Um raio X das regras para radicais de Saul Alinsky – Pt. 5 – Comunicação

0
82

Alinsky diz que um organizador pode até sobreviver no ramo sem nenhuma das qualidades apontadas anteriormente (ver Pt. 4 – A Educação de um Organizador), menos uma: a da comunicação. Para ele, não importa o quanto alguém sabe a respeito de algum assunto, pois, se isso não for comunicado adequadamente às partes interessadas, simplesmente não fará diferença alguma.

A comunicação com os outros somente ocorre “quando eles entendem o que você está tentando transmitir a eles”. Caso esse “link” não ocorra, simplesmente você não está comunicando nada. Alinsky não se cansa de afirmar que “as pessoas apenas entendem as coisas nos termos de sua experiência, o que significa que você precisa entender a experiência de sua audiência”. Caso alguém não prestar atenção em relação ao que os outros tem a dizer a você, “é melhor esquecer” qualquer tentativa de levar suas idéias aos outros.

Uma fórmula que ele utiliza para saber se a comunicação ocorreu é ver que os olhos do outro brilham e ele responde: “Eu sei exatamente o que você quer dizer. Aconteceu algo comigo que tem tudo a ver com o que você disse!”. Quando isso ocorre, Alinsky diz: “A partir daí, eu sei que ocorreu a comunicação”.

A comunicação efetiva (em termos de conseguir falar as coisas nos termos da experiência do outro, isto é, de forma que o outro conseguirá entender o que você diz) era uma grande deficiência dos professores, e, a cada dia, isso tem melhorado. Quando escreveu seu livro, em 1971, Alinsky sentenciava que existem “apenas alguns poucos professores de verdade na profissão”, sendo que um professor de fato deveria ser capaz de usar a arte da comunicação.

Mesmo que um organizador não seja capaz de absorver toda a experiência de sua audiência, ele deve ter ao menos uma breve familiaridade com ela. Além da comunicação, “isso aumenta a identificação pessoal do organizador com os outros, e facilita qualquer posterior comunicação a partir daí”.

Em outros casos, onde você tenta comunicar algo, e “não pode encontrar o ponto de experiência da outra parte, através do qual ele pode receber e entender sua mensagem, então você deve criar a experiência para ele”. Alinsky conta um caso no qual ele conseguiu confundir uma garçonete (na frente de seus alunos), que era acostumada a entender os pedidos em termos numéricos, mesmo que os ouvisse pela forma textual – assim, mesmo que o cliente falasse bacon com ovos, ela entendia, em sua mente, como “número 1”, e daí por diante. Alinsky pediu um omelete com fígado de frango, mas também que o omelete não fosse misturado com o fígado de frango (isto é, o omelete de um lado, e o fígado do outro). A garçonete trouxe um prato de omelete puro, e outro prato de fígado de frango, quer dizer, dois pedidos ao invés de um. Ele usou esse exemplo para explicar aos alunos como um mero pedido básico foi mal compreendido por ter fugido da experiência da garçonete. Ele reafirma que, em qualquer organização de massa, não se pode ir além da experiência das pessoas.

Na comunicação com foco em persuasão, como em negociatas, “há algo além de entrar na área da experiência do outro, pois falamos em fazer uma correção nos valores e objetivos do outro”, sempre com um objetivo em mente. Por isso, a comunicação não deve ser focada apenas em fatos racionais ou na ética de uma questão. Para exemplificar seuponto, Alinsky cita a negociação entre Moisés e Deus em Êxodo 32:7-14:

Então disse o SENHOR a Moisés: “Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste subir do Egito, se tem corrompido, e depressa se tem desviado do caminho que eu lhe tinha ordenado; eles fizeram para si um bezerro de fundição, e perante ele se inclinaram, e ofereceram-lhe sacrifícios, e disseram: Este é o teu deus, ó Israel, que te tirou da terra do Egito.” Disse mais o SENHOR a Moisés: “Tenho visto a este povo, e eis que é povo de dura cerviz. Agora, pois, deixa-me, para que o meu furor se acenda contra ele, e o consuma; e eu farei de ti uma grande nação.” Moisés, porém, suplicou ao SENHOR seu Deus e disse: “O SENHOR, por que se acende o teu furor contra o teu povo, que tiraste da terra do Egito com grande força e com forte mão? Por que hão de falar os egípcios, dizendo: Para mal os tirou, para matá-los nos montes, e para destruí-los da face da terra? Torna-te do furor da tua ira, e arrepende-te deste mal contra o teu povo. Lembra-te de Abraão, de Isaque, e de Israel, os teus servos, aos quais por ti mesmo tens jurado, e lhes disseste: Multiplicarei a vossa descendência como as estrelas dos céus, e darei à vossa descendência toda esta terra, de que tenho falado, para que a possuam por herança eternamente.” Então o SENHOR arrependeu-se do mal que dissera que havia de fazer ao seu povo.

Neste exemplo, Moisés teria entendido a onipotência de Deus e, ao invés de renegá-la, a endossou, clamando por uma avaliação menos dura por parte de Deus.

