Ensaios que se foram, ensaios que retornarão

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Quem acessa a seção “Séries”, deste blog, provavelmente vai sentir falta de 3 longos ensaios que ajudaram muito na fama deste blog. São eles:

  • “Deus, um Delírio – Refutação”: dedicado a refutar todo o livro “Deus, um Delírio”, de Richard Dawkins
  • “Desvendando a ilusão do neo ateísmo”: uma explicação sobre a origem e a funcionalidade do neo-ateísmo
  • “Um novo ceticismo”: uma proposta de um novo tipo de ceticismo, o ceticismo político

Sim, esses ensaios se foram. Não estão mais disponíveis. E sei que existem muitos admiradores deles. Mas eu não quero fazer igual David Hume, ao lançar seu “Investigações sobre o entendimento humano”, quando ele teve que rejeitar formalmente uma de suas obras mais conhecidas, “Tratado da Natureza Humana”.

Com o meu primeiro livro em revisões finais (embora eu ainda esteja sob discussão com possíveis responsáveis por sua publicação), eu não quero chegar e dizer o seguinte: “Ei, ao invés de ler aquelas séries, considerem o que estou publicando aqui”. Por isso, já tomei minhas precauções.

Isso não significa que eu rejeite aqueles 3 ensaios, muito pelo contrário, mas sim que eles representam uma fase minha na qual eu estava ainda em formação de meu sistema de pensamento, o qual hoje direciona tudo o que eu escrevo. Não que meu sistema deva permanecer imutável e inquestionável, mas simplesmente por que ele satisfaz e norteia todas as necessidades das investigações a que me proponho.

A coisa era bem diferente na época (entre 2009 e 2011) em que concluí aqueles 3 ensaios, os quais, segundo alguns leitores, seriam livros por si só.

No caso da refutação a “Deus, um Delírio”, ela foi deixada incompleta, sendo que o livro de Dawkins tem 10 capítulos e eu havia refutado os 6 primeiros. O detalhe é que refutações aos outros capítulos podem ser encontradas aqui e ali, em outros textos, motivo pelo qual interrompi esta série no meio.

A questão é que esta refutação foi escrita em uma época que eu era teísta, e, portanto, estava envolvido emocionalmente com a questão, e isso afetava o resultado final. Quando não há um envolvimento tão direto com o objeto de ataque, e passamos a ser ofensores ao invés de estarmos na defensiva, a coisa muda consideravelmente.

Mas o fator mais importante, que diferencia a forma pela qual vejo hoje o neo-ateísmo, é que naquela época eu ainda não havia atuado conforme dita o meu sistema de pensamento atual, que foca na investigação de um oponente ideológico, com o respectivo mapeamento de seus truques, conscientização da platéia (mas não do oponente) e enfim a ridicularização, caso cabível.

Por isso, na época, eu não raro escrevia algo do tipo “Dawkins realmente mostra ignorância no assunto”, ao passo que hoje eu escreveria “conforme previsto por sua tática, Dawkins simula ignorância para capitalização”. Onde eu escrevia “Dawkins erra em X”, hoje eu diria “Dawkins acerta em sua tática, de implementar a mentira X, de acordo com a estratégia Y”. Este tipo de abordagem muda tudo.

Eu elaborei um pouco mais esta abordagem nos dois ensaios seguintes, “Desvendando a ilusão do neo ateísmo” e “Um Novo Ceticismo”.

No primeiro, eu investiguei as origens do neo-ateísmo e do cientificismo, e relendo-o hoje em dia acho que fiquei focado demais no marxismo cultural e gastei muito pouco tempo no discurso iluminista e positivista. Qualquer abordagem que eu faça hoje a respeito da religião política (do qual o neo-ateísmo é um dos ícones), tem que citar a origem iluminista/positivista deste discurso.  O detalhe é que se eu errei parcialmente o alvo neste ensaio, tive muitos insights positivos a respeito do pensamento de esquerda em geral. Foi nessa época, no final de 2010, quando me tornei um especialista na estratégia gramsciana.

