principal]

Precisei mapear esta rotina defino as objeções de um adversário deste blog, pois segundo ele é possível alguém usar um truque de rotulagem para se auto-vender para a platéia na questão do ceticismo, além de “Cético Universal” e “Auto-Cético”, e esta rotina seria “Cético verdadeiro, contra os falsos céticos”.

Ela aparece no livro “Deus, um Delírio”, de Richard Dawkins, logo no prefácio. Leiam e divirtam-se:

Não, por favor, é fácil demais confundir uma paixão capaz de mudar de opinião com fundamentalismo, coisa que nunca farei […] O verdadeiro cientista, por mais apaixonadamente que “acredite” na evolução, sabe exatamente o que é necessário para fazê-lo mudar de opinião: evidências […]Cunho aqui minha própria versão contrária ao manifesto de Kurt Wise: “Se todas as evidências do universo se voltarem a favor do criacionismo, serei o primeiro a admiti-las, e mudarei de opinião imediatamente[…] Minha paixão baseia-se nas evidências. A deles, que ignora as evidências, é verdadeiramente fundamentalista”.

A diferença desta rotina é que ela não tenta impor alguém como cético em relação a todas as questões importantes (apenas assuntos específicos), e não tenta definir, à partida, que todas as idéias aceitas pela pessoa já teriam sido auto-validadas.

O que é feito nessa rotina é tentar convencer, pelo recurso da ênfase, que o oponente não é “cético de verdade”, pois não mudará de idéia, mas ele seria um “cético de verdade”, pois mudará de idéia (caso surjam provas para ele mudar de idéia).

Entretanto, no próprio livro haveria uma evidência a favor da idéia de Dawkins ser um cético verdadeiro, certo? Seria na declaração de Kurt Wise, que ele cita. Vejamos:

Os fundamentalistas sabem no que acreditam e sabem que nada vai mudar isso [6]. A citação de Kurt Wise, na página 366, diz tudo: “[…] se todas as evidências do universo se voltarem contra o criacionismo, serei o primeiro a admiti-las, mas, continuarei sendo criacionista, porque é isso que a Palavra de Deus parece indicar. Essa é a minha posição”.

Mas aí temos um problema sério. Pois o Kurt Wise não representa todos os cristãos, e, mesmo que representasse, o truque de “sou verdadeiro cético, por favor creia que eu mudarei de opinião” é um truque humanista, portanto não é um recurso (ainda) dominado pelos cristãos que atuam em debate. A tendência, aliás, é que quanto mais revelemos os truques de humanistas, mais os truques poderão ser usados por ambos os lados. Mas tudo isso é irrelevante diante do fato incontestável: o fato de se alegar “estar pronto para mudar de opinião” não serve, por si só, para provar que a pessoa está pronta para mudar de opinião.

Exemplos disso aparecem aos milhares quando investigamos o comportamento do próprio Dawkins. Já mostraram para ele, com fatos, que o método científico não cuida de todas as questões e que é possível determinar muitas coisas além do uso do método científico (aliás, o método científico é discutido epistemologicamente, ou seja, fora do método), mas ele não modifica sua opinião. Da mesma forma, muitos já mostraram a Dawkins logicamente que o darwinismo não serve para desprovar a existência de Deus. Ele também se mantém impassível. Por que será que ele não muda sua opinião? Será que é por que não é cético? Ou por que a manutenção de sua opinião é boa politicamente para ele? Fica claro que as pessoas em geral mantém suas opiniões pelo benefício (psicológico ou material) que essas opiniões tem para eles, especialmente quando falamos do aspecto político da coisa.

Ainda assim, usuários do truque “Cético Verdadeiro” (geralmente lutando contra “um falso cético”) se apegarão à rotina com um fervor extremo, pois é um recurso de prostituição ideológica. Uma prostituta de rua depende de sair provando aos outros que é gostosa, que dá mais orgasmos e que fornece um prazer indescritível. Uma prostituta ideológica cientificista depende de ser vista como alguém que “é cético” (de verdade viu, contra os falsos), ou “cético universal”, ou “auto-cético”, e depois ainda tentam as rotinas de simular representação de ciência e pregarem que são “donos da razão”.  Se antes eu tinha mapeado 4 rotinas básicas do cientificismo, creio que ao mapear o truque “cético verdadeiro”, aumento o core de conhecimento sobre os truques humanistas.

Para colocar o usuário desta rotina na parede, basta apresentar fatos que refutem uma idéia em que ele acredite, e esperar que ele demonstre, em público, que mudou de opinião (investigue bem se ele escreve textos em que confessa sua mudança de opinião). De preferência, coloque-o em situação em que muitos estão assistindo. Como complemento, aplique também a técnica que desenvolvi, a auto-validação simulada da parte adversária, e divirta-se.

P.S.: A imagem deste post lembra os famoso adeptos do “true metal”. Segundo eles, eram o “metal verdadeiro”, contra os “falsos”.

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