Reacionários e conservadores de esquerda?! Claro que sim!

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Esquerdistas adoram falar que vivem em um mundo em que lutam por “mudança”, e nesse aspecto são atrapalhados pelos seus inimigos conservadores, a quem chamam de “reacionários”.

Este cenário é fascinante pois, em uma escala muito maior do que poderiam prever os fundadores da PNL, Bandler e Grinder, a realidade (ou ao menos a percepção da realidade) foi simplesmente alterada por uma série de truques linguísticos criados por esquerdistas. Alguns deles, inclusive, aceitos pelos próprios “conservadores”.

O termo conservador surgiu em um momento em que se propunham reformas sociais “planejadas” para arrumar a sociedade, logo, estes conservadores conservariam um status quo atual em detrimento das mudanças. Assim sendo, conservador é quem “conserva”. Reacionário seria, na sequência desta análise, aquele que “reage” às mudanças sugeridas.

Ora, então basta eliminarmos todos os truques linguísticos e corrigimos todas as situações através, simplesmente, da lógica. Se conservador é “quem conserva” e reacionário é quem “reage”, temos seguintes situações, por exemplo: 

  1. Ao propor a criação de uma ditadura do proletariado, o esquerdista seria um agente da “mudança”, em relação a qual alguém da direita reagiria. Este que reage seria o reacionário do contexto, e também o conservador.
  2. Mas quando pessoas da direita pedem a redução dos impostos de 40% para 15%, são os esquerdistas que tentam conservar o status quo do estado inchado. Neste caso, os agentes da mudança estão na direita. Se os que reagem à mudança estão na esquerda, nesta questão é ali que temos os conservadores e reacionários.

Note que os componentes abordados em 1 e 2 são meras conclusões lógicas, considerando inclusive a origem dos termos reacionário e conservador. Ao promover mudança de um paradigma de esquerda em direção às idéias da direita, o esquerdista poderá reagir e tentar conservar os valores já implementados, portanto sendo um reacionário nesse escopo de análise.

Vejamos mais um exemplo. No Brasil, temos a cultura da não punição ao criminoso, que hoje é o paradigma vigente. Ao propor a redução da maioridade penal, os direitistas são os agentes de mudança neste caso, enquanto os esquerdistas são os reacionários, lutando contra a mudança (e portanto, a manutenção do status quo). Quer dizer, embora direita e esquerda sejam posições claramente identificadas, reacionarismo e conservadorismo deixam de sê-lo. E, novamente falando, isso é uma mera conclusão lógica.

Sei que muitos esquerdistas reagirão dizendo que “tradicionalmente conservadores e reacionários estão conhecidos como sendo da direita, isso já é uma tradição”, o que seria uma grotesca falácia do apelo à tradição. Não é com uma falácia tão banal que o argumento aqui apresentado será refutado.

Vamos então a um esquema do jogo político:

  1. Conservadores existem em ambos os lados do espectro político, tanto da esquerda como da direita, e o conservadorismo depende da proteção de um status quo diante de uma proposta de mudança.
  2. Reacionários também se distribuem dos dois lados do espectro político, e esse fator depende da reação a propostas de mudança sugerida por cada um dos lados.
  3. Conservadorismo e reacionarismo, portanto, são definidos pelo contexto.
  4. Quem sugere mudar um paradigma (oposto ao seu lado da discussão), será considerado como um agente de mudança do seu lado, tendo que lutar contra conservadores e reacionários do outro lado.
  5. Logo, conservadores, reacionários e agentes de mudança são posições tais quais goleiro, centroavante e volante, que existem em todos os times de futebol. Todos os times possuem estes papéis, da mesma forma que os dois lados do debate político também.

Diante disso, podemos logicamente (e de maneira plenamente justificada), entrar em campo no debate, se propusermos uma mudança, como agentes de mudança lutando contra conservadores e reacionários de esquerda.

Portanto, a partir de agora, se algum esquerdista sair gritando “conservador, conservador”, lhe responderei: “sim, eu sou conservador de direita, e você é conservador de esquerda”. Se ele protestar “seu, seu reacionário”, lhe direi que sim, mas só em relação às idéias da esquerda, pois o reacionário de esquerda (portanto alguém que reage às idéias de mudança de direita) é ele.

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5 COMMENTS

  1. Muito bom o artigo.
    O curioso é que ao apelar para a tradição, mesmo caindo na vala da falácia, eles acabam se mostrando conservadores.
    Eu conheço um camarada, com perdão do trocadilho, que sempre me chama de reaça. Eu de birra, sempre devolvo um revoluça. Agora vou chamá-lo de reaça ou revoluça, dependendo do contexto da discussão.

    • Aliás, uma boa idéia também é chegar para ele e perguntar “que tal reduzimos os impostos pela metade?”, e ele responderá “não, que isso”. Dá para retrucuar: “Ah, não quer mudança? Então é reacionário…”. rs.

  2. Permita-me fazer uma ressalva. Considero o termo “conservador”, no sentido de definir os adeptos dessa tradição filosófica, como tendo um alcance mais amplo e mais universal do que uma postura pontual diante de uma proposta específica. A meu ver, o conservador ganha esse nome porque adepto da prudência, ou seja, se opõe a políticas de reengenharia social, à modelagem da sociedade, à “construção de um mundo melhor”. Quando, por exemplo, propõe a redução da carga tributária, está, num sentido mais amplo, lutando por conservar o estado anterior das coisas, e sendo “reacionário” frente a política de “redistribuição de renda” (sic) e ao inchaço da máquina estatal – que num panorama histórico, são ambos fenômenos recentes e alimentados pela mentalidade revolucionária. Esse é o sentido real da palavra conservador. O artigo se refere a uma outra acepção dessa palavra, essa sim, pejorativa (e cujo significado as esquerdas tentam implacavelmente mesclar ao sentido original), e essa sim, aplicável a qualquer indivíduo, independentemente de sua filiação ideológica.

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