Um raio X das regras para radicais de Saul Alinsky – Pt. 3 – Uma palavra sobre palavras

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Calma, está tudo bem agora. Reconheço que o capítulo anterior deve ter sido desconfortante (ver Pt. 2 – Dos meios e fins). Junto com o capítulo 7 (onde ele exibirá suas famosas 14 táticas para a guerra política), é um dos que mais provocam indignação aos que não estão preparados  para lidar com o sistema de pensamento esquerdista. Este capítulo, por sua vez, fala a respeito do uso de 5 palavras-chave que são parte do contexto da guerra política, e do motivo pelo qual tais palavras devem ser conhecidas em seus sentidos originais, e por que não podem ser substituídas por quaisquer outras mais “amenas” ou com sentidos diferentes.

Alinsky sabe que as paixões humanas perfazem todas as áreas da política, incluindo o vocabulário. As palavras-chave da política normalmente resultam em resposta negativa, emocional e condicionada, em termos psicológicos, por parte da maioria das pessoas. Ele lembra que a expressão “política”, que significa, segundo o Dicionário Webster, a “ciência e a arte de se governar”, é normalmente vista em um contexto no qual está associada à corrupção[1].

Assim como existe uma sensação negativa em relação à palavra política, o mesmo ocorre em relação às seguintes palavras: poder, auto-interesse, acordo, ego e conflito. Estas se tornaram, segundo Alinsky, símbolos do mal, após terem sido continuamente distorcidas e deformadas. A ignorância política, para ele, é a doença que levou a este sintoma.

Poder

Alinsky começa falando da palavra “poder”, tratando a seguinte objeção: “Por que não utilizar outras palavras – aquelas que signifiquem o mesmo mas sejam pacíficas e não resultam em reações emocionais?”. Ele defende várias razões para não fazer esta substituição. Primeiramente, por que o uso de expressões como “aproveitamento de energia”, ao invés da expressão “poder”, diluiria seu significado. Estes sinônimos purificadores não trazem todos os aspectos de amor e ódio, agonia e triunfo, além da angústia, todos associados a essa palavra, e isso nos levaria apenas a uma imitação ascética da vida, e não a uma observação da vida como ela é. O uso de outras palavras em lugar de “poder” significaria mudar o significado de todas as ações propostas por Alinsky[2].

Ele defende que “cedermos  àqueles que não possuem estômago para a linguagem direta, insistindo em dourá-las com temperos brandos e intermediários, é perda de tempo”. Simplesmente por que, por causa de algumas travas mentais, “eles não conseguem ou deliberadamente não irão entender o que estamos discutindo aqui”[3].  Ao rejeitar o significado real da expressão “poder”, estaríamos, de acordo com Alinsky, “nos tornando aversos a pensarmos em termos honestos, vigorosos e simples”. Mais:

A invenção de termos sinônimos e vazios de significado, teria a única funcionalidade de nos tranqüilizar, domando nossos processos mentais fazendo-os se distanciar da estrada da vida principal, direcionada por conflitos, encardida e realisticamente sedimentada em poder. Ao escolhermos atalhos mais socialmente aceitáveis, com tonalidades mais adocicadas, apaziguadoras, respeitáveis e indefinidas, falhamos em obter um entendimento honesto das questões que viremos a enfrentar se formos agir.

Abaixo ele detalha como a expressão “poder” é comumente percebida:

“Poder”, que significa “habilidade, seja ela física, mental ou moral, para agir”, se tornou uma palavra maligna, com conotações e tonalidades que sugerem o sinistro, o doentio, o maquiavélico. Ela sugere uma fantasmagoria de regiões inferiores. No momento em que a palavra poder é mencionada é como se as portas do inferno tivessem sido abertas, exalando o cheiro de esgoto da corrupção demoníaca. Ela evoca imagens de crueldade, desonestidade, egoísmo, arrogância, totalitarismo e sofrimento abjeto.

Mais ou menos como um “Prozac” mental, teríamos criado artifícios em nossa mente para entender a expressão “poder” de uma forma maligna, como se estivéssemos em um filme de James Bond, no qual a expressão “poder” é sempre aquela associada a um vilão. Isso fez com que essa expressão se transformasse, em nossas mentes, quase como um “símbolo de corrupção e imoralidade”[4].

