John Gray e suas idéias torturantes (especialmente para os humanistas)

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Encontrei este texto no fórum Portal Cafe Brasil, com uma transcrição feita por um blogueiro português (João PC) de uma entrevista dada por John Gray a Carlos Vaz Marques. O post é de 2007, e a entrevista foi feita em março daquele mesmo ano. Recomendo uma leitura com atenção a esta entrevista, pois ela tornará muito mais fácil a compreensão e internalização do material publicado neste blog. Jamais escondi que sou um herdeiro das tradições tanto de Schopenhauer como de Gray. Curiosamente, o material de Gray apenas veio solidificar a noção que eu já possuía de longa data, especialmente devido a Schopenhauer: a noção de que o ser humano não ocupa um lugar especial no planeta em comparação com as outras espécies. (Em uma verdade irônica e inegável, os cristãos podem apreender noção mais ou menos similar por outra concepção, a de que o ser humano é imperfeito. Ou seja, a conclusão a que cheguei pelo darwinismo, os cristãos podem chegar pelas escrituras. Os humanistas, ao contrário, se apegam ao mito da perfectibilidade humana, que os cristãos acreditam só existir em uma vida não terrena. Acho que por isso muitos cristãos ainda não deram uma “bica” neste blog, mesmo que alguns deles não gostem de minha análise darwinista. A eles proponho: “ok, olhem a imperfectibilidade humana por outras lentes”. O que importa é que minha abordagem para a não-perfectibilidade humana é darwinista, apenas isso. A não-perfectibilidade humana passa a ser um fato, apenas constatado de maneiras diferentes. Aliás, cristãos poderiam se orgulhar disso, pois suas escrituras já constatavam algo que veio a ser descoberto pela ciência na teoria de Darwin. São os humanistas que deveriam ficar envergonhados por terem crido na perfectibilidade humana sem jamais terem provas para isso. Pergunta: se eram “adeptos da ciência”, de que pesquisa científica tiraram o mito da perfectibilidade humana? Resposta: Nenhuma. Foi um salto de fé e nada mais. Quem é ateu, pode ridicularizar os humanistas pelo darwinismo; quem é cristão, pode ridicularizá-los citando suas escrituras que estão mais corretas neste aspecto do que os mitos humanistas. Conclusão: vários caminhos levam a um mesmo fim, que é a ridicularização dos humanistas.)

Ao partir da premissa que o ser humano é perfectível, praticamente toda a filosofia se resumiu a um ato de wishful thinking, abandonando a investigação da realidade como ela é, e especialmente do ser humano como ele é. É claro que a implementação dessas idéias só poderia resultar em desastre. Sabiamente, Gray entende que isso é culpa de filósofos que mesmo alegando “racionalidade” se baseavam e se baseiam em mitos irracionais, mais irracionais até do que muitos dos mitos religiosos que criticam.

A quantidade de evidências que comprovam essa tese é tão volumosa que podemos defini-la mais como uma lei do que uma tese. Foi a partir daí que resolvi criar os paradigmas do ceticismo político e do duelo cético. Em relação ao primeiro, ele visa corrigir um erro da maioria dos filósofos do passado, no qual se dizia que o ceticismo era “algo que deveríamos praticar em relação a nossas idéias”, mas que, se investigamos o ser humano como ele é, sabemos que ele jamais praticará o “ceticismo em relação as suas idéias”. Na verdade, as idéias serão aceitas pelos benefícios percebidos (pois algumas vezes podemos nos enganar até quanto a isso) que elas geram ao seu usuário, não por seu valor de verdade. Por isso, devemos priorizar o questionamento à qualquer alegação política de um oponente, e uma alegação política é aquela que, se aceita, gera benefícios à pessoa ou grupo que a propaga. Em relação ao duelo cético, é basicamente a idéia de que, se há esperanças de alguma melhora de debate, esta reside no pleno conhecimento de todas as artimanhas e estratégias por ambos os lados em qualquer questão política, de forma que ambos estejam prontos a revidar e atacar ao mesmo tempo, sendo que o ceticismo implacável é a melhor forma de ataque. Somente a vergonha pela humilhação pública de ser reconhecido como fraudador continuamente poderá impedir alguém de continuar com as fraudes, e esta humilhação pública somente poderá ser feita pelo oponente de uma idéia, não por aquele que está obtendo benefícios a partir de seu aceite. Ambos os paradigmas (ceticismo político e duelo cético) partem de uma análise realista do ser humano (ao invés da análise fantasiosa de gente como Kant, Hegel e Russell), e portanto são facilmente defensáveis. Meus oponentes, até agora, não tem conseguido sequer arranhar tais teses. E eu até gostaria que elas sofressem arranhões, pois eu poderia tratar todas estas objeções. Esses paradigmas, enfim, permitem que idéias como as de Schopenhauer e Gray (em relação a essência do ser humano, como apenas mais um animal) sejam levadas às últimas consequências.

