Seis papéis essenciais para obter resultados na guerra política

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Ao estudar o material de esquerdistas, vi que vários deles definiam funções para atuação na guerra política. Gramsci definiu seu intelectual orgânico e Alinsky a figura do organizador. Isso tem funcionado para a esquerda, mas não para a direita, provavelmente por que os esquerdistas tem uma “bagagem” maior de jogos políticos, e fazem isso desde a época do ronco.

Por isso, segue aqui um modelo que é apenas uma “tentativa” de mapear os papéis (ao invés de funções) essenciais para guerra política na visão da direita. Não se pode confundir papel com pessoa, pois uma pessoa pode executar mais de um papel. O conceito de um papel ou mais associado(s) à(s) pessoas tem sido extremamente útil no mundo corporativo. Metodologias como ITIL, Six Sigma, Cobit, PMBOK e outras fazem uso de papéis, ao invés de cargos, ou pessoas.

Antes de definir os papéis, deixe-me apresentar 3 contextos, que são:

  • Pressão
  • Atuação
  • Impacto

Os resultados, na guerra política, são definidos por aqueles que estão na esfera de atuação, enquanto os que estão na camada de pressão devem sofrer pressão daqueles que estão na camada de atuação. Portanto, políticos profissionais, juristas e organizações aliadas com o governo, nesse modelo, devem sofrer pressão dos grupos de atuação. Por sua vez, a terceira camada, de impacto, envolve aqueles que são essencialmente impactados pelos que estão na área de atuação. Na camada de impacto, está a população em geral e as organizações.

Deve ter ficado claro que tudo é decidido a partir da camada do meio, de atuação, que são os que agem no contexto da guerra política.

Estes são os 6 papéis da camada de atuação:

  1. Analista tático
  2. Investigador
  3. Psicólogo
  4. Intelectual orgânico
  5. Organizador
  6. Militante

Analista tático

Este é um papel essencial para a direita, pois, como a esquerda domina muito mais o jogo político (já fazem isso intuitivamente), é preciso de uma avaliação das táticas e estratégias envolvidas na política, em uma análise que tenta ser “de fora”, avaliando o que funciona e o que não funciona.

É mais ou menos como os comentaristas e especialistas em futebol. Eles podem até torcer para a seleção brasileira, mas estão avaliando o jogo com um olhar crítico, e não se furtam em dizer “O técnico Mano Menezes errou na escalação” ou “Ele acertou nisso”. As táticas e estratégias em geral, de ambos os lados da batalha, são avaliadas de forma pragmática, para avaliar o que funciona ou não. Esse é o papel do analista tático.

Investigador

Um outro papel essencial é o de investigador de fraudes do discurso adversário. Basicamente, é o usuário principal do paradigma de ceticismo político que elaborei. Ele observará as alegações do seu oponente político, encontrará falhas, e elaborará refutações de acordo com estas falhas encontradas. Um skill adicional essencial para esse papel é a capacidade de disseminar o conhecimento relacionado a essas fraudes. A criação de índices e bases de conhecimento das fraudes esquerdistas encontradas será extremamente útil para os outros papéis no conflito.

Intelectual Orgânico

Se o investigador dissemina conhecimento das fraudes encontradas, e o analista tático dissemina informações a respeito das estratégias que funcionam para cada um dos lados, ambos os papéis produzem informação para os intelectuais orgânicos e os organizadores. O intelectual orgânico, por outro lado, também dissemina conhecimento e conteúdo, mas seu foco é na comunicação de massa. Qualquer matéria de jornal, discurso na mídia, inserção ideológica em conteúdo cultural, enfim, tudo isso configuraria o intelectual orgânico. Aqui a diferença essencial: ele fala de uma forma a ser percebido pelas massas.

