Um raio X das regras para radicais de Saul Alinsky – Pt. 8 – A gênese do Representante Tático

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Uma das lições mais essenciais que Alinsky transmite é a de que “táticas não são o produto de uma razão fria, e não seguem uma tabela organizacional ou plano de ataque”. Para ele, “reações acidentais e imprevisíveis em relação às suas próprias ações, necessidades e improvisações ditam a direção e a natureza das táticas”. Em outras palavras, o raciocínio lógico é essencial para alguém conseguir se situar onde está, diante dos eventos do mundo, mas, embora os princípios sejam importantes, conforme falados no capítulo anterior (Pt. 7 – Táticas), a essência de cada tática específica deve ser modificada de acordo com o contexto e o cenário. Por isso, agilidade de raciocínio e capacidade de se adaptar ao caos são requisitos importantes para um organizador. Pensando assim, “é possível ter uma análise que o proteja de ser um prisioneiro cego de uma tática e dos acidentes que a acompanham”.

O organizador deve “ser dirigido pela ação”. Todas as oportunidades que surgem no curso de eventos devem ser aproveitadas. Ele cita Abraham Lincoln quando este disse ao seu secretário, no mês em que a guerra se iniciou: “Minha proposta política é viver sem proposta política”. Três anos depois, em uma carta a um amigo de Kentucky, ele confessou ter sido “controlado pelos eventos”.

Segundo Alinsky, comunicar a noção de que um organizador deve ter uma linha mestra de regras, para selecionar suas táticas, e selecionar suas táticas de forma ágil de acordo com os eventos do mundo externo, é uma das maiores dificuldades no momento do treinamento. Isso por que as pessoas são treinadas, pelo sistema educacional padrão, para “enfatizar ordem, lógica, pensamento racional, direção e propósito”. Isso seria uma “disciplina mental”, resultando sempre em uma ação “estruturada, estática, fechada e rígida”. No jogo de futebol, os jogadores devem reagir às investidas do time adversário, e serem ágeis, muitas vezes intuitivos, nessas reações, mesmo que eles possam nortear as bases de suas ações de forma lógica e coerente. Por exemplo, é preciso marcar a saída de bola do adversário, assim como deixar alguns zagueiros em seu próprio campo quando atacamos em pressão, e daí por diante. Essas são apenas regras básicas, mas, na hora do jogo, a intuição se mistura a esses princípios, que devem estar internalizados na mente do jogador. Mesmo assim, Alinsky diz que mesmo que várias coisas surjam intuitivamente no dia-a-dia, os outros achavam que todas as suas ações eram fruto “de uma lógica sistematizada, com todos os eventos planejados”[1].

Ele apresenta um exemplo do caso da criação da estratégia do Representante Tático. Para ele, essa seria uma das principais táticas do cenário político futuro. Creio que ele se iludiu um pouco com essa esperança, mas os insights que ele traz a respeito dessa época, e de como os eventos se sucederam, são extremamente úteis.

A idéia do Representante Tático era a seguinte: pessoas aderentes à causa comprariam ações de empresas, e com isso, poderiam participar das reuniões anuais de acionistas. Claro que não obteriam o poder de voto, mas teriam o poder de aparecer em uma reunião, lançar uma campanha (por exemplo, por mais chances de contratação para um grupo X), e adquirir participação na mídia por causa disso. Em suma, um mecanismo de pressão, principalmente por vir de alguém, teoricamente, “de dentro”, mesmo que seja um acionista menor. Um acionista não pode ter sua opinião barrada.

Segundo Alinsky, essa estratégia “não foi o resultado da razão e da lógica – foi parte acidental, parte uma necessidade, parte resposta a uma reação, e parte imaginação, sendo que cada parte afetou as demais”. Claro que “’imaginação’ é também uma sensibilidade tática”, isto é, “quando o ‘acidente ocorre, o organizador com boa imaginação tática reconhece-o e se agarra à oportunidade antes que ela escape”. Mesmo assim, a mídia criou uma mitologia de que a estratégia do Representante Tático foi uma ação com elementos de “razão, propósito e organização”, mas a realidade foi bastante diferente. “A mitologia da ‘história’ é normalmente tão agradável ao ego do sujeito que ele a aceita com um silêncio ‘modesto’, como uma afirmação da validade da mitologia. Após um tempo, ele passar a acreditar nisso.”