Em certos momentos, discordarei até de ambos, pois entendo que eles “amaciaram” um pouco. Ao dizer que deveríamos agir de “maneira contemplativa”, entendo que isso é uma armadilha da esperança, e uma fuga do reconhecimento de como o ser humano realmente é. Com tanta informação disponível, a contemplação independente pode ser, às vezes, uma ilusão. Claro que devemos valorizá-la, mas não esperar por ela. Algo como: “Se ocorrer, ótimo, mas se não ocorrer, estamos preparados para que ela não ocorra”.

Em relação ao ceticismo sem medo daquilo que será questionado (ou seja, sem vacas sagradas), eu e Gray também estamos alinhados. Grande parte do material aqui provoca extremo incômodo em humanistas, exatamente por que está sendo feito um questionamento, o qual ocorre de forma a não permitir que nenhum mito (nenhum mesmo) propagado por eles seja aceito como fato. Não apenas os mitos, como também quaisquer alegações para as quais não possuam provas. Vamos a alguns exemplos. Se Carl Sagan dizia que suas idéias eram aceitas somente se passassem pelo método científico, como ele defendia a noção de que o ser humano deveria “pensar cientificamente, de forma independente de suas paixões” se essa possibilidade não tinha passado pelo método científico? Se Richard Dawkins diz que “o fim das religiões implicará no fim do gregarismo”, por que não apresentou esta idéia cientificamente? Isso são apenas aperitivos do que pode ser feito, sendo que todas as crenças não justificadas do outro lado (especialmente em relação aos humanistas) podem e devem ser questionadas. O texto Crentes religiosos são mais livre pensadores? é justamente a defesa dessa idéia, em mais um post meu inspirado diretamente por Gray. Se os humanistas hoje possuem tantos dogmas injustificados, por que não são severamente questionados? Por que o ceticismo só pode questionar a religião se for a religião tradicional, mas não a religião política? Por que não se experimenta questionar os religiosos políticos em suas mais apaixonadas crenças para ver o resultado?

Enfim, já falei muito de mim e meus alinhamentos com Gray (mesmo que eu tenha direito de discordar dele em alguns pontos), mas o objetivo deste post é a entrevista dele. E já aviso aos oponentes: vai doer que é uma barbaridade. Por sua vez, os leitores deste blog, que já estão acostumados, não ficarão tão incomodados.

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Entrevista do filósofo britânico John Gray a Carlos Vaz Marques (TSF, “Pessoal e Transmissível”, 29/03/07), por ocasião do lançamento em Portugal da sua última obra “Sobre humanos e outros animais” (Lua de Papel). No original o título é “Straw Dogs – Thoughts on Humans and Other Animals”. (Nota LH – Diferentemente de Portugal, no Brasil o livro foi lançado como “Cachorros de Palha: Reflexões sobre humanos e outros animais”, bem mais fiel ao título original) […]

E eis então uma conversa radiofónica tão interessante que não resisti a investir umas horas a transcreve-la para aqui, como uma espécie de obrigação ética superior. Espero que os donos da rádio e o (excelentíssimo) entrevistador não se importem e acho que este tipo de reflexão e debate deve ser ampliado. Entre muitas outras vantagens, desmonta muitas das nossas belas verdades adquiridas e põe-nos a pensar. Aqui vai então grande parte da magnífica entrevista, como são, de resto, todas as deste grande conversador radiofónico. Simplesmente enriquecedor

