A verdade nua e crua sobre o ceticismo

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Ceticismo significa qualquer atitude de questionamento em relação a conhecimentos, fatos ou opiniões/crenças tomadas como fatos, ou a postura de dúvida em relação a reinvindicações geralmente aceitas em outras instâncias. (Wikipedia, versão em inglês)

Em “Ensaios Céticos” (que mais adequadamente deveria ser entitulado “Ensaios Crédulos”) Bertrand Russell alega que o mundo seria melhor se todos submetessem suas “próprias crenças” ao escrutínio cético, tal qual uma teoria científica, e isso permitiria que o mundo se tornasse um paraíso. (Sim, acreditem se quiser, ele usa exatamente a expressão “paraíso”)

Tal tipo de proposta, naturalmente, pode ser qualificada como a rotina Como o homem deverá ser (ou é)… como eu sou, na qual Russell idealiza um ser humano imaginário em um mundo imaginário, sem absolutamente nada a ver com a realidade, e ainda capitalizaria politicamente em cima de uma patuleia de humanistas funcionais, iludidos com o seu truque. Isso explica muita coisa, inclusive até o seu Prêmio Nobel, conquistado em 1950.

Este tipo de proposta não pode ser tratada senão com uma análise do que significam as crenças e qual o objetivo do ceticismo. Enfim, o ceticismo de fato é lançado em relação a algo que pode gerar algum risco a partir da aceitação de uma crença, na maioria das vezes, enquanto a credulidade é lançada em relação a itens que podem gerar benefícios para o crente. Claro que existem situações onde alguém é induzido a crer em algo, por sugestão de alguém mais esperto que ele, mas isso vale tanto para um humanista como um cristão. Mesmo assim, iludido ou não, alguém sempre perceberá as crenças aceitas como benefício para ele, e as crenças questionadas como malefícios.

Um exemplo pode ser a questão do ato de duvidar de um mapa. Se o mapa estiver correto, você poderá se perder. Logo, há um risco associado, e portanto o ceticismo em relação à crença de que “mapas são ilusões” é bastante válida. As teorias científicas mais confiáveis são aquelas que falam de aspectos sensíveis da natureza, os quais, se indevidamente mapeados, poderão gerar desastres, como a explosão de um foguete ou a taxa excessiva de morte de pacientes em uma nova cirurgia. Provavelmente pelo risco associado, então, passaram por um crivo cético maior. Mas teorias psicanalíticas, que na maior parte dos casos, não passam por critérios céticos muito explícitos, não se enquadram na mesma classe em que o estudo de uma propriedade química.

Em outros exemplos, de crenças que realmente não passarão por questionamento cético extensivo, na maioria dos casos, estão coisas como crença no homem, crença em Deus, crença na inexistência de Deus (no caso do ateísmo ultra-forte, como de Richard Dawkins), no paranormal, e daí por diante. Na maioria destas crenças, não há um risco direto associado ao aceite destas crenças para um crente. Se alguém acredita em Deus, e estiver errado, nada irá acontecer. Se alguém acredita que Deus não existe, e estive errado, dá no mesmo. Se alguém acredita que comer carne de porco é um pecado, o máximo que ocorrerá é a redução de proteínas na dieta, e até a perda de uns quilinhos, para quem estiver acima do peso.

Por isso, quando alguém estiver utilizando truques cientificistas dizendo “olha, aplique para a sua crença em Deus, o mesmo critério cético que usamos para testar um míssil”, tenha a certeza de estar diante de um charlatão intelectual de primeira. Na maioria dos casos, para questões tão subjetivas e de pouco impacto imediato para o crente, como estas, alegações de que “devemos usar o ceticismo científico” não passam de um truque psicológico de baixíssimo nível. Na maioria das vezes, estes adeptos de Carl Sagan e Bertrand Russell tentarão convencer a platéia de que estão do lado da ciência (quando na verdade estão banalizando-a, e utilizando-a fora de seu escopo, ou seja, dando um mau nome à ciência, ao invés de divulgá-la de fato), mas só conseguem seus pontos através de uma encenação vergonhosa. Puro jogo político, naturalmente.

Quando Russell propõe um mundo “onde questionamos nossas crenças”, finge existir um ser humano que vive em uma redoma, tendo que se auto-validar o tempo todo, mesmo para o aceite de crenças que não geram risco algum para ele, e foram aceitas por sua conveniência. É importante termos a noção de que existe uma encenação do outro lado para enfim neutralizá-la, e quando muitos não fazem essa neutralização, acabam envolvidas em um manto de ilusão a respeito da realidade. Pela manipulação linguística, o cientificista, mesmo sendo um crédulo em idéias delirantes e perigosas, convencerá a platéia de que “está do lado da ciência”, mesmo que ele só a prejudique com um discurso chinfrim. Dá no mesmo que um marginal afirmar estar “do lado da justiça”. Isso não fará nada a favor da justiça, pelo contrário.

É por isso que o ceticismo político aqui impossibilita este tipo de truque, como nunca havia sido feito de forma técnica no passado. Quando alguém diz “questione sua crença como eu questionei a minha”, não está provando nem sequer que questionou a sua própria crença, e com o questionamento “quem disse que você questionou sua própria crença?” um truque psicológico é neutralizado à partida. Quando um picareta diz “eu posso ser a referência objetiva, pois sou um questionador de todas as crenças, já que não tenho certeza de nada”, essa alegação só pode ser validada através de uma investigação da vida desta pessoa e das idéias que ele defendeu. Em todos os casos, é claro, a noção de alguém que funciona como “referência objetiva” a uma questão vai para o vinagre rapidíssimo.

