E surgem os conservadores de direita que todos os esquerdistas adoram

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Um conservador de direita que se entitula “Questionador” postou uma mensagem na caixa de comentários muito desaforada. Infelizmente, o post completo não poderá ser publicado por conter várias provocações de parquinho. Uma pena, pois há informações interessantes por lá, mas vou reduzir o problema comentando aquilo que passou no crivo e se qualifica além das bravatas.

Começa o “Questionador”:

Responda sem tentar fazer joguinhos: Porque os republicanos devem mudar? Porque o projeto deles de mundo é melhor? Porque eles querem salvar o mundo da esquerda? Mas isso daí não seria síndrome de heroísmo demais? Ou será que é tudo jogo de poder? E neste caso, qual a diferença entre você e o PT? E como assim não tem problema os conservadores serem contra o aborto, o problema é dizerem isso na campanha? Você sugere que sejamos todos dissimulados?

Notei que nestas questões iniciais, ele confunde muita coisa, principalmente se esquecendo de que a questão sobre a mudança dos republicanos é lógica, e poderia ser aplicada até aos esquerdistas se estes começassem a ter mania de perder as eleições. A verdade é que, se os republicanos confiam que seus projetos sociais são melhores que os projetos dos esquerdistas, não estão sabendo comunicar isso ao público. Essa é a essência de minha crítica, que o “Questionador” não captou.

Se existem tantas minorias nos Estados Unidos, por que o partido não colocou um representante das minorias para disputar? Ou mesmo como vice? Será que estão preocupados em criar uma identidade com várias camadas da população ou se esqueceram disso? Isso não tem nada a ver com “síndrome de heroísmo”, mas uma análise da situação política.

Outro erro é confundir os princípios pessoais com a campanha política. Uma proposta política é algo que é feito para afetar a vida de todos, ou seja, além daqueles que tem suas crenças e ideais. Um princípio pessoal é o que carregamos para nós próprios. Isso não é dissimulação. Vou dar um exemplo. Alguém pode achar que a religião é um lixo, como princípio pessoal, mas fazer uma campanha na qual as religiões não devem ser vetadas. Isso é notar a diferença entre princípio pessoal e proposta política. Ele confunde ambas as coisas, achando que a proposta política deve ser a manifestação de todos os valores. Isso significa falar somente para aqueles que tem (exatamente) os mesmos valores que ele.

Sou um dos líderes de um grupo que articula junto com pessoas sérias a formação de um partido de fato conservador e sério, pautado nos valores cristãos verdadeiros. Você já colaborou com vários de nossos membros, inclusive na época do Quebrando o Encanto. Vários já comentaram com você até demais e muitos já pediram a mim que fosse autorizado um convite a você.

Acho que ele está me confundindo com o Snowball, que tinha o site Quebrando o Encanto do Neo-Ateísmo. Entretanto, como sou ateu (embora eu já tenha sido teísta), eu não me encaixaria bem em um partido que é “pautado nos valores cristãos verdadeiros”. Talvez apoiasse sua eleição, dependendo das propostas políticas. Eu respeito os valores cristãos, e acho que são uma influência muito boa para a civilização ocidental, tanto que sou um dos maiores oponentes possíveis que os neo-ateus podem ter. Mas isso é bem diferente de fazer parte de um “conservadorismo cristão”.

A parte abaixo está severamente editada, sem as provocações de parquinho:

Você envergonha o conservadorismo, e sua análise das eleições americanas o colocam como um mero discursor. Você lembra os tipos reacionários-revoltados como Olavo de Carvalho e Leonardo Bruno. O conservadorismo brasileiro não decola por que a população está passando a enxergar os conservadores de forma negativa. E vocês contribuem para isso.