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Carlos Vaz: A esperança é um impulso natural do homem, quando alguém se encontra numa situação difícil deve aspirar a algo melhor, mas em termos genéricos, penso que a boa disposição (cheerfulness) é mais importante que a esperança. O propósito fundamental da filosofia não é dizer às pessoas como devem viver, nem é pregar, nem sequer tentar persuadir, passa simplesmente por fazer luz sobre os conflitos que acontecem no mundo, perceber os conflitos, conflitos morais, conflitos políticos, conflitos religiosos que acontecem de facto, perceber ou trazer luz sobre estes conflitos. E essa natureza da filosofia mudou, ou é essencialmente a mesma desde o tempo dos gregos antigos?

John Gray: Bem, os gregos antigos tinham uma ideia muito mais ambiciosa da filosofia, a de que a filosofia deveria indicar a melhor forma de vida para os seres humanos. Eu não acredito que a filosofia possa fazer isso. Mas pode ajudar-nos a pensar com clareza acerca das diversas formas em que as pessoas querem viver.

Deixe-me agora lançar-lhe uma provocação: o que é que há de errado com a filosofia?

Não há nada de errado com a filosofia.

Pergunto-lhe isto porque no seu livro “Sobre Humanos e outros animais” escreve que, tal como é actualmente praticada, a filosofia é a tentativa de encontrar boas razões para crenças convencionais.

Muita filosofia parece-me uma forma de defesa de crenças convencionais. Esse género de filosofia parece-me desinteressante e acaba por nos levar para uma espécie de ficção. Muita filosofia não passa de má ficção, porque procura encontrar harmonia em vez de esclarecer os verdadeiros conflitos.

A filosofia deve procurar o conflito?

Não, mas deve iluminar os conflitos, ajudar-nos a perceber os conflitos, em vez de imaginar uma harmonia inexistente e que não pode ser alcançada. Portanto, a minha concepção de filosofia distingue-se da concepção tradicional por não procurar descrever um mundo harmonioso, ou racional, inexistente. Aspira a compreender o mundo natural, que inclui os seres humanos, que sempre foram altamente irracionais.

Diria que as crenças convencionais são um problema?

As crenças convencionais estão sempre muito afastadas da realidade. Os seres humanos desenvolvem crenças, em parte para conhecerem o mundo, mas mais frequentemente para se sentirem bem no mundo. As crenças representam a realidade até certo ponto, mas também correspondem a necessidades psicológicas de confiança e de segurança. Não há nada de mau nisso, mas se essas crenças estiverem seriamente equivocadas, se as nossas crenças acerca do mundo estão muito longe de corresponder aquilo que o mundo é de facto, isso pode mais tarde vir a causar grandes problemas. Se agirmos em função de crenças altamente equivocadas, acabamos muitas vezes por nos deparar com problemas graves.

E a filosofia, do seu ponto de vista, é o terreno adequado para lutar contra isso?

Não, os meus livros não são programas políticos, ou para virem a ser corporizados por projectos políticos. São escritos para o esclarecimento de cada leitor, considerado a título pessoal, cada leitor pode retirar do livro o máximo que pretenda ou o mínimo que queira, os meus livros querem simplesmente iluminar as suas reflexões acerca das suas vidas. Depois podem fazer o que quiserem com eles.

Isso leva-nos a uma das suas frases mais fortes: “não acredito em acreditar”. O que é que o levou a uma conclusão destas?

Bem, muitas religiões e filosofias ocidentais sempre deram uma grande importância aquilo em que acreditamos. As religiões ocidentais assumem frequentemente a forma de credos ou doutrinas…

Mas nesta frase não está a falar apenas de crenças religiosas, parece-me. Ao ler o seu livro pareceu-me até que nem era a essas que se referia em primeira instância.

