A cornetagem política para, enfim, o aproveitamento pleno da democracia

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Uma crítica que pode surgir em relação ao material divulgado aqui é a seguinte: “Ao mapear os jogos políticos da esquerda, ensinando as pessoas da direita até a reproduzi-los, não estamos próximos de um maquiavelismo”? Eis que vou apresentar um caso mostrando que na verdade é o oposto.

Tecnicamente, a democracia moderna é o menos perigoso dos sistemas, em que qualquer cidadão pode ter direito ao voto, e, portanto retirar ou colocar no poder as pessoas que atendam aos seus objetivos, certo? Sim e não. O fato é que a democracia moderna pode sofrer um “bypass” através de grupos que assumam a hegemonia do discurso, como tem cada vez mais ocorrido no Ocidente. Com o aparelhamento do estado e alianças com a mídia, além da já conhecida Estratégia Gramsciana, não é muito difícil para que os esquerdistas consigam implementar a ditadura ideológica, que não é muito diferente da ditadura formal (exatamente uma oposição a democracia), com a diferença de que neste caso a hegemonia garante que apenas as idéias de um dos lados prevaleça.

A melhor forma de fazer a democracia funcionar de fato é através da conscientização de pessoas de um lado a respeito de todos os truques do outro lado. Os esquerdistas já fazem isso, em suas “análises críticas” (incluindo os trabalhos de Pecheux, Foucault e Charardeau, dentre outros). Teóricos da Escola de Frankfurt também ajudaram a mapear todo o discurso conservador de direita, e criaram discursos de resposta para isso. Enfim, se um conservador de direita falar uma bobagem, não passará incólume, mas o mesmo tipo de crivo não é aplicado à esquerda.

Esse cenário faz com que ao mesmo tempo os esquerdistas saibam jogar o jogo político, como também refutem as idéias inválidas que apareçam do outro lado. Do lado da direita, o conhecimento sobre jogo político ainda é vergonhoso. Em relação às idéias inválidas do outro lado, sabe-se muito pouco sobre elas. Um exemplo explícito fica em relação à questão “conservadorismo e reacionismo só existem na direita”, idéia que aceitei até a algum tempo atrás, mas refutei neste texto.

Por isso, defendo um paradigma, o da cornetagem. No futebol, é a arte de criticar o próprio time, o técnico do time e até o presidente. O objetivo disso tudo é que seja extraído o máximo… do próprio time. Galvão  Bueno é um exemplo claro de corneteiro. Basta o time do Brasil entrar em campo para ele começar a reclamar. Quando o Brasil é eliminado, Galvão protesta: “Eu avisei que a coisa não estava bem”. Claro que não quero copiar as sandices de Galvão ao dizer bobagens como “limite extremo”, apenas dar um exemplo do que é a cornetagem, a título de ilustração. Aprendi muito com dois corneteiros sobre a guerra política, Olavo de Carvalho e David Horowitz. Olavo certa vez disse que muitos direitistas entram em campo e aceitam “a camisa de força verbal” imposta por um adversário desonesto e mal intencionado. Horowitz, em seu “A Arte da Guerra Política”, traduzido aqui, dizia que os conservadores são ingênuos demais ainda para o jogo político, e esta deficiência deve ser sanada. As tais “críticas” no marxismo servem exatamente para isso.

Com este tipo de postura, a crítica (as vezes forte) aos que jogam no seu time não é destrutiva (como fazemos com os esquerdistas), mas construtiva. Ao detonarmos o discurso de esquerda, é por termos ciência de que ali não há nada que preste. Ao criticarmos erros no tratamento que alguns de direita estão fazendo em relação ao discurso de esquerda, é pelo fato de sabermos que as idéias da direita são mais lúcidas, mas estão sendo mal defendidas. Ao criticarmos a ausência de conscientização e a falta de estudo e prática sobre o jogo político, é exatamente por que gostaríamos de ver o poder do discurso de direita aumentado. Com o aumento do poder de discurso da direita, quebra-se a hegemonia presente da esquerda.

A democracia passa pela conscientização de todos os lados a respeito de como funcionam as regras do jogo. Quando o jogo político é efetivamente jogado por ambos os lados, hegemonias e espirais do silêncio são quebradas. E, aí, e somente aí, podemos ter uma democracia plena.

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1 COMMENT

  1. Um dos aspectos que colocam por terra essa definição simplista de esquerda e direita é a economia. Muitos dos países que tiveram ditaduras militares em matéria econômica se aproximavam muito mais de preceitos econômicos de esquerda do que de direita. O nacionalismo é outra característica. Ser um nacionalista exacerbado te coloca em que lado? Direita ou esquerda? Ou em nenhum dos dois? Ou em ambos?

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