Um Raio X das regras para radicais de Saul Alinsky – Pt. 7 – Táticas

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De todos os capítulos do livro de Alinsky, este é o que ficou mais conhecido, pois são suas táticas para a guerra política. Táticas, para ele, não são nada mais que os meios que temos para fazer o que precisamos fazer com aquilo que temos em mãos.

Aqui estão as 13 regras para as táticas de poder:

  1. Poder não é apenas o que você tem, mas o que o inimigo pensa que você tem.
  2. Nunca vá além da experiência de sua comunidade.
  3. Sempre que possível, fuja da experiência do seu inimigo.
  4. Faça o inimigo sucumbir pelo seu próprio livro de regras.
  5. O ridículo é a arma mais poderosa do ser humano.
  6. Uma boa tática é uma que a sua comunidade aprecia.
  7. Uma tática que se arrasta por muito tempo se torna um obstáculo.
  8. Mantenha a pressão, com diferentes táticas e ações, e utilize todos os eventos do período para o seu propósito.
  9. A ameaça geralmente é mais aterrorizante que a coisa em si.
  10. A maior premissa para táticas é o desenvolvimento de operações que irão manter uma pressão constante na oposição.
  11. Se você produzir um efeito excessivamente negativo e profundo no oponente isso poderá se voltar contra você.
  12. O preço de um ataque bem sucedido é uma alternativa construtiva.
  13. Escolha o alvo, congele-o, personalize-o e polarize-o.

Começando pela regra 13, Alinsky cita Jesus Cristo em Lucas 11:23: “Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha.” As pessoas só conseguem atuar efetivamente, e com motivação adequada, se acreditarem que estão do lado dos anjos e seus inimigos estão do lado dos demônios, senão não há motivação para a ação.

Muitas vezes é difícil personalizar seus inimigos, mas uma observação dos eventos políticos atuais nos mostra que a identificação de uma classe ou organização com um indivíduo sob ataque é muito mais eficiente do que se não atribuíssemos responsabilidades para o lado inimigo. Sem isso, não haverá identificação e nem pressão centralizada suficiente. E, normalmente, outros tendem a surgir em apoio aquele que está sendo atacado. Alinsky cita o histórico do líder sindical John L. Lewis, do grupo radical C.I.O., nos anos 30, que nunca atacou a General Motors, mas seu presidente Alfred Sloan, nem a Republic Stell, mas seu presidente Tom Girdler. Alinsky cita que não foi atacar o sistema escolar, mas sim seu superintendente Benjamin Willis. A razão para isso é óbvia: “Não é possível desenvolver uma hostilidade suficiente contra, digamos, a Prefeitura, pois esta é uma estrutura concreta, física e inanimada”.

No ataque ao superintendente[1], muitos moderados afirmavam que o ele não era uma pessoa má, e que ia à Igreja toda semana, sendo um bom pai de família, além de contribuir com caridade. Alinsky decreta: “Você pode imaginar em uma arena de conflito acusar um oponente de ser um bastardo racista e depois diluir o impacto do ataque com afirmações elogiosas como ‘Ele é um bom homem, generoso e bom marido?’. Isto seria uma idiotice política”.

Em relação à regra 5 (“O ridículo é a arma mais poderosa do ser humano”), as possibilidades novamente são ilimitadas. Para Alinsky, “Você pode ameaçar o inimigo e se dar bem. Você pode insultá-lo e incomodá-lo. Mas uma coisa que é imperdoável e que certamente o fará reagir é rir dele. Isso causa uma raiva irracional”. A reação do inimigo, pelo seu excesso de raiva, tende a fazê-lo se atrapalhar mais e mais.

Alinsky também diz que suas regras sobre táticas não devem ser seguidas como um manual passo-a-passo, e,  ao invés disso, como uma série de linhas mestras que devem ser contextualizadas, e relembradas, e sempre combinadas quando a situação for útil. A criatividade é essencial. Após a avaliação do cenário e do que é possível fazer, muitas coisas podem ser pensadas em relação às táticas: “Utilize o poder da lei, obrigando o establishment a seguir suas próprias regras (regra 4). Saia da experiência do inimigo (regra 3), e sempre fique dentro da experiência de sua comunidade (regra 2). Dê ênfase nas táticas que sua comunidade aprecia (regra 6). A ameaça geralmente é mais apavorante do que a tática em si (regra 9). Uma vez que todas estas regras e princípios pululem em sua imaginação, elas começam a se transformar em uma síntese”.