Bem, eu não acredito em crenças religiosas, mas acredito ainda menos em crenças políticas. No século XX, para muitas pessoas, a política substituiu a religião. O século XX conheceu muitos movimentos políticos, em regra de grandes dimensão e bastante destrutivos, o comunismo, o fascismo, foram formas seculares de crenças religiosas. Acho que uma pessoa civilizada só deve acreditar quando isso for absolutamente necessário, as crenças devem reduzir-se ao mínimo. É importante ter crenças verdadeiras, no Direito, na Ciência, na Medicina, mas em religião, em ética e em política, a dúvida é mais proveitosa do que a crença.

Aceita o rótulo que por vezes lhe é colocado de “céptico radical”?

Sim, não me importo de ser considerado um “céptico radical”. Isso não significa que eu rejeito a ideia de verdade, não sou um pós-modernista ou um relativista radical, acho por exemplo que a ciência, ainda que nunca alcance a verdade derradeira é o melhor guia para chegar a crenças sobre a natureza…

Afinal ainda aceita algum tipo de crenças.

Na ciência, mas as crenças devem ser entendidas como teorias probabilísticas e provisórias e não como dogmas. Perguntaram uma vez ao escritor e humorista inglês P. J. Woodhouse: “tem alguma crença religiosa, senhor Woodhouse?” – é importante notar que não lhe perguntaram quais eram as suas crenças religiosas, mas antes se tinha crenças religiosas – e ele respondeu, “é muito difícil sabe-lo”. Penso que uma abordagem muito civilizada. Acho que adoptar crenças, em muitas áreas da vida, como na ciência, no direito, na medicina, por exemplo, é possível. Elas têm de ser verossímeis, precisamos de crenças na vida quotidiana. Na religião, na vida do espírito, a dúvida é muito mais importante. Em ética e em política devemos sempre encarar as nossas crenças como provisórias. Por vezes, podemos ter-nos empenhado de forma bastante séria, se confrontamos fundamentalistas ou terroristas, se temos pela frente os movimentos totalitários que enfrentámos no século XX, como o comunismo, o nazismo, temos de assumir uma atitude muito resoluta. O que é interessante no século XX é que o comunismo ou o nazismo não foram destruídos por fundamentalistas, por fanáticos. Foram destruídos, derrotados, por seres humanos civilizados, que foram bastante estóicos, cépticos, mas que sabiam que teriam de lutar. Acho que a ênfase na importância das crenças, do valor da crença, é muito exagerada.

A culpa disso é do humanismo e das filosofias humanistas, que são um dos seus alvos preferidos?

Bem, as crenças que mais recentemente têm dominado a civilização ocidental e europeia têm sido de alguma forma crenças humanistas. O meu argumento é o de que, mesmo sem o admitirem, essas formas de humanismo assentam em grande parte no cristianismo…

O que nalguns casos não deixa de ser irónico.

Sim, sobretudo dado que muitos humanistas são hostis ao cristianismo, muito hostis. E o mesmo se pode dizer de muitos pensadores do iluminismo. Apesar disso, inspiraram-se e muito no cristianismo, mas infelizmente, apropriaram-se das coisas erradas. Há alguns aspectos do cristianismo que são muito válidos, por exemplo, a doutrina cristã, que por sinal é agora bastante impopular entre os cristãos, do pecado original, que assume que os seres humanos são inerentemente imperfeitos, é uma doutrina muito impopular, mas penso que é verdadeira. Não na forma original do mito cristão, mas a ideia de que os seres humanos têm imperfeições foi aceite praticamente por todas as religiões até ao início do iluminismo, no século XVIII…

Essa doutrina do pecado original, a história do fruto proibido, por outro lado, é a de que o conhecimento é perigoso, comporta riscos.

Muitos filósofos pensaram isso e é interessante que isso esteja no antigo testamento: o mito do génesis, de Adão e Eva e da árvore do conhecimento. Admite-se no antigo testamento que o conhecimento pode revelar-se perigoso, tanto como pode ser bom. Penso que essa percepção, esse mito, é um mito muito válido. Em parte, estou a tentar recuperar a sabedoria, a percepção, a verdade, se quiser, desses mitos antigos. Os mitos não são verdadeiros ou falsos, no sentido em que as teorias científicas podem ser verdadeiras ou falsas, os mitos podem ser mais ou menos verdadeiros, na medida em que reflectem as realidades humanas, ou as escondem. Penso que muitos dos velhos mitos religiosos, desde que não sejam encarados de forma fundamentalista, podem ser vistos como afirmações simbólicas de realidades humanas profundas. Os mitos do pensamento secular são normalmente superficiais e confusos.