No caso da criação do Conselho Back of the Yards, de Chicago, muitos dizem que a escolha da data de sua fundação, 14 de Julho de 1939, foi feita justamente para coincidir com o Dia da Bastilha. Em termos históricos, isso foi tratado como uma “homenagem”, mas na verdade a escolha foi acidental, pois era um dia que não havia nenhuma reunião sindical, muitos padres estavam disponíveis, além da agenda do bispo Sheil estar livre. “Nunca existiu qualquer idealização de Dia da Bastilha em nossas cabeças”. Mas foi assim que se criou uma mitologia.

Veja o relato de Alinsky:

Naquele dia em uma conferência de imprensa, antes que a convenção se iniciasse, um repórter me perguntou: “Você não acha que é revolucionário demais selecionar deliberadamente o Dia da Bastilha para sua primeira convenção?” Eu tentei conter minha surpresa, mas pensei: “Que maravilha! Que coincidência inesperada!” Eu respondi: “Nem tanto. O Dia da Bastilha tem tudo a ver com o que fazemos, e por isso escolhemos a data”. Eu rapidamente informei todos os palestrantes a respeito do “Dia da Bastilha” e isso se tornou o fio condutor de praticamente todos discursos. E então a história registra essa decisão como uma tática “calculada, planejada”.

Geralmente, Alinsky era questionado a respeito de todos os seus movimentos, sendo que vários eram feitos intuitivamente. Mas as pessoas esperavam por “razões”, e daí era só inventar alguma coisa que “ficasse bem na foto”. Diz ele: “Eu me lembro de que as ‘razões’ eram tão convincentes, até para eu mesmo, que eu pensava ‘Por que, é claro, eu fiz tudo isso por estas razões – Eu deveria saber que era pois eu fiz tudo isso”.

Voltando à estratégia do Representante Tático, tudo começou por causa de um conflito entre a Eastman Kodak e um movimento negro chamado FIGHT. Um executivo da empresa havia feito um acordo com a FIGHT, mas a direção atual ignorou o acordo. Como não havia a possibilidade de um boicote[2], a idéia de ter representantes com ações e possibilidade de causar um embaraço à organização veio à mente. Com o tempo, várias corporações tiveram seus Representantes Táticos, o que começou a constituir um efetivo mecanismo de pressão a partir de fora. Para Alinsky, os Representantes Táticos eram uma forma de participação a ser explorada especialmente pela classe média. E, como se vê, tudo surgiu por uma mistura de acidente e necessidade.

O que importa não é a estratégia do Representante Tático em si, que gerou algum burburinho nos anos 60, mas hoje já foi substituída por outras estratégias (que, como de costume, a esquerda domina muito bem)[3]. O que Alinsky quis apresentar neste capítulo é anoção de um organizador tem que se orientar por linhas gerais, regras básicas, mas jamais seguir manuais passo-a-passo. Assim como ele salientou no capítulo 4, sobre a educação de um organizador, um organizador não deve ter como prioridade controlar os eventos (mesmo que possa fazer isso vez por outra), mas principalmente reagir bem aos diversos eventos que surgem em um mundo caótico.


[1] Atenção: as táticas devem ser planejadas, mas novas táticas devem surgir de acordo com novos eventos. Isso é o que Alinsky diz, por isso a importância de não esquecer das regras básicas para elaboração de táticas específicas. O que Alinsky propõe não é o “samba do crioulo doido” mental, com ações desordenadas, mas sim ações ordenadas por princípios gerais, e que o jogador do jogo político em questão saiba adaptar suas táticas para o momento. Em síntese, reagir aos eventos externos com mais talento, ao invés de ficar apenas seguindo “manuais passo-a-passo”.

[2] Pois a empresa monopolizava o mercado, e ninguém deixaria de tirar fotos, pois os bebês continuariam a nascer, casamentos continuariam a ocorrer, etc.

[3] Existem algumas adaptações que a esquerda tem feito, e eu me precipiter a achar que a estratégia do Representante Tático não foi à frente. Na verdade, ela se materializou em coisas bizarras como as novas legislações para participação de agentes externos nas corporações. Ver aqui.

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  1. Hitler verbalizando sobre o aumento de impostos de José Sócrates (vídeo meio antigo, de 2010, e eu não saiba como passar pra você, por isso estou postando o link aqui):

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