A noção da responsabilidade do oponente de uma idéia

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A maior mudança comportamental que defendo através do uso do paradigma defendido por este blog é a noção da responsabilidade que o oponente de uma idéia possui. Este é, em última instância, aquele que poderá colocar freios em uma idéia ruim e que gere vantagens a um oponente seu, muitas vezes em detrimento de você. Isto, é claro, contradiz absolutamente tudo que Kant, Hegel e Russell escreveram sobre as “esperanças na razão humana como o julgador universal” de todas as questões.

Esse tipo de noção é mais particularmente importante em uma época onde o apelo à autoridade se tornou a regra do discurso público. Basta ouvirmos um humanista abrir a boca e ele já começará com pregações como “eu valido minhas próprias idéias”, ou “como sou adepto da ciência, minhas idéias são aquelas que passaram pelo método cientifico”. Nada contra a ciência, mas simplesmente contra a simulação de que alguém passa suas idéias pelo método científico, quando na verdade nunca faz isso de fato, a não ser para questões triviais que tem pouco a ver com a batalha política.

Quando Kant dizia que “a razão humana deveria ser o juiz supremo de todas as ações” ele implicava na idéia de que o ser humano possuía um tribunal mental (onde havia advogados de acusação e defesa para cada idéia, assim como um juiz). Hegel afirmava haver um espírito na história, e que as eternas batalhas dialéticas, com tese, antítese e síntese para todas elas, levariam o ser humano à “suprema liberdade”, a ocorrer em Terra. Em “Ensaios Céticos, Russell diz que seus sistema de pensamento é baseado na seguinte proposição: “É indesejável acreditar numa proposição quando não há a menor base para supô-la verdadeira.”. Provavelmente ele queria nos fazer acreditar que não acreditava em nenhuma idéia para a qual não existisse base para supô-la verdadeira, logo seria um ser humano mais “confiável”. Erich Fromm dizia ter o “otimismo quanto à satisfação das mais agradáveis esperanças da humanidade, a consecução da felicidade máxima para o maior número”.   Todos os quatro erram miseravelmente por que partem de uma premissa falsa: o ser humano busca a verdade universal e é capaz de fugir de suas paixões e contingências nesta busca, e, portanto, o pote de ouro ao fim do arco íris (a felicidade universal) seria uma realidade. Um mero estudo da natureza humana de fato mostra que esse pote de ouro não passa de uma miragem.

É bastante razoável supor que de fato exista um “desejo” humano de ver a felicidade ampliada para o maior número possível de pessoas, mas é infantil e ridículo supor que as paixões humanas serão superadas nesta busca. É o mesmo que achar que por que todos desejamos ouvir a verdade, com a visão de um mundo baseado na verdade (com o ideal de eliminação da mentira), chegaremos a um dia onde todos viverão como aquele personagem do filme de Jim Carrey, “O Mentiroso”, que não conseguia dizer mentiras. O fato é que as contingências do dia a dia e a luta por auto-preservação, bem como a disputa por recursos e o eterno gregarismo de qualquer espécie (e a espécie humana não foge disso), continuarão fazendo com que o ser humano minta sempre que necessitar. A tendência, aliás, é que as mentiras aumentem em culturas nas quais as pessoas ficam cada vez menos preparados para identificá-las. Eis então que meu paradigma se coloca no exato oposto às propostas dos quatro autores citados, bem como de todos os crentes no homem.

Vamos aos fatos que são doloridíssimos aos que ainda nutrem alguma esperança em relação ao homem:

  1. A ciência é fantástica, e devemos torcer por ela sempre que possível, mas ela não fará nada em favor de dar informações objetivas a respeito de como nós devemos agir moralmente.
  2. A razão é um instrumento poderoso da mente humana, e sempre devemos recorrer à ela. Mas o fato é que você somente o fará quando for vantajoso para você. Ou você já viu alguma mulher discutir racionalmente todos os jogos amorosos dos quais ela foi vítima? Claro que não, e jamais verá, pois para ela é melhor editar essa informação de sua mente e curtir o momento. Tente puxar uma discussão racional a respeito de como ela é vítima de uma arquitetura de jogos amorosos e ganharás uma inimiga. A razão, enfim, mesmo poderosa, é um instrumento a ser usado conforme a conveniência do usuário. (Isso não nos impede de discutir racionalmente uma questão, mas não demorará para que as paixões humanas interfiram)
  3. O ceticismo é uma ferramenta devastadora para questionar conhecimentos inválidos e que foram estipulados como válidos por alguma autoridade. Entretanto, o ceticismo somente será utilizado conforme a conveniência de seu usuário. Quem já viu qualquer negociação corporativa, sabe que cada um dos lados não vai olhar “ceticamente e de forma desinteressada” para as questões, apenas para aquilo que lhe é mais conveniente. Sim, eu sei, a verdade sobre o que é o ser humano é incômoda aos utopistas, mas é assim que as coisas são.
  4. Ciência, razão e ceticismo somente serão utilizados, portanto, conforme a conveniência de seus usuários. Exemplo evidente está no humanismo: eles alegam lutar pela ciência, mas não submetem a tese de que o “ser humano vai criar o paraíso em Terra” ao método científico; e por conseqüência esta não é uma idéia vinda da “razão desinteressada” e nem foi submetida a qualquer tipo de escrutínio cético. Entretanto, eles propagam tal idéia por ela gera benefícios políticos a eles.
  5. Quem quer que afirme que ciência, razão e ceticismo são os mecanismos pelos quais “validam suas próprias idéias” está, portanto, mentindo exatamente para obter a autoridade que esta afirmação pode prover. Desta forma, alguém dizer que está “do lado da ciência, razão e ceticismo”, em prol de obter autoridade, não é diferente de alguém que dizia, no passado, estar “do lado de Deus”, para posteriormente obter a sumissão dos demais. Enfim, essa é a tese dos novos pajés, que usam âncoras diferentes para a submissão psicológica dos demais.