No segundo, eu sugeri a criação de um “novo ceticismo”, que corrigiria algumas falhas do ceticismo popular, que é o difundido pelos adeptos de Carl Sagan e Richard Dawkins. Esse questionamento havia surgido em 2004, no início de minha participação nas redes sociais, com o questionamento: “Por o ceticismo só pode ser usado contra o sobrenatural e o paranormal?”. Depois dos outros ensaios, e de muitas investigações feitas neste blog, novos questionamentos surgiram, como: “Por que algumas pessoas ficaram conhecidas como adeptas da razão quando possuem crenças tão irracionais? Por que algumas pessoas ficaram conhecidas como representantes da ciência quando apenas a deturpam em prol de objetivos políticos? Por que algumas pessoas ficaram conhecidas como céticas quando apresentavam credulidades abomináveis e genocidas?”. Por fim, a pergunta fundamental: “Qual a paga política destas fraudes?”.

Eu ainda não havia ido a fundo nestas questões no ensaio “Um Novo Ceticismo”, mas já começava a ter noção do problema que eu deveria resolver. Neste ensaio, eu criei a definição de ceticismo político. Note que minha definição é totalmente diferente da definição de Bertrand Russell pois, quando o ceticismo político que eu criei é aplicado, a definição dele cai por terra – no caso de Russell, ele defende um apartidarismo a partir de uma “elite” de pessoas que se despreenderiam de paixões, podendo, então, questionar os políticos, e meu ceticismo político questiona essa afirmação que, se aceita, daria vantagem a Russell e seus amigos no duelo político, e como a alegação dele não é comprovada, deve ser rejeitada.

Neste ensaio eu também não havia tratado de minha tese positiva a respeito do ceticismo político, e esta é a tese do duelo cético. Nesta tese, assume-se que a qualidade do debate depende não das auto-validações que alguém fará sobre suas idéias, mas ao invés disso do crivo cético que um oponente destas idéias possui, sendo que, em muitos casos, o árbitro estará somente na platéia.

No livro previamente entitulado “De volta às raízes do ceticismo”, eu trato não só do ceticismo político de forma aprofundada, como também do duelo cético. Falo também de técnicas como a auto-validação simulada da parte adversária. Vejam como a técnica funciona: caso um oponente queira vender a si próprio para  a platéia como neutro, ele deverá em público ser obrigado a julgar aqueles que dizem idéias que beneficiam o seu lado na guerra política – neste caso, estamos validando mais do que as idéias, mas sim a tese do “julgamento imparcial” que o sujeito declarou, e esta alegação de “julgamento imparcial” é uma alegação política.

Lá eu também falo das cinco rotinas base que fizeram com que hoje em dia expressões como ceticismo, razão e ciência perdessem todo o sentido. São elas: (1) Cético universal, (2) Auto cético, (3) Cético verdadeiro contra os falsos, (4) Dono da razão e (5) Representante da ciência. Hoje em dia, quando se lhe perguntarem o que está na base da filosofia de Hegel, Kant e Russell, basta dizer que é a execução destas cinco rotinas em sequência, embutidas dentro de alguns raciocínios (alguns válidos, a maioria inválidos), mas que, pelo uso das rotinas, serão aceitos sem um freio crítico pela patuléia.

Seja lá como for, “De volta às raízes do ceticismo” dará sustentação a tudo que escrevo a partir de agora, pois basicamente, o que faço é a aplicação do raciocínio investigativo em relação às idéias do oponente, criando conscientizações dos truques ali existentes e fazendo com que os executores de fraudes paguem o preço por executar tais fraudes. Se estas fraudes tem por fim a obtenção de uma falsa autoridade moral, e a origem do ceticismo está no questionamento à autoridade, em meu empreendimento eu nada mais faço que o retorno às origens do ceticismo, ao invés da criação de um “novo ceticismo”.

Desta forma, a primeiro dos ensaios que vocês verão de volta é “Um Novo Ceticismo”, revisado e ampliado em “De volta às raízes do ceticismo”. Aguardem para o início de 2013, embora eu ainda fique devendo uma data final.

“Desvendando a ilusão do neo ateísmo”, por sua vez, será diluído em outros materiais nos quais estou trabalhando, pois entendo que mais da metade da abordagem ali era genérica, focada mais na esquerda como um todo do que especificamente só no neo-ateísmo. Desta forma, não haverá o retorno deste ensaio, mas o aproveitamento de grande parte de seu conteúdo em outros.

Por fim, “Deus um Delírio: Uma Refutação”, está sendo neste exato momento revisado e concluído, e provavelmente o editarei em formato de livro virtual, até por que acho difícil quererem publicar uma obra de autor iniciante que terá, em sua versão final, cerca de 800 páginas.

