Um estudo de caso corporativo mostra que o humanismo é muito menos racional e cético que a religião revelada

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Eu sempre suspeitei que o humanismo é a mais irracional de todas as religiões, e isso ocorre pelo fato de que eles partem de um ser humano idealizado (ao invés do que o homem realmente é), enquanto as religiões reveladas fazem uma força para ver o homem como ele realmente é, mesmo que usem mitos para fazer a absorção de alguns conhecimentos.

Eu não estou dizendo que isso torna a religião revelada algo racional per se, mas sim que a religião política é muito mais irracional que a religião revelada. Se todos os sistemas morais e códigos morais devem ser orientados ao ser humano (caso contrário, não haveria sentido para ter tais códigos e sistemas), só podemos avaliá-los racionalmente se eles falam do ser humano como ele é, e não de um ser humano que só existe em sua mente.

Os religiosos tradicionais dizem que o ser humano é cheio de falhas, e, portanto, deve “se confessar para Deus”. Eles também afirmam que essas falhas são inerentes  ao ser humano. Por outro lado, os religiosos políticos dizem que essas falhas podem ser eliminadas pela própria ação humana. Por isso, é natural que um religioso político como Bertrand Russell diga: “É indesejável acreditar numa proposição quando não há a menor base para supô-la verdadeira”.

Vamos aplicar o método de Russell no mundo corporativo. Imaginemos dois gerentes seniores,  X e Y, que falam de um gerente médio, W. W é aliado político de X, e adversário de Y. Não surpreende que X defenda, nos corredores, que “W é capaz de gerir pessoas com muita habilidade”, enquanto Y defende exatamente o oposto: “W não pode gerir pessoas, de forma alguma”.

Ou a afirmação de X é verdadeira, ou a afirmação de Y é verdadeira. Não há meio termo, e isso é uma constatação lógica. Se a afirmação de Y for verdadeira, W não serve para gerir pessoas, mas se a afirmação de X for verdadeira, W é um bom gestor de pessoas. Politicamente, tanto X como Y dependem do aceite de suas afirmações perante à alta gestão. (A lógica é a seguinte: quanto mais cercado de aliados um gerente esteja, melhor para ele)

Lembremos também que, com o uso adequado de jogos, as fragilidades de W podem ser facilmente escondidas, portanto, se X conseguir fazer com que os outros aceitem sua asserção como verdadeira, ele não será prejudicado por isso. (Ou seja, de acordo com a forma como o cenário é moldado, até um certo nível de “incompetência técnica” é aceitável dentre aqueles subalternos ao gerente)

O que estou querendo dizer aqui é que, em uma avaliação amoral (e qualquer avaliação científica é amoral), o melhor para X é que sua afirmação seja percebida como verdadeira pela alta gestão, independente de ser verdadeira. E, especialmente se Y for rival de X, é melhor para ele também que sua afirmação seja percebida como verdadeira pela alta gestão.

E isto refuta a afirmação de Russell, de que é “indesejável acreditar numa proposição quando não há a menor base para supô-la verdadeira”. Mais racional seria a afirmação de que é “indesejável acreditar numa proposição quando não há o menor motivo para supô-la verdadeira”. E, sendo os motivos variáveis de acordo com cada ser humano (X e Y teriam motivos diferentes), logo os dois gerentes estariam agindo racionalmente, mesmo que diante de informações falsas. (Alguém ainda poderia dizer que isso que X e Y fazem não seria “acreditar”, mas sim mentir sobre algo, sem acreditar nisso. É até possível, mas alguns  adeptos da hipnose erickssoniana dizem que muitas vezes é bom convencer-se de algo que não é verdadeiro, mas ao mesmo tempo útil para si próprio, para evitar ser pego em contradição, com seu comportamento não sendo congruente com o que você afirmou. Note que não estou fazendo um juízo de valor sobre se é moralmente correto ou não fazer este tipo de jogo interno, apenas afirmando que isso é possível. E, ainda assim, não há diferença técnica entre alguém que acredite em algo, para alguém que diz acreditar em algo, pois só podemos perceber o comportamento.)

A afirmação de Russell não faz sentido nem em termos lógicos e muito menos em termos estritamente científicos, pois ela parte do princípio de um ser humano idealizado, mas inexistente. As investigações deste blog tem levado à constatação de que esta idealização do ser humano, no entanto, só serve a um truque, o de idealizar um ser humano inexistente, vivendo em um mundo futuro, para fingir, em direção à platéia, que ele próprio seria este ser humano idealizado vivendo neste mundo. A partir daí, com o uso das cinco rotinas chave do humanismo, ele convenceria a platéia de qualquer idéia absurda que ele quisesse.

