A vontade (universal) de crer, por William James

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Quem executa o truque de simulação de ceticismo universal ensinado por Bertrand Russell e Carl Sagan sempre possui uma série de crenças, mas omite esta questão da platéia, para fingir que apenas seu oponente (se este for religioso tradicional ou crente no sobrenatural) as possui. A partir deste momento, ele simulará perante a platéia que “todas as crenças” devem ser submetidas ao método científico, e concluirá dizendo que “as crenças do oponente” não passam pelo método científico. Logo, são falsas. Quem quer que tenha estudado o mínimo da psicologia humana, sabe que estamos diante de uma fraude intelectual, que atinge seu potencial de propaganda exatamente por uma encenação bem feita.

Um ótimo modelo teórico para estudarmos a arquitetura de uma crença, e como qualificá-la, surgiu no pequeno ensaio “A Vontade de Crer”, de William James, filósofo pragmático (e que descambou no futuro para o humanismo, mesmo que tenha sido um humanismo religioso, o que, no fundo, não faz muita diferença). A obra basicamente é uma transcrição de uma conferência dirigida aos grêmios filosóficos da Universidade de Yale e Brown University, publicado em 1896.

A questão trazida por James é a seguinte: “temos o direito de assumir crenças genuínas para as quais não existe uma forma de prová-las como verdadeiras pelo método científico?”. Segundo autores como Bertrand Russell, não podemos, embora o mesmo tenha assumido a crença humanista no governo global, mesmo sem passá-la pelo método científico. É com uma adaptação no framework de James que pegamos este truque mais facilmente, como mostrarei ao final do texto.

James define como opção a decisão entre duas hipóteses (e para ele, hipótese é qualquer coisa que possa ser proposta a uma crença). Ele também define hipóteses como vivas ou mortas – sendo uma “hipótese viva aquela que aparece como uma possibilidade real para a pessoa a quem é proposta”. Segundo James, o caráter “vivo ou morto de uma hipótese não é uma propriedade intrínseca, mas está relacionado ao pensador individual”. Disto ele conclui: “É medido pela disposição do indivíduo para agir. O máximo de vida em uma hipótese significa uma disposição irrevogável para agir. Na prática, isso representa crença; mas há alguma tendência de crença sempre que existe alguma disposição para agir.”.

Observem que James reconhece que as crenças aceitas são influenciadas pelo meio, o que mostraria, por exemplo, por que alguém que nasceu no Irã irá mais facilmente aceitar o Islamismo que o Cristianismo, e alguém que nasceu nos Estados Unidos irá mais facilmente aceitar o Cristianismo que o Islamismo. Da mesma forma, pode explicar por que alguém que nasceu na Suécia pode aceitar mais facilmente o ateísmo do que alguém que nasceu em uma cultura cristã. (Importante: não está sendo feito juízo de valor sobre as crenças)

Segue, então, uma “fórmula” para o mapeamento de opções como genuínas ou não:

