Se o estado é laico, por que não pedir a retirada de “Ordem e Progresso” da bandeira?

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Realmente, falta estratégia aos conservadores cristãos na batalha política. Chega a dar dó ver como eles não conseguem perceber os estratagemas dos esquerdistas, que tem sido introduzidos (epa, epa) no senso comum com uma facilidade impressionante.

O que mais me surpreende é que os conservadores cristãos não perceberam que o maior “caso” que eles tem em mãos não está sendo aproveitado. É a inscrição “Ordem e Progresso” na bandeira do Brasil.

Eis que aquele que não investigou a história de Auguste Comte e do positivismo, poderia objetar: “No que o lema ‘Ordem e Progresso’ abala o estado laico?”. Simples. O positivismo (ou a religião da humanidade, nas palavras de seu criador Auguste Comte, que não passa do humanismo de hoje em dia) era uma postura relacionada à substituição da religião tradicional (ou seja a crença em Deus) para a crença no homem e no estado. Enfim, uma transição da humanidade para a fase “positiva”.

Isso é clara e textualmente uma asserção onde o princípio da “não intervenção” do estado em religiões está violado. O lema “Ordem e Progresso” só poderia ser tolerado em um contexto cultural, mas aí haveria o precedente aberto. Se o lema “Ordem e Progresso” pode ser “tolerado” (prestem atenção nesta expressão “tolerado”, pois é parte fundamental da estratégia) pelos que não são positivistas, então o “Deus seja Louvado” poderia ser “tolerado” por aqueles que não são teístas de qualquer tipo. Mas, se “Deus seja Louvado” não pode ser “tolerado” por ofender aos que não são teístas de qualquer tipo, então o “Ordem e Progresso” não pode mais ser “tolerado”, e argumentações como “é algo que pertence à História do Brasil” simplesmente perdem o sentido.

Alguns poderiam dizer que “positivismo não é ‘bem uma religião’ como nós conhecemos tradicionalmente”. Mas e daí? Ainda assim, o positivismo faz asserções às religiões tradicionais nas quais toma partido. Lembremos que no estado laico nem uma religião pode se beneficiar sobre outras, e os religiosos não podem ser prejudicados pelo fato de serem de uma religião. Assim, a postura de “oposição à religião tradicional para a criação de uma ‘religião da humanidade'” também não pode ser beneficiada.

Caso levassem esse caso à frente, aí sim poderiam criar uma questão legitimamente política, na qual os valores dos esquerdistas seriam discutidos. (Do jeito que está, basta os humanistas repetirem a frase de efeito, “Se é estado laico, por que tem o lema ‘Deus seja louvado’?”, que eles ganharão o debate público)

Por exemplo, poderíamos coletar assinaturas em geral e ver se os membros da ATEA e de outras entidades anti-religiosas (e até ONG’s voltadas à comunidade gayzista) topariam assinar um manifesto contra o lema “Ordem e Progresso” na bandeira. Eu aposto que não aceitariam participar. Mas, se recusarem, dá para pontuar de novo contra eles, pois é possível expô-los ao público como “violadores do estado laico”, ou então, “a turma do estado laico, mas só até a página 3”.

Essa é uma das táticas de Saul Alinsky que detalharei quando publicar a parte 7 dessa série. A tática se chama “Fazer o adversário chafurdar pelo seu próprio livro de regras” (clique em Séries, para ver os 3 primeiros capítulos – a série se entitula “Um raio X das regras para radicais de Saul Alinsky”). Segundo Alinsky, é possível “matar politicamente” um adversário com esta tática. Se alguém tem um código que clama por “tolerância”, pegue situações em que ele está sendo intolerante. Se tem em seu código “lutar pelo estado laico”, pegue-o em situações onde ele não defenderá o estado laico.

A grande tragédia dos conservadores cristãos é que eles estão olhando para uma frase nas cédulas que querem “defender”, quando deveriam olhar para outros focos onde deveriam “atacar”. Lembrem-se dos princípios de David Horowitz para a arte da guerra política, especialmente o princípio 3, que dita que, “na guerra política, o agressor geralmente prevalece”.

