Por que a democracia depende da conscientização da dinâmica social dos jogos políticos pela direita?

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A definição de democracia implica em um governo cujas decisões são influenciadas pelos cidadãos, de forma direta ou indireta. Normalmente, as decisões diretas surgem a partir de políticos profissionais eleitos pelo povo, que pode ou não exercer sua influência. Mesmo que um político não tenha sido eleito por um dado cidadão, qualquer um possui o poder de pressão, desde que se organize para tal.

Cidadãos existem em ambos os lados de cada uma das questões políticas centrais. Exemplos de questões: (1) Devemos ter pena de morte ou não? (2) Devemos permitir o casamento entre gays? (3) Devemos proibir o ateísmo? (4) Devemos proibir a religião tradicional? (5) Devemos fuzilar estrangeiros? Em suma, mesmo que algumas destas questões não estejam em pauta hoje em dia (enquanto outras sim), em todas elas existem cidadãos contra ou a favor. Além destas questões básicas, em um “core” mais específico de questões, existem pessoas que tomam o lado da direita ou da esquerda.

Se a definição de democracia fala da participação de todos os cidadãos nessas decisões, de acordo com seu poder de influência, sejam estes de direita ou de esquerda, então a palavra chave é “participação”. Mas algo é vital: a participação só ocorre quando ela é efetiva e consciente, e não apenas uma ilusão. Em síntese, a democracia é plenamente visualizada quando os cidadãos possuem participação, e não apenas ilusão de terem uma participação. E, mais uma vez (e sem medo de soar repetitivo), isso vale tanto para esquerdistas quanto direitistas.

Por sua vez, os esquerdistas dominam as técnicas do jogo político há muito mais tempo. Tiveram eles a sorte de ter entre seus mentores gente como Saul Alinsky, Noam Chomsky e Antonio Gramsci. Pessoas que os treinaram a pensar somente em termos estratégicos. Por isso, a quantidade de estratégias, táticas e rotinas que os esquerdistas possuem é tamanha que hoje em dia eles conseguiram garantir sua hegemonia no Ocidente. Se na época do Iluminismo, havia a necessidade de se retirar a hegemonia da Igreja Católica associada aos monarcas, hoje a necessidade é retirarmos a hegemonia da religião política (esquerda). A esquerda de hoje é a religião tradicional de outrora.

Por causa desse arcabouço de truques, hoje em dia não existe mais participação de direita em questões públicas. Não por que não queiram participar, mas por que, devido às estratégias e táticas do inimigo, somente possuem uma ilusão de participação. Pensam que participam do debate público, mas na verdade os truques esquerdistas já os tiraram da arena há muito tempo.

A democracia, portanto, está abalada. Mesmo que oficialmente aplicada na maioria dos países ocidentais, a não-participação dos direitistas no debate público faz com que apenas um dos lados do “core” central de questões de fato participe das decisões dos governos. Note que não estou “culpando” os esquerdistas. Pelo contrário, estou reconhecendo a habilidade deles em terem líderes que desenvolveram as técnicas mais cedo. Aprenderam a jogar o jogo político com mais antecedência. Naquilo que os esquerdistas são mestres, direitistas estão apenas engatinhando.

A única esperança da democracia reside na possibilidade dos direitistas aprenderem a jogar o jogo político tanto quanto os esquerdistas. Estratagemas, táticas e rotinas de qualquer adepto de Marx, Comte ou Dawkins devem ser mapeadas, estudadas, qualificadas e apreendidas pelos principais intelectuais da direita, que devem, em seguida, ensiná-las da forma mais didática possível a uma grande quantidade de leitores. Ou é isso ou então significa abdicarmos da democracia.

A dinâmica social, conforme defendo aqui (com base nas tradições de Lewin), envolve  uma visão instrumentalizada de todos os possíveis recursos de comunicação que beneficiam cada um dos lados da discussão, de forma a entendermos inclusive seus efeitos na platéia. Se estes recursos podem, tanto de forma logicamente coerente como também de acordo com os padrões morais inerentes àqueles que os esteja analisando, serem replicados de forma que ambos os lados possuam os mesmos instrumentos de comunicação, tanto melhor.

Se os dois lados executarem o jogo político em toda a sua potencialidade, aí sim teremos ambos os lados participando das decisões públicas. Aí, e somente aí, abandona-se a ilusão de participação da direita para termos uma participação de fato. Não é exagerado dizer que, no jogo político, a ingenuidade de um dos lados elimina este lado do debate público (criando uma ilusão de participação ao invés da participação de fato), dando de bandeja ao outro lado a participação unilateral no debate. A democracia só tem a perder.