Psicólogo

Aqui temos uma inovação! É que, com as dissonâncias cognitivas da direita, pelo fato de que estes não estão acostumados a viver em um mundo de jogos políticos (trazidos pela esquerda), não dá para obter resultados na guerra política. É preciso tratar, por forma de diálogos, essas “travas” mentais, que minam a atuação conservadora de direita no jogo. O psicólogo é aquele que atuará de forma sutil e pacífica, com questionamentos socráticos e pontuais, dentro das organizações (incluindo redes sociais) de direita. Aguardem para breve , em um texto que dará a sequência ao post Dissonância cognitiva: por que isso tem tirado a direita do jogo político?, no qual falo de como seriam as “terapias” a serem realizadas. Notem também que a comunicação aqui não é de alguém com a massa, mas de alguém dentro de seus grupos. Em suma, é alguém contra o PT em uma comunidade que é contra o PT, alguém que é contra os neo-ateus em uma comunidade de cristãos. O objetivo é retirar as “travas” mentais, ou seja, as dissonâncias cognitivas, dos seus (e não da massa, que em geral é neutra e busca o centro), de forma que estejam aptos a atuar no jogo. Obs.: Não é preciso ser um psicólogo formado para exercer o papel, naturalmente, mas sim ter foco, dominar o questionamento socrático, ter um senso de propósito e conhecer um tanto da natureza humana.

Organizador

Um organizador é um “líder idealizador”, que faz as coisas acontecerem. Em síntese, um movimento não ocorreria se o organizador não estivesse lá. Nas organizações, eles são considerados os “champions”, os “agentes de mudança”. São os criadores de comunidades e organizações, executores de estratégias, e que assumem a linha de frente. Por seu perfil mais focado para a ação na linha de frente, são os que mais dão “a cara a tapa”.

Militante

São todos aqueles inseridos em uma organização política, e que atuem sob uma linha de comando (enfim, são orientados pelas ações acima, especialmente dos intelectuais orgânicos e organizadores), sob uma atmosfera de amizade e cumplicidade em relação aos demais membros da organização. Mesmo que o militante esteja alinhado a uma cadeia de comando, ele não o faz por coerção, e sim por motivação para lutar. Olavo de Carvalho nos diz mais: “Sem uma rede de militantes, simpatizantes e companheiros de viagem, não existe ação política. Com ela, a ação política, se não limitada por fatores externos consolidados historicamente – a religião e a cultura em primeiro lugar — pode estender-se a todos os domínios da vida social, mesmo os mais distantes da “política” em sentido estrito, como por exemplo a pré-escola, os consultórios de aconselhamento psicológico e sexual, as artes e espetáculos, os cultos religiosos, as campanhas de caridade, até a convivência familiar” (Zero Hora, 6 de março de 2004)

Os papéis em ação

É possível que alguém execute todos os papéis e não há nenhum impeditivo para isso. No modelo de Alinsky, temos apenas o organizador, e no de Gramsci o intelectual orgânico. Entretanto, eu separei os papéis para mostrar os determinados graus de especialização que um Agente de Mudança da direita poderia assumir.

Por exemplo, certa vez me convidaram para liderar uma organização que reuniria uma série de blogs conservadores. Eu declinei, pois esse seria mais o papel de um organizador. É preciso ter uma dedicação de tempo, e uma vontade de estabelecer canais de comunicação mais amplos, para executar este papel.

Foi aí que descobri que este papel não é tão adequado para mim. Entretanto, pelo meu gosto profundo por estratégias e táticas do jogo político, além da dinâmica social da batalha política, obviamente o papel de Analista Tático me serve como uma luva. Também gosto de estudar o material oponente e achar as fraudes contidas lá, portanto o papel de Investigador é outro no qual eu nado de braçadas.

No papel de Psicólogo, aí é que a porca torce um pouco o rabo, pois eu basicamente consigo elaborar questionamentos que servem a “destravar” a mente de alguns, mas não tenho tanto tempo disponível para a conversa “mano a mano” como eu gostaria. Por exemplo, suponha que um conservador de direita leia este texto e comece uma discussão:

  • Conservador com dissonância: Eu não admito que você veja o conservadorismo pensando também em guerra política?
  • Luciano: Qual o problema com isso? Me diga mais…
  • Conservador com dissonância: Conservadorismo é sobre se sentir bem consigo mesmo, seus valores, e não lutar pelo poder.
  • Luciano: Mas você reclama do poder obtido pelos esquerdistas, não?
  • Conservador com dissonância: Claro que sim! Eles estão acabando com o Brasil.
  • Luciano: Mas você não gostaria de fazer algo a respeito?
  • Conservador com dissonância: Esse é meu objetivo. E vou difundir meus valores…
  • Luciano: Mas em um mundo plural como o atual, somente difundir seus valores é o suficiente?
  • Conservador com dissonância: Pelo menos eu não abandonarei meus valores.
  • Luciano: Qual sua prioridade: focar nos seus valores, ou fazer propostas políticas para aqueles que tem valores além dos teus?
  • Conservador com dissonância: …

