Dissonância cognitiva: Por que isso tem tirado a direita do jogo político?

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Escrever este blog e interagir nas redes sociais (de vez em quando, e com uma freqüência menor do que a necessária) tem fornecido a este blogueiro que vos escreve insights cada vez mais interessantes sobre a dinâmica social da guerra política.

Como todos os leitores já perceberam, eu sou um homem “de ação”, que pensa como um investigador de fraudes (por causa de minha experiência com auditoria, controle e investigações no ambiente de TI). Por isso é normal, para mim, ao invés de elaborar uma filosofia apurada e estéril sobre a mente dos fraudadores em TI, eu procuro entender quais são os aspectos de auto-interesse humano que levam às fraudes e quais as fragilidades humanas que levam às vulnerabilidades expostas pelos fraudadores. E, enfim, diante dessa análise, surge a missão de agir para corrigir as fraudes.

Esse tipo de pensamento pode levar, por vezes, à uma mistura de instrumentalismo e pragmatismo, além de um realismo impactante, mas é assim que sou. Renegar isso seria renegar a minha essência. E, ao invés de me desculpar, eu acharia até mais interessante que outros investigadores de fraudes aparecessem no debate ideológico e político.

Leon Festinger descobriu a dissonância cognitiva em 1956. Nas palavras dele: “Dissonância e consonância são relações entre cognições, ou seja, entre opiniões, crenças, conhecimentos sobre o ambiente e conhecimentos sobre as próprias ações e sentimentos. Duas opiniões, ou crenças, ou itens de conhecimento são dissonantes entre si quando não se encaixam um com o outro, isto é, são incompatíveis. Ou quando, considerando-se apenas os dois itens especificamente, um não decorrer do outro”.

Aplicando isto no cotidiano da investigação de fraudes: se tivermos uma cultura dos funcionários da empresa com base na crença de que “desconfiança” é uma palvra “maligna” (e que abre as portas do inferno sempre que pensada), obviamente nenhum controle de segurança irá funcionar. Por exemplo, imagine que você proíba a transferência de senhas, mas tenha funcionários no contexto que achem que todas as senhas devem ser conhecidas dos outros, pois não fazê-lo seria uma “desconfiança” imoral. Entretanto, mesmo que essas pessoas ajam assim, ao mesmo tempo querem estar seguras, e gostariam que suas operações na organização não fossem comprometidas por ataque externo, até por que, obviamente, isso prejudicaria seus resultados (e os da própria empresa).

Eis que temos uma dissonância cognitiva aí, e que, mesmo que trabalhada de forma automática pelos profissionais acometidos por ela (eles tentarão ressignificar automaticamente a expressão desconfiança, ou quaisquer outras, para conviver com as crenças incompatíveis), isso afetará de forma drástica as ações de segurança, pois as pessoas terão “brechas” em suas mentes no seu dia-a-dia. A primeira pergunta (que surgirá de forma inconsciente, em muitos casos) será: “A qual paradigma seguirei? Da desconfiança ou da confiança?”. Muitas vezes tomarão o caminho da confiança exacerbada e a partir daí esqueçamos quaisquer iniciativas de segurança.

Com este exemplo quis ilustrar como funciona o processo da dissonância cognitiva no dia-a-dia. Implementadores de processo organizacionais tem que lidar com essa dissonância dos profissionais envolvidos nessas implementações todos o dias. Recentemente, vi o caso de profissionais que queriam os processos automatizados para a avaliação de trilhas de auditoria (funcionalidades de software que auditam as ações cometidas em seu uso), mas ao mesmo tempo tinham a crença de que tais auditorias não podem ser feitas de forma automatizada. Eram pessoas que entravam nos projetos de melhoria, mas, de forma inconsciente, eram responsáveis por seu fracasso. Nesse caso, somente a substituição de profissionais no projeto de mudança pôde resolver a questão.