Ele chega a citar uma interpretação popular de Lord Acton, que diria: “Poder corrompe, e poder absoluto corrompe absolutamente”. Mas a citação correta é diferente: “O poder tende à corrupção, e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Alinsky avalia que nossas mentes possuem tantas travas a respeito da palavra “poder” que nem sequer somos capazes de ler a citação de Acton de fato.

Alinsky acerta em cheio ao dizer que “a corrupção do poder não está no poder, mas em nós mesmos”. Aqui, ele explica, de forma simples e didática, o poder, começando pelo questionamento “O que é esse poder pelo qual os homens buscam e pelo qual a um grau significante vivem por ele?”:

Poder significa a própria essência, o dínamo da vida. É o poder do coração bombeando sangue e sustentando a vida no corpo. É o poder da participação ativa dos cidadãos pulsando para cima, fornecendo uma força unificada para um propósito comum. É uma força essencial da vida sempre em operação, seja mudando o mundo ou se opondo à mudança. Poder, ou energia organizada, pode ser um explosivo que destrói vidas ou uma droga que as salva. O poder de uma arma pode ser utilizado para impor a escravidão, ou para se obter a liberdade.

Ele traz algumas citações de autores a respeito do poder. Alexander Hamilton, em The Federalist Papers, afirmou: “O que é o poder senão a habilidade ou faculdade de fazer algo? O que é a habilidade de se fazer algo senão o poder de empregar os meios necessários para sua execução?”. Pascal observou o seguinte: “Justiça sem poder é impotente; poder sem justiça é tirania”. São Ignácio (fundador da Ordem Jesuíta) disse: “Para fazer bem algo, um homem precisa de poder e competência”. Em resumo, em sua análise, ele mostra que vários players de várias denominações sempre utilizaram a palavra “poder” em seus discursos e escritos quando atuavam para mudar a história.

Ele diz, então que a escolha não é sobre poder ou não, mas sim sobre “poder organizado ou poder desorganizado”. A própria construção e manutenção da sociedade depende “do aprendizado de como desenvolver e organizar instrumentos de poder para alcançar ordem, segurança, moralidade e a vida civilizada em si própria, ao invés da mera busca por sobrevivência física”. Qualquer tipo de organização conhecida pelo homem (seja governamental ou não) só tem uma razão de existir: “Organização para o poder a fim de colocar em prática ou promover seu propósito comum”.

Alinsky conclui, sobre poder: “Conhecer o poder e não temê-lo é essencial para seu uso e controle construtivo”.

Auto-interesse

Para Alinsky, a expressão “auto-interesse” também traz uma carga negativa e já é encarada de antemão com suspeita. Ela seria “associada a um conglomerado repugnante de vícios como estreiteza, egoísmo e egocentrismo, tudo o que é oposto às virtudes do altruísmo e abnegação”. Entretanto, ele considera que  esta análise vai contra toda nossa experiência cotidiana, e é baseada em um “mito que dita o altruísmo como um fator motivante em nosso comportamento”. Para Alinsky, isto não é mais que “um dos clássicos contos de fada americanos”.

Em sua análise, desde o passado longínquo dos filósofos gregos e da moralidade judaico-cristã, “sempre houve um acordo universal a respeito do fato que o auto-interesse é uma das forças essenciais no comportamento humano”. Ele traz algumas citações, como de Jesus Cristo (João 15:13) afirmando “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos”, ou de Aristóteles dizendo, em sua Política: “Todos pensam em si próprios, raramente no interesse público”. Outro autor citado é Adam Smith, em A Riqueza das Nações: “Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração de seu próprio interesse. Nós apelamos não à sua humanidade, mas ao seu amor-próprio, e nunca falamos com ele de nossas necessidades, mas de suas vantagens”. Ele afirma que negar este componente central de auto-interesse no ser humano significa “se recusar a ver o homem como ele é, para vê-lo como gostaríamos que ele fosse”.

Claro que ele não poderia deixar de mencionar Maquiavel como um dos ícones do estudo do auto-interesse humano:

Assim, enquanto o príncipe agir com benevolência, eles se doarão inteiros, lhe oferecerão o próprio sangue, os bens, a vida e os filhos, mas só nos períodos de bonança, como se disse mais acima; entretanto, quando surgirem as dificuldades, eles passarão à revolta, e o príncipe que confiar inteiramente na palavra deles se arruinará ao ver-se despreparado para os reveses.