Ele conta, por exemplo, que sugeriu que 100 assentos fossem comprados para o público negro em uma apresentação da orquestra sinfônica de Rochester. O evento seria selecionado em uma data na qual a música fosse suave. Os 100 negros que receberiam os convites participariam antes de um jantar, 3 horas antes do concerto, onde comeriam nada além de feijão cozido, em grande quantidade. Com isso, iriam para o concerto, com conseqüências óbvias.

Esse cenário hipotético (pois ficou apenas na sugestão à comunidade) pode ilustrar algumas táticas. O momento em que vários começassem a peidar fugiria completamente da experiência do status quo, que normalmente esperaria manifestações de rua e confrontos com a polícia. Em seguida, iria ridicularizar a lei vigente, pois não há lei (e provavelmente nunca haverá), banindo funções fisiológicas. As pessoas iriam relembrar do ocorrido com a apresentação da orquestra, e reagir com risada. Isso lançaria o ridículo sobre a Orquestra Sinfônica de Rochester, e o establishment. E não haveria nada que as autoridades pudessem fazer contra quaisquer ataques futuros do tipo, pois ninguém poderia proibir ninguém de comer feijão cozido antes do concerto. Como a tática estaria dentro da experiência da comunidade local, satisfaz a regra que dita que a tática deve ser uma que a sua comunidade aprecie. Segundo Alinsky, nos guetos, uma das fantasias alimentadas era defecar em cima “dos opressores”, e portanto, peidar poderia ser uma simbolização deste ato. O fedor que causariam no local da orquestra seria significativo.

Em outro exemplo, Alinsky ilustra a tática 9 (“A ameaça geralmente é mais aterrorizante que a coisa em si”), também envolvendo funções fisiológicas. Segundo ele, acordos feitos entre o gueto de Woodlawn com os responsáveis pela campanha de Johnson-Goldwater, não foram cumpridos pela administração da cidade. Como a organização não tinha como pressionar na arena política, decidiram “atacar” o aeroporto de O’Hare. Como a tendência é que todos usem o banheiro do aeroporto, e raramente o das aeronaves, a idéia era “travar” os banheiros para que ninguém mais pudesse usá-los. A execução desta tática, para Alinsky, seria “uma fonte de grande mortificação e embaraço para a administração da cidade”. A ameaça da tática foi “vazada” (propositalmente), e, em 48 horas, a organização de Woodlawn estava em reunião com as autoridades, que agora afirmavam “que iriam cumprir o combinado e jamais puderam entender onde estava a cabeça de alguém que resolveu descumprir uma promessa formal da prefeitura de Chicago”. A partir daí, nunca mais ocorreu uma menção aberta à ameaça representada pela tática em direção ao aeroporto de O’Hare.

Só que Alinsky alerta: “Deve-se tomar cuidado com excesso de blefes neste jogo; pois se você é pego blefando, esqueça o uso de ameaças no futuro. A partir desse ponto, você está neutralizado”.

Em outra ameaça para “travar” um shopping center que não contratava negros, uma tática foi “vazada”: o plano era levar 3.000 negros para o shopping center, inundar o local de gente, não comprar nada o dia inteiro e, ao fim do dia, fazer uma série de encomendas para serem entregues em suas casas. Só que todas essas compras seriam rejeitadas na entrega, causando ainda mais prejuízos ao shopping. Depois da tática “vazada”, 186 novos postos de trabalho foram abertos, e vários deles destinados a negros.

Segundo Alinsky, “este é o tipo de tática que pode ser usada pela classe média também. Comprar de forma organizada, encomendar e posteriormente rejeitar na entrega, adicionaria custos eventuais para o revendedor, que viveria sempre com a ameaça de repetição contínua”[2].