Eis que tive uma epifania após a questão política envolvendo a luta dos humanistas para retirar a frase “Deus seja louvado” das cédulas. Em relação a essa questão publiquei dois textos: O sucesso do Fluminense e o fracasso do Palmeiras e o que isso tudo tem a ver com a retirada da inscrição “Deus seja louvado” das cédulas e Se o estado é laico, por que não pedir a retirada de “Ordem e Progresso” da bandeira?.

Notei em muitos casos que os conservadores, especialmente os conservadores cristãos, estão vivendo em dissonância cognitiva. E o que causou essas dissonâncias cognitivas? Simplesmente a implementação dos jogos políticos no cotidiano de todos os debates sobre questões públicas, por parte da esquerda. Gente como Chomsky, Sartre, Gramsci e Alinsky trouxeram estratégias e táticas para o jogo político para o debate popular, desde as menores questões até as mais abrangentes

Muitos conservadores de direita já reconheceram isso, mas suas mentes “travam” exatamente no momento em que devem fazer o jogo político de volta. Por exemplo, um conservador de direita disse que precisávamos ridicularizar os esquerdistas (opinião que defendo fervorosamente), mas, minutos depois reclamou que os esquerdistas “ridicularizavam X” (onde  X era um conservador). Ué, se “ridicularizar o oponente” é uma prática a ser executada estretegicamente, por que ele achou “errado” ver esquerdistas ridicularizando o oponente? (Notem que não seria problemático ele mostrar “indignação com a ridicularização esquerdista”, se ele estivesse falando a um público leigo, somente para jogar a platéia contra os esquerdistas; mas aí não seria uma indignação de fato, mas um jogo)

O fato é que ele entrou em dissonância cognitiva, e a crença “ridicularizar alguém é errado” entrou em conflito com a crença “devemos ridicularizar o oponente no jogo político”. Sendo assim, a emoção do momento dirá qual a crença a ser traduzida em ações. Por isso temos alguém que ao mesmo tempo “quer” e “não quer” vencer o jogo político. Em outras palavras, se crenças se traduzem em ações e motivações, as dissonâncias cognitivas criarão situações onde alguém pensa em fazer X, e segundos depois pode optar por fazer o inverso de X, mesmo que queira fazer X na maior parte do tempo.

Um vasto conjunto de dissonâncias cognitivas faz parte do cardápio atual dos conservadores de direita, e isso é causado principalmente por que eles vivem em um mundo que não conseguem compreender mais. Se os esquerdistas jogam o jogo político a todo momento, suas mentes ainda idealizam um cenário (que chega a ser utópico) onde é possível viver sem os jogos políticos. Mas o cenário dominado por jogos políticos é irreversível, como mostrei em meu texto anterior, no qual eu lembrava que “uma mente que é aberta a uma nova idéia não volta mais ao seu estado original”. Em suma, o mundo não vai ficar “menos político”. Pelo contrário, ficará mais político a cada dia.

E qual a epifania que eu tive e que mencionei anteriormente? Nós, intelectuais orgânicos da direita (e sei que há vários deles entre os leitores deste blog), podíamos pensar em tratar o problema mais crítico que envolve a direita hoje em dia. E este problema significa a dissonância cognitiva dos formadores de opinião da direita diante do fato de que temos que jogar os jogos políticos. Acredito que não dá mais para questionar a idéia de que “jogar politicamente, tal qual os esquerdistas” é uma prioridade, e em todos os debates de que participei os direititas tendem a concordar com isso.

A divulgação de material denunciando os truques esquerdistas, com dicas de como os conservadores podem combatê-los, só vai ser útil quando a mente dos direitistas tiver resolvido suas dissonâncias cognitivas. Logo, um esforço na direção de trabalhar essas dissonâncias cognitivas da direita é mais do que essencial. Podemos participar de redes sociais surgindo com questionamentos que colocarão sob “teste” as dissonâncias cognitivas da maioria dos “players” da direita no jogo.

Para falar dessa figura, que nomeei temporariamente de Analista de DCD (Analista de Dissonâncias Cognitivas da Direita), e de como eles poderiam agir, trarei o próximo texto, a entitulado: “Como colocar direitistas sob ‘terapias’ de dissonância cognitiva para que estes possuam enfim atuar na guerra política vigente”.

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