Um Raio X das regras para radicais de Saul Alinsky – Introdução

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Esta é uma série que se inicia onde farei uma análise da obra seminal do esquerdista radical (esta é uma auto-definição do próprio) Saul Alinsky: “Rules for Radicals”. O subtítulo é “A Pragmatic Primer for Realistic Radicals”. (Atenção: eu não me esqueci da série “Bertrand Russell e os Ensaios Crédulos”, mas como a série de Russell possui textos mais longos deixarei-os para publicação um a cada final de semana, sendo o próximo programado para sábado, 27/10)

A importância de vocês conhecerem esta obra é que, finalmente, terão a chance de “entrar na mente” do maior arquiteto da esquerda atual norte-americana. Se Antonio Gramsci pode ser mencionado como o idealizador de uma estratégia, Alinsky é como se fosse um gerente. Gramsci como o estrategista, Alinsky como um elaborador de táticas para se alcançar a estratégia. Ademais, Alinsky não se distancia em momento algum da estratégia gramsciana. Na verdade, ensina a implementá-la.

Ao contrário da maioria das análises que faço aqui, como as que já fiz sobre Richard Dawkins, Sam Harris, Bertrand Russell, William James ou outros autores, meu tom será bastante diferente. Não será um tom de refutação ou endosso, mas de análise detalhada, com ênfase no aprimoramento das técnicas definidas por Alinsky e em como elas podem ser adaptadas pela direita para atuação dentro do contexto da guerra política. Portanto, peço que se acostumem com uma “mudança de estilo” em relação ao meu habitual para visualizar aqui uma análise praticamente imparcial do material de Alinsky, pois o meu desafio é honrar o título desta série: raio X. Claro que apontarei discordâncias vez por outra entre o ponto de vista de um conservador de direita como eu e de um esquerdista, pois nem todas as técnicas podem ser basicamente reconstruídas.

A pergunta é: por que conhecer o pensamento e o método de Saul Alinsky é tão importante para a direita? A resposta é por que simplesmente você conseguirá, após conhecer este livro (e é o que esta análise lhe fornecerá) as regras pelas quais os esquerdistas hoje funcionam em um nível tático. Ou seja, é a cartilha de ação deles. Se no material de Gramsci haviam pistas, aqui existe um completo roadmap com uma metodologia pronta.

Torna-se ainda mais urgente conhecer esta obra pelo mero fato de que os esquerdistas de fato estão à milhas de vantagem em relação aos conservadores de direita no jogo político. Isso se deve à prática, além do fato dos esquerdistas terem acesso a este livro logo que ele foi escrito, em 1971. Do lado dos conservadores, somente após a eleição de Barack Obama pararam para investigar o que estava nesta cartilha, que sempre foi um material de inspiração para o atual presidente norte-americano. A tese de mestrado de Hillary Clinton foi baseada na obra de Saul Alinsky. Estamos simplesmente falando do arquiteto das táticas da esquerda atual que funcionam hoje nos Estados Unidos, e tem sido importadas para cá com extremo sucesso. Se você quiser entender a arquitetura por trás do discurso humanista pró-ONU ou dos marxistas do PT, assim como dos humanistas radicais da linha Dawkins, a formula está aqui.

Por que os esquerdistas dominam a arte da polarização? A resposta está aqui. Por que é tão fácil para eles ridicularizarem seus oponentes? A resposta está aqui. Como as vezes parece tão fácil (de forma até artística) eles colocarem seus adversários em verdadeiras armadilhas, jogando, certas vezes, até com as regras do outro? Novamente, ficará muito mais fácil você entender isso aqui.

Estamos prontos para começar a jornada por dentro da mente de Saul Alinsky.

Prólogo

Saul Alinsky nasceu em 1909 e morreu em 1972, um ano depois a publicação deste “Rules for Radicals”. Ele não teve a felicidade de ver que seu trabalho gerou frutos dos quais a esquerda se alimenta vigorosamente até hoje (aliás, cada vez mais), enquanto os conservadores de direita ficam zonzos sem perceber o que está acontecendo com eles.

Alinsky, mesmo aos 62 anos na época do lançamento do livro, tinha sua cabeça sintonizada corretamente no que diz respeito à guerra cultural. Escrevia para os jovens, que estavam para entrar ou já estavam nas universidades. Uma boa parte do seu público na época era composta de líderes sindicais, hippies (especialmente aqueles contra a guerra do Vietnã), feministas e adeptos dos movimentos de quaisquer outras minorias.

Segundo ele “a força revolucionária” lembrava em certos pontos os “primeiros cristãos”, mesmo que ele reconhesse que estes mesmos revolucionários, em sua visão, “proclamavam a violência e gritavam ‘Derrubem o sistema!’”. Uma das forças mais marcantes em sua análise, todavia, estava naquilo que ele definia como ao mesmo tempo “ausência de ilusões em relação ao sistema, mas muitas ilusões a respeito de como mudar o mundo”, um sinal de que ele tinha consciência de sua utopia. Logo no primeiro parágrafo ele diz que as páginas que o leitor estava por ler “foram escritas em desespero”.

