Um raio X das regras para radicais de Saul Alinsky – Pt. 4 – A educação de um organizador

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Esse capítulo (e os dois que o seguirão) são essenciais para que Alinsky qualifique, defina e oriente aquilo que ele define como um organizador[1].

Antes, ele nos relembra que a assimilação de uma série de organizações de poder em uma força nacional de poder não ocorre sem uma série de organizadores. As organizações são criadas, na maior parte dos casos, pelo organizador. Por isso é importante, para ele, definir o que “cria um organizador”. No contexto pelo qual Alinsky viveu nos anos 40 a 70, grande parte de sua atuação envolvia organizações relacionadas ao movimento negro, atividades de campus universitários, militantes indígenas e grupos hispânicos. Todos grupos que tinham uma ou outra demanda, e que requeriam algum tipo de orientação de forma a lutar por poder[2].

Para ele, um potencial organizador não só pode como deve utilizar sua experiência pessoal, como base para o ensino. Todas as experiências adquiridas seriam úteis apenas se forem relacionadas ou puderem iluminar um conceito central.

No processo de organizar grupos e treinar pessoas para a organização, Alinsky reconhece que em sua trajetória visualizou mais fracassos do que sucessos. Ele ressalta que organizações diferentes possuem nuances diferentes, e, portanto dificuldades de organização diferentes. Por exemplo, organizações de ativistas universitários, para ele, geralmente falham na comunicação e não conseguem organizar trabalhadores de classe média. Já líderes de sindicato são focados apenas em questões fixas, como demandas salariais, pensões, e períodos de folga. Para ele, organizações de massa requerem habilidades diferentes, pois não exigem pontos cronológicos fixos, ou questões definitivas:

As demandas estão sempre mudando; a situação é fluida e continuamente mutável; e muitos dos objetivos não são expressos de forma concreta em termos de dólares ou horas, mas em abstrações psicológicas e completamente mutáveis, como “o material do qual os sonhos são feitos”. Eu já presenciei líderes sindicais que ficavam quase fora de si quando tinham que lidar com o cenário de organizações de massa[3].

Um outro ponto importante para a educação de um organizador tem a ver com o fato de que os melhores organizadores são aqueles que apreendem a lógica do que é ser um organizador, ao invés apenas de ficar repetindo o que aprendeu com um outro organizador. Alinsky diz que os que mais falharam no aprendizado eram aqueles que pareciam “uma fita sendo tocada, repetindo exatamente o que eu disse em minha apresentação, palavra por palavra”. Se não tinham um entendimento exato do que ser um organizador era, “não podiam fazer mais do que organizações básicas”. Ele nos diz mais:

O problema com muitos deles era (e é) sua falha em entender que uma declaração de uma situação específica é significativa apenas em sua relação com a ilustração de um conceito geral. Em vez disso, visualizam a ação específica como um ponto terminal. Eles acham difícil compreender o fato de que nenhuma situação sempre se repete, e que nenhuma tática deve ser precisamente a mesma em sua aplicação.

Um dos pontos centrais (e falaremos bastante disso a seguir) dos aprendizados de Alinsky em todo o período no qual ele tentou ensinar outros organizadores é a idéia de que “só podemos entender algo em termos de nossa experiência”, assim como só é possível nos comunicarmos com alguém em termos da experiência dessa pessoa.

Alinsky, reconhecendo que sua experiência como educador de organizadores nem de longe teve tanto sucesso quanto ele esperava, garante que ao menos conseguiu aprender quais são as qualidades necessárias para um organizador ideal, assim como reconhecer que é possível ensinar ou educar os outros para que adquiram estas qualidades.

Para ele, “a área da experiência e comunicação é fundamental para o organizador”. Como já dito antes, um organizador “só consegue se comunicar dentro das áreas da experiência de sua audiência”. De outra forma, simplesmente não há comunicação. Por isso, um organizador, “em sua constante busca por padrões, universalidades e significados, está sempre construindo um corpo de experiência”. Em outras palavras, isso significa algo que pode ser exemplificado desta forma: suponha que alguém tenha que se comunicar com os grupos X, Y e Z. Cada grupo irá reagir de uma forma diferente à participação do organizador, e nesta interação cada grupo demonstrará seus padrões, características, significados, e compartilhará as experiências individuais de seus membros. Esse conhecimento obtido deve fornecer insights ao organizador, para que cada próxima comunicação com cada um dos grupos seja mais focada. Assim, um organizador não estaria focado apenas em seu mundo, mas sim no mundo dos outros, e nos significados relacionados aos outros, com os quais ele vai interagir. Por isso, sua imaginação deve ser receptível o suficiente “para ter sensibilidade em relação aos eventos que ocorrem na vida dos outros, buscando se identificar com eles e extraindo os eventos relacionados a eles absorvendo-os pelo seu próprio sistema digestivo mental, e daí acumulando mais experiência”. É essencial para sua comunicação “que ele entenda e conheça as experiências dos outros”. Sendo que a regra a não ser esquecida é a de que alguém só pode ser comunicar através da experiência do outro, “se torna claro que o organizador deve desenvolver um corpo de conhecimento extraordinariamente extenso sobre as experiências humanas”.

