Bertrand Russell e seus ensaios crédulos – Pt. 2 – Paraísos artificiais

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Sequência da série “Bertrand Russell e seus ensaios crédulos” (texto anterior: Bertrand Russell e seus ensaios crédulos – Pt. 1 – A filosofia de projeção de paraíso).

Os sonhos russellianos, despertados por verdades nuas e cruas

Como qualquer humanista que se preze, Bertrand Russell já começa o capítulo 2 pregando sua agenda anti-religiosa, como segue:

Um homem acha defensável comer carne de porco, mas não de vaca; outro, a de vaca, mas não a de porco. O resultado costumeiro desta diferença de opiniões tem sido derramamento de sangue; mas aos poucos começa a despontar a opinião racionalista de que talvez nenhum dos dois seja pecado.

Quando eu avisei que estava aí o professor de Richard Dawkins e Sam Harris, eu não exagerei. Basicamente, a tese de Russell é bem simples, embora completamente mentirosa. Ele inverte a relação de causa e efeito e diz que, se há conflitos entre grupos étnicos e religiosos, eles surgem por causa das crenças e costumes de cada um desses grupos, e não por causa do gregarismo inerente não só à espécie humana, como a todas as espécies animais. O objetivo deste truque é puramente psicológico, e visa a demonizar os oponentes de Russell, os quais, segundo ele, fariam uso de idéias “irracionais”. É o mecanismo para implementação do truque auto-cético, no qual se ele diz que os outros possuem “idéias irracionais, que causam o mal”, ele seria alguém que “só tem idéias racionais, que causam o bem”. Alguém poderá objetar: mas será que Bertrand Russell é só isso? Mas você queria o que? Aristóteles? Todo o livro dele é para a implementação desta estratégia em essencial, na qual tentará convencer o público de que “ele está do lado da razão, portanto do bem, e seus oponentes do lado da irracionalidade, portanto do mal”. Coisa de fazer corar qualquer um que não tenha sofrido lavagem cerebral humanista.

Mais:

Muitos podem afirmar que, mesmo que os sistemas inventados pelos homens sejam falsos, são inofensivos e consoladores, e não deveriam ser perturbados. O caso é que não são inofensivos, e que o consolo que propiciam é pago bem caro pelo sofrimento evitável que levam os homens a tolerar. Os males da vida nascem em parte de causas naturais, em parte da hostilidade dos homens entre si. Antigamente, a competição e a guerra eram necessárias para a obtenção do alimento, que só podia ser conquistado pelos vencedores. Hoje, devido ao domínio das forças naturais que a ciência começou a nos dar, haveria mais conforto e felicidade para todos se todos se dedicassem à conquista da Natureza e não uns dos outros. Representar a Natureza como amiga, e as vezes até como aliada em nossa luta com os outros homens, obscurece a verdadeira posição do homem no mundo e desvia suas energias da busca do poder científico, que é a única luta capaz de proporcionar bem-estar duradouro, e mesmo contínuo, à raça humana.

Não é exatamente uma surpresa ver que dentro de parágrafos bisonhos como este acima existe ainda alguma coisa de verdade, como nos dois primeiros períodos. Mas tudo desanda a partir daí. A parte útil é quando ele diz que é errado deixar em paz os “sistemas inventados pelos homens”, mesmo que “falsos”, mas que gerem “consolos” aos seus adeptos. Isto, que seria uma defesa ao humanismo quando este decide criticar fervorosamente a religião, na verdade serve também como uma defesa a um não-humanista que decida criticar a religião política. Portanto, o mesmo princípio moral que permite a um neo-ateu atacar fortemente a religião tradicional, permite que eu ataque impiedosamente o humanismo ou qualquer outra ideologia. Neste ponto, portanto, não há como eu discordar do argumento de Russell.

