A essência das reconstruções OU Como transformar o aprendizado dos métodos de seus inimigos em uma arte

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Na primeira vez que usei o termo reconstrução, usei-o com uma conotação bastante diferente daquela que utilizo atualmente. Hoje em dia, vejo a reconstrução de uma forma muito mais ampliada do que quando escrevi o texto Que tal usar o neo-ateísmo para destruir o esquerdismo?

Naquele texto, eu visualizei a reconstrução como uma reutilização de praticamente tudo que os neo-ateus escreveram, com as devidas adaptações, contra eles próprios. Agora, eu amplio o conceito para a reutilização de todos os métodos e técnicas funcionais  de seus oponentes,  caso esta reutilização seja viável logicamente.

Um exemplo evidente pode ficar na própria questão do neo-ateísmo. Um método claro  deles é baseado no discurso afirmando que se a religião é excessivamente respeitada, mas criticável, melindres podem surgir ao combater a religião, especialmente devido ao fato  de não existirem críticas costumeiras; isto deve ser um motivador para as críticas à religião.

Basta mapear “religião” como uma variável, por exemplo, X, onde X é o mesmo que qualquer tipo de ideologia ou doutrina passível de crítica. Logo,  teríamos a aplicação do método “Justificação de crítica ao não-costumeiro”, descrito como “Se X é excessivamente respeitado(a), mas criticável, melindres podem surgir durante o combate a X, especialmente devido ao fato de não existirem críticas costumeiras; isto deve ser um motivador para as críticas à X”.  E, sendo X igual a humanismo ou gayzismo, teríamos:

  1. Se o gayzismo é excessivamente respeitado (pela mídia de esquerda), mas criticável,  melindres podem surgir durante o combate ao gayzismo, especialmente devido ao fato de não existirem críticas costumeiras; isto deve ser um motivador para as críticas ao gayzismo;
  2. Se o humanismo é excessivamente respeitado (novamente, pela mídia de esquerda), mas criticável, melindres podem surgir durante o combate ao humanismo, especialmente devido ao fato de não existirem críticas costumeiras a ele; isto deve ser um motivador para as críticas ao humanismo.

Mas este é apenas um exemplo, onde temos um método, enquanto a variável X assumiu 3 valores diferentes (religião, gayzismo, humanismo). Outro exemplo, ainda mais curioso, termina por justificar o meu próprio modelo de ceticismo, que é focado em alegações políticas. Um humanista diria: “Não se deve crer no paranormal, pois  o paranormal não se submete ao método científico, e, sendo o paranormal uma declaração empírica, esta deve ser passível de observação via método científico ou coisa parecida, antes de ser aceita”.

Eu poderia descrever este método como “Defesa à constestação de alegação empírica não sustentável”, com a seguinte descrição: “Não se deve crer em X, pois X não se submete ao método científico, e sendo X uma declaração empírica, esta deve ser passível de observação via método científico ou coisa parecida, antes de ser aceita”.

Mas a afirmação “sou um cético absoluto” é uma declaração empírica e é feita, nos  mesmos moldes em que a alegação paranormal padrão. Assim, reaplicando o método, substituindo X por “alegação de auto-ceticismo universal”: “Não se deve crer na alegação de auto-ceticismo universal proferida por W, pois esta alegação de auto-ceticismo universal não se submete ao método científico, e sendo qualquer alegação de auto-ceticismo universal uma declaração empírica, esta deve ser passível de observação via método científico ou coisa parecida, antes de ser aceita”. (Onde W é qualquer pessoa que tenha proferido X)

Ou seja, eu apliquei o método definido por Carl Sagan exatamente contra ele.

É fácil pensar assim quando se observa a lógica de programação. Um programador poderia escrever um método para validar um número específico de cartão de crédito, entretanto, o mesmo método poderia ser aplicado para qualquer cartão de crédito. Logo, não faz sentido deixar de aproveitar um método que é completamente aplicável. Note que eu não estou isolando as variáveis, para o debate lógico, a fim de provar algo. Estou assumindo que algo já é válido logicamente, para, então, reutilizá-lo, mais como na lógica de programação, especialmente aquela orientada a objetos.

Podemos  chegar então na estratégia gramsciana, que diz: “Para conseguir influenciar o senso comum com a ideologia marxista, é preciso obter espaços nas universidades, inserindo o seu pensamento lá, pois dali sairão formadores de opinião”. Este método, aliás, pode ser reconstruído para, basicamente, “Estratégia Gramsciana, inserção universitária”.

Nele, sendo X “a ideologia marxista”, a aplicação do método, agora supondo X como “a ideologia conservadora de direita”, resultaria na seguinte reconstrução: “Para conseguir influenciar o senso comum com a ideologia conservadora de direita, é preciso obter espaços nas universidades, inserindo o seu pensamento lá, pois dali sairão formadores de opinião”.

Em todos os exemplos que eu citei aqui, nenhum método de qualquer oponente foi distorcido, mas mapeado logicamente para a sua aplicação sobre qualquer outro objeto para o qual ele seja aplicável. No universo da lógica de programação, não faz sentido escrever novas linhas de código para cada número de cartão de crédito no sistema de e-commerce. Basta escrever um método, no qual Cartão de Crédito é apenas uma variável, verificar sua consistência lógica, e depois aplicá-lo a todos os cartões para os quais a aplicação deste método seja coerente.

Isto é o que significa aqui a reconstrução. Repetindo: “reutilização de todos os métodos e técnicas funcionais  de seus oponentes,  caso esta reutilização seja viável logicamente.”

Logo, aprender com o oponente não é apenas uma questão de consciência e disciplina, mas a aplicação de um método, a reconstrução,  que é capaz de identificar todos os métodos  existentes no discurso adversário.

Claro que, assim como existem bons e maus métodos no mundo da programação de computadores, o mesmo vai ocorrer no mundo do discurso político. Neste caso, selecione os melhores métodos que identificar e mande aqueles que não servirem para a lixeira.

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