Quanto a coleta de assinaturas a serem direcionadas ao Ministério Público contra o símbolo “Ordem e Progresso”, notem que há mais uma oportunidade de abaixo assinado que poderia ser feito, desta vez contra outro símbolo nas cédulas. A imagem abaixo foi obtida no Facebook (clique para ampliar):

Note que se os conservadores cristãos investissem nisso, teriam dois pontos de ataque ao humanismo (e, sim, os franco-maçons adoram os símbolos humanistas), e tudo isso poderia ser feito legitimamente em nome do estado laico. A regra que vale para um, vale para todos. Assim, as cédulas e a bandeira se tornariam cenários na guerra de posição.

Claro que não se pode realizar campanhas estrategicamente erradas, como em um outro exemplo que vi no Facebook (também clique para ampliar):

Nessa imagem (ou seja, um outro contexto da guerra intelectual, mas na tática de banners de ridicularização, ao invés de hipotéticas ações judiciais), a idéia é satirizar os neo-ateus. Mas o erro bizarro está na frase associada a Richard Dawkins (“A ciência seja louvada”).

Quer dizer, com uma mera imagem, o sujeito sub-comunicou para a platéia do debate que Dawkins é um legítimo representante da ciência, e ele não, portanto, Dawkins ganha o jogo somente por causa dessa sátira. Raras vezes vi um erro estratégico tão grande.

Por que não substituir “A ciência seja louvada” (na qual estariam dando o rótulo de “representante da ciência” ao Dawkins e, então, sub-comunicando para a platéia ouvi-lo ao invés de vocês) por “O meme seja louvado”? Como “meme” é um termo neutro (e facilmente ridicularizável, ao passo que ciência não é), esta seria uma sátira a ter impacto psicológico na patuléia.

Enfim, seja para conscientizações em torno de ações judiciais (para ações contra símbolos de outras religiões nas células, e símbolos que representam a luta contra a religião na bandeira) como para o uso de charges no Facebook, é sempre bom lembrar da seguinte cena de “Tropa de Elite”:

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22 COMMENTS

  1. Luciano, o maior problema pra mim para usar o teu primeiro ponto é que não é de conhecimento geral que sequer existe religião política, muito menos que humanismo seja uma religião. É necessário antes demonstrar que essa corrente é de fato uma religião para que esses ataques possam ser feitos. Eu, pelo menos, não encontrei um texto que esclareça isso; tens como fazer/mostrar algum texto fácil que demonstre isso (fácil pq não adianta eu jogar uma viagem filosófica num debate pq o pessoal simplesmente não vai ler, muito menos esclarecer).

  2. No site do Bule Voador, um leitor humanista disse “Os dizeres “Ordem e Progresso” da bandeira nacional é de um positivismo ultrapassado, mas ficaria legal nas cédulas, eu acho.”. É o Rodrigo Tomé e já descobriu o jogo e se adiantou, ele quer impor o humanismo. Concordo que dá dó de como os cristãos não percebem as estratégias do outro lado.

  3. Como vc já falou de futebol, e ja que estamos no clima, dá impressão de “jogo armado”, igual quando um time compra o outro para fingirem que estão jogando. Tinha que chegar para os líderes religiosos e perguntar ‘vcs estão mancomunados com os esquerdistas?’, isso ia lançar pressão em cima deles

  4. O que alguns ateus não se dão conta é que diversos institutos e instituições tiveram origem nas religiões e foram incorporados pelo Estado. Veja só a declaração do procurador Jefferson Aparecido Dias que pediu a remoção da inscrição nas cédulas do real:

    “Do mesmo modo que a presença de crucifixo em salas de aula pode representar diretriz a balizar os caminhos religiosos a serem seguidos pelos jovens alunos, com a mentalidade e caráter ainda em desenvolvimento, em razão da possibilidade de associação entre a religião ali representada e a escola, fonte do saber, assim também o é com a presença da expressão “Deus seja louvado” em cédulas de Real, devido à potencialidade da associação a ser realizada pelos jovens brasileiros, os quais também se utilizam do Real para atender suas necessidades materiais, entre as religiões que professam a fé em Deus e o dinheiro, instrumento de poder aquisitivo.”

