Por que a religião política constitui a fé mais perigosa de todas?

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Ser um humanista requer dedicação, esforço e, especialmente, disciplina. Especialmente para executar as cinco rotinas base da religião política constantemente em seus discursos. Como já apontei várias vezes, essas rotinas são: (1) Cético universal, (2) Auto cético, (3) Cético verdadeiro, contra os falsos, (4) Dono da razão e (5) Representante da ciência. A pergunta é: por que isso os tornaria tão perigosos?

A pergunta geralmente é equivocada pois atribuímos um exagerado valor às crenças, e esquecemos do que o ser humano é. É verdade que as crenças podem modificar a visão de mundo do ser humano e direcionar suas ações, mas o instinto predatório do ser humano, junto com a racionalidade para o uso deste instinto, são muito mais antigos que qualquer sistema de crenças moderno.

Acho um tanto excessivo dizer que “X matou por causa da crença Y”, quando melhor seria reconhecer que alguém matou por que quis, utilizando-se da crença Y como um pretexto. Ou até mesmo que a crença Y tenha evocado as motivações que já estavam internalizadas em X. Em suma, o ser humano mata seus oponentes por que encontra meios para fazê-lo. Algumas ideologias apenas “acomodam” essas vontades e dão “meios” psicológicos para que alguém conviva bem com suas vontades.

As religiões tradicionais fizeram algum esforço para tentar conter as vontades humanas. Não obtiveram sucesso em muitos casos, e em outros tantos chegaram a ser utilizadas, de forma deturpada, para a obtenção de autoridade moral por aqueles que queriam o poder. Mas, em última instância, não há um bom argumento para dizer que, se alguém mata, o faz por causa da religião tradicional.

Eis que entra a religião política na jogada, e, com sua chegada, logo antes da Revolução Francesa, vimos que as pessoas envolvidas por ela se especializaram em atrocidades. Por que isso ocorreu? Será que em algum momento tais religiões políticas diziam textualmente “vá e mate”? Claro que não. Com exceção dos escritos de Karl Marx e alguns outros, na maioria dos casos os adeptos da religião política diziam palavras de paz e fraternidade. Sempre em um luta por um mundo de “prosperidade” e “paz para todos”. (É claro que muitas vezes pegavam pesado ao dizer o que devia ser feito contra aqueles que não concordassem com sua causa)

Isso poderia gerar uma grande contradição em relação à tese de que a religião política é perigosa, certo? Errado. O fato é que, como já disse antes, ninguém sai matando por que uma ideologia lhe disse “saia matando”. Assim como, quem esteja afim de matar, dificilmente deixará de fazê-lo por que uma ideologia disse “não mate”.

Só que a verdade inegável das religiões tradicionais (seja cristianismo, judaísmo ou islamismo) é que estas doutrinas visavam implodir as tentativas do ser humano em obter autoridade moral. Ao dizer que os únicos mensageiros de Deus estavam no passado, e não poderia haver substituto para eles (especialmente no caso do cristianismo e do islamismo), estas doutrinas tiravam qualquer oportunidade do ser humano em obter autoridade moral, de forma que, se alguém quisesse utilizá-las para obter o poder, teria que deturpá-las.

Isso não significa uma defesa da religião tradicional como única forma de se evitar que o ser humano obtenha autoridade moral injustificada. Uma visão darwinista, para um ateu não-humanista, pode levar à constatação de que não há nada de especial na espécie humana, e qualquer alegação de alguém ser um “redentor” poderá ser vista com reservas.

Mas entrando o humanismo no jogo, as regras mudam completamente, pois surgia ali uma ideologia que tinha um único fim: fornecer autoridade moral aos seus adeptos. Depois do estabelecimento do humanismo moderno (através das palavras de Comte, que, na época, o chamava de positivismo, ou seja, a religião da humanidade), o mundo filosófico virou um jogo de auto-rotulagem, no qual seus principais “players” se baseavam o tempo todo em simular âncoras positivas para si próprios.

Foi o surgimento da estratégia de se ganhar debates somente por auto-rotulagem, fazendo com que os antigos sofistas gregos se transformassem em dialéticos. E, voltando ao que o ser humano é, um animal predatório e territorialista, ávido por poder e oportunidades para poder saciar sua sede de sangue, surgiu enfim a oportunidade de ouro com o humanismo.