Alinsky, mesmo sendo inspirado por Maquiavel, diz que o clássico autor político recaía em um erro mortal quando definia os “fatores ‘morais’ da política e tratava unicamente do auto-interesse em sua concepção”, a qual era limitada. Provavelmente por que a experiência de Maquiavel na prática política não era das melhores. Senão, Maquiavel não teria “subestimado a fluidade óbvia do auto-interesse de cada homem”. Uma análise por completo do auto-interesse humano deveria ser “extensa o suficiente para incluir e explicar todas as dimensões mutáveis do auto-interesse”. Ele detalha um pouco mais:

Você pode apelar a uma faceta do auto-interesse para me levar ao campo de batalha para lutar, mas, uma vez que eu esteja lá, meu principal interesse torna-se permanecer vivo, e, se formos vitoriosos, meu auto-interesse pode, como geralmente ocorre, ditar objetivos inesperados diferentemente daqueles que eu tinha antes de adentrar à guerra. Por exemplo, os Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial fervorosamente se aliaram com a Rússia contra Alemanha, Japão e Itália, e logo após a vitória, fervorosamente se aliaram com seus antigos inimigos – Alemanha, Japão e Itália – contra o seu ex-aliado, a Rússia.

Claro que pode ser complicado admitir que “operamos na base do auto-interesse puro e simples, então desesperadamente tentamos reconciliar quaisquer mudanças de circunstâncias que se relacionem ao nosso auto-interesse em termos de uma justificação ou racionalização moral mais abrangente”. Isto se explica devido às “camadas de inibição em nossa civilização moralista”. O fato é que, segundo Alinsky, nós não “admitimos o verdadeiro fato: nosso próprio auto-interesse”. Nos dois casos citados da Segunda Guerra, todas as ações de auto-interesse foram vendidas ao público sobre as bandeiras da “liberdade e decência”. O comunismo russo não incomodou os americanos na época da Segunda Guerra Mundial, mas depois sim. O discurso seria algo como: “Eles podem ter o tipo de governo que quiserem, contanto que estejam do nosso lado e não ameacem nosso auto-interesse”.

Alinsky diz que é normal entrarmos em conflito com os valores morais por nós professados e as razões reais pelas quais nós fazemos as coisas. É fácil “mascarar as razões reais em palavras de bondade beneficente – liberdade, justiça, e daí por diante”. Diz ele: “Tais lágrimas, dispostas na fábrica do baile de máscaras da moral, às vezes chegam a nos constranger”.

O autor cita a história de Orwell, que se alistou durante a Guerra Civil Espanhola para combater os fascistas, e, mesmo tendo a oportunidade de não estar lá, quis ir para o campo de batalha. Mas estas seriam apenas transfigurações episódicas do espírito humano, mais esparsas que os lampejos dos vaga-lumes.

Acordo

Outra palavra que para alguns significa “fraqueza, vacilo, traição aos ideais, abandono de princípios morais”. No mundo ideológico, é uma palavra “feia e repugnante”. Mas para um organizador, acordo é “uma palavra chave e bela”, parte presente do pragmatismo operacional. Diz ele: “Significa fazer um acordo, recebendo o respiro vital, normalmente a vitória”. Quem começa com nada, e demanda 100 por centro, entrando em acordo por 30 por cento, obtém um ganho de 30 por cento em relação a nada.

Em uma sociedade orientada a conflitos, estes somente são interrompidos vez por outra por acordos, “os quais se tornam o início de novos conflitos, novos acordos, e assim, ad infinitum”. O controle do poder seria baseado em um “acordo em nosso Congresso, e entre os três poderes, executivo, legislativo e judiciário”. Alinsky diz que “qualquer sociedade desprovida de acordos é totalitária”. Eis então que, para ele (e com muita razão), se “uma sociedade aberta e livre pudesse ser definida em uma palavra, esta palavra seria ‘acordo’”.

Ego

Alinsky diz que as definições de palavras, como tudo o mais, são relativas, dependentes principalmente da posição partidárias do objeto da definição. Assim:

Seu líder é sempre flexível, orgulhando-se da dignidade de sua causa, é inabalável, sincero, um tático genial, sempre lutando a boa luta. Para a oposição, ele não tem princípios e caminhará na direção do vento, com sua arrogância mascarada por sua humildade falsificada, ele é dogmaticamente teimoso, um hipócrita, sem escrúpulos e anti-ético, e irá fazer qualquer coisa para vencer; ele é um líder das forças do mal.

Para um dos lados, seria um “semi-deus”, para o outro, um “demagogo”[5]. Na definição de Alinsky, se um organizador[6] não tem auto-confiança, isso significa que a batalha estaria perdida antes mesmo de ser iniciada.