    Ele trata a religião como se não fosse uma fonte do saber, mas o que ele parece não saber é que as escolas foram criadas e surgiram através da Igreja Católica. Então, já que ele quer que remova as citações das cédulas, façamos uma troca justa, onde o Estado irá abrir mão de tudo que incorporou. E além das escolas posso dar outros exemplo:

    Os hospitais foram criações da Igreja Católica. Então que o Estado acabe com todos os hospitais públicos.
    A assistência social tem origem nas instituições religiosas, e a Igreja Católica é a maior instituição de caridade do Mundo. Que o Governo pare com as políticas assistencialistas.
    A universidades foram criações das religiões, e surgiram no Ocidente através da Igreja Católica.
    O instituto do casamento, apesar de não surgir da Igreja Católica, surgiu das religiões. Então que o Estado não tenha mais poder de oficializar casamentos, assim não precisaremos mais perder tempo discutindo a questão do casamento gay.
    O devido processo legal, a ampla defesa e o contraditório (instrumentos de trabalho do procurador) surgiram do Direito Canônico e que foi incorporado pelo Direito Civil. Sugiro que seja proibido a utilização destes institutos.
    O princípio da dignidade humana (mais um instrumento de trabalho do procurador) foi uma criação da Igreja Católica. Sugiro que o Estado também não utilize mais este princípio também.
    Todo conhecimento do Mundo Antigo que teria se perdido não fosse o trabalho dos monges copistas que não só preservaram como também disseminaram. Que o Estado abra mão disso.
    O método científico também é mais uma criação da Igreja Católica. Que o Estado não faça mais uso!

    Poderia prosseguir, mas para mim isso já seria o suficiente. Já que o Estado não pode ter nenhuma influência religiosa podemos começar por aí, façamos uma troca justa.

    • Aí que está Maxwell, eles sabem disso sim, mas a estratégia é justamente essa. A imposição de uma religião (positivista/humanista) sobre as tradicionais. Eles não são “enganados” ou “ingênuos”, mas dissimulados.

      • Ok. Mas de qualquer maneira, sem querer parecer inconveniente, você poderia escrever um artigo tratando destes pontos que eu abordei. Já que é para afastar a religião do Estado, então que o Estado também faça o mesmo. Exemplos de coisas que foram incorporadas é o que não faltam. Mais um exemplo que eu posso dar são as prisões, que foram incorporadas pelo Estado como forma de punição. Antes disso os presos só ficavam presos até o julgamento, sofriam a punição e eram soltos. A Igreja através do direito canônico instituiu as prisões como forma de isolar o sujeito da sociedade (isso até os babacas dos esquerdistas aparecerem com a conversa de reintegrar o indivíduo à sociedade) e fazê-lo refletir nos erros que cometeu. Que voltem então as penas como morte, chibatadas, banimento, ter as mãos cortadas em caso de roubo e etc.
        Existem muitos outros e poderia passar um dia inteiro falando deles. Acho que seria interessante você escrever sobre isso utilizando até mesmo os exemplos que eu já dei aqui.
        Mas isso se você achar conveniente, é claro. Estou falando disso porque é bom fazer as pessoas lembrarem do valor que as religiões possuem também e que o Estado tirou proveito.

      • @ Mawwell: Muito bem lembrado — sim, antes da chegada dos tempos “modernos”, o encarceramento era apenas uma parte do *processo penal*, e somente com a ajuda da modernosidade, é que ele foi elevado à categoria de “forma preferencial de punição”.

        A *tortura*, no entanto, é mais versátil 😀 — ela serve tanto para “investigar” como para castigar. 😉

  5. Minha posição pessoal: sempre achei o “Deus Seja Louvado” tupiniquim tão despropositado quanto o “In God We Trust” do dinheiro estadunidense, mas pior que ele, só mesmo o “Ordem e Progresso” na bandeira, e principalmente o verso “DEITADO ETERNAMENTE em BERÇO esplêndido” ¬¬ no Hino Nacional. Estes dois “símbolos nacionais” pedem por uma revisão urgentíssima há décadas.

    Puxão-de-orelha em cima dos cristãos indolentes:

    http://www.reneguenon.net/IRGETGuenonReformaMentalidadeModerna.html

    Complemento para a imagem que ilustra este artigo:

    http://www.youtube.com/watch?v=_MEqzJwsJRQ

    😛

  6. Recentemente enviei um comentário para o blog do Reinaldo Azevedo falando exatamente isso (o texto dele era sobre o mesmo assunto). Ficou assim:

    Messias – 13/11/2012 às 7:12
    Por que ele não encrespa com o “ordem e progresso” na bandeira que é lema da religião da humanidade fundada por Auguste comte?