Se os seres humanos são “animais fazedores de armas e com uma insaciável inclinação para matar” (conforme nos diz John Gray em “Cachorros de Palha”), é preciso entender que esse desejo só é contido quando os meios são tirados do animal humano. Dê os meios ao animal humano e a tragédia é uma conseqüência óbvia.

Existem dois “meios” de se conseguir chegar lá. Um é pela prática da luta pelo poder formal, de forma física. Outro é pela prática do poder psicológico, utilizado para a luta política, especialmente pela forma da obtenção da autoridade moral. Este último, aliás, é um dos mais poderosos, e tende a resultar no primeiro.

Sendo que a religião política não tem outra funcionalidade que não a obtenção de autoridade moral (pois, ao invés da religião tradicional, ela não entende o homem como falível e imperfectível, mas como perfectível e completamente remodelável), ela fornece os meios para que o ser humano execute sua sanha assassina.

Quando um humanista disser “Eu não posso ser culpado pelo nazismo, pois minha ideologia não pediu para se criarem os campos de concentração”, deve ser retrucado com a questão: “Quem disse que a única forma de se influenciar nas barbáries é pela verbalização direta das ações finais?”. O argumento de acusação ao humanismo é totalmente alheio  à desculpa esfarrapada humanista. O fato é que, tomando como premissa que o ser humano busca os meios para exercer seu desejo assassino, uma ideologia que fornece esses meios (através da autoridade moral), deve ser comparada de forma negativa a outras ideologias que não fornecem a mesma autoridade moral, isto é, não fornecem os mesmos meios.

Em uma análise dos fatos, não faz sentido dizermos que “o humanismo matou” ou que “o cristianismo matou” (mesmo que eu já tenha usado tal terminologia no passado para acusar o humanismo, revejo meus argumentos). Por outro lado, deveríamos avaliar as ideologias como mais ou menos influentes para fornecer os meios que os animais humanos precisam para executar seus desejos genocidas.

É neste ponto que vemos o humanismo e seus congêneres servem como os mais poderosos meios para a conquista do poder psicológico através da obtenção da autoridade moral.

Dá até para imaginar o líder de um psicopata político dizendo: “Está afim de tocar o terror? Então faça o seguinte. Treine seu discurso para dizer que quer ‘a paz no mundo’ ou ‘remodelação do homem’ ou ‘sociedade sem classes’ ou ‘a felicidade geral’ ou até ‘justiça absoluta’. Depois disso, se conseguir convencer a patuléia, e chegar lá, aí é só botar para quebrar”.

E foi exatamente isso que fizeram Stalin, Mao, Pol Pot (foto) e Hitler.

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2 COMMENTS

  1. John Finnis entende que existam normas morais absolutas e não sujeitas a exceção (devem ser obedecidas sempre e em todas as circunstâncias). Como o direito, em última análise, retira sua autoridade e obrigação da moralidade, e suas normas derivam de uma foram ou outra da moralidade, essas normas morais descobertas pela razoabilidade prática constituem verdadeiros direitos humanos absolutos (não somente prima facie). Em nenhuma circunstância podem ser excepcionados ou feridos pelo Estado, cidadãos e Estados estrangeiros. Evidentemente, não são muitos os direitos que podem ser assim entendidos, e as normas morais (e racionais) que os garantem devem ser formuladas de forma negativa e prescritiva (em termos de deveres), tipo não matarás um inocente intencionalmente. A esse dever moral, compete um direito humano absoluto de, enquanto inocente, não ser morto intencionalmente como fim último de uma ação, ou como meio para outro fim que pode ser bom. Por exemplo: (1) uma pessoa pode ser covardemente assassinada para ser roubada, e sua morte foi o fim de uma ação imoral e ilícita; porém, (2) em situações como a guerra fria e a dissuasão nuclear, ameaçavam-se reciprocamente os inocentes soviéticos e americanos (mulheres, crianças e idosos não engajados nos esforços de guerra) de morte por ataque nuclear, a fim de evitar um ataque da outra nação. Para Finnis, as duas ações são imorais e ferem os direitos humanos de forma gravíssima.

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