Qual é do seu ponto de vista o mito convencional mais presente na nossa vida, hoje?

Penso que o mito convencional que as pessoas mais cultivam, e em função do qual vivem, hoje em dia, é a crença no progresso. Como já lhe disse, não sou um relativista radical, ou um pós-modernista. Considero que existe progresso no campo do conhecimento, há progresso quanto ao crescimento do conhecimento humano, há progresso na ciência, há progresso na tecnologia, tais progressos são um facto.

O que não aceita é a ideia do chamado progresso humano?

Não há progresso do mesmo género na ética e na política. Na ciência e na tecnologia, aquilo que se ganha, normalmente não se perde. Se obtivermos um melhor entendimento na astronomia ou na biologia, não o vamos perder na próxima geração. Na ética e na política, tudo o que se ganha pode perder-se e em regra acaba por se perder. Foi isso, obviamente, que pensaram os gregos antigos, os antigos romanos, os chineses da antiguidade, os antigos japoneses e indianos, foi o que todos eles pensaram. Só nos últimos 200 anos é que os seres humanos, na Europa e noutras partes do mundo começaram a pensar no progresso, no progresso humano, no progresso em matéria de ética e de política. No meu entender, esta crença convencional, que a maior parte das pessoas aceita actualmente é um erro, uma ilusão e pode revelar-se perigosa.

Está mesmo convencido que a maior parte das pessoas hoje em dia pensa que a humanidade pode tornar-se melhor e que está a caminho da perfeição?

Bem, as pessoas podem acreditar nisso…

Sim, mas pensa que isso se trata de uma crença generalizada?

As pessoas gostam de acreditar nisso, gostam de acreditar que os seres humanos se tornam melhores, mas não há provas nenhumas disso.

Pergunto isto porque suspeito que haverá muita gente a discordar de si e dessa certeza de que a maior parte das pessoas está convencida de que os seres humanos estão a tornar-se cada vez mais perfeitos.

Bem, se não acreditarem nessa ideia são pessoas sensatas, toda a grande literatura, por exemplo, é isso que nos diz. O interessante é que a grande literatura e as grandes religiões aceitam que os seres humanos pouco mudam, em épocas e em culturas diferentes…

Continuamos a ler Homero, e a gostar de ler Homero porque ainda nos fala de coisas actuais.

Exactamente, mas na política, hoje em dia, se um político nos vier dizer que os seres humanos são cruéis e gananciosos e estúpidos como sempre foram, não será eleito, se um político disser que não há progresso nem ética na política, se disser “não vos posso prometer grande coisa”, não será eleito. O pessimismo, o realismo, eu diria, o cepticismo, não é uma boa fórmula democrática. Portanto, apesar da grande arte, da literatura, até de grandes filmes, de grandes pensadores religiosos, apesar de todos eles concordarem que os seres humanos continuam tão imperfeitos como sempre foram, a política assenta na promessa do progresso. Como já referi, em certa medida, há naturalmente progresso, quando é resultado directo da ciência e da tecnologia, vivemos mais anos, temos melhor saúde, há maior prosperidade, melhores medicamentos, melhores tratamentos e nesse sentido, claro, existe progresso, mas a ciência e a tecnologia não são usados apenas para melhorar a condição humana, também são aplicadas para fins destrutivos, portanto, a questão fundamental da ameaça das armas de destruição maciça, que representam um perigo real, têm a ver com o avanço do conhecimento. Daqui por 50 anos, dezenas de milhões de pessoas terão conhecimentos científicos para criar armas biológicas, porque o conhecimento dissemina-se por centenas de universidades, milhares de empresas comerciais, centenas de organizações diferentes. O conhecimento aumenta, torna-se difuso. O problema maior das armas de destruição maciça é derivarem do aumento do conhecimento, portanto, a crença no progresso é uma espécie de mito secular quer dissimula, esconde ou disfarça a ambiguidade, o carácter ambivalente do conhecimento.