Não importa a resposta, e nem arrumar briga, o que importa é fazer o outro pensar, e, em contínuas sessões, alguns conseguirão quebrar suas dissonâncias cognitivas ou ao menos lidar com elas. Aí, somente aí, alguém estará pronto para adentrar o jogo político. A técnica para esta discussão é algo que eu aprecio, mas o tempo para a prática do papel de psicólogo é o que não tenho. Provavelmente no futuro eu elabore um material sobre as “terapias” que podem ser feitas. Mas não prometo nada.

Em relação ao papel de intelectual orgânico, quase todos os que publicam conteúdo são de alguma forma intelectuais orgânicos. Entretanto, alguém poderá ser essencialmente um intelectual orgânico e se basear no material produzido por outros intelectuais orgânicos, investigadores, analistas táticos e até psicólogos (aliás, se um texto é focado em uma reflexão de conservadores, é uma ação do papel psicólogo).

Organizadores precisam ter tempo disponível, além dos meios para liderar ações de massa. Líderes religiosos, representantes de associações e grupos são ideais. Grupos universitários também.

Qualquer um dos papéis acima pode executar militância, de uma forma ou de outra, pois um intelectual orgânico de uma questão, pode agir como militante em outra. Mas um militante pode focar exclusivamente na militância, sem problema algum.

Para que definir os papéis?

A maior motivação para definir os papéis é que podemos concentrar nossos esforços quando executamos ações. Se temos um objetivo, estamos tendo sucesso? A quantidade de esforço é adequada? Se não temos uma direção para o que fazemos, perdemos os filtros para analisar se temos ou não resultados.

Se o objetivo é disseminar conteúdo para a massa, um intelectual orgânico pode revisar suas técnicas de comunicação. Mas, se o objetivo é ser um investigador de fraudes, alguém poderá fazer uma auto-avaliação para ver se o seu domínio do guia de falácias e dos estratagemas do inimigo é suficiente. Um analista tático poderá fazer um self-assessment (auditoria de si próprio) para entender e conhecer cada vez mais os meandros dos jogos políticos.

Como meu foco será na análise tática e investigação (com um pouco da atuação de intelectual orgânico), eu já sei que devo me aprofundar cada vez mais em ciência política e a dinâmica social da guerra política, assim como na investigação das fraudes do oponente.

Entendo que, na fase inicial de conscientização (hoje a direita ainda está em fase de despertar), papéis como os de analista tático, psicólogo e investigador, serão vitais, pois no exemplo gritante da questão da guerra de posição nas cédulas, via ação judicial dos neo-ateus, “travou” a mente de muitos conservadores cristãos. Muitos diziam “Parece que eles não tem o que fazer…” e coisas do tipo. Essa ingenuidade abominável é um sinal de que em termos táticos, muitos nem sequer conseguiram perceber as regras do jogo. O analista tático tem a missão de explicar as táticas e estratégicas, tanto as do lado da direita (que são quase inexistentes), como as da esquerda (extremamente elaboradas e muito bem arquitetadas), e falar a verdade nua e crua para o SEU PRÓPRIO LADO da guerra, mesmo que essa verdade seja dolorida. Junto com isso, o papel de investigador (que executo automaticamente junto com o de analista tático) se encarrega de mapear as fraudes contidas no discurso oponente.

Eu sei que meus textos, portanto, deverão ser escritos, em sua maioria, pelo perfil de analista tático e de investigador, pois essa é uma carência a ser solucinada, e esta é a atuação que mais condiz com o meu perfil.

Intelectuais orgânicos, psicólogos, organizadores e militantes poderão fazer uso do conteúdo aqui, mas, se a análise tática for frágil, a chance de erro da parte deles aumenta.