Clarificar os leitores a respeito destes truques não é nenhum preciosismo, mas uma forma de lembrar-nos de que quase todo o discurso ideológico sobre ciência, ceticismo e razão de 300 anos para cá não foi a execução de um debate sério de fato, mas somente a execução de truques psicológicos para alguém tentar convencer a platéia de que:

  • Se auto-questiona, enquanto o oponente não.
  • É cético de verdade, enquanto o oponente não é.
  • Está do lado da ciência, enquanto o oponente está do lado “das trevas”.
  • É a fonte objetiva da validação, pelos 3 itens acima, enquanto o oponente é fonte subjetiva.

Eu poderia estender essa lista com no mínimo uns 20 itens, mas já deu para entender a idéia. Todos os exemplos acima são exemplos de auto-venda, e caso sejam aceitos, o seu implementador garante automaticamente a vitória no debate, independente dos argumentos que tenha. O fato é que as 4 alegações acima não são testáveis, e na absoluta maioria das vezes não são evidenciadas, mas ainda assim são utilizadas à exaustão por debatedores desonestos.

Exatamente por isso este blog não pede que você “questione suas próprias crenças”, mas ao contrário, entende que nem ateus nem teístas, nem humanistas e nem direitistas, irão “questionar suas próprias crenças”. As crenças destes grupos são aceitas por conveniência. Pedir para alguém questionar “a própria crença”, é tão bobo e infantil (a não ser, é claro, quando estamos diante de um truque, como na maioria dos casos com os humanistas, e aí temos desonestidade ao invés da bobice) quanto pedir para alguém “questionar o amor que tem pela esposa”, apenas por que está com vontade de comê-la, ou então está frustrado por não tê-la, e quer dividir sua frustração com o outro. Com razão, o sujeito que está feliz com a esposa tem toda razão para rir na cara do imbecil.

Ao invés de propor bobagens, sugiro que você “questione as crenças de seus inimigos”, pois isso é algo que o ser humano é capaz de fazer. Claro que você pode “questionar suas próprias crenças”, mas não podemos confiar que qualquer um faça isso, e, se fizer, será uma questão de sorte. Na verdade, cada um vai buscar confirmar as próprias crenças, especialmente quando existe uma paga psicológica pelo aceite dessas crenças.

Diante desta constatação, este blog corrige os erros da maioria das teorizações sobre o ceticismo, anteriormente baseadas em “como o ser humano deveria agir”. Ao invés disso, defendo o foco em “como o ser humano age”. Por isso não dá para cair em truques de gente como Dawkins e Russell, que jamais submeteram as idéias que defendem a qualquer tipo de “questionamento”. Previsível, naturalmente.

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3 COMMENTS

  1. Bom texto, mas me permita alguns comentários por favor.

    Acreditar que existem regras perfeitas regidas por um ser superior que cuida de todos nós é um pensamento muito confortante. Acreditar que vamos nos reencontrar com nossos entes queridos que já se foram é um pensamento ainda mais agradável. Essas ideias, por incrível que pareça, quando manipuladas por certas pessoas, podem levar a atrocidades incríveis. Você diminuiu a importância dessa questão pensando apenas em um único indivíduo que crê, que de fato é inofensivo. Porém a comunidade de não-crentes se preocupa é com a massa, onde questões assim atingem a mesma importância e requerem análise tão precisa quanto a da ciência de foguetes.

    Eu concordo com a afirmação de que temos a *tendência* a aceitar informações que corroborem o que já acreditamos e descartar dados contrários as nossas crenças. Mas você parece sugerir que devemos aceitar essa tendência, da mesma forma que alguém com tendência ao vício deveria simplesmente sucumbir ao alcoolismo, por exemplo.

    Por fim, o método científico acaba por muitas vezes a obrigar o questionamento das nossas crenças, sob o risco de parecermos tolos aos olhos dos demais. Apesar de não parecer, o mundo é redondo, a luz tem velocidade finita e o universo não tem bordas. Diria você que Einsten, Roemer e Eratóstenes não questionaram suas crenças ao constatar o mundo estranho que observaram?

    • Diego,

      Eu não sugiro absolutamente nada disso que você sugeriu. Eu sugiro que você escolha a opção mais útil de acordo com sua personalidade e suas âncoras, e seus objetivos. Decerto a crença em Deus pode ser reconfortante, mas também é crença reconfortante achar que descrer em um Deus vai melhorar seus resultados ou aumentar sua chance de sobrevivência. Ou mesmo ser a opção mais racional. Mas se neste post eu falei de um indivíduo, em outros eu falo de massas. Não me parece que ateísmo evangélico seja uma opção tão razoável. O discurso aprendido como Carl Sagan é também infantil e irracional. Isto é o que postei.

      Ou seja, você, Diego, deve ser avaliado por seus RESULTADOS e seus ARGUMENTOS, e não é o fato de ser ateu ou teísta que deve lhe garantir qualquer reputação antes disso.

      Esta, sim, é uma visão cética. Você não é um iluminado salvando os outros. É apenas alguém querendo se compreender, como os teístas querem.

      Abs,

      LH

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