E é por isso que fez daquilo a que chama o “humanismo moderno” o seu principal alvo? O erro fundamental do humanismo é então a crença no progresso humano?

Sim, o erro fundamental do humanismo moderno é a crença no progresso, mas abarca a ideia mais geral de que o aumento do conhecimento é, por si próprio, libertador. Os velhos mitos do Génesis e de Prometeu, o velho mito grego, daquele que foi preso numa montanha por ter descoberto o fogo, são mitos de uma grande profundidade e sabedoria. Isto não significa que se possa deter o avanço do conhecimento, não significa que se possa ou deva inverter esse avanço. Como ensina o Génesis, depois de se comer a maçã, não se pode descome-la, temos de aprender a viver com isso, mas temos de o fazer de olhos bem abertos. As pessoas costumam dizer, nós podemos usar o conhecimento apenas com propósitos benéficos. Quem somos “nós”? A humanidade não existe como uma unidade colectiva única, há milhões, dezenas de milhões, milhares de milhões de diferentes seres humanos com propósitos diversos, diferentes crenças e diferentes valores, todos os seres humanos têm necessidades conflituais e contraditórias. É impossível, portanto, usar o conhecimento exclusivamente para fins benéficos. Haverá sempre, também, uma utilização destrutiva. O melhor a que podemos aspirar é a obter um equilíbrio mais inteligente, no sentido de usarmos o conhecimento de uma forma um pouco mais sensata, ou um pouco mais benigna.

Que papel desempenha o darwinismo, a teoria da selecção natural, na sua argumentação?

Bem, por vezes sou descrito como uma espécie de darwinista radical e é claro que aceito a teoria darwiniana. É a melhor teoria existente sobre o desenvolvimento dos seres humanos e da vida existente neste planeta, mas uso a teoria de Darwin no meu livro “Sobre humanos e outros animais” não por a considerar um dogma inabalável ou uma ortodoxia. É porque muitos humanistas modernos dizem-se darwinistas, mas de facto tratam Darwin como uma questão de fé, afirmam ao mesmo tempo que os seres humanos são diferentes de todos os outros animais, dizem que Darwin mostrou que os seres humanos, como outros animais, outras espécies, surgiram por via da selecção natural mas que, depois do nosso aparecimento, passámos a poder controlar o nosso destino, podemos decidir o que fazer das nossas vidas. O meu argumento contra isso é o de que se o darwinismo é verdadeiro, como acho que é, então as espécies não agem, os seres humanos não podem agir como uma única entidade, tal como não podem fazer os leões, nem os tigres, ou as baleias, não se pode dizer que a espécie dos tigres vai determinar o seu futuro e o mesmo vale para a espécie das baleias. Há imensas baleias, muitas baleias individuais, imensos genes de baleias e movem-se num fluxo evolucionário, num processo, as espécies não conseguem controlar os seus destinos e os seres humanos, neste sentido, não são diferentes dos outros animais. Claro que os seres humanos são diferentes de outros animais, em alguns aspectos, os seres humanos escrevem livros de filosofia…

E conseguem reflectir sobre isso, pensar sobre isso.

E também se podem iludir, a auto-ilusão, não o engano que já foi observado nos pássaros e até nos insectos, outros animais podem enganar-se uns aos outros, agora, a auto-ilusão parece ser um atributo exclusivamente humano. Práticas como a tortura parecem ser exclusivamente humanas, o genocídio parece ser exclusivamente humano, há alguns atributos exclusivos dos seres humanos, alguns deles destrutivos, ou outros, como a religião, que parecem ser também exclusivos, quanto à música, não sabemos, a filosofia, seguramente, os golfinhos, tanto quanto sabemos não escrevem livros de filosofia… Existem algumas características únicas nos seres humanos, mas todas juntas não implicam um corte radical entre os seres humanos e os outros animais. Repare, no cristianismo, os seres humanos têm alma e os animais não. Quando Deus criou o mundo, segundo o mito cristão, criou muitos animais, mas os seres humanos eram radicalmente diferentes, quando os seres humanos morrem sobrevive-lhes a alma, quando morrem os animais é apenas a morte. Esta crença de base na diferença radical entre humanos e outros animais parece-me ter sido transferida para o humanismo moderno, para o humanismo secular, mas está em contradição com o darwinismo, portanto, quando uso o darwinismo neste livro, uso-o como uma espécie de arma contra o humanismo moderno, que se afirma darwinista mas não assimilou o essencial da mensagem de Darwin.

