A religião do momento

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Fonte: Mídia sem Máscara (trazendo texto publicado na Folha de São Paulo)

CARO IRMÃO, você que está vivendo uma situação desesperadora, que se sente esgotado, estressado, sem saída, eis aqui um convite. Junte-se a nós, dê uma chance ao poder divino da política, venha descobrir que o Estado pode salvar a sua vida.

O jovem cheio de esperança, a senhora solitária que veio até aqui nos conhecer, tenham certeza que há um candidato olhando para vocês, um vereador proibindo alguma coisa na cidade, uma presidente com poder e sabedoria guiando o país.

É verdade, irmãos, que os últimos tempos não têm favorecido a crença no Estado. Há séculos pregamos que a educação, a saúde e o transporte público vão funcionar, e o que vemos são enfermeiras de postos de saúde injetando café com leite na veia de senhoras idosas.

Apesar disso, irmãos, o Estado nos pede que ignoremos esses problemas e perseveremos na fé -a fé de que um dia algum político nos conduzirá a um reino de paz e justiça social.

Irmãos, a mensagem mais importante a vocês é sobre dois graves riscos que nós corremos nas eleições deste domingo. O primeiro deles é que religiões influenciem a disputa para a chefia de nossos alvíssimos palácios. Isso é um absurdo, irmãos!

Religiões se baseiam em mundos imaginários, irmãos! Em ideias obscuras! Nós, ao contrário, lidamos com o mundo real! Com princípios científicos! Por exemplo, quando almejamos postos de saúde com a mesma qualidade dos melhores hospitais particulares, ou bancos estatais livres da influência de partidos: é a realidade, senhores! Nossos sonhos são perfeitamente realistas, irmãos!

A outra ameaça é eleger sacerdotes que não creem nos poderes do Estado. Gritem comigo: eles são hereges! Eles são demônios! Eles são neoliberais! Querem privatizar a Entidade Nacional do Reino Estatal! Precisamos atirá-los nos calabouços das derrotas eleitorais, irmãos!

Calma, senhora, não precisa jogar cheques e notas em nossos pés. Os sacerdotes fiscais já trataram de reter parte de seu salário e embutir nos preços do mercado a taxa de manutenção de nossas obras divinas. O valor está passando um pouco do dízimo -beira 40% de sua renda- mas acredite, minha senhora: todo ele é destinado ao bom caminho, à construção do paraíso escandinavo, ao poder infinito e sagrado do Estado.

Leandro Narloch, jornalista e autor de “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil” e coautor de “Guia Politicamente Incorreto da América Latina”.

Meus comentários

Como disse o forista Jules, dá impressão deste texto ter sido escrito com base no que este blog tem investigado. Mas creio que é só impressão, pois em minha análise a religião política trata não só do culto ao estado como de qualquer manifestação de culto irracional ao homem. Por exemplo, isso inclui também a idéia de que o homem é capaz de remodelar a sociedade para a criação do paraíso terreno (sim, essas são as palavras de Bertrand Russell, e não há mais como seus adeptos negá-las), ou mesmo, através da “ciência” (que eles nem de longe sabem como funciona e, se sabem, editam essa informação de sua mente) criar uma moral que funcione de forma objetiva para todos. É claro que tal noção pós-kantiana não poderia deixar de incluir um governo global, onde, enfim, todos serão felizes e prósperos, pois seus líderes estarão envolvidos de um ultra-altruísmo que surgirá “da razão”.

De qualquer forma, o culto ao estado, satirizado brilhantemente por Narloch, é uma das conseqüências dessa religião política. Melhor ainda: é uma de suas manifestações mais impactantes, pois, se há a crença no homem, existe naturalmente a crença em um estado inchado, onde conforme Horowitz disse no post anterior homens “desonestos, egocêntricos e ávidos por poder” (ou seja, como o ser humano é) podem manifestar essas características de forma mais fácil, apenas pelo fato de que tem mais poder – e é exatamente contra isso que lutam os conservadores de direita, sendo estes, em última instância, os maiores rivais dos religiosos políticos, ao contestarem a sacralidade do julgamento humano perfectível. Se na religião tradicional, o sujeito pode optar por crer em Deus ou em uma energia cósmica, na religião política ele poderá crer no estado, ou, conforme os humanistas mais empolgados, no governo global. Esta, aliás, é a grande religião do momento. A sub-crença que resulta no culto ao estado é apenas parte dessa crença maior.

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