Em uma entrevista à Playboy em 1972, dois meses antes de sua morte, ele disse que “se existisse vida após a morte, e me fosse perguntado a respeito, eu escolheria sem pestanejar a oportunidade de ir para o inferno”. O entrevistador lhe perguntou os motivos, recebendo a resposta, em retorno: “O inferno seria um paraíso para mim. Toda minha vida eu estive juntos aos que não tem. Por aqui, se você é um que não tem, você não está aderente à massa. Mas se você é um que não tem no inferno, é pouco virtuoso. Uma vez que eu chegue ao inferno, começarei a organizar os que não tem por lá”.

Suas idéias já eram adaptadas no início dos anos 60 para uso pela esquerda nas universidades americanas por causa de sua obra “Reveille for Radicals”, escrita em 1946. Ali já haviam soslaios de sua idéia a respeito do que seria um radical, mas a forma detalhada de como ele devia agir para projetos de conquista de poder está em “Rules for Radicals”. Entre as duas obras, ele escreveu apenas “John L. Lewis: Na Unauthorized Biography”, em 1949, dedicando o resto do seu tempo a vários tipos de militâncias.

Embora como veremos suas idéias são inspiradas no marxismo, ele luta para não se identificar com eles, preferindo se auto-rotular como parte de “uma esquerda independente” (embora seu modelo de categorização das classes seja uma réplica do modelo esquerdista, apenas com outra terminologia, como veremos no próximo post da série). Ele também era um crítico ferrenho da forma de atuação radical e violenta de alguns esquerdistas da época. Segundo ele, esse tipo de “participação democrática ‘ativista’se transforma em sua antítese – assassinatos e explosões niilistas”. Por isso ele sempre dizia se distanciar das “panacéias do passado, como as Revoluções na Rússia e China, que se tornaram a mesma coisa de sempre apenas sob um nome diferente”. Em sua visão, “a busca pela liberdade não parece ter uma estrada ou destino”.

Para Alinsky, se uma Declaração da Independência fosse escrita por jovens em 1971, trataria de questões “ do Vietnã e da população negra, das vidas nos guetos mexicanos e porto-riquenhos, dos trabalhadores imigrantes, da Appalachia, do ódio, ignorância, doença e fome no mundo”. Segundo ele, “uma carta de direitos enfatizaria o absurdo das relações humanas e do desamparo e vazio, assim como da solidão terrível que resulta de não sabermos se há algum significado para as nossas vidas”. A causa revolucionária, dos “radicais”, seria essa causa para as vidas dos jovens compondo o público alvo de Alinsky. A obra traria, nas palavras do autor, “a experiência e o conselho pelos quais muitos jovens o questionaram em sessões que duravam por toda a noite em centenas de campus na America”. Conclui Alinsky: “Esta obra é para aqueles jovens radicais que são comprometidos com a luta, comprometidos com a vida”.

Ele afirma que “existem certos conceitos centrais de ação na política humana que operam independente da cena ou tempo”. Conhecer estes conceitos de ação “é básico para que um ataque pragmático seja feito ao sistema”. Aqui quero ressaltar que, para a absorção melhor do que Alinsky tem a dizer, atacar um sistema de altos impostos, por exemplo, é também um ataque ao sistema, só que um ataque ao sistema esquerdista. Em minha análise, ataques ao sistema deixam de ser, portanto, exclusividade dos esquerdistas. Por outro lado, o rótulo “radical”, utilizado por Alinsky, é útil para ele, mas não sei se os conservadores de direita deveriam utilizá-lo.

Um dos pontos mais contundentes do material é a abordagem realista (atenção: apenas no contexto da guerra cultural, é claro). Observem como Alinsky apresenta suas regras: “Estas regras fazem a diferença entre ser um radical realista e aquele retórico que utiliza as velhas palavras e frases de efeito, chamando a polícia de ‘porcos’ ou ‘racistas fascistas brancos’ ou ‘filhos da puta’, tornando a si próprio tão estereotipadosque outros reagem a ele dizendo: “Oh, ele é um daqueles”, e então o desprezam”. Enfim, se Alinsky possui suas utopias particulares, ao menos ele é realista em relação ao contexto da guerra política, e este é seu diferencial. Crítico à própria atuação dos esquerdistas em seu tempo, ele diz: “A falha de muitos de nossos jovens ativistas em entender a arte da comunicação tem sido desastrosa”. Em resumo, há também uma comparação da inutilidade de se pisar sobre a bandeira americana, e ele sugere que para ampliar a comunicação com a platéia deve-se saudar a bandeira, e, em cima dela, proclamar seus valores, mesmo que diferentes do inimigo. Caso um radical de fato entenda que usar cabelos longos “cria barreiras psicológica para comunicação e organização, ele deve cortar seu cabelo”. Caso se organize uma manifestação em uma comunidade judaica ortodoxa, “não se deve andar por lá comendo um sanduíche de presunto, a não ser que o objetivo seja ser rejeitado e arrumar um pretexto para desistir da luta”.

