O sucesso do Fluminense, o fracasso do Palmeiras e o que isso tudo tem a ver com a retirada da inscrição “Deus seja louvado” das cédulas?

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Conforme a Folha, o arcebispo de São Paulo, cardeal dom Odilo Scherer, se indignou com a ação do Ministério Público pedindo que as novas cédulas de real sejam produzidas sem a expressão “Deus seja louvado”. Diz Scherer: “Questiono por que se deveria tirar a referência a Deus nas notas de real. Qual seria o problema se as notas continuassem com essa alusão a Deus?”.

É aí que preciso adotar um paradigma adicional para os textos aqui neste blog. Digamos que seria a “análise tática” do contexto. Algo como um comentarista esportivo julgando o desempenho dos times X e Y, sendo que X vence o jogo por 5×0, demonstra um ataque incisivo e uma defesa sólida, enquanto Y mostra incapacidade de ataque e uma defesa que parece uma peneira. A verdade nua e crua desta análise é simples: X jogou bem, e o seu técnico merece aplausos, enquanto Y fez uma atuação vergonhosa, e seu técnico merece um puxão de orelha.

Não faz sentido ficar reclamando: “Puxa, por que o time X fez tantos gols?”. A resposta óbvia seria: “Mas por que sua defesa foi tão mal armada? Ou até: por que seu ataque não chutou uma bola ao gol?”.

Scherer, no extremo oposto deste auto-questionamento (que é o mínimo que se espera de um perdedor que jogou mal), questiona se caso “as notas continuassem com essa alusão”, se haveria algum problema. Ele está sendo incapaz de pensar na questão nos termos do jogo político. Mentalmente “travado”, ele só consegue olhar para os outros, especialmente os adversários, com os motivos que tem em si próprio.

Qualquer um que tenha estudado um pouco de ciência política e conhece o básico de Gramsci sabe que a retirada da inscrição “Deus seja louvado” não trará nenhum benefício aparente aos humanistas e neo-ateus que defendem esta ação, personificados na figura do promotor Jefferson Dias. Mas quem é que busca benefícios aparentes em termos de guerra política? De acordo com a guerra de posição gramsciana, a retirada da inscrição “Deus seja louvado”, se não tem um ganho direto, possui o ganho indireto de subcomunicar a mensagem: “Qualquer menção em relação à religião cristã (ou suas parentes próximas) é indesejável, mas, ao mesmo tempo, toda menção em relação às manifestações contrárias é não só desejável, como vital; o humanismo, com seu objetivo de eliminação dos sistemas morais e tradições vigentes para a implementação de sua doutrina totalitária, requer essa ação; aprendam isso, e, agora, ajoelhem-se”.

Esta é a mensagem sub-comunicada, e, portanto, a ação humanista é inteligentíssima. Por isso, quando o cardeal diz que “ter ou não ter essa referência não deveria fazer diferença”, significa que ele ainda está na adolescência em termos de jogos políticos. Na verdade, essa ação faz toda a diferença, e estrategicamente é uma ação brilhante do promotor.

Não adianta ele choramingar dizendo que “os que creem em Deus também pagam impostos e são a maior parte da população brasileira”. Mas de que adianta acreditar em algo e pagar impostos se existe uma absoluta ignorância em relação ao contexto dos jogos políticos de uma era plenamente gramsciana?

Claro que toda a argumentação do promotor Jefferson Dias é furadíssima e não convenceria qualquer investigador de discurso. Notem que discurso chinfrim: “Imaginemos a cédula de real com as seguintes expressões: ‘Alá seja louvado’, ‘Buda seja louvado’, ‘Salve Oxossi’, ‘Salve Lord Ganesha’, ‘Deus não existe’. Com certeza haveria agitação na sociedade brasileira em razão do constrangimento sofrido pelos cidadãos crentes em Deus”.

O problema é que, como diz bem o site da União Conservadora da UnB, existe, nas mesmas cédulas, uma “ofensa” (se fôssemos usar a lógica do promotor) aos adeptos da religião tradicional: “Aliás, vale mencionar algo no mínimo irônico. As notas de real levam impressas a efígie da República, imagem construída pelos revolucionários jacobinos durante o banho de sangue que promoveram na França de fins do século XVIII. A imagem da República, batizada pelos jacobinos de Marianne, teve uma inusitada inspiração: a sacerdotisa Semíramis, esposa de Nimrod. O soberano Nimrod foi o governante babilônico que, considerando ser uma injusta escravidão servir a Deus, decidiu desafiá-Lo construindo a Torre de Babel. Nimrod queria mostrar com isso que o homem não precisava de Deus para absolutamente nada, e que era um dever do homem fazer pouco do Criador.”