Alguém mais idealista poderia pensar na hipótese de, ao invés da direita também aprender a dinâmica social da guerra política, ensinar os esquerdistas a deixarem os jogos de lado. Mas isso seria uma ilusão, pois, como disse Albert Einstein, “a mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original”. Depois que Adão e Eva comeram a maçã, perderam o direito de voltar ao paraíso. É uma estrada sem retorno.

Os esquerdistas trocaram sua ingenuidade do passado, e, por terem criado todo o pacote central de jogos políticos hoje disponíveis (é só ler Gramsci, Chomsky e Alinsky para comprovar), resolveram participar do jogo por completo. Resolveram participar do jogo democrático. Temos dois fatores em questão. Primeiro, os jogos executados de forma talentosa pelos esquerdistas. Segundo, a direita (na maioria dos casos) optando pela ingenuidade total em relação a estes jogos. Estes dois fatores em conjunto criaram uma situação de fragilidade da democracia, não por causa da participação esquerdista, mas sim por causa da ilusão de participação da direita, exatamente por ignorância destes em relação ao conceito de jogos políticos.

Este “caso” que apresento aqui lança a seguinte questão desafiadora: a direita ousará morder a maçã e renegar à sua ingenuidade política, ou preferirá continuar politicamente ingênua e tendo apenas uma ilusão de participação? No caso de optar pela ingenuidade, seriam os direitistas capazes de reconhecer que a demolição da democracia é mais culpa deles dos que dos esquerdistas? Sim, pois os esquerdistas resolveram participar do jogo, e os direitistas ficaram com a ilusão de participação. Isso compromete a democracia. A participação de ambos os lados, por sua vez, retoma o conceito de democracia.

A democracia depende mais do que nunca dos direitistas (e eu não estou dizendo que depende apenas dos direitistas). A democracia plena depende da participação de todos os cidadãos, sejam da direita ou da esquerda. Mas já passou da hora da direita trocar sua ilusão reconfortante e ingênua (que resulta na ilusão de participação), e passar de fato a participar do jogo político. Isso não ocorrerá sem um aprendizado de como funcionam os jogos políticos.

Eis o desafio: A esquerda já fez sua parte no que diz respeito a participar do debate público. Quando a direita também assumirá sua responsabilidade? A decisão pela fortificação da democracia (pois ambos os lados tem que participar, e não apenas um) está nas mãos da direita, pois a esquerda já está participando.

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4 COMMENTS

  1. Luciano, eu acredito que a coisa já está andando. Já viste o site do Yahoo? Não sei todos, mas os artigos que vi que eram de óbvio cunho esquerdista estão sendo “trucidados” pelos comentaristas. Digo, não refutados ponto a ponto, mas o pessoal que lê o artigo já tá começando a mostrar a verdadeira face de algumas frentes (como o feminismo e o gayzismo).

    Não acho que esteja havendo uma reviravolta no entendimento da população (afinal vários crentes inocentes apoiaram o pedido de retirada do “Deus seja Louvado” das cédulas, felizes pela aplicação do “Estado Laico”), mas é de se notar que de alguma forma textos como os seus estão começando a esclarecer a mente de alguns interneteiros, que publicam suas pequenas opiniões, que geralmente são apoiadas com mais de 100+ “gostei”.

    É uma estatística fraca, mas é possível notar que por meio desses corajosos que dão a cara a tapa pra falar, a população está correndo atrás. Por isso vejo que o que precisamos mesmo é de um cara que esteja lá na frente pra denunciar as falcatruas do governo.

    • Concordo contigo Dalton, existe de fato uma conscientização crescente por parte da direita, embora eu também ache que ao mesmo tempo muitos conflitos internos surgirão, que poderão colocar outros direitistas em conflito com os que já “despertaram” para o contexto dos jogos políticos. Por isso é sempre bom lembrarmos que, enquanto já existe uma conscientização, existe ainda muito a ser feito. Hoje e amanhã publicarei dois textos relacionados às dissonâncias cognitivas que podem surgir no cenário da batalha política.

  2. É, Dalton, também tenho observado esse pequeno passo pra frente. Tem até a proposta de se criar um partido de direita “de verdade” pro país (http://partidoarena.org/) — pena que em vez de começarem uma direita limpa os caras fizeram questão de trazer na testa o alvo de militares e ditadura, a esquerda não vai nem ter trabalho pra tirá-los do jogo.

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