Estes cinco pontos observados acima sustentam, com absoluta solidez, a noção de que não devemos confiar no auto-julgamento humano, especialmente quando alguém diz “que já valida suas próprias idéias”. Certos momentos eu fico até incomodado de ser alguém que está explicitando algo tão óbvio, mas que, infelizmente, muitos dificilmente se apercebem e, portanto, acabam sendo vítimas de ideólogos que sustentam suas idéias em Kant e Hegel, por exemplo. É claro que podemos confiar em descobertas científicas a respeito da cura de uma doença, por exemplo, até por que dificilmente surgirá um grupo político relevante que não quer esta cura. Entretanto, para as questões que tem efeito político, esta “razão universal” não se aplica. Em resumo, coisas como um ceticismo puro e desinteressado, uma visão estritamente científica para todas as questões da vida e a razão como instrumento do julgamento são contos da carochinha, tudo isso mesmo que não possamos negar a importância vital da ciência para resolver vários problemas da espécie humana (e nos dar descobertas que melhorarão nossa vida), a razão como instrumento para direcionarmos melhor nossos esforços, sejam eles individuais ou de grupo, e o ceticismo como ferramenta para questionar as idéias inválidas estabelecidas.

Eis então que a conclusão desta análise realista da espécie humana é implacável: se nós não julgarmos um oponente nosso que esteja fazendo uso de idéias inválidas e que ao mesmo tempo o ajudem e nos prejudiquem (como a disputa territorial é inegável, geralmente é isso que acontece), não é ele que o fará. Na verdade, o seu oponente não irá aplicar o “ceticismo” em relação às suas próprias idéias. Ao contrário, o critério de validação para ele será: “Estou obtendo o benefício da aceitação destas idéias?”. Se ele estiver obtendo o benefício da aceitação de uma idéia, ótimo, se não, ele pode repensar. Isto vale para os dois lados de qualquer questão política, diga-se de passagem. Veja o que disse Olavo de Carvalho no texto “O Inimigo é um Só”:

O caso de Diderot é particularmente ilustrativo. Em A Religiosa ele conta a história de uma pobre moça mantida num convento contra a vontade. A imagem abominável das freirinhas prisioneiras, posta em circulação por ele e por outros iluministas muito antes da publicação póstuma do livro em 1796, tornou-se um símbolo condensado de todos os crimes que o furor da propaganda anticristã atribuía à Igreja. Na voragem da Revolução de 1789, o símbolo transfigurou-se em crença literal. Muitos dos revolucionários que invadiam conventos, matando monges e freiras a granel, juravam piamente estar fazendo isso para libertar as virgens encarceradas que, segundo imaginavam, deviam superlotar os porões dos claustros. Quando oitenta abadias, monastérios e casas de religiosas de Paris já tinham sido invadidos e muito sangue derramado, a Assembléia Constituinte, perplexa, recebeu a notícia de que por toda parte as freiras e noviças tinham sido unânimes em proclamar a fidelidade ao seu estado, mesmo quando já iam subindo a escada da guilhotina. Tal era o espírito das “prisioneiras”.

Diderot, embora morresse cinco anos antes da Revolução, não pode no entanto ser facilmente desculpado pelos efeitos criminosos de um ódio que ele instigou conscientemente. Não o pode, sobretudo, porque ele sempre esteve informado de que não havia e não podia haver nenhuma prisioneira nos conventos, de que todas as freiras estavam ali por vontade própria, inclusive aquela em que ele se inspirou para escrever o romance, a irmã Delamarre, do convento de Longchamps. Foi tudo uma falsificação premeditada.