É claro que as regras do jogo são explícitas, e qualquer um que alegue espanto ou é um tolo ou está sendo fingido (ou ambos). O fato é que a argumentação do lado dos religiosos tradicionais nesta questão foi tão ingênua e patética que até um discurso padrão (que o promotor Jefferson deve ter pego em um desses banners de neo-ateísmo na Internet) facilmente refutável foi o suficiente para ele ter um “caso” a favor da imposição de sua doutrina humanista sobre as doutrinas religiosas mais tradicionais do país.

A única análise possível que o cardeal deveria fazer é: “Como fomos tão mal jogadores em termos políticos? Como faremos para não perder tão fácil na próxima disputa política?”. Esse é o tipo de questionamento que ele deveria estar fazendo, e não julgando os motivos do adversário pelos seus (aliás, um erro imperdoável), e, pior, sem ter a mínima noção dos motivos do outro.

Por fim, a análise nua e crua desta nova partida do jogo político entre humanistas e neo-ateus contra os religiosos tradicionais diz o seguinte: o time do Jefferson jogou brilhantemente, fez uma pontuação com uma facilidade impressionante e ganhou essa batalha de forma impecável. Isso sim é uma ação política! Do outro lado, dos religiosos tradicionais, vemos despreparo, ingenuidade, incapacidade de pensar a questão em termos políticos, e, por isso, uma derrota acachapante.

A pergunta final: de quem é a culpa desta derrota? Dos humanistas, que jogaram direitinho, ou dos religiosos tradicionais, que fizeram uma atuação digna de terceira divisão? Em outras palavras, o Fluminense ganhou o título neste fim de semana passado, e o Palmeiras praticamente garantiu sua queda para a segunda divisão, após vitória por 3×2 do Fluminense. A culpa dos fracassos do Palmeiras se deve à uma péssima atuação e gestão palmeirense ou à ótima atuação do fluminense, que é bem dirigido taticamente e administrativamente hoje em dia?

Se algum dia (como diria o ceguinho esperançoso, veremos…) o arcebispo de São Paulo conseguir obter uma resposta lógica à esta pergunta sobre o sucesso do Fluminense e o fracasso do Palmeiras, conseguirá entender que o lado humanista fez o seu jogo como deveria fazer. Quem não fez o que deveria fazer são os religiosos tradicionais. Também, com uma liderança dessas, essa derrota via ação do MPF é mais do que justa.

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6 COMMENTS

  1. Na verdade o que falta aos cristãos/conservadores/direitistas é um representante que saiba jogar o jogo político, que no nosso caso por enquanto pode ser simplesmente jogar no lixo a argumentação esquerdista como você está fazendo.

    Pq por enquanto temos um lado, que é voltado para o jogo político e o está jogando (esquerdistas), enquanto temos o outro, que não é voltado para este jogo mas está levando as boladas de graça (cristãos), e aí quando tentam revidar acabam escorregando no campo e levando o gol.

  2. A democracia exige que se faça um plebiscito nesses casos, pois trata-se de valores de um povo. Está claro como o sol que uma minoria de partidários de esquerda se auto-nomearam promotores da revolução libertadora e abusam da confiança que lhe demos ao se apossarem do direito de escolher o que é bom para o povo sem nos consultar. Nunca pensariam em conferir o que queremos nessa questão pois sabem que tomariam uma bela e justa surra ao abrirem as urnas. Mas é bom que ponham as barbas de molho para as futuras eleições.

  3. E se disserem que no caso da deusa (tanto em notas quanto em tribunal) é diferente porque se trata de uma religião morta, sem seguidores?
    Haveria um argumento que não “apelasse” para “prove que não tal religião não possui seguidores?”
    Att

    • Neste caso, ainda que uma religião “não tivesse seguidores”, ela tem dogmas que tomam uma posição religiosa, e, mais ainda, influenciam muitas pessoas (o exemplo do positivismo). Se atrás do banner “Ordem e progresso” existe uma doutrina (religiosa ou não), ela tem um posicionamento a respeito da religião e este posicionamento prejudica as religiões tradicionais. Por isso, o lema “Ordem e Progresso” não tem neutralidade em termos religiosos.

      • Concordo com você, Luciano. O positivismo é algo que existe apesar de se manter camuflado atrás de fatores que sem dúvida regem o nosso quotidiano sem os percebermos. O esquerdismo e ateismo são minorias no Brasil, mas vêm apresentando-se mais ousados e articulados nos seus intentos. A afirmação do Dalton também procede quando diz que os cristãos perdem a vêz devido à desorganização no jogo politico. Está na hora da Igreja Católica e as confissões protestantes esquecerem as diferenças e tomarem posicionamentos conjuntos e mais eficientes.

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