O problema vem na alegação bizarra logo a seguir, na qual ele diz que a guerra “não é mais necessária”, pois bastaria todos usarem a ciência para o domínio da natureza, que os problemas de recursos “estariam resolvidos”. Sério, tem gente que acredita nisso. Mas a verdade cruel é que a ciência não surgiu para que os homens “acabassem com as guerras”,  e, tendo o livro sido escrito em 1928, Russell não foi capaz de perceber que anos depois seria a ciência a nos dar a bomba atômica, que foi utilizada em Hiroshima e Nagasaki. Em suma, a ciência serve para nos fornecer conhecimentos, a serem utilizados para os fins que o ser humano desejar, inclusive fins bélicos.

Quando Russell diz que quando utilizamos a “natureza” como aliada em nossa luta com os outros homens, isso ofuscaria “a verdadeira posição do homem no mundo” e consequentemente isso “desvia suas energias da busca do poder científico”, o que é clamorosamente uma mentira. A verdade incômoda que implode toda essa argumentação é que a “posição do homem” no mundo é a de apenas mais uma espécie. Isso, é claro, de acordo com o darwinismo, que é uma análise científica da coisa, ao invés da posição de Russell. Religiosos tradicionais também costumam em alguns casos se engalfinhar contra o darwinismo, mas esta é uma discussão mais filosófica que científica; só que Russell definiu as regras do jogo como as “da ciência”, portanto são essas que estou utilizando para investigá-lo, e não há nada de científico em qualquer parte do discurso dele em questão. Em resumo, não há evidência científica de que exista uma “posição diferenciada do homem no mundo”, a ponto dele “dominar a natureza” e redefinir não só a realidade como a si mesmo.

Russell também erra ao achar que esta constatação realista (de que o homem não poderá por sua ação eliminar suas contingências e criar o paraíso terreno) “desvia as energias [do homem] da busca do poder científico”. Na verdade, esse é mais um apelo emocional do que argumentação de fato, pois o uso bélico da ciência não faz nada em relação à diminuir a busca do poder científico. O fato é que qualquer motivo é suficiente para nos motivar a aumentar o conhecimento científico, seja a vontade de destruir os inimigos como a de descobrir curas para doenças. Esse apelo de Russell é tão profundo quanto um pires.

Por fim, o parágrafo conclui com mais um erro ao achar que a busca do poder científico é a “única luta capaz de proporcionar bem-estar duradouro, e mesmo contínuo, à raça humana”. O correto seria dizer que a ciência fornece mecanismos para a melhoria da vida dos animais humanos, mas também pode ser utilizada para causar as destruições dos nossos oponentes. Qualquer uso da ciência, goste Russell ou não, não significa “abandonar o poder científico”, mas sim abraçá-lo. A relação entre “usar a ciência e criar a paz” é puramente uma mistificação infantil da cabeça do autor britânico e não tem a ver com a realidade.

Em resumo, a ciência não tem um fim moral. Serve para aquilo que os seres humanos queiram fazer dela. Se é para curar um doente ou descobrir uma nova técnica de morte. Quando Russell diz que essa concepção está “nos desviando do poder científico”, isso é falso. Na verdade, o poder científico serve exatamente para aquilo que quisermos. Esta concepção de “ciência como redentora” é uma visão ingênua, praticamente um sono dogmático do qual kantianos e hegelianos jamais acordaram. Em relação a este sonho, o livro de Russell é um exemplo de que o britânico ainda estava roncando sonoramente, ao invés de estar despertado para a realidade do que a ciência é, além do que o ser humano de fato é. Vergonhoso, especialmente para alguém que dizia “representar a ciência”.

Mais superstições humanistas

O trecho a seguir é particularmente revelador:

Tal como existe hoje em dia, a ciência é parte agradável e em parte desagradável. É agradável pelo poder que nos dá de manipular nosso ambiente e, para uma minoria pequena mas importante, é agradável porque dá satisfações intelectuais. É desagradável porque, por mais que procuremos disfarçar o fato, supõe um determinismo que envolve teoricamente o poder de predizer as ações humanas; e neste particular parece diminuir o poderio humano.

