Não por causa de, mas apesar de…

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Se em uma época, eu me incomodava ao ler materiais neo-ateístas (nos tempos em que eu era teísta), hoje em dia avalio tal conteúdo como se estivesse fazendo uma pesquisa. É quando a capacidade de aprender com um oponente (e, sim, os neo-ateus são meus oponentes por serem humanistas, não por serem ateus) muda completamente a análise.

Agora, sob a ótica do mapeamento de discurso busco entender os métodos que existem em um material ideológico, filosófico ou político. No caso de Dawkins, a coisa fica ainda mais divertida.

Um método devastador, utilizado pelo autor em “Deus, um Delírio”, sempre me intrigou. Quando o vi utilizado novamente por Richard Carrier em um texto publicado no blog Rebeldia Metafísica, surgiu a epifania. Enfim, um padrão facilmente identificável e reproduzível. A este método darei o nome de “não por causa de, apesar de”, e é aplicado sempre para neutralizar a atribuição de um mérito histórico a algum sistema de pensamento ou ação em particular.

O método, tecnicamente, é bastante simples. Vamos aos passos:

  1. Identifique o sistema elogiado (X)
  2. Identifique o mérito atribuído ao sistema (Y)
  3. Identifique algumas razões para dizer que Y não ocorreu por causa de X, aponte-as como evidências de que Y ocorreria independentemente de X
  4. Identifique alguns casos onde X entra em contradição com Y
  5. Conclua dizendo que “Y não ocorreu por causa de X, mas apesar de X”.

O efeito é espetacular e é possível criar narrativas de até 100 páginas somente para a aplicação do método em qualquer situação que se queira.

No caso de Dawkins, ele queria dizer que a moral existe, mas não é por causa da religião. Bem capaz. Em seguida, ele cita trechos “tenebrosos” na Bíblia, e alguns atos perversos cometidos por religiosos. Logo, seriam alguns exemplos de contradição do sistema (religião) com o mérito (moral) atribuído. A conclusão de Dawkins é de que a moral existe não por causa da religião, mas apesar dela.

Carrier fez a mesma coisa ao dizer que o cristianismo não é responsável por um cenário onde o método científico surgiu. Para fazer isso, bastou para ele citar exemplos de “método científico” (que não eram de fato método científico, mas o objetivo de Carrier era implementar um truque, então qualquer coisa valeria) na antiga Grécia. Com isso, ele criou a teoria de que a ciência moderna surgiu antes do cristianismo. Depois, foi só citar os conflitos da Igreja com Galileu, e outros eventos esparsos (e irrelevantes em termos históricos, mas isso não importa no método), e citá-los como exemplos de conflito entre religião e ciência. A conclusão de Carrier era previsível: ciência não ocorreu por causa do cristianismo, mas apesar dele.

Notem que aqui não estou atribuindo juízo de valor à técnica. Estou somente estudando um modelo de argumentação, que possui um efeito psicológico poderoso. Embora eu saiba que tanto Carrier como Dawkins são mentirosos, este é um post que menciona um método. Quero focar apenas nisso aqui.

Se é um método, ele pode ser aplicado a absolutamente qualquer coisa e contra qualquer sistema ideológico, bastando um pouco de criatividade. Por exemplo, podemos dizer que a ciência moderna não foi criada pelo cristianismo, mas também não foi criada pelo iluminismo, e muito menos pelo humanismo. Podemos apresentar argumentos fortes dizendo que o fluxo “natural” da busca de conhecimento humano iria resultar no aprimoramento da ciência. Em seguida, bastaria apontar falhas no humanismo e no iluminismo, em contradição com a ciência, e mostrar que há deturpações de teorias científicas pelo humanismo. A conclusão seria exatamente a mesma: a ciência ocorreu não por causa do humanismo e nem do iluminismo mas apesar deles.

O que acontece na execução deste método? Simples. Imagine que alguém tenta aparecer como um amigo do chefe, mas você consegue demonstrar que ele é um inimigo. Este é o efeito psicológico gerado. Simples e fácil.

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5 COMMENTS

  1. Usando esse truque sujo seria possível dizer que até mesmo a ciência se desenvolveu apesar da ciência.
    Qualquer livro de história da ciência registra o entrave que a comunidade científica foi ao desenvolvimento do Big Bang – inclusive o próprio Albert Einstein. Daí concluir-se-ia que a ciência se desenvolveu apesar da ciência. Um completo non sequitur.

    Basta que esse povo tenha um pouco menos de preguiça e mais de imparcialidade para perceber isso.

  2. É o mesmo que usamos pra quebrar as pernas dos petralhas quando eles comemoram, e interpretam, a conjuntura internacional na economia, como se fosse mérito do Sr. Lula: “a economia foi bem APESAR do PT, não por conta do PT”

  3. Fantástico você ter descoberto este truque Luciano. Olha o Carrier de novo: “A afirmação de que as pessoas só podem ser motivadas a serem morais por ameaças ou promessas de inferno ou paraíso (ou por qualquer outra alegação inverificável) na verdade implode a moralidade.”

    Fonte: http://rebeldiametafisica.wordpress.com/2012/09/28/fatos-morais-existem-naturalmente-e-a-ciencia-pode-descobri-los-parte-3-o-fracasso-da-moralidade-crista/

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