Em relação a “Deus um Delírio: Uma Refutação”, este foi um ensaio do qual eu nutro muito apreço até hoje, pois foi ali, justamente ali, onde descobri que a forma de visualizarmos o material de nossos oponentes era totalmente errada. Isso por que eu havia lido “Deus, um Delírio”, de Richard Dawkins, com a seguinte sensação: “Ei, uma fraude.. Mais uma… [no parágrafo seguinte] De novo?… [no outro parágrafo] Essa fraude é diferente da anterior, chega a ser divertida.”

Não dá para avaliar um material assim senão pelo destrinchamento didático de fraude por fraude, explicando claramente ao leitor como refutá-las, e como difundir os padrões destas fraudes ao público. Agir de maneira diferente seria tratar com dignidade aquilo que não tem dignidade.

Por isso, na revisão de “Deus, um Delírio: Uma Refutação” (para a qual não tenho data de disponibilização, mas será publicada aqui no site, e disponível em formato PDF para download), prometo um material que fará a versão anterior parecer algo “júnior”.  Explica-se: antes eu clicava no email de phishing e achava que ele vinha por engano, e agora eu sei que o email de phishing é uma fraude intencional.

Portanto, aqui estão os motivos pelos quais as 3 séries em questão foram despublicadas. Tudo foi por uma causa justa.

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10 COMMENTS

  1. Luciano, por que não criou um baú de antiguidades? Estas séries podem não fazer mais parte do seu sistema de pensamento atual, mas seu sistema de pensamento antigo ainda seja útil para uma grande parcela de leitores do tipo X, da mesma maneira q o seu sistema de pensamento atual pode ser útil para uma grande parcela de leitores do tipo Y.

      • ‘Por isso, na revisão de “Deus, um Delírio: Uma Refutação” (para a qual não tenho data de disponibilização, mas será publicada aqui no site, e disponível em formato PDF para download), prometo um material que fará a versão anterior parecer algo “júnior”.’

        Rapaz, eu não acredito em Papai Noel (como dizem os “céticos universais”, hehehe), mas se essa revisão sair antes do Natal talvez eu dê uma chance ao Bom Velhinho. 🙂

        Força, Ayan!

        No aguardo e ansioso!

        Um abraço.

  2. Olá Luciano!
    Isso me faz lembrar o fato de eu ter jogado no lixo meus desenhos de quando eu era apenas um guri. Joguei fora quando alcancei um patamar de técnica muito superior e achava os meus rabiscos juvenis algo inútil. Mas estando eu mais velho e ainda mais técnico, senti saudade de rever meus rabiscos juvenis e compará-los com minha técnica aperfeiçoada. Será q vc não irá se arrepender de jogar seus rabiscos fora, Luciano? Rs.

    • Olá Jeremias. Entendo o que você falou. Mas eu não joguei os textos fora. Tanto que todas as séries foram compiladas em documentos Word e estão guardadinhas em backups. Nada está perdido. Aliás, tudo será reaproveitado. E vocês aqui no blog saberão em primeira mão. Abs, LH.

  3. Fala Luciano.

    Desejo sorte para o seu material, o qual não posso deixar de frisar que realmente me fez repensar e adotar uma postura totalmente diferente nos debates intelectuais. Salvo, que como teísta não posso me mover sempre na ofensiva como você o faz tranquilamente por não ter um sistema de crenças que pode ser atacado.

    De qualquer forma, os artigos novos cuja foco investigativo é muito maior estão sendo de grande valia para mim, já que de certa forma o embate tradicional não me inspira tanto quanto antigamente.

    Um abraço, sucesso aí cara.

  4. Deselno muita sorte e força de vontade, Luciano, porque você vai tentar entrar num mar que não está para peixe. Está mais para quem faz odes ao molusco, se é que me entende…

    Particularmente, lamento muito não poder consultar mais a série “Desvendando a ilusão do Neo-Ateiísmo”, especialmente as partes 2 a 6, que deveriam integrar o currículo escolar do Ensino Médio.

    • Olá Thiago, o texto quase integral da parte 6 estará em meu primeiro livro, sobre o ceticismo político. Anunciarei aqui assim que possível. Em relação a parte 2, o conteúdo sobre a interpretação delirante e a mentalidade revolucionária provavelmente eu publique isoladamente. A parte sobre Russell Kirk pode ser encontrada em outro texto aqui no blog: http://lucianoayan.com/2010/01/04/dez-principios-conservadores-por-russel-kirk/

      Em relação ao mar não está para peixe, estou pronto para nadar contra a correnteza. 😉

      Um abraço,

      LH

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