[…] vamos chamar de opção a decisão entre duas hipótese. As opções podem ser de vários tipos: 1) vivas ou mortas; 2) forçosas ou evitáveis; 3) prementes ou triviais; e, para nossos propósitos, podemos chamar uma opção de genuína quando ela é do tipo vivo, forçoso e premente.
1. A opção viva é aquela em que ambas as hipóteses são vivas. Se lhes digo: “Sejam teosofistas ou sejam muçulmanos”, esta possivelmente é uma opção morta, porque é provável que, para vocês, nenhuma das duas hipóteses seja viva. Mas, se eu digo: “Sejam agnósticos ou sejam cristãos”, a situação será diferente; pela formação que vocês tem, cada uma dessas hipóteses tem algum apelo, mesmo que pequeno, à sua crença.
2. Em seguida, se lhes digo: “Escolham entre sair com o guarda-chuva ou sem ele”, eu não lhes ofereço uma opção genuína, pois ela não é forçosa. Vocês podem evitá-la facilmente decidindo não sair. De maneira semelhante, se eu digo: “Amem-me ou odeiem-me”, “Chamem minha teoria de verdadeira ou chamem-na de falsa”, sua opção é evitável. Vocês podem permanecer indiferentes a mim, sem me amar nem me odiar, e podem recusar-se a fazer qualquer julgamento a respeito de minha teoria. Porém, se eu digo: “Aceitem esta verdade ou passem sem ela”, eu lhes apresento uma opção forçosa, pois não há nenhuma posição fora das alternativas. Todo dilema baseado numa disjunção lógica completa, sem nenhuma possibilidade de não escolher, é uma opção desse tipo forçoso.
3. Por fim, se eu fosse o doutor Nansen e lhes propusesse participar de minha expedição ao Pólo Norte, sua opção seria premente, pois essa provavelmente seria a única oportunidade semelhante, e sua escolha nesse momento o excluiria de vez da imortalidade proporcionada pela experiência ou, ao contrário, poria pelo menos uma chance disso em suas mãos. Aquele que se recusa a abraçar uma oportunidade única perde o prêmio tão certamente como se tivesse tentado e falhado. Per contra, a opção é trivial quando a oportunidade não é única, quando o que está em jogo é insignificante, ou quando a decisão é reversível se, posteriormente, se revela equivocada. Um químico julga uma hipótese viva o suficiente para que passe um ano verificando-a: ele acredita nela a esse ponto. Porém se suas experiências se mostram inconclusivas em algum aspecto, ele está redimido de sua perda de tempo. Nenhum dano essencial foi causado.

É importante que James traga à tona a questão do cientista químico, pois quando um cientificista diz que todas nossas opções (independente de serem genuínas ou não) devem passar pelo método científico (independente disto ser possível ou não), temos que ter a noção de que está sendo executado um truque psicológico, não uma argumentação dialética. O fato é que de fato existem muitas opções que são triviais ou então são passíveis de serem submetidas ao método científico, mas isso não significa a totalidade das opções. Note também que quando um cientista trata uma hipótese de laboratório como de fato ela é (trivial), isso não significa que ele não tenha suas opções genuínas e que não possam ser testadas pelo método científico. (Atenção, importante: eu não estou dizendo que todas as opções genuínas não possam ser testadas pelo método científico, mas sim que existem opções que ao mesmo tempo são genuínas e que não podem ser testadas pelo método científico, e estas opções são tomadas todos os dias não apenas por religiosos tradicionais, como seculares)

James também refuta a idéia de que “modificamos nossas opiniões de acordo com a nossa vontade”. Bem, de acordo com a PNL (que não existia no tempo de James), podemos de fato influenciar nosso subconsciente através de nossa vontade. Por exemplo, suponha alguém que sofra muito vendo animais sendo mortos. Esta pessoa pode usar âncoras para influenciar a si própria e diminuir este sofrimento. Entretanto, há limites para este recurso, o que demonstraria que nossas opiniões não são submissas à nossa vontade, apenas influenciadas por ela (e, em análises monistas, esta própria “vontade” seria um fruto também do subconsciente, o que daria apenas a “ilusão de vontade”). Neste ponto, quando James diz que “A discussão quanto a acreditar por nossa própria vontade parece então, sob certo ponto de vista, simplesmente tola”, creio que ele está apenas parcialmente correto, pois melhor seria que ele tivesse escrito “acreditar apenas por nossa própria vontade” ao invés de “acreditar por nossa própria vontade”.

A certo momento, James cita um adversário ideológico, William Clifford, famoso por seu discurso cientificista na época. Vejam a declaração de Clifford:

A crença é profana quando conferida a afirmações não-provadas e não-questionadas, pelo conforto e prazer pessoal do crente… Quem quer que deseje a consideração de seus pares nessa questão deve guardar a pureza de sua crença com um verdadeiro fanatismo de cuidado atento, para que ela não venha a pousar de repente sobre um objeto indigno e adquirir uma mancha que jamais poderá ser removida… Se [uma] crença tiver sido aceita com base em evidências insuficientes [mesmo que a crença seja verdadeira, como Clifford explica na mesma página], o seu prazer é roubado… Ela é pecadora porque é roubada em desrespeito a nossa obrigação para com a humanidade. Essa obrigação é nos guardar de tais crenças como de uma peste que pode rapidamente dominar nosso próprio corpo e, depois, se espalhar para o resto da cidade… É sempre errado, em toda parte, e para qualquer pessoa, acreditar em qualquer coisa com base em evidências insuficientes.

