A revista Veja e a homofobia

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Fonte: Ad Hominem

A revista Veja publicou recentemente um controverso artigo sobre casamento homossexual ou algo que o valha. Entre outras coisas, o autor do texto explicava que não podia haver casamento gay, assim como não podia haver casamento com uma cabra, e outras coisas do gênero – não li o artigo inteiro, apenas um trecho que, segundo a gíria, “viralizou” no Facebook. O texto provocou grande repercussão, com direito a comentário de Jean Wyllys (meus dedos doem só de escrever o sobrenome breguíssimo). E todas as reações tinham em comum a indignação contra a “homofobia”.

A palavra homofobia – que, como já pontuou Ronald Robson, é etimologicamente mal-formada – é mais um desses comandos pós-hipnóticos que, mal pronunciados, já provocam reações violentas em todos os presentes. Homofobia é a causa de homossexuais serem espancados na Av. Paulista (não é meu objetivo aqui questionar os números absurdos apresentados pelos movimentos políticos interessados, pois isso se encontra com facilidade no Google). Homofobia é motivo de assassinatos e incêndios. É um câncer em nossa democracia. Para o bem de todos e felicidade geral da nação, precisa ser extirpada.

O problema é esse. Homofobia é um termo de carga pesadíssima, que tem sido equiparado a racismo e nazismo. Acusar uma pessoa de homofobia significa, implicitamente, ligá-la a assassinos e bad boys; significa identificá-la com a própria injustiça, em suas piores formas. E significa, explicitamente, acusá-la de uma infração legal – a tal discriminação. Deveria ser evidente que não é aceitável acusar alguém de um crime sem ter provas. Pior ainda: sem pensar que ele efetivamente cometeu o crime. Pois ninguém que chamou o articulista de “homofóbico” pensa realmente que ele agrediu ou matou homossexuais. Ninguém pensa realmente que ele seja um criminoso. Estão usando o nome só pelo efeito negativo, ampliando estrategicamente seu alcance para melhor demonstrar indignação.

A coisa parece-me tão óbvia que nunca me ocorrera escrever sobre o assunto. Pensava eu que qualquer um que aceitasse essa situação estava, evidentemente, com a inteligência destruída, e não haveria utilidade alguma em argumentar com alguém nesse estado. Um caso particular me fez reconsiderar a atitude.

É aceitável insultar um adversário político, em certas circunstâncias. É aceitável chamá-lo de burro ou desonesto, com a devida disposição a indicar por que pensa assim. É inaceitável acusá-lo, sem provas, de racismo ou discriminação, principalmente se isso envolve o uso de violência física. O adversário pode muito bem exigir reparação por calúnia, pois foi acusado de um crime. Ora, se isso se aplica a rivais políticos, com muito mais razão deve ser considerado no mundo do debate intelectual.

Imaginemos uma discussão sobre o infanticídio. Alguns alegam que crianças não são seres humanos até completarem um mês (essa é a opinião de Peter Singer, professor de Bioética em Princeton). Portanto, matá-las não é mais criminoso que matar uma formiga. Um dos debatedores se levanta e afirma que aquilo é um absurdo, que crianças sempre foram seres humanos e não deixaram de sê-lo. Peter Singer ergue-se irado, arrancando os próprios cabelos de indignação, aponta o dedo para o debatedor e grita: “racista!”. Os seguidores de Singer espumam de raiva, exigem a retirada imediata do debatedor. Os companheiros deste último não sabem onde enfiar o rosto, envergonhados dessa postura racista.

Parece absurdo, porque em nosso mundo as coisas estão um pouco diferentes. Mas nesse mundo imaginário, há anos que os jornais repetem que as mulheres negras são campeãs de infanticídio, e acabam indo para a cadeia com muito mais frequência que as brancas. Logo, quem rejeitasse a tese de Peter Singer deveria ser considerado um racista, um cúmplice do encarceramento preconceituoso de negras.

Por que isso parece tão terrível, tão absurdo? Porque a acusação criminal não afeta só o debatedor, mas sua tese também. Ninguém precisa discutir com ele. Quem já provou que não há uma raça superior à outra? Ninguém, porque não é preciso. Certas coisas são tão vergonhosas que não se discutem: extirpam-se em silêncio, pelo bem público. A homofobia é uma delas. No momento que a homofobia deixa de aplicar-se a atos violentos e começa a estender-se para opiniões, há necessariamente uma transformação de certas ideias em tabus, e a cena surreal que imaginamos torna-se possível. Portanto, usar o termo “homofobia” para qualificar uma tese é um ato de violência contra a razão humana, e um passo gravíssimo no caminho para a barbárie.

MEUS COMENTÁRIOS

O truque esquerdista de ampliar o conceito de homofobia é tão somente aquilo que os analistas de discurso chamam de outro-apresentação negativa, e que eu qualifico como rotulagem, que é uma técnica que pode ser utilizada para desinformação.

Na esquerda, não há nada de “inteligência destruída”, mas sim um excesso de esperteza junto com um raciocínio 100% maquiavélico. Se a rotulagem funciona e serve aos interesses políticos, que mal tem? Esse é a análise que eles fazem da situação.

Quem está pisando vergonhosamente na bola, nesta questão, são os conservadores de direita, que adquirem automaticamente um direito moral de processarem judicialmente qualquer um que usar o termo homofóbico de forma indevida, e não usam esse direito. Os processos judiciais a serem lançados são por denunciação caluniosa.

Mas, enquanto os conservadores de direita não começarem a reagir, estão automaticamente sub-comunicando a seguinte mensagem aos esquerdistas: “Podem fazer a rotulagem falsa o quanto quiserem, pois não haverá revide. Sua rotulagem seja louvada!”.

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2 COMMENTS

  1. Ótimo texto; realmente me impressiona como os rótulos “homofóbico” e “preconceituoso” são tão deliberadamente usados para quem mostra o mínimo de oposição a postura homossexual. Para os ativistas, nem opinião podemos ter mais.

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