Quanto mais analistas táticos surgirem, melhor (sem esquecer que precisamos de organizadores, intelectuais orgânicos e outros). Vejamos alguns desses atores: Daniel Fraga, mesmo libertário, é intelectual orgânico. Ele produz conteúdo parcialmente útil, que ajuda a direita (embora a atrapalhe algumas vezes). O mesmo se pode dizer de Pondé e Constantino, ambos intelectuais orgânicos. Mas a parte tática de todos estes é zero. Olavo de Carvalho, como intelectual orgânico, é mais ou menos. Mas a atuação dele como analista tático é brilhante. (Aliás, devo muito a ele neste sentido, pois eu não teria pesquisado a técnica de Pânico Moral e o material de Elisabeth-Noelle Neumann, não fosse por suas dicas).  Nos Estados Unidos, Glenn Beck e Ann Coulter são intelectuais orgânicos. David Horowitz é um analista tático. Não vi um deles como um especialista em investigação de fraudes do oponente. Não há muitos organizadores, salvo em alguns think thanks, mas não organizam nada ainda. A meu ver é por que conhecem pouco o jogo político.

Com esse entendimento (e como o auto-entendimento que faço de mim mesmo, isto é, eu tenho deficiências em algumas áreas, mas vou muito bem em outras, então é melhor que eu foque aonde eu tenho mais talento), o direcionamento de esforços fica muito mais eficiente.

Quando eu escrever uma notícia comentada, que papel eu estarei executando? O de um analista tático ou de um investigador? Ou até de um psicólogo ou de um intelectual orgânico? Mas provavelmente não o de um organizador. Mas existem muitos com perfil de organizador, assim como de um intelectual orgânico puro, que poderão atuar com feedbacks do material produzido aqui. E assim sucessivamente.

Se sou focado em análise tática, não é melhor eu usar uma boa parte de meus posts com conteúdos mais rápidos, e focados no comentário de notícias, misturados aos posts que falam sobre a arte da guerra política em si e investigações de discursos do oponente? Esta é a resposta que consegui buscar em meu interior, e pude fazê-lo mais claramente após mapear os papéis acima.

E você, quais são os papéis que você acha que se encaixam ao seu perfil? (Dica: escolha no máximo 4 deles, e torne-se especialista em 1 ou 2)

Obs.: O modelo está aberto a melhorias e sugestões. Futuramente eu devo fazer um post para cada um dos papéis também.

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3 COMMENTS

  1. Parece que o povão está notando, ainda que lentamente, as fraudes no discurso desse pessoal. Olhe esta coluna do portal NE10 que praticamente enquadra todos como perigosas pessoas que discriminam homossexuais, seja na categoria de “homofóbicos cordiais” (aqueles que não causam danos à integridade física e moral de homossexuais, mas não compartilham do ideário do que os militantes gays consideram ser a ausência total de homofobia), seja na categoria de portadores de “homofobia interna” (classificação essa que engloba praticamente todas as pessoas, até mesmo homossexuais que não têm por hábito tomar parte de militância, viverem muito dentro do “mundinho” ou demonstrarem afeto em público de uma maneira que vá além de andar de mãos dadas nas ruas):

    http://ne10.uol.com.br/coluna/o-papo-e-pop/noticia/2012/11/16/esse-cabra-homofobico-cordial-381249.php

    Note-se também a rotininha de dizer que alguém que seja homem, branco e heterossexual não precisaria de defesa (algo que podemos qualificar como desumanização de uma parte do todo da humanidade simplesmente por ser o que é). Fora isso, note o grau de terrorismo psicológico que tal texto impõe a um leitor mais crédulo e que não tenha o mínimo de atenção para detectar as fraudes. Enfim, prato cheio para se destrinchar fraudes…

    • Pois é, o Dawkins fez um truque semelhante dele. Ele disse que os ateus que acham que a religião é positiva, são “religiosos de segunda mão”. É sempre assim, com truques psicológicos um atrás do outro. Mas a idéia é essa, começar a investigar esse tipo de discurso e sermos capazes de dizer para a platéia do debate: “Acabamos de ver os truques X, Y e Z”. Não há outra forma de tratar esquerdista.

  2. Luciano, valeu pelas respostas do outro post.
    Achei esse texto fundamental. Ele é uma rara análise tática. Eu vou acabar pegando pelo menos um desses papéis, não tem jeito.
    E sim, estou lendo religiosamente os trocentos textos diários.

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