A cadeia de obediência

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A maioria das imagens do vídeo acima é do filme “Equilibrium”, dirigido em 2004 por Kurt Wimmer (que também nos trouxe lixeiras trash como “Ultraviolet”), que serve como um alerta a respeito de todas as formas de totalitarismo. No entanto, o vídeo vai além e fala sobre a cadeia de obediência, como se fosse algo simples de escapar para o cidadão comum. Não é. É praticamente impossível para alguém da patuléia escapar dessa cadeia de obediência.

Na verdade, os (poucos) dissidentes de grupos totalitários são aqueles que tem a árdua missão de comunicar a mensagem corruptora do status quo totalitário à população comum, em linguagem clara e cortante feito navalha. Isto tudo ciente dos riscos de que você só será ouvido em determinados momentos e sob determinadas condições. Em alguns casos é uma questão de aproveitamento de oportunidades.

A obediência da maior parte da população é uma reação natural de seres humanos pensando em sua sobrevivência. É uma ilusão acharmos que o ser humano médio está se preocupando com totalitarismos. Na verdade, muitos pensam apenas no dia de hoje e do amanhã.

Para estes, é um risco ver milhares de pessoas de outra doutrina sendo lançadas aos campos de concentração ou às fogueiras? Na maior parte do tempo, o cidadão comum não dará a mínima. Números de mortos se tornam estatísticas, principalmente se não há nenhuma relação emocional direta com aqueles abatidos. No máximo, podem se incomodar se existirem vídeos com as cenas de morte espalhados pela Internet.

A esperança fatalista (ao invés de oportunista) na boa vontade humana é sempre uma ilusão. A tarefa da comunicação em direção a estas pessoas, para impedir que os totalitários tomem ou mantenham o poder, deve depender dos adversários desses totalitários, pois o cidadão comum vai fazer a escolha mais conveniente, não a mais “racional”, e posteriormente irá criar racionalizações para qualquer coisa que ele queira.

Em resumo, o vídeo fala de algo que serve como um alerta, mas não para a mudança da estrutura mental daqueles que seguem a cadeia de obediência. Esta é uma contingência que não pode ser mudada. O alerta deve ser em relação aos adversários do poder absoluto, que devem aprender a arte de se comunicar com seres humanos que não podem fugir da cadeia de obediência.

Isto é o ser humano como ele é. Os usuários de ideologias totalitárias se aproveitaram desta característica humana, que sempre esteve aí. É com este ser humano que devemos nos comunicar, com linguagem fácil, acessível, e apelando ao auto-interesse dele.

Enfim, se há a cadeia do poder, e a cadeia de obediência, é preciso criar a cadeia de comunicação. Ou seja, um grupo de pessoas capazes de se comunicar com o ser humano como ele é, e, em muitos casos, seduzido pela ideologia do oponente. Este é o desafio. Somente isso é capaz de atrapalhar projetos totalitários.

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5 COMMENTS

  1. Esta é para dar algumas risadas: a Alemanha pensa em proibir a zoofilia, que havia sido legalizada no sugestivo ano de 69. O que ocorreu? Uma briga entre os defensores da zoofilia e os protetores dos animais. Quem por lá der uma “barrancada” numa mula poderá tomar uma multa de € 25 mil.
    Já há uma grita dos zoófilos, que dizem não estar forçando os bichos a terem relações sexuais. Dizem eles que haveria o consentimento dos animais em tal prática. Talvez estejam confundindo aqueles atos onanistas que cães praticam em pernas alheias (mas que poderiam praticar com outras coisas) com um real consentimento de que ele possa penetrar ou ser penetrado por alguém. Não me parece normal que um cão tratado como um cão vá preferir ter relações sexuais com algo tão distante de sua espécie quanto um ser humano é (observe-se que aqui até dei uma margem para que ele pegue umas lobas e fêmeas de chacal, coiote e dingo, ainda mais pensando que tudo aquilo que é Canis é dos raros casos de hibridação que gera descendentes férteis).