Mas não adianta alguém fingir aquilo que não é. É melhor manter sua própria identidade. Sendo nós mesmos, podemos nos comunicar com o outro, aumentando o grau de empatia. Comportamentos dissimulados tendem a não durar. Podemos até ser ousados em nossa comunicação (as vezes até ligeiramente ofensivos), mas isso é muito mais produtivo do que ficar utilizando “técnicas profissionais”, aprendidas com gurus da comunicação, que serão percebidas como falsas a cada vez que o conhecerem melhor. A regra aqui é: mesmo que alguém tenha que planejar suas ações no sentido de organizar grupos, sua personalidade não deve ser fingida. Com isso, as pessoas com as quais a interação ocorre serão tratadas como pessoas de fato, e não macacos de laboratório. Em retorno, elas reconhecerão isso e se sentirão gratificadas.

No geral, Alisnky delineia algumas características ideais de um organizador, mesmo sem esquecer do alerta inevitável: “Eu duvido que estas qualidades, em altíssimo grau de perfeição, alguma vez tenham ocorrido em conjunto em um homem ou mulher; ainda assim, os melhores organizadores devem possui-las todas, em um grau alto, e qualquer organizador precisa ao menos um grau razoável de cada”.

São elas:

  • Curiosidade
  • Irreverência
  • Imaginação
  • Senso de humor
  • Uma visão turva de um mundo melhor
  • Uma personalidade organizada
  • Um esquizóide politicamente bem integrado
  • Ego
  • Uma mente livre e aberta, e relatividade política

Falaremos um pouco mais de cada uma delas.

Curiosidade

Para Alinsky, um organizador é “dirigido por uma curiosidade compulsiva que não conhece limites”. Sua vida seria “uma busca por um padrão, por similaridades em semelhanças aparentes, uma ordem no caos que nos rodeia, por um sentido para a vida ao seu redor e seu relacionamento com sua própria vida – em uma busca que nunca termina”. O questionamento de “comportamentos e valores atuais é o estágio da reformação que precede e é tão essencial à revolução”[4]. O questionamento socrático, que surgiu para  levantar questões que agitavam o modo de pensar padronizado, é um exemplo da curiosidade que Alinsky diz que um organizador deve ter.

Irreverência

A irreverência caminha lado a lado com a curiosidade. Uma não pode existir sem a outra. Para o questionador, “nada é sagrado”[5]. Não raro, ele será visto como “desafiador, ofensivo, agitador, desacreditador”.

Irreverência aqui é mais definida como uma iconoclastia radical. Idéias são lançadas e tornam-se vigentes e aceitas. Hoje em dia nossa sociedade está carcomida por causa do politicamente correto, que estabeleceu uma série de idéias que não podem ser questionadas e comportamentos que não podem ser criticados. A postura na qual alguém está pronto a desafiar estas vacas sagradas é o que se define aqui por irreverência. Ou seja, ausência de reverência ao pré-estabelecido.

Isso vale tanto para os dogmas dos oponentes, como os dogmas internos. Em outras palavras, vale tanto para questionar as idéias que o seu oponente acredita (e que você percebe como falsas, e tem como demonstrar que são falsas), como também as táticas que aqueles que estão do seu lado possuem para reagir ao oponente, e que não estão funcionando.

Imaginação

Mais uma outra característica parceira da irreverência e da curiosidade. É através de uma boa imaginação que alguém “inflama e alimenta a força que o orienta a organizar para mudança”. Caso a mudança seja feita para os outros, é preciso se identificar com as pessoas afetadas por essa mudança e projetar os desejos dessas pessoas no esforço que será empenhado. Diz Alinsky: “Ao nos identificarmos com os outros, sofremos com eles, ficamos com raiva das injustiças cometidas com eles e começamos a organizar uma rebelião”[6].