Um outro ponto importante na comunicação efetiva é deixar que as pessoas tomem suas próprias decisões, mesmo que sendo direcionadas por um questionamento socrático. Segundo Alinsky, “nenhum organizador pode dizer o que uma comunidade deve fazer”. “Mesmo que na maior parte do tempo ele tenha uma idéia clara do que eles deveriam fazer, ele deve atuar apenas sugerindo, manobrando e persuadindo a comunidade em direção àquela ação”, afirma. Ao invés de dizer o que a comunidade deve fazer, o organizador deve utilizar questões direcionadas. Abaixo está um exemplo tirado do livro, no qual ele demonstra como agia:

  • Organizador: O que você acha que devemos fazer?
  • Líder Comunitário 1: Eu acho que deveríamos fazer a tática X.
  • Organizador: O que você acha, Líder 2?
  • Líder 2: Sim, parece uma tática muito boa para mim.
  • Organizador: E você, Líder 3, o que acha?
  • Líder 3: Bem, eu não sei. Parece uma tática boa, mas algo me preocupa. O que você acha, Organizador?
  • Organizador: O que é mais importante é o que vocês acham. O que é que te preocupa?
  • Líder 3: Eu não sei, é algo estranho…
  • Organizador: Eu tenho um palpite, e não uma certeza, mas eu me lembro que ontem você e o Líder 1 estavam conversando e me explicando que alguém já tentou algo como a tática X e isso o deixou desguarnecido, e, nesse ponto não funcionou bem, ou algo do tipo. Você se lembra disso, Líder 1?
  • Líder 1 (que estava ouvindo e agora sabe que a tática X não deve funcionar): É verdade, tem razão. Eu me lembro. Sim, nós sabemos que a tática X não vai funcionar.
  • Organizador: Sim. Nós também sabemos que a não ser que abandonemos tudo o que não vai funcionar, não atingiremos a meta. Certo?
  • Líder 1 (efusivamente): Exatamente!

Alinsky diz que o questionamento sempre deve ser feito dessa forma, com cada falha encontrada na tática proposta sendo testada por questões. Daí, “eventualmente alguém sugere a tática Z, e, novamente, através de questões direcionadas, suas características positivas emergem e a decisão é feita por ela”. Suponha que a tática Z, escolhida pelo grupo (de acordo com o método acima), seja aquela que o organizador já queria de forma antecipada, Alinsky avalia: “Isto é manipulação? Certamente, assim como qualquer professor que se preze manipula, ou até mesmo Sócrates”. É claro que o organizador sabe a tática adequada, mas é melhor que os outros as descubram por si próprios. Caso ele lançasse ordens e “explicando” detalhadamente como os outros deveriam agir, automaticamente surgiria um “ressentimento subconsciente, uma sensação de que o organizador os está rebaixando, sem respeitar a dignidade deles como indivíduos”. Mais:

O organizador sabe que é uma característica humana alguém pedir por ajuda e reagir não apenas com gratidão, mas com uma hostilidade subconsciente em direção aquele que o ajudou. É um tipo de “pecado original” psíquico, pois ele sente que aquele que o ajudou está sempre alerta de que se não fosse por sua ajuda, ele ainda seria um zero à esquerda. Tudo isso envolve uma atuação talentosa e sensível por parte do organizador. No início, o organizador é o general, pois ele sabe onde, o que e como, mas nunca usa as quatro estrelas, nunca é mencionado como o direcionador e nem sequer age como um general – ele é um organizador.

Em alguns momentos, o futuro poderá mostrar que a tática Z não é a mais adequada, e o ego forte do organizador deve “ser forte o suficiente para permitir que algum outro tenha a resposta correta”.

Um dos fatores mutáveis e que modificam todo o aspecto da comunicação é o relacionamento. Há áreas sensíveis que não podem ser tocadas até que “surja um relacionamento pessoal forte baseado em envolvimento comum”. Caso contrário, o outro nem sequer lhe ouvirá, “mesmo que suas palavras estejam de acordo com a experiência dele”. Por outro lado, caso você tenha um bom relacionamento, seu interlocutor é automaticamente receptivo, e suas “mensagens” são percebidas em um contexto positivo, mesmo que na verdade não sejam.

Em um exemplo de falha de comunicação típica dos militantes universitários, ele cita momentos quando eles chegam para os pobres e dizem: “Ouça o que vou dizer: mesmo que você tenha um bom trabalho e uma casa confortável, uma TV colorida, dois carros e dinheiro no banco, isso ainda não lhe trará felicidade”. A resposta, sem exceção, é algo do tipo: “Sim, deixe-me julgar isso – Eu te falo quando eu conseguir tudo isso”. É o fim da comunicação, conforme ele avalia:

Comunicação em uma base geral, sem ser fraturada nas experiências específicas dos ouvintes, se torna retórica e carrega muito pouco significado. É a diferença entre ser informado da morte de um 250.000 pessoas – o que se torna uma estatística – ou a morte de um ou dois amigos próximos ou queridos da família de alguém. No último caso, temos o impacto emocional completo da finalidade de uma tragédia.

Muito provavelmente, isso explique por que a esquerda dificilmente é afetada pelo fato de que sua ideologia causou 200 milhões de mortos no século XX. A maioria entenderá isso apenas como um conjunto de estatísticas e nada mais, sem impacto emocional. Entre os cidadãos comuns, muitos nem sequer sabem quantos milhões compõem um bilhão. Números grandes, mais próximos da análise estatística, fogem da experiência do cidadão comum. Por isso, “é essencial que as questões sejam simples o suficiente para serem tratadas como foco de ações de grupo, transformadas em gritos de guerra”. Alinsky conclui: “Elas não podem ser questões gerais como pecado ou imoralidade ou a boa vida ou até mesmo a moral. Elas devem ser vistas como esta imoralidade deste senhorio de favela neste cortiço onde estas pessoas sofrem”.

Em resumo, para Alinsky, a comunicação ocorre de forma concreta, a partir da experiência do alvo da comunicação. As teorias genéricas somente adquirem sentido quando capazes de serem absorvidas e compreendidas em suas partes específicas (e que se relacionem com a experiência do ouvinte), e somente aí relacionadas de volta em direção a um conceito geral. Se isso não for feito, as especificidades se tornam “nada mais que uma série de anedotas interessantes”. Conclui Alinsky: “Este é o mundo como ele é no que tange à comunicação”.

Anúncios

Deixe uma resposta