Este é um parágrafo que dificilmente eu contestaria, e que parece ter acordado Russell. Mas, como veremos a seguir, o filósofo britânico voltou logo ao seu sono profundo. Quando ele diz que a ciência dá “satisfações intelectuais” a uma pequena minoria, deve estar se referindo a ele. Mas, como se nota, ele precisa deturpar o que a ciência é para encontrar “satisfação intelectual” nela. Na verdade, a ciência é bastante técnica: dá respostas ou não dá. Melhor adotar uma visão realista, considerando que a ciência nos dá “satisfações materiais”, como a obtenção de uma nova tecnologia ou de uma nova medicação.

Já em relação à diminuição do “poderio humano”, ele provavelmente se refere não só à psicologia como também à neurociência. Ao descobrirmos que o ser humano não “controla sua razão” (ao contrário, a razão é um “serviçal” do animal humano, para a sobrevivência deste), isto tornaria as ações humanas mais previsíveis, e, portanto, não tão direcionáveis, arrebentando com as esperanças de Rousseau e seu mito da perfectibilidade, que emociona. Neste ponto, Russell está certo ao notar que a ciência tem algo de muito desagradável a dizer aos humanistas.

Esperanças de “racionalidade” auto-declarada

Agora começa a prostituição ideológica:

Acostumei-se a considerar-me racionalista; e imagino que racionalista é o indivíduo que deseja que os homens sejam racionais.

Agora ficou fácil conquistar cargos de alta gestão. Basta se declarar um “resultadista”, que é o “indivíduo que deseja que os homens obtenham resultados” e sair declarando isto nos corredores na esperança de receber uma promoção. Quer dizer, na visão de Russell racionalista é alguém que faz uma declaração sobre o plano mental a respeito de si próprio, na qual alega que “deseja que os homens sejam racionais”.  O racionalismo de Russell, portanto, depende de que acreditemos em um desejo que está localizado na mente dele e não pode ser testado. É, eu avisei que picaretas são fáceis de serem descobertos. (Ler mais em Planos e tempos em uma análise de comportamentos crédulos)

O pragmatismo realça a irracionalidade da opinião e a psicanálise demonstra a irracionalidade da conduta. Ambos levaram muita gente a pensar que não existe um ideal de racionalidade ao qual a opinião e a conduta deveriam obedecer com vantagem. Daí parece seguir-se que se você e eu temos diferentes opiniões, é inútil apelar para argumentos, ou procurar a arbitragem de um terceiro imparcial; nada nos resta senão lutar pelos métodos da retórica, da propaganda, ou da guerra, segundo o grau de nosso poderio financeiro e militar. Julgo perigosíssima essa atitude, e cedo ou tarde, fatal para a civilização.

Se existe um “ideal de racionalidade”, isto ainda não significa que um grupo detenha este “ideal”, a não ser por auto-declaração. Se Russell julga esta atitude “perigosíssima”, é uma opinião dele, mas ele no máximo reclama de contingências humanas que não podem ser mudadas. Quanto a ser “fatal para a civilização”, é também uma opinião dele, mas não um argumento. Além do mais, civilizações sempre destruíram outras civilizações, e não há um argumento bom para achar que isto vai acabar com “toda a civilização”. Há quem diga que hoje existe o poder nuclear, aumentando o perigo, mas não há evidência de que a difusão da noção de que ficar declarando que no plano mental particular existe uma “tomada de decisões por razões sem auto-interesse” vá melhorar a situação. A tendência é que a postura defendida por Russell, baseada em marketing pessoal, piore ainda mais as coisas.

Vejam só um exemplo de marketing pessoal:

[…] racionalidade em matéria de opinião: eu a definiria, simplesmente, como o hábito de levar em consideração todas as provas relevantes, para formar uma crença.