Durante muito tempo, o mundo inteiro acreditou na versão de Diderot, que afirmava ter em seu poder a documentação completa do caso Delamarre. De fato, o dossiê estava nas mãos dele, mas desapareceu logo depois de publicado o romance. Reencontrado em 1954 pelo pesquisador George May, sua leitura mostra que Diderot estava ciente dos seguintes fatos:

1) Em Paris havia quatro tribunais, eclesiásticos e civis, para julgar solicitações de dispensa da carreira monástica, e a regra geral era atender a todos os pedidos.

2) A seleção das monjas era rigorosíssima. O empenho da Igreja era livrar-se das falsas vocações, e não retê-las à força.

3) Exatamente ao contrário de uma prisioneira do convento, a irmã Delamarre era a porteira, tinha as chaves e podia entrar e sair quando quisesse.

4) O único processo aberto pela srta. Delamarre era uma pendência de espólio com uma parente. Para receber a herança, um título nobiliárquico, a freira tinha de deixar a ordem religiosa. Mas logo depois, tendo desistido de disputar o legado, ela voltou alegremente ao convento.

Diderot sabia de tudo isso, e a correspondência entre ele e seu amigo Jacob Grimm mostra que o romancista “estourava de rir” (sic), com a falsificação meticulosa que ia armando em torno da história. Divertia-se não só com a alegria feroz de caluniar, mas chegava ao requinte de uma crueldade mental muito mais direta. Ao marquês de Croismarre, cristão piedoso que entre lágrimas lhe escrevia preocupado com a sorte da moça, Diderot respondia com invencionices inquietantes, enfatizando os sofrimentos da infeliz no claustro e degustando até o fim o prazer de manter angustiado o pobre homem. Não espanta que Diderot fosse o escritor predileto de Karl Marx, outro sociopata sádico.

Outros documentos encontrados por Georges May, posteriores ao falecimento de Diderot, mostram que a irmã Delamarre morreu trinta anos depois do romancista, ainda como porteira do convento, após ter enfrentado bravamente, ao lado de suas irmãs, os comissários da Revolução. A única opressão que ela sofrera viera pelas mãos dos inimigos da Igreja. (Sobre o episódio, leiam Jean Dumont, La Révolution Française ou Les Prodiges du Sacrilège, Paris, Criterion, 1984.)

Se eu fosse enumerar e analisar todas as mentiras inventadas pelos iluministas contra os cristãos e os judeus, um ano inteiro de edições do Diário do Comércio não bastaria para comportá-las. Mas o fato é que essas mentiras atravessaram os séculos, impregnaram-se profundamente na imaginação popular, ressurgindo sob novas e variadas formas e servindo para legitimar o massacre dos cristãos na Rússia e dos judeus na Alemanha. Intelectuais e artistas de grande prestígio não hesitam em colaborar com esse crime hediondo. Tudo sobre o caso Delamarre já era arquiconhecido dos historiadores quando, em 1970, o filme de Jean-Luc Godard, La Religieuse, renovou o efeito do símbolo odioso inventado por Diderot.

Diderot (é o da imagem que ilustra este post), no entanto, fez o que se espera em minha análise da espécie humana. Ele não “validou” suas próprias idéias e nem recorreu ao método científico para selecioná-las, mas, ao contrário, lançou-as por causa do benefício político que tais idéias podiam lhe prover.

Assim sendo, meu modelo de ceticismo defende que não podemos jamais partir de um ser humano idealizado (e que não existe, sendo proclamado apenas por quem quer capitalizar politicamente em cima desta ilusão), mas sim do que o ser humano realmente é. E, diante disso, é ilusório, infantil e perigosíssimo crer na noção de que as pessoas “se auto-validam”, especialmente seus oponentes, não importa quais sejam. Se o seu oponente não validará as próprias idéias (mas as divulgará, independente de sua validade), não é muito difícil descobrir quem é o responsável por essa investigação, certo? Sim, a resposta é exatamente essa: o responsável é você. Até por que se o seu oponente estiver obtendo vantagem da divulgação da idéia dele, qual o motivo biológico para que ele se “auto-valide pelo método científico”? Para crer nisso, teríamos que acreditar em anjos em Terra.

Neste caso, Diderot é chamado de “culpado” por Olavo de Carvalho. Sim, ele é, de acordo com alguns modelos morais. Mas em uma análise amoral da situação, no entanto, podemos ver que Diderot apenas lutava por seus objetivos políticos. Neste caso, a “culpa” muda de lado, pois os oponentes de Diderot não foram assertivos o suficiente ao denunciar a mentira que ele praticava. Logo, aqueles que possuíam a responsabilidade de denunciá-lo não o fizeram, e portanto, os únicos capazes de impedir que uma idéia política inválida fosse aceita popularmente como válida simplesmente assistiram a capitalização política de Diderot. Quem tinha a obrigação de questionar a validade dessa idéia (e esse não era Diderot) se calou.

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