Essa mensagem darwinista, ou pelo menos a forma como o John Gray a entende pode resumir-se pelo menos numa forma simples, a de que não se pode mudar o mundo. Como é que chegou à conclusão que é impossível pensarmos em mudar as coisas?

Bem, a minha mensagem em “Sobre humanos e outros animais” é um pouco mais positiva do que isso. O que eu tentei, entre outras coisas, além da mensagem negativa, passa também por isto: não é necessário mudar o mundo para levar uma vida feliz, com sentido, uma vida plena. Na era moderna reina a ideia de que se como indivíduos não tivermos mudado o mundo ou melhorado o mundo, então falhámos. Ora, de facto, a maior parte de nós não pode mudar ou melhorar o mundo, daí essa ideia de que a maioria das vidas redunda em fracasso. Mas no mundo antigo e até bem recentemente, e ainda agora, a maior parte das culturas humanas aceitaram ou tiveram a ideia de que a contemplação, seja religiosa ou estética, contemplar, olhar o mundo, também podem ser actividades válidas, o simples contemplar a beleza do mundo, sem qualquer tentativa de o modificar…

E o que há de feio no mundo, também…

Até o que há de feio no mundo, embora isso seja uma actividade um pouco perversa, mas a contemplação, até entre os gregos antigos era considerada superior à acção, Aristóteles pensou assim. No budismo, a contemplação é considerada a mais elevada forma de actividade humana e até mesmo o cristianismo sempre integrou práticas contemplativas. Portanto, o que eu quero dizer é que ao longo do tempo milhões e milhões de seres humanos levaram vidas plenas e realizadas e muitos deles não mudaram o mundo.(…)

Se ao longo da história tivesse prevalecido essa atitude contemplativa, John Gray, talvez ainda estivéssemos a viver num mundo dominado pela religião, pelo poder absoluto, com escravatura, abusos de toda a ordem… Estaríamos melhor?

Mas também poderíamos não ter sofrido o comunismo ou o maoismo, essas grandes e terríveis tentativas de mudar o mundo. Um dos paradoxos da vida humana passa pelo facto das tentativas de alterar e melhorar radicalmente a vida redundarem regra geral em algo de muito pior. Se esses anseios tivessem sido concretizados, o mundo seria ainda muito pior. A maior parte das utopias é mais mortífera do que a realidade existente. Olhando para a história, tendo a pensar que os activismos para transformar e melhorar o mundo tiveram consequências mais negativas do que positivas. Se tivéssemos contado com mais gente com uma atitude contemplativa o mundo provavelmente seria menos violento e menos cruel. Não teria sido completamente pacífico, não seria absolutamente belo, porque isso não é possível, mas provavelmente teria podido ser menos selvático. (…) A contemplação não precisa de ser a meditação do yoga ou a vida num mosteiro, a contemplação pode ser um mero olhar para um belo por do sol. Olhar um por do sol não é querer modificá-lo ou torná-lo mais belo, fazer umas quantas nuvens feias, não é nada disso. Assiste-se a um belo por do sol e nada mais. A contemplação, nesse sentido, faz parte das vidas felizes da maioria dos seres humanos (…)

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  1. Os desastres das duas guerras mundiais que sacudirão o século, sobretudo a segunda (com extermínio massivo de seres humanos, bombas atómicas, etc.), tornaram patente que o desenvolvimento científico‑tecnológico não é suficiente para nos garantir a libertação do sofrimento e da miséria. Ciência e tecnologia podem estar – e estão também com alguma inusitada frequência ao serviço da aniquilação do ser humano. Por outras palavras, o progresso científico e tecnológico não implica, necessariamente, progresso humano.

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