Não sou o “Ecce Homo”, claro, mas também posso me gabar

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“Ecce Homo”, de Nietzsche, é uma das leituras mais agradáveis que já vi oriundas de escritos filosóficos. Nada de escritos empolados e prolixidade desnecessária, mas sim uma forma divertida de falar sobre si próprio. Nessa obra, Nietzsche fez sua autobiografia, e mostrou como isso impactou suas obras.

No meio de tudo, usou títulos como “Por que sou tão sagaz?”, “Por que sou tão sábio?”, e até “Por que escrevo tão bons livros?”. O capítulo final se chama “Por que sou um destino?”. A obra seria a resposta de Nietzsche a essas questões.

Quando li “Ecce Homo”, pensei: “Está aí um sujeito que definitivamente perdeu seu juízo”. Sob a ótica da Dinâmica Social, aliás, o ato de ficar se auto-elogiando demais tem um efeito psicológico inverso. O ideal é que os outros te elogiem, não que você elogie a si próprio. Por isso, li “Ecce Homo” com um sorriso no rosto. E desconfiado.

Eu jamais agiria da mesma forma, mas também preciso me auto-questionar as vezes sobre algumas características, que podem ser elogiosas ou não (dependem do contexto), como: “Por que tudo o que escrevo tem uma abordagem que pode estar relacionada ao mundo corporativo?”, “Por que rejeito tanto idealizações a respeito do ser humano?” ou até mesmo: “Por que tenho tanta facilidade em encontrar truques no discurso adversário?”.

Creio que já respondi essas questões aqui ou acolá, mas vamos a algumas respostas mais explícitas:

P: Por que tudo o que escrevo tem uma abordagem que pode estar relacionada ao mundo corporativo? R: Simplesmente por que no mundo corporativo temos um ambiente fantástico para testar o comportamento do ser humano sob pressão, em cenários de luta por sobrevivência, ao invés de idealizações a respeito do que o ser humano deveria ser. No meu sistema de pensamento, quando testamos variáveis como “busca por verdade”, “razão”, “ceticismo”, a melhor forma é ver como isso funcionaria no ambiente corporativo onde essas variáveis podem ser exercidas, mas ao mesmo tempo seus praticantes estão lutando por sobrevivência. Enfim, temos o panorama completo da ação humana, ao invés de uma idealização ingênua sobre a ação humana.

P: Por que rejeito tanto idealizações a respeito do ser humano? As idealizações a respeito do ser humano são aquelas que tem causado o fracasso preditivo de todas as filosofias que tem tentado prescrever o comportamento humano e a sociedade (que não passa do agrupado de humanos)desde a Antiga Grécia, mas especialmente com o advento do Iluminismo. Estes filósofos, em sua maioria, criaram um ser humano que não tinha nada a ver com a realidade, mas existia em suas cabeças. Se fôssemos parodiar Kant, diríamos que estes humanos tratados nos livros de Voltaire, Rousseau e Marx não existiam como “coisa em si”, mas apenas no mundo fenomênico (e de lá nunca saíram).

P: Por que tenho tanta facilidade em encontrar truques no discurso adversário?”. R: Entendo que isso ocorre por vários fatores, e o principal deles foi o fato de eu vir da área de Investigação de Fraudes Corporativas. E tudo isso foi amplificado pelo fato de minha principal área de investigação no que diz respeito a Segurança da Informação ser a Engenharia Social, que estuda os meios pelos quais os seres humanos podem ser influenciados e, enfim, enganados por truques. A Dinâmica Social somente foi dar uma sustentação poderosa a esse tipo de abordagem. A mistura deste tipo de conhecimento (sempre ignorada pela filosofia antiga) com a análise de doutrinas e ideologias, tornou muito fácil para mim descobrir truques contidos nos escritos de filósofos, ideólogos e políticos de diversos tipos.

Em relação a última questão, vamos a um exemplo. Acabei de publicar um texto no meu novo blog, Ceticismo Corporativo, entitulado Como executar (e também neutralizar) um ato de magia nos corredores da empresa, que mostra a aplicação de recursos de Engenharia Social, na perspectiva da Dinâmica Social, tanto para a obtenção de um poder psicológico como para a neutralização do mesmo truque. Repare a complexidade desta abordagem que tem um efeito poderoso. Agora, compare aquilo que ali está escrito com o mapeamento dos truques que tenho feito aqui, como “Dono da razão”, “Auto cético” e “Cético Universal”. Perto do mapeamento dos complexos truques para jogos políticos nas empresas, a investigação do discurso ideológico passa a se tornar, para mim, uma moleza. A complexidade dos truques do jogo corporativo é muito mais vasta. Daí temos somente a aplicação do método Demóstenes: se aprendemos uma arte em um ambiente complexo, quando vamos para um ambiente mais simples, realizamos a arte com maior desenvoltura.

Por isso, no fim das contas, eu digo que o grande diferencial do que eu escrevo é o fato de que em um dado momento um autor resolveu misturar a análise do que o ser humano realmente é (indo fundo nessa análise, independentemente das consequências), juntamente com a análise investigativa de material filosófico e ideológico.

Disso, com certeza, eu posso me gabar.

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2 COMMENTS

  1. Todos os mitos versam sobre algum drama que vivenciamos. Paul Diel afirma que: “Os mitos falam do destino humano sob seu aspecto essencial; destino resultante do funcionamento sadio ou doentio (evolutivo ou involutivo) do psiquismo.”. O que pode haver de salutar ou doentio no anseio pela personificação do ser amado, previamente idealizado?

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