Ataque ao humanismo não é o mesmo que apoio à religião tradicional

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Erich Fromm, autor humanista

O ataque e a desmoralização (fácil de se fazer, diga-se, pois chega a ser covardia bater em alvo tão fácil, embora não atacado com tanta constância quanto defendo) do humanismo não implica, a meu ver, em uma defesa da religião tradicional. Esta é a confusão que muitos podem fazer ao me ver transformando o material de autores como Richard Dawkins, Sam Harris, Richard Carrier e John Loftus em pó. Alguns já disseram que inclusive eu faço “o trabalho do Senhor”. Nada mais equivocado.

Vamos a alguns esclarecimentos, portanto. Tecnicamente, eu não tenho nada contra a religião tradicional, desde que ela não interfira em minha vida. E, em alguns casos, interfere. E nestes casos me posicionarei contra. A partir do momento em que a religião tradicional não interferir significamente em minha posição de incréu, não me posicionarei contra. A exibição de um crucifixo em uma repartição pública, por exemplo, não me incomoda nem um pouco. Todos os meus textos são escritos através da minha perspectiva, uma perspectiva secular, que se vê no direito de tentar, na medida do possível, ver a religião “do lado de fora”. Digo “na medida no possível”, pois sei que automaticamente todos nós somos influenciados pelo meio, e o simples fato de eu viver em um país de cultura cristã nos faz assumir por osmose estes valores, sendo seculares ou não.

Mas se minha posição em relação à religião tradicional é de uma independência tolerante, o mesmo não pode ser dito em relação à religião política, em especial na sua manifestação-maior, o humanismo. O motivo básico é muito simples: se a religião tradicional pode interferir nas vidas daqueles que nela não creem, a religião política é feita para interferir nas vidas de todos, crendo nela ou não. Por não ser islâmico, eu não preciso rezar em direção a Meca cinco vezes por dia. Por não ser cristão, eu não preciso comungar. Mas mesmo não sendo humanista, eu sou obrigado a tolerar um aumento de criminalidade trazido pela ingênua tolerância ao crime que enraizou-se no pensamento de esquerda por causa da noção de que “o homem é bom, a sociedade é que o corrompe”. Mesmo não sendo humanista, sou obrigado a aceitar o uso da máquina do estado para propagandas gayzistas que não apenas insistem em redução da discriminação aos gays como também na imposição do comportamento gay para cima daqueles que não o acham normatizado. Por isso diz-se, novamente, que a religião política é feita para interferir na vida de todos, mesmo aqueles que não creiam nela.

Sendo que o impacto da religião política é muito maior que o da religião tradicional (olhando pela perspectiva dos incréus, tanto da primeira como da segunda), é claro que, se as premissas da religião política são ainda mais condenáveis que as da religião tradicional, devemos priorizar de forma qualitativa e quantitativa os ataques a este tipo de doutrina. E é exatamente isso o que faço. Logo, quando eu refuto um texto imbecil de John Loftus, não o faço pensando em apoiar o cristianismo, mas em refutar o humanismo. Da mesma maneira, quando defino Richard Carrier (ver série O fracasso absoluto da moral humanista, aqui, aqui e aqui) como um psicótico desonesto, não o faço para endossar o cristianismo, islamismo ou judaísmo (como deixei bem claro nos textos, já que deixei a opção em aberto para até uma moral secular competir com estas), mas para demonstrar que o humanismo é fraudulento por si só.

As próprias iniciativas de Sam Harris e Richard Carrier, para definir uma moral única, que “todos obrigatoriamente devem seguir” (nas palavras de ambos), e que seria “definida pela ciência”, demonstram que os humanistas, como sempre, pensam em obtenção de poder totalitário. Claro que a tal “moral absoluta” é uma mentira desavergonhada, mas mentir é o que os humanistas fazem com mais talento. Um cristão não passa atualmente o dia pensando em te obrigar a seguir o mesmo que ele, mas um humanista só pensa nisso o dia todo. Um judeu consegue suportar o fato de saber que você jamais vai usar um solidéu como o dele se não for judeu, mas um humanista não consegue tolerar o pensamento dissidente. Desde que Kant enganou uma legião de incautos simulando que a verdade absoluta estava do lado de uma legião que “buscava a razão” (e portanto aqueles que enganassem a patuleia usando rotinas para simular que eram os “donos da razão” ganhavam o jogo), esse totalitarismo não saiu mais da mente humanista. Ele se tornou a regra.

Por todas as devastações já causadas no século XX, e que são uma fichinha perto do que pode ser feito com essa ideologia considerando a tecnologia de morte que temos (e basta surgir um período de crise, para que as oportunidades de matança sejam aproveitadas), o humanismo é a mais perigosa de todas as ideologias. Combater tal tipo de visão é lutar contra o totalitarismo. Hoje em dia há pouquíssimos riscos da implantação de uma teocracia  no Ocidente, mas o mesmo não pode ser dito dos humanistas. Religiosos tradicionais estão acostumados a admitir a divergência e conviver com aqueles que não compartilham de sua doutrina, ao contrário dos humanistas, que jamais conseguiram desenvolver esta habilidade. Pelo contrário, dia após dia eles desenvolvem técnicas para a implantação do poder totalitário.

Desta forma, o ataque ao humanismo precisa ser dissociado do apoio à religião. Na verdade, o ataque ao humanismo pode ser feito tanto por um religioso tradicional querendo evitar que sua religião seja solapada por uma religião totalitária, como por um secular que não quer a estipulação de uma religião totalitária nos dizendo como nos vestir, que gostos devemos ter e daí por diante. Neste ponto, um ateu não-humanista e um religioso tradicional devem unir esforços no metralhamento impiedoso das alegações e truques humanistas, mas que as coisas fiquem claras: alianças não significam perda de identidade de cada um dos grupos. Se um religioso tradicional quiser continuar acreditando no nascimento virginal, que o faça, e o respeitarei desde que isso não seja imposto a mim; mas, da mesma forma, ele terá que encontrar meios de não atacar alguém somente por que não acredita em sua crença. Existindo este tipo de acordo (o qual é possível, como se pode ver no fato de que pelo menos metade dos leitores deste blog são cristãos, senão até mais), a união de esforços para ataque ao humanismo será até mais eficiente. (Sempre lembrando que o ataque ao humanismo implica no ataque à ingênua crença no homem, e, por consequência, no ataque à toda esquerda)

Conclui-se, então, que a luta contra o humanismo é uma luta contra a tirania, e que, se a religião política é feita unicamente para a obtenção deste poder tirânico, ateus e agnósticos não-humanistas e religiosos tradicionais devem se unir. Ao unir pessoas de várias doutrinas, inclusive descrentes, juntos contra uma ideologia totalitária, estamos também demonstrando tolerância entre diferentes, pois temos vários grupos de opiniões divergentes unidos contra um adversário em comum. Se os humanistas alegam que religiosos tradicionais são intolerantes, a união de cristãos, judeus e islâmicos com ateus não-humanistas para lutar contra o humanismo seria uma prova exatamente do contrário do que os humanistas alegam. Há ou não um gostinho especial nisso?

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