  7. O Bruno argumentou sobre as notas no blogui do Mensalão:
    “Não que eu seja a favor da permanência dessa frase lá, porque isso é evidentemente inconstitucional.”
    Ele não disse pq é inconstitucional, enquanto a imagem de uma deusa maçônica não é.
    “O povo brasileiro é ignorante e ainda não entende o significado desta retirada. Vão achar que faz parte de uma campanha anti-religiosa, mas não é.”
    O argumento para ele dizer que não é parte de uma campanha anti-religiosa é somente “não é”, isso é fantástico.
    “E dessa forma, vão perder a oportunidade de refletir e vão ficar ainda mais presos na ignorância.”
    O que seria a sapiência? Achar que é bom tirar uma frase das cédulas para atender aos desejos do oponente?
    “E pior de tudo, criam conflitos desnecessários, que por sua vez criam – também desnecessariamente – um time de vencedores e outro de derrotados.”
    Ele ainda não sabe o que é política.
    “Num momento oportuno, essa medida seria excelente para ajudar as pessoas a amadurecerem, mas agora só servirá para mantê-las ainda mais comprometidas com seu devaneio.”
    Amadurecimento para ele é fazer o que o oponente gosta.
    A argumentação do Blog do Mensalão está insuperável, sem dúvida um novo estilo de debate.

  8. Mais uma argumentação fantástica do Bruno

    “Sou a favor da retirada de ordem e progresso da bandeira,sejamos éticos a palavra progresso ofende os conservadores mais radicais.Gente que gosta do Olavo sentiria uma dor no peito ao ter que jurar para uma bandeira ”progressista”.”

    É o grande intelectual humanista da atualidade.

    • O sujeito se supera a cada dia. O problema nunca foi a palavra “progresso”, mas sim o lema “Ordem e Progresso”, que é humanista. Os humanistas não querem a retirada do crucifixo por que é religioso? (E não pelo que ele representa, que é o sacrifício de alguém)

      Com sempre, o Bruno distorce tudo o que os outros dizem. Isso é o humanismo.

  9. estou aplicando a regra “deixo-os chafurdar na própria cartilha” exatamente exigindo a retirada da marianne e do lema da bandeira… e os porcos chafurdam que dá gosto ver, uns quatro captularam começaram a aceitar tb a retirada do lema… então radicalizei com implosão do Cristo, ficaram maluquinhos… acusando de falácia…hahahahaha, usando ad hominem… parece que ficaram nus e não sabem como se defender. Luciano, vc tem toda razão, o conservador deve ficar no ataque, podem ser 10, 15, não importa, embora eles tenham maior tempo usando estratagemas políticos, eles não tem anti-corpos para conservadores que os usam. Me xingaram até de mal político cheio de lábia…hahahaha. Sintomático: é o medo de conservadores que ajam POLITICAMENTE.

  10. SEM ENTRAR EM DISCUSSÕES SOBRE FILOSOFIA POR INADMITIREM RACIOCINAR…
    O que há por detrás disso mais popularmente falando seria o seguinte: por serem revolucionarios – a mente deles é sempre um caldeirão efervescente sem parar – materialistas e ateus insurgem-se contra qualquer frase religiosa, em especial se pertencer à Igreja católica, sabendo também que comunista não DISCUTE – mas IMPÕE, e para justificarem-se, sabemos que apelam para todos os adjetivos desqualificativos disponíveis como; preconceituoso, homofóbico, reacionario, direitista, intolerante e quantos correlatos outros aparecerem à ocasião, já que o PT é um partido especialmente oportunista de plantão e se quiser atendê-los e deixá-los satisfeitos é só se enquadrar no “politicamente correto”, equivalente a “marxisticamente correto”
    São tão tapados que não admitem a verdade absoluta, mas existe apenas a verdade do marxismo, na lógica ilógica deles.
    Quem ainda vota nos candidatos PT mostra que é ainda mais ignorante e toupeira que eles, pelo fato de admitir que assim sendo o possam governar!

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