Outro diferencial do material é a defesa do uso do humor. Para Alinsky, “em outro nível de comunicação, humor é essencial, pois através do humor muito é aceito ao contrário do que ocorreria se o mesmo material fosse apresentado seriamente. Esta é uma geração triste e solitária. Ela ri muito pouco, e isto também é trágico”.

Embora crente em seus ideais, Alinsky diz: “Como organizador, eu parto de onde o mundo é, e como ele é, não como eu gostaria que fosse. Que nós aceitemos o mundo como ele é não enfraquece, de qualquer forma, nosso desejo de mudá-lo para o que nós acreditamos que deve ser”. No que um conservador de direita poderia contra-argumentar que o mundo já está “mudado” de acordo com as perspectivas esquerdistas, incluindo as de Alinsky (exemplo: estado inchado), portanto um mundo com redução do tamanho excessivo do estado, também é uma perspectiva de mudança. Logo, lemas como “hope for the change”, declarados por Obama, serviriam também para alguém da direita. No Brasil, há um debate sobre a redução da maioridade penal. Esta é uma proposta da direita, e uma “mudança” na impunidade, e um ataque ao sistema de impunidade criado pela esquerda. Atenção: o discurso de “mudança” não pode ser esquerdista apenas. E sendo que há mudança, ela deve ocorrer, para Alinsky “trabalhando-se dentro do sistema”.

Ele cita uma outra razão para se trabalhar a partir de dentro do sistema, citando Dostoevsky, quando este reconheceu que “dar um novo passo é aquele que as pessoas mais temem”. Assim, “qualquer mudança revolucionária deve ser precedida por uma atitude passiva, afirmativa, distante de desafios a respeito da mudança pela opinião pública”. Alinsky diz que “eles devem se sentir tão frustrados, tão derrotados, tão perdidos, tão sem futuro no sistema vigente que estejam dispostos a abandonar o passado e apostar no futuro”. Esta aceitação seria “a reforma essencial a qualquer revolução”. Para convencer a opinião pública em massa (incluindo a classe média e os pobres) a aceitar seus ideais é preciso “atuar de dentro do sistema”.

Uma metáfora sobre a paciência é uma das partes mais interessantes do prólogo:

Nossos jovens são impacientes com as preliminares essenciais às ações que gerem resultado. A organização efetiva é frustrada pelo desejo para mudança instantânea e dramática, ou como eu citei anteriormente pela demanda pela revelação ao invés da revolução. Este é o tipo de coisa que vemos nas peças de teatro; o primeiro ato introduz os personagens e o argumento, no segundo ato o argumento e os personagens são desenvolvidos ao passo que a peça vai obtendo a atenção da platéia. No ato final o bem e o mal tem sua confrontação dramática e a resolução. A geração atual quer ir direto ao terceiro ato, pulando os dois primeiros, e em tais casos não há sequer uma peça, nada além de confrontação pela causa da confrontação – uma luz é ofuscada, com o consequente retorno às trevas. Para se construir uma organização poderosa gasta-se tempo. É tedioso, mas esta é a maneira pela qual o jogo é jogado – isso se você quiser jogar e não apenas gritar “Matem o império”.

Para ele, sair citando frases de “Mao, Castro e Guevara” não vai funcionar em uma cultura americana na qual estes seriam quase alienígenas. Aliás, ele diz que nos países comunistas há menos liberdade do que na América, e isso deveria ser aproveitado pelos radicais.

Um ponto de discordância minha é quando Alinsky diz: “Aqueles que, por quaisquer combinação de razões, encorajam o oposto da reforma, se tornam aliados irrestíveis da direita política”. O problema é que aqui, como já mostrei, ele toma “mudança” como apenas algo inerente à esquerda. E esta terminologia é uma que precisamos eliminar do nosso vocabulário. Se conseguimos reduzir impostos, isso é uma “mudança” da direita, mas se os impostos são aumentados, isso é uma “mudança” da esquerda. Se há aumento de punição para criminosos, isso é uma “mudança” da direita, mas se há retirada de punição aos criminosos, isso á uma “mudança” da esquerda. Isto defende satisfatoriamente minha tese de que, embora não sejamos “revolucionários utópicos”, ou “radicais”, a luta pelo processo de mudança é uma constante em pessoas tanto da direita como da esquerda, especialmente aqueles que estejam em oposição ao sistema. Somente com a retirada destes truques semânticos (“mudança é da esquerda”, “reacionários são da direita”) de nossa mente, conseguiremos assimilar melhor este conteúdo.

Próximos “capítulos” em análise

  1. O propósito
  2. Dos meios e fins
  3. Uma palavra sobre palavras
  4. A educação de um organizador
  5. Comunicação
  6. No começo
  7. Táticas
  8. A gênese do representante tático
  9. Muito à frente
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9 COMMENTS

  1. Post fantástico e inspirador. Como conservador, sinto falta de materiais assim publicados no Brasil. Aguardo ansiosamente os próximos capítulos.

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