Além da imaginação ser útil para que o organizador encontre a motivação necessária, é vital para as táticas e as ações que funcionem. Sendo que cada ação de mudança vai gerar uma reação, o organizador deverá ter em mente quais as possíveis reações que seus oponentes terão. Quanto mais ele conseguir se antecipar a estas reações, melhor.

Senso de humor

Para Alinsky, o organizador deve ter a capacidade de poder rir de si próprio. Sabendo que “as contradições são as placas de sinalização do progresso, ele sempre estará alerta para as contradições”.  Além disso, o humor é vital para um tático de sucesso, pois “a arma mais potente conhecida pela humanidade é a satirização e o ridículo”.

Outro ponto no qual o humor pode ser útil é na manutenção de sua irreverência. O organizador deve manter uma identidade pessoal “que não pode ser perdida pela absorção ou aceitação de qualquer tipo de disciplina de grupo ou organização”.

Uma visão turva de um mundo melhor

Para os marxistas, a expressão “mundo melhor” significa a utopia de um mundo sem classes, com a superação de capital. Para os humanistas, um governo global com a fraternidade universal. Para alguém da direita, um mundo melhor teria menos impostos, mais responsabilidade social e maior punição aos criminosos.

Quaisquer conquistas em direção ao “mundo melhor”, em relação ao que está hoje[7], devem incluir idéias novas, vindas de outros organizadores. O que pode ser alcançado? Quais devem ser as metas para as próximas ações de mudança? Estes pontos devem estar sempre sob discussão, jamais se tornarem dogmas.

Uma personalidade organizada

Para Alinsky, um organizador deve “ser bem organizado em si próprio de modo que se sinta confortável em uma situação desorganizada, sendo racional em um mar de irracionalidades”. Para direcionar ações de mudança, é vital que ele seja capaz de “aceitar e trabalhar com irracionalidades”, pois, como ele diz várias vezes, “com exceções raríssimas, as coisas certas são feitas pelas razões erradas”. Ele nos diz mais:

O organizador deve saber e aceitar que a razão correta é apenas introduzida como uma racionalização moral após o fim correto ter sido alcançado, mesmo que ele possa ter sido alcançado pela razão errada – portanto ele deve buscar e usar as razões erradas para alcançar os fins certos. Ele deve ser apto, com habilidade e cálculo, a usar a irracionalidade em suas tentativas de evoluir na direção de um mundo racional.

Ele também nos diz que por várias razões, “o organizador deve trabalhar sob várias questões”. Cada pessoa ou grupo possui uma hierarquia de valores. Basta olhar para as pessoas do bairro. Pode-se encontrar alguém que tenha como meta enviar seu filho à escola, mas um outro que quer viver às custas de uma pensão, e daí por diante. Cada um tem um valores específicos e objetivos específicos. Uma organização focada em poucas questões, não tem muito para onde evoluir, mas aquela que atua sob múltiplas questões tem muito o que fazer.

Um esquizóide politicamente bem integrado

O termo esquizóide aqui tem a ver com o alerta de Alinsky para que o organizador não caia na armadilha de se tornar um fanático, como aqueles mencionados no livro de Eric Hoffer (“True Believer”). Ele nos dá mais detalhes:

Antes que as pessoas possam agir, uma questão deve ser polarizada. Os homens irão agir quando estão convencidos que sua causa está 100 por cento do lado dos anjos e que a oposição está 100 por cento do lado do demônio. Ele sabe que não pode haver ação até que as questões estejam polarizadas neste nível.

Ele também lembra, mais de uma vez, o exemplo da Declaração da Independência, na época em que os revolucionários omitiram todas as vantagens que as colônias tinham da Inglaterra, e citaram apenas as desvantagens.

O que Alinsky propõe é a divisão do organizador em duas partes: “uma parte na arena da ação onde ele polariza a questão para 100 ou nada, e ajuda a liderar suas forças em direção ao conflito, enquanto a outra parte sabe que quando a hora das negociações chegarem ficará claro que temos apenas uma diferença de 10 por cento – e ainda assim ambas as partes tem que conviver confortavelmente uma com a outra”. Apenas uma pessoa bem organizada pode se dividir e ainda permanecer sólido em si próprio. Para ser um organizador, não há escolha: esta é uma habilidade a ser dominada.

Ego

Como já mencionado no capítulo anterior, o ego do organizador deve ser monumental, em termos de solidez. Ego, que não pode ser confundido com egolatria, é “confiança sem reservas em sua própria habilidade de fazer o que acredita que deve ser feito”. Um organizador, para Alinsky, “deve aceitar, sem medo ou preocupações, que as chances estão sempre contra ele”. Pensando assim, ele se torna um homem de ação realmente pronto para agir.