Competição

Alisky defende que os donos do poder devem ser afetados pela pressão, pois eles continuamente disputam poder entre eles. “Este é o ventre vulnerável do status quo”. “Uma vez que alguém entenda esta batalha interna por poder dentro do status quo, alguém pode aprender a desenhar táticas efetivas para explorá-las. É triste ver a estupidez de organizadores inexperientes que fazem erros grosseiros ao não conseguirem ter sequer uma apreciação elementar deste padrão”.

Ele conta um erro tático, quando foi proposto um boicote geral durante a época do Natal. Mas nenhuma família deixaria de comemorar o Natal. Para Alinsky, o ideal seria um boicote a um shopping específico, o que faria com que os outros se aproveitassem da fragilidade momentânea do shopping alvo. Isso seria se aproveitar da competitividade que existe entre as grandes empresas no desenho das táticas.

Sua própria armadilha

Na guerra política, a tática básica é o que ele define como jiu-jitsu de massa. E como o status quo posa, segundo ele, como defensor da “responsabilidade, moralidade, lei e justiça”, eles podem quase sempre sucumbir pelo seu próprio livro de regras (tática 4). Isto por que, nenhuma organização, incluindo a religião organizada, pode seguir à risca seu próprio código de leis e regras. Segundo 2 Corintios 3:6: “O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica.” É por isso que Alinsky diz que você pode “matar [em termos políticos] o seu inimigo com essa tática”.

Um outro aspecto importante das táticas é que elas provoquem a reação de seu inimigo (segundo a regra 1, “Poder não é apenas o que você tem, mas o que o inimigo pensa que você tem”). Mas, se uma tática é exercida e o seu inimigo a ignora[3], aqueles que estão ao seu lado percebem que fracassaram. No caso do boicote que falhou, ninguém sequer prestou atenção à ameaça, e esse fracasso foi o suficiente para baixar a moral da organização.

Tempo na cadeia

Eu particularmente duvido que os conservadores de direita se interessem em apreender algo relacionado a estratégia de “ir para a cadeia”, mas, em todo caso, “cada um, cada um”.

Segundo Alinsky, ir para a cadeia, para um revolucionário, até que não é uma má idéia. Claro que não pode ser por muito tempo, portanto “o revolucionário deve se assegurar que suas violações a lei sejam brandas o suficiente para que ele vá para a cadeia por períodos de 1 dia a dois meses, no máximo”. Mais do que isso seria um risco para a sua atuação, pois sua organização poderia esquecê-lo.

Para um revolucionário ir para a cadeia tem três funções vitais: (1) é percebido como um ato por parte do status quo que por si só coloca o revolucionário em conflito com o status quo; (2) fortalece de forma imensurável a posição do líder revolucionário com seu povo, pois o líder preso é rodeado de uma aura de martírio, (3) aumenta a identificação do líder com seu povo, já que a reação instantânea da comunidade é sentir que seu líder se preocupa tanto com eles, é tão comprometido com a causa, que é capaz de sofrer na prisão por causa deles. “Repetidamente em situações onde o relacionamento entre o povo da comunidade e seu líder estava abalado, o remédio foi o aprisionamento do líder pelo status quo. Imediatamente as fileiras se aproximaram dele e os líderes obtiveram novamente o apoio da massa”.

De forma até engraçada, Alinsky racionaliza a questão e diz que o tempo na prisão “é um elemento essencial no desenvolvimento de um revolucionário”. Isso por que lá ele poderá refletir sobre suas idéias, rever seus pontos fracos, e filosofar. Ele lembra que os profetas do Novo e Velho Testamento encontravam oportunidade para suas síntese pela remoção voluntária de si próprios para o deserto. “Foi durante o período em que estive na prisão que a base para a minha primeira publicação e o primeiro arranjo ordenado filosoficamente de minhas idéias ocorreu”, afirma Alinsky.

Táticas e timing

Um ponto essencial em relação às táticas é o timing, o qual funciona para as táticas assim como para tudo na vida: “é a diferença entre o sucesso e o fracasso”. “Uma vez que uma batalha começa e uma tática é empregada, é importante que o conflito não seja levado por um tempo excessivo”. Ele repete mais de uma vez, sobre a tática 7: “Uma tática que se arrasta por muito tempo se torna um obstáculo.