Mas como será que isso funcionaria para um ser humano dotado de seu sistema límbico profundo em pleno funcionamento, ou seja, a grande maioria da população que não é psicopata? Para levar em consideração “todas as provas relevantes, para formar uma crença”, teríamos que nos desconectar de nosso sistema límbico profundo (ou seja, nossas emoções), para enfim nos desapegarmos de nossas paixões, e, enfim, de nossos interesses. A partir daí é criado na mente do sujeito um “tribunal mental”, que tem advogado de defesa, acusação e um juiz, que, em última instância, vai tomar as “decisões justas” para os demais. Basicamente, é o seguinte. Se o ser humano é imperfeito em relação ao seu julgamento, ele pede: “Que tal deixarmos de ser imperfeitos?”, que não é diferente de sair dizendo: “Que tal começarmos a criar asas e voar?”. Não há como ir mais baixo do que isso.

[…] pode-se estabelecer que o irracionalismo, ou seja, a descrença no fato objetivo, surge quase sempre do desejo de afirmar coisas de que não há prova, ou negar algo de que há excelente prova. Mas a crença nos fatos objetivos sempre persiste em relação a certas questões práticas, tais como empate de capital, admissão de empregados, etc. E se nalguma parte podemos tomar o fato como prova da verdade, deveria ser prova em toda parte, conduzindo ao agnosticismo sempre que não pudesse ser aplicada.

O irracionalismo generalizado (inclusive o de Bertrand Russell, diga-se) significa que vez por outra os seres humanos tomam escolhas irracionais. E, em alguns casos, são escolhas racionais na perspectiva do indivíduo, mas vistas como irracionais pelos demais. Em muitos casos a “descrença no fato objetivo” tende a ocorrer pelos interesses e paixões do próprio indivíduo.

A parte teórica da racionalidade, então, consistirá em basear em provas nossas crenças em relação aos fatos, e não a desejos, preconceitos ou tradições.  Segundo o assunto em causa, o homem racional será aquele que se mostrar judicioso ou científico.

Aqui há novamente um truque de manipulação semântica. O fato é que alguém pode ser racional em um assunto, e não em outro, e as escolhas tendem a ocorrer pelo benefício que alguém recebe de sua opção (benefício psicológico, inclusive). Por exemplo, toda a argumentação de Russell é irracional, mas isso ocorre provavelmente por que ele recebia benefícios psicológicos de suas ilusões. Mesmo que ele reunisse alguns amigos para o identificarem como “o homem racional”, ainda seria possível que os adversários encontrassem várias falhas em seu discurso. Isso ocorre por que Russell tentava basear suas crenças em seus desejos, preconceitos ou tradições que escolheu, mesmo alegando “buscar a razão” (declaração feita sobre o plano mental). O melhor seria que ele falasse de “ações racionais sejam aquelas que se mostrassem judiciosas ou científicas”, ao invés do “homem racional”. Isto seria muito mais coerente, pois, mesmo sendo o homem racional somente quando conveniente, portanto não podendo ser avaliado como racional em absoluto, o mesmo não pode ser dito de uma ação específica, que pode carregar dentro de si a razão em absoluto. Em outras palavras, se estudarmos qualquer ser humano, encontraremos parcialidades e interesses pessoais. Mas pode surgir uma ação ou opinião humana (dentre as várias que o ser humano faz ou assume durante o curso de um dia) que é racional em absoluto. Ainda em outras palavras, de uma forma mais didática: em termos absolutos, é impossível, biologicamente falando, que o ser humano se desapegue de suas paixões e auto-interesse para ser, enfim, racional em absoluto, e até ao propor isso Russell assume sua irracionalidade, mas é possível que vez por outra surjam ações e opiniões de qualquer humano que podem ser julgadas como racionais em absoluto. Logo, a idéia de “homem racional” é uma tolice. O melhor seria “atos e idéias racionais, que podem fazer parte de um homem irracional”.

[…] a psicanálise é parcialmente útil, porquanto revela aos homens parcialidade até então inconsciente. Dá-nos uma técnica para nos vermos como os outros nos veem e um motivo para supor que esta opinião de nós próprios é menos injusta do que nos inclinamos a pensar. De combinação com um treino científico, este método, se fosse amplamente ensinado, poderia capacitar as pessoas a serem infinitamente mais racionais do que são atualmente no que tange às suas crenças sobre fatos e o provável efeito de qualquer ato proposto. E se os homens não discordassem em tais assuntos, as divergências que poderiam substituir seriam, quase com certeza, passíveis de ajuste amigável.