A contradição de Clifford é evidente, pois a própria afirmação de que há “uma obrigação para com a humanidade” no aceite de alguém por suas crenças é completamente testável, mas não é comprovada como factual pela ciência. Um leão não possui obrigação “para com a espécie leonina” ao escolher uma leoa para se acasalar, por exemplo. Ou seja, em uma abordagem científica, a opção de Clifford não é sustentada por evidências. A totalidade do discurso cientificista vai sempre pelo mesmo caminho.

James, ao contrário, sugere a seguinte tese: “Nossa natureza passional não só pode, como deve, licitamente decidir-se por uma opção entre proposições sempre que esta for uma opção genuína que não possa, por sua natureza, ser decidida sobre bases intelectuais; pois dizer, nessas circunstâncias: ‘Não decida, deixe a questão em aberto’ é por si só uma decisão passional – assim como decidir sim ou não – e acompanha-se do mesmo risco de perder a verdade”.

Ele fornece uma declaração incômoda em relação ao ceticismo anti-religioso:

“É melhor se arriscar à perda da verdade do que à chance de erro” – esta é a posição exata daquele que veta a fé. Ele está fazendo sua aposta tanto quanto aquele que crê; está se defendendo contra a hipótese religiosa, assim como o crente está defendendo a hipótese religiosa contra seu opositor. Pregar para nós o ceticismo como sendo um dever até que “evidências suficientes” em favor da religião possam ser encontradas é equivalente, portanto, a nos dizer, quando na presença da hipótese religiosa, que ceder a nosso receio de que ela esteja errada é mais sábio e melhor do que ceder à nossa esperança de que ela possa ser verdadeira. Não é, então, o intelecto contra todas as paixões; é apenas o intelecto com uma paixão estabelecendo a sua lei.

Isto, aliás, é bem óbvio e coerente com os estudos científicos que dizem que o ser humano não pode ser considerado desapegado de suas paixões. O “validador universal”, independente de paixões, que julgaria as coisas de forma imparcial (ou seja, o cético universal) simplesmente não existe. Embora a abordagem de James pareça defender a religião, ela está mais para o que eu definiria como neo-agnosticismo (conforme defendia Robert Anton Wilson), no qual o agnosticismo não se impõe como uma “verdade”, nem mesmo em relação à idéia de que certas verdades são incognoscíveis.

Em relação ao que define com “regras agnósticas para busca da verdade”, James diz o seguinte:

[…] eu, pessoalmente, não vejo como aceitar as regras agnóstica para a busca da verdade, ou concordar voluntariamente em manter minha natureza volitiva fora do jogo. Não posso fazer isso por esta simples razão: uma regra de pensamento que me impedisse completamente de reconhecer certos tipos de verdade, se esses tipos de verdade de fato estivessem presentes, seria uma regra irracional. Este para mim é o resumo da lógica formal da situação, quaisquer que possam ser, materialmente, os tipos de verdade.

A conclusão dele, portanto, aparenta extrema tolerância:

De uma forma ou de outra, nós agimos, tomamos nossa vida em nossas mãos. Nenhum de nós deveria impor vetos aos outros, nem nos atacar mutuamente com palavras grosseiras. Deveríamos, ao contrário, respeitar profundamente e sensivelmente a liberdade mental uns dos outros: apenas então poderemos constituir a república intelectual; apenas estão teremos este espírito de tolerância interior sem o qual a nossa tolerância exterior é desprovida de alma; apenas então viveremos e deixaremos viver, tanto nas coisas especulativas como nas práticas.