Ego, conforme define Alinsky, não tem nada a ver com egolatria, pois para ele nenhum organizador que se preze conseguiria animar as massas com arrogância e desrespeito pelos outros. Um ególatra afastaria as pessoas e as alienaria.

Ao contrário,o ego é focado na auto-confiança. Para Alinsky, o ego de um organizador é mais forte e monumental do que o dos líderes. Segundo ele, o líder é “direcionado por poder”, enquanto o organizador é “direcionado por criar”. No caso de um ególatra (ao invés de alguém com ego forte), seria impossível respeitar a dignidade dos indivíduos, entender as pessoas, ou desenvolver outros aspectos da personalidade que, segundo Alinsky, constituiriam um organizador ideal.

Conflito

Outra expressão tomada como negativa pela opinião pública em geral. Para Alinsky, isso é conseqüência de duas influências na sociedade: (1) a religião organizada (por causa de sua retórica de “dar a outra face”), (2) criação de uma mentalidade orientada à fuga dos conflitos. Diz ele:

Consenso é uma palavra chave – ninguém deve ofender ao outro; e hoje em dia nós vemos pessoas demitidas na mídia de massa por expressar suas opiniões ou sendo “controversas”; nas igrejas, despedidas pela mesma razão, mas as palavras usadas são “falta de prudência”; e nos campus universitários, membros da faculdade são demitidos também pela mesma razão, mas as palavras usadas são “dificuldades de temperamento”.

Alinsky conclui dizendo que o “conflito é parte essencial de uma sociedade aberta e livre”. E, “se fossemos projetar um modo de vida democrático na forma de uma peça musical, seu tema maior seria a harmonia da dissonância” [7].


 

[1] Isto não é bem assim. Na verdade, Alinsky citou apenas um dos significados de política. Entretanto, política também é a arte de uma pessoa ou grupo obter vantagem sobre outra pessoa ou grupo na luta pela obtenção de poder. Desta maneira, a defesa de Alinsky da política poderia ter sido adiada um pouco, pois logo a frente ele falará da definição de “poder”, que não deveria ser percebida de maneira tão negativa como é.

[2] Já que, se ele desenvolve um modelo de ação para tomada do poder, isso não é o mesmo que ter um modelo de ação para “aproveitamento de energia”. Talvez essa palavra ficaria melhor na academia de ginástica.

[3] Este é um ponto interessante que tem tudo a ver com o meu empreendimento, levando os conceitos da guerra política para a direita, pois muitos leitores da direita de fato não possuem estômago para tal. É a vida.

[4] Um conservador de direita não gostou deste tipo de abordagem em meu blog, e escreveu o seguinte: “O verdadeiro conservador pensa em valores. Ele não se importa com o poder, ele se importa em construir as bases de uma sociedade que seja sólida.”. No que lhe respondi: “Ele diz que o conservador não se importa com o poder, mas sim construir as bases de uma sociedade que seja sólida. Mas como farão isso se os oponentes da direita estão com o poder? Ele diz que os conservadores não tem ojeriza dos esquerdistas, mas a verdade é que os esquerdistas tem ojeriza dos conservadores, polarizam o discurso e capitalizam com isso. Ou seja, mais uma ingenuidade da parte dele. Ele diz que os conservadores querem suar a camisa para que o mundo seja um lugar onde as pessoas possam resolver seus problemas sem enfrentar injustiças, mas as injustiças são inerentes à espécie humana. O máximo que podemos ambicionar é que estes praticando injustiças não estejam no estado, onde estão com excesso de poder. Mas isso só poderá ser feito, ora vejam só, assumindo o poder. Isto é o que significa pensar em seus valores, mas esquecendo-se de que, sem conquistar o poder, esses valores serão expurgados com uma cuspida por aqueles que tiverem o poder.”

[5] Há um jogo de palavras na versão original, em que as palavras são “demigod” e “demagogue”.

[6] Que será tratado na própria seção, mas fica em um nível acima dos líderes.

[7] Por incrível que pareça, isso tem tudo a ver com a tese do duelo cético.

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1 COMMENT

  1. Belíssima série, o Saul Alinsky é somente um cara muito inteligente e um exímio conhecedor de política. Achei que fosse até mais polemico, mas nao é. O conteudo é fantástico. não vejo a hora da publicação dos outros textos da série.

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