O nível de bobagens acima é praticamente insano. Qual descoberta científica resultou em tamanho delírio de Russell? Resposta: nenhuma. É nisso que dá o sujeito falar de ciência sem conhecê-la. O fato é que um treino científico nos capacitará a avaliar muito bem as idéias que recebemos, em especial as idéias de nossos oponentes. Mas quando as idéias se relacionam a auto-interesse, o treinamento científico não ajuda em nada a alguém filtrar esse tipo de idéia. Basta estudarmos todo o material de Richard Dawkins e Carl Sagan, sujeitos que tiveram os tais “treinos científicos”, para notarmos que quando as idéias resultam em auto-interesse não são mais “racionais”, mas sim escolhidas pelos benefícios que geram a seus usuários. O tal “treino científico”, que criaria o “tribunal mental” kantiano, não passa de uma ingenuidade sem amparo lógico e/ou científico. Em resumo, o “treino científico” não ajudará em nada a alguém deixar de manifestar opiniões irracionais que gerem benefício a seu propagador.

Se os homens fossem racionais, teriam dos seus próprios interesses opinião mais correta do que atualmente; e se todos os homens agissem por egoísmo esclarecido o mundo seria um paraíso em relação com o que é.

Lá vem de novo a promessa de paraíso. Russell tenta um truque hipnótico, no qual ele professa algo do tipo: “Se você não concorda comigo, é por que não pensou suficientemente no assunto”. Quem quer que já tenha lido livros de dinâmica social desde a publicação de A Dynamic Theory of Personality, de Kurt Lewin, em 1935, sabe que Russell está apenas tentando um truque. Por exemplo, como ele sabe que as pessoas tem opinião sobre “seus próprios interesses” menos “corretas” do que deveriam? Por qual critério? Ele não coloca nenhum, pois sabe que não tem esse critério. Talvez ele queira dizer que o “homem que reflete mais sobre seus desejos enfim está caminhando em direção ao paraíso hegeliano” (no qual os homens aos poucos se “veriam” nos outros, e, enfim, a liberdade plena surgiria), mas nem de longe ele demonstra que a “auto-reflexão” levará a isso. Além do mais, aquilo que ele define por “egoísmo esclarecido”  também é totalmente arbitrário. O tal egoísmo seria “esclarecido” em relação a que? Aos desejos de outros? Mas de onde ele tirou que essa maior “auto-reflexão” implicaria em maior altruísmo ou empatia? Pode-se inclusive supor o contrário. Em suma, o tal “egoísmo esclarecido” ou a “racionalidade levando os homens a pensar melhor no mundo como um todo” são afirmações nonsense totalmente descabidas e sem base científica alguma.

Mais do mesmo abaixo:

Na prática, a racionalidade pode ser definida como hábito de considerar todos os nossos desejos relevantes, e não apenas aquele que sucede ser o mais forte, no momento.

Que tal colocarmos isso na prática? Suponhamos que um sujeito decida comer a irmã, mas o primeiro desejo que ele tem é “não cometer pecado”. Aos poucos, ele pensa e repensa, questiona o seu próprio conceito de “pecado” (que nem precisa ser pecado religioso), e resolve xavecar a irmã e levá-la para cama. Futuramente, fica infeliz por sua escolha. Além disso, ainda cabe a pergunta: mesmo que seja um exemplo grotesco, de onde será que Bertrand Russell tirou sua idéia de que a tal “racionalidade” levará a decisões melhores para “o bem geral”? Agora se entende por que ele ficava tão incomodado com aqueles que reconheciam que o intelecto é um instrumento de parcialidade do animal humano.