Claro que aqui preciso me defender. Tudo isto seria aceitável, não fosse o fato de que as crenças religiosas de uns afetam a vida dos que nela não acreditam. Assim, uma mulher que quer abortar (e esta é uma opção genuína para ela, portanto deveria estar enquadrada no espectro de crenças, tratado por James) terá sua vida afetada por aquele que, por sua religião, não quer permitir o aborto. Novamente, isto não é uma definição de juízo de valor, mas uma constatação lógica da aplicação do modelo de James.

Meu questionamento seria o seguinte: “este modelo de tolerância vale também para as opções genuínas daqueles que estão fora da crença?”. Caso valham, não vejo problemas. Humanistas atacam religiosos tradicionais não por que “estão do lado da razão” ou “da ciência” (conforme já mostrei aqui várias vezes), mas por que os religiosos tradicionais possuem opções que interferem na vida dos humanistas. Entretanto, eliminando a “tolerância” proposta por James (e considerando todo o resto de sua lógica como correta), os humanistas também devem ser atacados em sua crença (que não passa de uma opção genuína e que, mesmo passível de prova pelo método científico, não passou nele), pelo fato de que ela interfere na vida dos que nela não crêem.

Embora a lógica de William James seja lúcida até quase o seu final (quando propõe uma tolerância inviável, pois a própria ação em relação aos oponentes políticos é uma opção genuína), ela termina sendo utilizada para que eu possa dar sustentação ao paradigma de ceticismo político aqui defendido.

Primeiro, pela constatação de que opções genuínas e que não sejam passíveis de validação científica (ou que, mesmo sendo passíveis, não tenham passado pelo método científico) não são apenas exclusividade dos religiosos tradicionais, mas também dos religiosos políticos (que são meus adversários). Segundo, pela noção de que a tentativa de se tratar uma opção genuína que não é passível de validação pelo método científico como se fosse (ou seja, mentir sobre a possibilidade do teste) é algo que tem sido usado costumeiramente pelos cientificistas. Temos também um detalhe irônico que prejudica os religiosos políticos, mas não os religiosos tradicionais. Religiosos políticos possuem várias opções genuínas que podem ser testáveis pelo método científico, e que foram invalidadas por ele (exemplo: crença no homem, fraternidade univeral, ultra-altruísmo universal, predisposição à sociedade sem classes, etc.), enquanto que os religiosos tradicionais possuem várias opções genuínas que não podem ser testadas pelo método científico. Ou seja, o primeiro grupo está refutado em suas crenças, e o segundo ainda não (embora não possa querer validá-las ao ponto da imposição sobre os outros).

Lembremos também que  são os cientificistas (e todos humanistas incluídos) que alegam que “todos os dogmas, ideologias e tradições religiosas, políticas ou sociais devem ser discutidos, avaliados e testados, e não simplesmente aceitos por questão de paixão ou fé”. A regra de tolerância proposta por James, portanto, serviria apenas para os religiosos tradicionais, pois os religiosos políticos (no caso dos humanistas e positivistas), simplesmente recusaram esta regra, ao assumirem em público que “independente da crença ser genuína, ela deve ser submetida ao método científico”. Por isso, quando Clifford afirma que alguém está em falta por “desrespeito a nossa obrigação para com a humanidade”, ele não encontrou essa obrigação pelo método científico, portanto está mentindo. Este tipo de regra vale para tudo que gente como Russell, Sagan, Krauss, Dawkins e Harris escreverem e que não for sustentável cientificamente.

P.S.: Agradecimentos ao leitor Acauã, que me enviou este livro de presente, dentre outros, que foram utilíssimos para o aumento da robustez dos 3 paradigmas cá defendidos.

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2 COMMENTS

  1. Interessenta Luciano.
    A propósito, meu mestrado é sobre o James.
    Só corrigindo uma coisa: “que descambou no futuro para o humanismo, mesmo que tenha sido um humanismo religioso, o que, no fundo, não faz muita diferença”

    James não é bem um humanista do modo com estamos acostumados, na verdade, sua filosofia é panteísmo pluralista ou empirismo radical. James lutou a vida toda contra reducionistas cientificistas, absolutistas, anti-religiosos…

    Abraços
    Francisco

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