Uma das razões para isso é: “O simples fato de que os seres humanos podem sustentar o interesse em um assunto particular apenas por um período limitado de tempo. A concentração, o fervor emocional, mesmo a energia física, uma experiência particular excitante, desafiadora e convidativa, pode durar apenas um tempo limitado – isto é verdadeiro para toda gama do comportamento humano, do sexo ao conflito. Após um período de tempo, a ação se torna monótona, repetitiva, emocionalmente estéril, e pior do que tudo, aborrecida. A partir do momento em que um tático entra em um conflito, seu inimigo é o tempo”.  Quando boicotes forem considerados, este é um ponto a se ter em mente.

Uma outra forma de evitar que uma tática se transforme em um obstáculo, por levar tempo excessivo, envolve “lançar novas questões durante o curso da ação, pois quando o entusiasmo e a emoção por uma questão começar a diminuir, uma nova questão surge no cenário trazendo um reavivamento das ações.” Esta é a regra 8 (“Mantenha a pressão, com diferentes táticas e ações, e utilize todos os eventos do período para o seu propósito”). Diz Alinsky: “Com a introdução constante de novas questões, a ação pode seguir para sempre”.

Deve-se tomar cuidado com a regra 11 (“Se você produzir um efeito excessivamente negativo e profundo no oponente isso poderá se voltar contra você”). Alinsky conta que uma vez os ataques foram levados a tal ponto, que uma corporação chegou a mandar falsos assaltantes invadirem sua casa para tentar incriminá-lo, mas estavam tão desorganizados que cometeram vários erros, que permitiram que a própria corporação ficasse sob ameaça de processo judicial. Ou seja, até um revés, que poderia ser devastador, por causa do risco mencionado na regra 11, permitiu que ele pudesse seguir a regra 10 (“A maior premissa para táticas é o desenvolvimento de operações que irão manter uma pressão constante na oposição”). Isto é, um fato novo que permitiu a manutenção da pressão constante sobre o oponente.

Táticas novas e velhas

Uma mensagem final sobre táticas é que “desde que uma tática específica seja utilizada, ela deixa de estar fora da experiência do inimigo”. Futuramente, o inimigo desenvolverá contra-medidas que limitem o efeito da tática antiga.

Por isso, Alinsky defende que suas 13 regras para táticas, não sejam vistas como táticas em si, mas regras gerais para o desenvolvimento de táticas específicas, de acordo com princípios básicos sugeridos por ele.

O organizador vai se defrontar com ações inesperadas em seu dia-a-dia, e o seu trabalho é desenvolver ao mesmo tempo uma racionalização para sua ação como também elaborar táticas. “Ter uma racionalização dá significado e sentido à ação”.


[1] Em uma luta para tornar as escolas não-segregadas.

[2] Novamente, é bom deixar bem claro que a maioria das táticas específicas citadas por Alinsky, hoje em dia, seriam não só consideradas “manjadas”, como inviáveis. Por exemplo, em uma época em que os negros alcançaram uma posição na sociedade muito melhor do que tinham nos anos 60, é claro que eles não querem estar associados a “grupos que peidam” em uma orquestra. Talvez alguns, sejam brancos ou negros, gostariam de fazer, mas dificilmente reuniriam muitas pessoas para tal situação humilhante. Por outro lado, “beijaços” feitos em praça pública, ou coisas como a Marcha das Vadias, se tornaram um padrão. Por isso, abstraia para notar que novas táticas específicas, seguindo o mesmo padrão as 13 regras para táticas de Alinsky, tem sido feitas hoje em dia. Ou seja, se os exemplos específicos podem não servir hoje, as regras para táticas continuam valendo.

[3] Cuidado aqui. Isso não significa que as táticas devam ser ignoradas, mas sim que existem algumas táticas específicas, como a de um boicote geral (que as empresas sabem que não vai vingar), que podem ser ignoradas. Não cometam o erro de ignorar a maioria das táticas feitas atualmente pela esquerda, apenas algumas especialmente selecionadas.

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