Tecnicamente, se ele estiver ciente de todos os benefícios que obtém e da arquitetura deste truque, estaríamos diante de alguém muito inteligente. Provavelmente os gerentes X e Y poderiam usar este truque, com maior ou menor ênfase, para melhorarem sua competitividade no jogo político corporativo. Mas, e para alguém que não está recebendo os benefícios desta crença? Aí sim, acreditar em Bertrand Russell é muito mais irracional do que acreditar em qualquer forma da religião revelada.

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3 COMMENTS

  1. Mais uma do Bruno, ele é um gênio

    “segundo ele o fato de ”ordem e progresso” ter sido um lema criado por um esquerdista faz dele um lema esquerdista que por sua vez faz apologia ao esquerdismo,por esse critério eu posso proibir o lema da republica francesa que é ”igualdade,fraternidade e liberdade” alegando que foi criado por revolucionários franceses que em sua maioria eram esquerdistas e que portanto faz apologia ao esquerdismo,mesmo que esse lema defenda valores compartilhados tanto por esquerdistas quanto por direitistas moderados.”

    “Agora falando serio eu acho que as outras religiões devem exigir o mesmo tipo de proselitismo que a religião cristã usufrui atualmente isso fara com que os cristãos fundamentalistas fiquem irritados ao ver seu dinheiro sendo gasto para fazer apologia a uma religião que não seja a sua,isso ja esta acontecendo da uma olhada:
    http://www.paulopes.com.br/2012/02/evangelicos-protestam-contra-projeto-de.html
    http://www.paulopes.com.br/2012/11/secretaria-do-am-critica-intolerancia-de-alunos-evangelicos.html
    Se isso for intensificado serão os próprios cristãos fundamentalistas que irão exigir o estado laico.”