O homem é racional na proporção em que sua inteligência orienta e controla seus desejos. Acredito que o controle de nossos atos pela inteligência é, afinal, o que mais importa e a única coisa capaz de preservar a possibilidade de vida social, enquanto a ciência expande os meios de que dispomos para nos ferir e destruir.

Mais ingenuidade, como não poderia deixar de ser. É verdade que quanto mais direcionamos nossas ações para atender nossos objetivos, mais racionais podem ser consideras nossas ações nesse caso em particular. Um exemplo é o de dois lutadores que tenham mesma força física e habilidade. O que tomar ações mais racionais tende a vender a contenda, estando equiparadas tanto as habilidades como a força física. O melhor direcionamento de nossos atos em prol de nossos objetivos é também uma manifestação maior de racionalidade em relação à uma opção com um fraco direcionamento. Entretanto, o melhor uso dos meios de que dispomos para ferir e destruir os oponentes é também o uso da racionalidade.

Nesta análise, que envolveu os capítulos 2 a 4, Russell errou em quase tudo que falou a respeito de ciência ou racionalidade, pois trabalha com conceitos fantasiosos a respeito de ambos. Esses erros são amplificados pelo fato de que ele não tinha a mínima noção do que é o homem, enquanto animal humano, e nem seus interesses, por isso era incapaz de entender a noção de que o intelecto é um instrumento de parcialidade. Grande parte de seu trabalho se baseava em fingir que a ciência nos traria o paraíso, a racionalidade nos traria a validação objetiva de tudo, independente dos desejos humanos, e que o ser humano não passa de uma máquina focada nessa busca incessante do paraíso em terra, sendo capaz de conter seus desejos em prol desssa racionalidade absoluta. É dose para mamute.

Claro que tudo isso não passava de um discurso hipnótico e pseudo-científico, que poderia até garantir algumas risadas pelo ridículo de toda situação, especialmente quando observamos a grande ironia de que o discurso vinha de alguém alegando “representar a ciência”. É através da ciência que podemos avaliar que a análise de Russell sobre a razão e o ser humano possuem tanta veracidade quanto as histórias dos irmãos Grimm. Mas se for para apelar a delírios e válvulas de escape apenas para a obtenção de um efeito psicológico positivo (aumento da dopamina, talvez), os adeptos da cultura LSD ao menos tinham suas fugas da realidade sem precisar de ideologias tão delirantes. O paraíso proposto por Russell é baseado em idéias falsas, e se ele gera a felicidade dos crentes no humanismo, ainda assim é um paraíso artificial.

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4 COMMENTS

  1. Enquanto você dá seguimento a seu admirável (e necessário) trabalho de refutação das raízes de todo o discurso subversivo em voga, Dalila prossegue incansável divulgando as mais recentes versões das fraudes perpetradas pelos humanistas:

    http://rebeldiametafisica.wordpress.com/2012/08/22/ateismo-e-o-grande-terror-na-russia-stalinista/

    Ignorando a campanha antirreligiosa sistemática que os revolucionários russos empreenderam contra a igreja nos primeiros anos do regime comunista, o charlatão Avalos (que nem historiador é, diga-se de passagem) seleciona a dedo passagens que alegadamente provam que a perseguição contra os cristãos russos não foi diferente da perseguição sofrida por denominações minoritárias diferentes da oficial em outros países.

    Para piorar, o texto foi extraído de um livro dedicado a, entre outras imposturas, minimizar a violência secular em relação à violência supostamente religiosa, ou então joga-la na conta da religião tradicional. Tamanha desonestidade não pode ficar impune.

  2. Artigo com tudo MUITO bem explicadinho, nos mííííínimos detalhes 😀

    Agora, apenas uns correctivinhos… ^^

    — a forma interrogativa (“why”), é *por que* (duas palavras), porém a forma explicativa (“because”) é *porque* (uma palavra) 😉

    — “aLto-interesse” ou “aUto-interesse” ? O_o

    OBS.:

    «
    “Se você não concorda comigo, é porque não estudou direito o assunto.”
    »

    Isso é coisa de *kardecista*, PÔ 😀

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