Uma mente livre e aberta, e relatividade política

Estando todas as características anteriormente citadas presentes, em um certo grau ou outro, o organizador “se torna uma personalidade flexível, não uma estrutura rígida que se quebra quando algo inesperado ocorre”. Por causa de sua própria identidade, “ele não precisa da segurança de uma ideologia ou panacéia”. Mais:

Ele sabe que a vida é uma busca pela incerteza; que o único fato inexorável da vida é a incerteza; e ele pode conviver com isso. Ele sabe que todos os valores são relativos, em um mundo de relatividade política. Por causa dessas qualidades, ele dificilmente se desintegra em cinismo e desilusão, pois ele não é dependente de ilusão.

Por fim, Alinsky nos lembra que o organizador “está constatemente criando o novo a partir do velho”. Com a noção de que “todas as idéias surgem do conflito”, grande parte de sua atuação é baseada em criar.

É quando fica clara a distinção entre um organizador e um líder. Para ele, um líder tende a se motivar pela luta pelo poder, enquanto um organizador teria sua meta na criação do poder para que os outros o usem.


 

[1] É importante alertar que muito do que Alinsky falava em termos de organizações tinha muito a ver com a época em que ele vivia, pois hoje em dia o cenário para o desenvolvimento de organizações para o poder pode ocorrer não apenas em seminários e congressos “in loco” e comunidades de bairro, mas também por ações virtuais a partir das redes sociais. Por isso, muito do material que ele escreveu deve ser abstraído tanto para quem resolver atuar com um grupo sindical, “mano a mano”, como para alguém que resolva criar um grupo na Internet para lançar uma ação judicial via Ministério Público Federal contra um grupo oponente.

[2] É aqui que temos que fazer também uma lembrança aos conservadores de direita. Com a opressão esquerdista, hoje em dia muitos conservadores de direita possuem demandas, como, por exemplo, necessidade de redução de impostos e aumento de punições aos criminosos (para o conseqüente aumento da segurança). Estes são apenas alguns exemplos, dentre vários, de contextos onde pessoas com filosofia de direita possuem demandas, e estes grupos podem ser organizados da mesma forma que Alinsky organizava grupos de esquerda.

[3] Não se deixe enganar. Isso não significa que as organizações sindicais estão “fora” do jogo político, muito pelo contrário, mas sim que seus líderes raramente assumem posição dianteira no jogo das organizações de massa. Uma exceção à regra é o caso de Lula, que foi ao mesmo tempo um líder sindical, como também alguém que usou as regras de Alinsky para chegar ao poder reconhecido como um agregador de várias organizações de massa.

[4] Um outro ponto, em relação ao qual não se deve enganar. Se temos um grupo que não está acostumado a questionar, por exemplo, a autoridade, e a partir de um agente de mudança externo, adquire a confiança neste questionamento, é disto que Alinsky está falando. Revolução neste contexto, não tem a ver com a utopia, mas com a mudança radical de um comportamento. Como sempre, vale tanto para uma demanda de esquerda como de direita. Por exemplo, a solicitação para a redução da maioridade penal é uma demanda de direita. Se organizar para exigir essa mudança é uma ação que requer uma mudança nas formas de se pensar e agir que, obviamente, não estão funcionando.

[5] Essa é uma das bases de meus paradigmas do ceticismo político e do duelo cético, onde questiono a autoridade moral injustificada dos cientificistas. Em suma, “não existem vacas sagradas”.

[6] O imaginário popular cultivou a idéia de que os esquerdistas são os portadores do “bem comum”, e portanto seriam os que “se importam”, enquanto os conservadores de direita “não se importam”. A verdade é que ambos “se importam”, mas por meios diferentes. A diferença é que os esquerdistas manipularam um discurso mais populista. Por exemplo, o Tea Party é um movimento de rebelião movido por organizadores que identificaram que o trabalhador médio norte-americano estava sofrendo injustiças por um estado opressor, que lhes cobra impostos excessivos. É um movimento de direita. Em resumo, esse “feeling”, citado por Alinsky, deve ser até mais absorvido por alguém de direita do que alguém de esquerda. Hoje, a esquerda é o status quo, e a direita representa a rebelião.

[7] E, como ficou claro, “mundo melhor” não é mais exclusividade da esquerda, a não ser na questão de uma utopia.

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