Eu acho que Olavo de Carvalho e Leonardo Bruno compartilham muitas características em comum entre eles e algumas em comum comigo, e gosto do material produzido por ambos. Entretanto, eles talvez não gostem de uma análise pragmática como a minha. Além do mais, eu não sou um “defensor do conservadorismo”, mas um oponente do esquerdismo, o que é algo muito diferente. Eu já fui considerado uma mistura entre conservador e libertário, mas me qualificaria mais como um realista político ou um irreligioso político. Ainda assim, mesmo que eu tenha um perfil bem diferente de Olavo e Leonardo, em relação ao primeiro acho difícil encontrar no Brasil alguém que tenha trazido tanto conteúdo e pesquisas que ajudaram a denunciar o esquerdismo. Se hoje existe tanta conscientização a respeito de Antonio Gramsci, Olavo foi o principal denunciador destas estratégias. Se o “Questionador” conseguir colaborar mais com conhecimento do que Olavo, eu o parabenizarei. Se o partido que ele quiser formar fizer isso em favor de todos aqueles que não gostam do esquerdismo, ótimo. Fico no aguardo. Este blog divulgará contribuições importantes nesse nível de braços abertos.

O verdadeiro conservador pensa em valores. Ele não se importa com o poder, ele se importa em construir as bases de uma sociedade que seja sólida. Ele não tem ojeriza a esquerdistas, mas também não cede a seus pontos de vista utópicos. O verdadeiro conservador não quer resolver os problemas do mundo, mas quer suar a camisa para que o mundo seja um lugar onde as pessoas possam resolver seus problemas sem enfrentar injustiças. O verdadeiro conservador não muda suas opiniões de acordo com os resultados das eleições, pois isso é dissimulação e sede de poder ou síndrome de super-herói (do tipo: o que importam não são meus valores, o que importa é que EU esteja no poder). O conservador compreende que as pessoas sejam facilmente iludidas e sabe que governos ruins servirão para deixá-las maduras. Ele espera pacientemente até chegar sua vez, para aí então dizer: “viram? Eu falei, e vocês não escutaram! Vamos tentar do jeito certo agora?” Ele não dissimula seus valores, Deus, de forma alguma que um conservador faria isso!

Esse papo de “verdadeiro conservador” arrepiaria alguns. Mas não me convence mais. Notem o tanto de ingenuidade que este discurso contém. Ele diz que o conservador não se importa com o poder, mas sim construir as bases de uma sociedade que seja sólida. Mas como farão isso se os oponentes da direita estão com o poder? Ele diz que os conservadores não tem ojeriza dos esquerdistas, mas a verdade é que os esquerdistas tem ojeriza dos conservadores, polarizam o discurso e capitalizam com isso. Ou seja, mais uma ingenuidade da parte dele. Ele diz que os conservadores querem suar a camisa para que o mundo seja um lugar onde as pessoas possam resolver seus problemas sem enfrentar injustiças, mas as injustiças são inerentes à espécie humana. O máximo que podemos ambicionar é que estes praticando injustiças não estejam no estado, onde estão com excesso de poder. Mas isso só poderá ser feito, ora vejam só, assumindo o poder. Isto é o que significa pensar em seus valores, mas esquecendo-se de que, sem conquistar o poder, esses valores serão expurgados com uma cuspida por aqueles que tiverem o poder.

Outro ponto risível é quando ele diz que os conservadores não mudam suas opiniões com os resultados das eleições, mas quem está pedindo para “mudar opiniões”? Ele confunde novamente a opinião pessoal com a proposta política e daí, em um estratagema de ampliação indevida, diz que o que estou solicitando é o seguinte: “o que importam não são meus valores, o que importa é que EU esteja no poder”. Na verdade, é exatamente o oposto. O que eu digo é que os valores pessoais são importantes, mas somente se aqueles aliados a você chegarem ao poder, parte destes valores poderão, enfim, serem úteis no direcionamento da sociedade.

E o que não dizer de quando ele diz que se as pessoas são facilmente iludidas, “governos ruins servirão para deixá-las maduras”? É, dá para notar. Vemos que uma série de governos ruins no Brasil não tem feito nada em favor de dar espaço para a direita ter uma chance de ir lá resolver. Ao contrário do que ele espera, uma série de governos ruins podem servir para o que os esquerdistas querem: afundar o estado em dívidas, conseguindo um pretexto para tomar o poder de forma totalitária. E eles estão conseguindo isso com uma facilidade impressionante, pois não confundem seus valores pessoais com as propostas políticas. Eles atuam nas propostas políticas, vendendo-as à sociedade, para obter o poder. Enquanto o “Questionador” pensa só em seus valores. É claro que os esquerdistas estão morrendo de rir com isso.