  2. Mais Bruno, e uma sapiência humanista inacreditável

    “Artigo 19 da Constituição:
    “É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público.”
    A expressão “Deus seja Louvada” não é uma colaboração de interesse público, pois não podemos pressupor que um país vá ganhar alguma coisa a imprimindo em suas cédulas (ou perder, caso a retire).
    Quando o estado declara datas como Natal e Páscoa como feriados, ele impulsiona o comércio brasileiro. O Carnaval impulsiona o turismo (e as cervejarias rs). O Cristo Redentor também traz turistas e torna o Rio de Janeiro um dos cartões postais mais famosos do mundo. Igrejas e templos religiosos devem ser tombados porque são parte da nossa memória. Prover segurança pública a eventos religiosos também é dever do estado, bem como receber com a formalidade adequada as lideranças religiosas que nos visitam.
    Tudo isso são colaborações com cultos religiosos e igrejas de interesse público. Traz retorno e traz benefícios objetivamente verificáveis. Cruzes em tribunais – além de serem uma decoração para lá de cafona -, estátuas que não atrairão turistas, inscrições em cédulas e feriados que não trazem retorno econômico são contrários ao critério de interesse público.
    Ademais, retirar da cédula não é um ato contrário à manifestação religiosa, pois não diminuiu em absolutamente nada liberdade de cada indivíduo de se manifestar religiosamente.
    A importância histórica também é irrelevante. Até porque o único fato histórico verificável é que o Brasil foi fundado por cristãos e não podemos pressupor, de forma alguma, a participação direta de Deus – mesmo que ele exista de fato! Historicamente, o correto seria colocar: “Essa nação foi fundada por cristãos.” mas isso soaria tão estranho que poucos iriam querer. Sem contar que lugar de história é em livros, não em cédulas.
    Aliás, sobre essa questão da tradição e dos fundadores… por acaso os egípcios não deveriam abandonar Ha, Osiris e cia porque era a religião dos fundadores deles? O Vaticano deveria permanecer fiel a Júpiter pois esta era a religião dominante na Itália antes deles? O papa deveria celebrar uma missa a Hélio durante o início do solstício (25/12) e mandar inscrever “Marte seja Louvado” nas espadas dos cavaleiros das cruzadas?
    A tradição é importante, mas quando entra em conflito de interesses, passamos a deixá-la nos livros de história e nos museus. Os interessados em nutri-la, que a nutram através destes. Se algum leitor aqui se interessar, sugiro até o plano de ação: Faça uma exposição mostrando a importância do cristianismo em nossa história em algum museu. Exponha o crucifixo de todos os Dom’s que você quiser, junto com seus certificados de batismo, de primeira eucaristia, de católico fiel etc e coloque as referências às religiões que fizeram em seus textos, discursos, cartas, documentos etc Daí você escreve um livro contando a história de tudo isso também! Olha, vai ficar muito legal se você fizer isso tudo. Até porque lugar de história é no museu e nos livros e não nos tribunais e nas cédulas. Tribunal não é museu, cédula não é livro de história. Combinados?
    A alegação de que essa frase não é somente cristã chega a ser risonha. Ela é uma referência muito clara a um deus único: neste caso Deus, o cristão.
    Outra alegação que vi é que Deus realmente existe e é a verdade última do universo. Bem, considerando que o argumento cosmológico esteja correto – o que não é o caso – quem falou que esse ser é Deus ou mesmo um deus? Quem falou que este ser exige louvores?
    Vou até mais longe: Quem falou que este ser exige louvores em cédulas de dinheiro? Se São Francisco de Assis estivesse vivo hoje, ele seria o primeiro a querer sumir com o nome de Deus das cédulas de dinheiro!
    Muita gente diz que a medida não ter essa inscrição na cédula é coisa de estado ateu. Absurdo! Então não escrever “Não use drogas!” é coisa de estado apologista às drogas? Ou será que não escrever “Nação de Heteros” é coisa de um estado gay?
    Sobre a questão da maioria, existem juristas que defendem a posição de que a maioria deve governar. Isso é bem problemático. A forma como alguns dizem dá a entender que a maioria pode passar por cima das leis ou mesmo fazer leis que sejam vantajosas para ela e desvantajosas para a minoria. Isso é democracia? Existe algum ideal de liberdade escondido aí?
    A maioria pode decidir os rumos do país, mas não pode passar por cima das minorias. O estado não deve se posicionar a favor dos desejos da maioria de forma tão irresponsável e desrespeitosa para com as minorias. Não estou falando que este seja o caso. Neste assunto, o problema é que está se dando voz institucional a uma maioria sem que haja retorno algum, a não ser a satisfação pessoal dessa maioria.
    E questão de maioria é complicado. A maioria de hoje não é a maioria de amanhã.
    Por fim, muitos perguntam: você se sente ofendido com essa frase nas cédulas? Muita gente tenta tergiversar, mas não farei mais isso. Vou dizer a verdade: sim, me incomoda. Não ofende, mas incomoda.
    Em primeiro lugar porque, como já demonstrei, é uma colaboração com um culto sem contrapartida estatal.
    Em segundo lugar, porque repudio o cristianismo como sistema moral. Não quero usar um cédula que louve um ser que já ordenou genocídios e que justifica a intolerância. Não quero usar uma cédula que louva um ser que castiga com fogo eterno aqueles que não creem nele. Para mim, endossar o louvor a Deus é como dizer que não importo com o meu próprio estado me dizendo que acredita que vou ser punido eternamente por minha não crença.
    Em terceiro lugar, me sinto desprestigiado como cidadão. Da mesma forma que sentiria desprestigiado como torcedor se o estado se posicionasse formalmente a favor de algum time de futebol. Do mesmo modo como qualquer cristão se sentiria desprestigiado – COM TODA RAZÃO – ao ver uma frase como “Deus não existe”, “Alá seja louvado” ou “Satanás seja louvado” nas cédulas.
    Em quarto lugar, o cristianismo é um sistema de crenças supersticioso, que não valoriza a verdade natural do universo acima de qualquer outro tipo de verdade (Deus não é uma verdade natural, se fosse, ele deveria ser alvo da ciência… ou eu estou escutando alguém dizendo que ele é objeto da ciência?), que não prioriza o conhecimento (mas sim a revelação) e nem o desenvolvimento e o conforto deste mundo físico (mas sim a salvação). Ela se posiciona contra certos avanços quando se sente ofendida sem apresentar nada além de suas convicções. Não, eu não quero que um sistema intelectualmente inferior a qualquer sistema secularizado seja louvado e fique sustentando que essas perdas de tempo alienantes mereçam atenção.
    Sim, me incomoda muito ver aquele “Deus seja Louvado” alí. Melhor deixar sem nada escrito, e cada louve quem quiser e se quiser.”

    • Boa tarde Luciano!
      Sem entrar quem é melhor criacionista ou evolucionista, existem mais pessoas que creem no criacionismo que dedicou a vida em prol dos mais carentes ou sao em maior numero os evolucinistas? abs

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