Seu amplo questionamento à ciência sem se dar ao trabalho de fazer nada além de usar retórica também é homericamente ridículo.  A ciência é empírica e não retórica. Sua auto-promoção como cético não deixa a desejar: uma mocinha inocente no alto da torre esperando um príncipe encantado é menos ingênua do que você defendendo o conservadorismo. Essa semana expulsei um membro da sociedade que liderou um abaixo assinado pela sua inclusão.

Mas em qual post meu eu faço um “questionamento à ciência”? Aliás, em qual post eu me “auto-promovo como cético”? Que eu saiba, eu jamais questionei a ciência em si, e meu sistema de pensamento automaticamente detona qualquer um que faça a auto-venda de ceticismo universal. Ademais, eu não sou um “defensor do conservadorismo”, mas sim um ofensor em relação ao esquerdismo. Acho que ele anda lendo um outro blog e confundiu tudo.

Incluindo frases de efeito da dinâmica social e da psicologia onde isso não é aplicável, propondo mudanças no que está correto e trazendo soluções imorais. Eu poderia dizer que você parece um comunista querendo revolucionar o conservadorismo.

Mas quais seriam os pontos onde não seriam aplicáveis? Quais soluções seriam imorais? Deixem-me eu tentar ver o que ele está querendo dizer. Será que propor um alinhamento de discurso, no qual as propostas políticas são feitas pensando até naqueles que não compartilham de seus valores pessoais, algo que ele acha “imoral”? Ou mesmo usar uma linguagem simples para comunicar suas propostas? Parece que o que ele acha imoral é propor uma mudança de postura na atitude política da direita de forma que ela interrompa o processo hegemônico da esquerda. A pergunta é: qual pensamento pode atrapalhar mais a esquerda? É claro que eu não acho o “Questionador” um comunista, mas sim alguém que está se comportamento exatamente do jeito que os esquerdistas querem que ele se comporte. Eu, por outro lado, faço o oposto daquilo que os esquerdistas esperam.

A pergunta não é se você quer entrar aqui. A pergunta é se você é capaz de ser parte do partido que irá quebrar a síndrome de corrupção e letargia na qual o Brasil mergulhou. E a resposta é: NÃO.

Claro que não! Antes de fazer uma pergunta desse tipo, deve-se saber se alguém quer participar do partido, oras. Não se coloca pessoas em um partido independente de sua vontade de participar dele. Ou ele está adotando a idéia de Lenin? A vontade de qualquer partido (mesmo algum que esteja apenas na mente dele) não se sobrepõe a vontade individual. Portanto, a coisa já começou mal para esse partido do “Questionador”. A pergunta é uma só: eu quero ou não quero participar de um partido que esteja focado no ego de seus participantes, preocupados mais com “seus valores pessoais”, do que propostas para enfim ganhar eleições e daí conseguir implementar programas que satisfaçam, na medida do possível, aos seus valores? A resposta minha é: NÃO!

Mas é claro que minha posição pode mudar e daí, somente nesse momento, ele poderá formalmente rejeitar um possível desejo meu de entrar no partido. Mas para isso antes eu gostaria de CONHECER AS PROPOSTAS POLÍTICAS deste partido. Como diria o ceguinho esperançoso, veremos.

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4 COMMENTS

  1. Fazia tempo que não passava por aqui e vejo que o blog está cada vez melhor. O texto do Luciano causa incômodo, mas falta isso aos conservadores, uma crítica do conservadorismo. Os esquerdistas são bons em criticarem a si próprios para revisarem suas estratégias, o Olavo e o Luciano fazem esse tipo de crítica ao conservadorismo. Esse incomodo do Questionador deve passar, e ele deve aprender algo.

  2. Sei não… Esse questionador parece um daqueles meninos mimados que eventualmente são os donos da única bola no campo e resolvem decidir quem vai e quem não vai jogar. Um tiraninho que faz xixi nas calças quando brinca com fogo.

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