    Porém, como poderá notar, aqueles uns que dizem que animais seriam iguais aos seres humanos e estaríamos praticando um misterioso “especismo” para com eles já estão indo contra os zoófilos. De certa forma, podemos considerar que os zoochatos estariam de certa forma até dando margem para serem usados como inocentes úteis por quem é contra a religião política. Que eles usam animais como inocentes úteis, sabemos muito bem, mas também aqui fica patente que é a briga de um grupo de religiosos políticos contra outro grupo de religiosos políticos, tudo isso dentro de um mesmo espectro da tal crença no homem.
    Por isso que penso se não há mesmo como se usar os religiosos políticos que não sejam libertários ou anarcocapitalistas como inocentes úteis para o combate à religião política. Se aqui estamos vendo zoófilo brigando com zoochato, com possivelmente zoófilos dizendo que estão sendo oprimidos pela “humanonormatividade” e zoochatos provavelmente dizendo que zoófilos estariam com sua violência sexual a animais apenas e tão somente externando uma intimidação especista e que possivelmente seriam braço operativo daqueles que não veem seres humanos e animais como iguais, possivelmente há margem muito melhor para que se use a natural tendência de briga entre as facções de um mesmo espectro para que elas acabem fazendo aquilo que não queriam fazer e que acaba combatendo a religião política que pregam (vide o ocorrido na história do suposto estupro no BBB, que foi arquivada).

    Não vejo aqui histeria artificial, até porque parece bem absurdo que alguém use animais para saciar o próprio prazer e, neste ponto, poderíamos dar alguma razão aos zoochatos, ainda que estes estejam usando animais como inocentes úteis e sendo inocentes úteis dos líderes religiosos políticos a quem interessa que também quem não raciocina seja visto como oprimido e massa de manobra. Porém, consigo enxergar uma margem interessante para que esses dois grupos acabem dando tiros nos próprios pés e tais tiros acabem sendo úteis ao combate à religião política sem que quem a combate precise mover muita palha por isso. Também não deixa de ser interessante ver que isso ocorre na mesma Alemanha que há pouco reconheceu oficialmente que cristãos estão sendo perseguidos no mundo inteiro.
    Agora seria preciso ver como dar uma sistematizada em como fazer com que religiosos políticos que não sejam libertários e anarcocapitalistas tornem-se inocentes úteis contra a causa maior que defendem (e disfarçam de defesas a supostos oprimidos). Talvez a Alemanha tenha dado alguma sinalização importante nisso.

  2. [OFF]
    Luciano, já viste sobre essa cidade da Espanha?
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Marinaleda
    Ela em relação à crise: http://marivalton.blogspot.com.br/2012/11/cidade-comunista-da-espanha-e-imune.html

    A cidade está ficando famosa por ser “ideal”. Taxa de desemprego quase nula. Emprego da negada? Agricultura. Além de que, não tem como uma cidade isolada e comunista ser afetada por uma crise capitalista – ela produz seu próprio sustento. Além de que a cidade possui uma amostra muito pequena para a escala que fazem propaganda – 2000 pessoas. A China é uma amostra bem mais confiável, ~ahem. Além de que a renda por família deve ser mínima. Além de que quando o governo resolver não ouvir mais o povo eles não terão poder nenhum para se livrar do governo exceto a rebelião. Não precisam nem de polícia, pq não tem ladrão (roubar o q, de quem?).
    Ou seja, por mais propaganda que se faça da cidadezinha, eu não consigo acreditar que é essas maravilhas. Que tão escondendo o jogo como sempre… o q tu achas disso?

  3. Na verdade, os eventos totalitários são tão recorrentes e parecem ocorrer com uma naturalidade tão impressionante, que seria de cogitarmos a existência de tipos psicológicos entre a população já pré-condicionados para garantirem o funcionamento de tais eventos.
    Existem os sádicos dos aparatos policiais, os subalternos competentes que estão diretamente inseridos na cadeia de comando, o líder central ao redor de quem tudo orbita, os ideólogos que dão forma e sustentação a uma pretensa legitimidade, etc.
    Mas há também os tipos populares que não fazem parte diretamente do evento. São os comodistas, os delatores, os partidários propagadores entre outros. Há um tipo particularmente pernicioso que tenho identificado que é o servo inato. Aquela nulidade humana cuja índole natural é ser limitado por um governo autoritário que lhe resuma a vida ao um tamanho menor que o de sua mediocridade. E que briga por seu sagrado direito a uma gaiola estatal.
    Mas não é possível aceitar que devemos nos conformarmos com isso. Seria muito pessimismo para com nossos semelhantes.
    Eu ainda creio que podemos aos poucos desenvolvermos um sistema educacional voltado para a capacitação de livres. Que ensine a responsabilidade com o direito à exigência. A subordinação à autoridade legítima com o destemor de denunciar seus abusos. Enfim, a autodisciplina que toda liberdade requer, e a paixão pela liberdade na mesma medida. E isso não se consegue aos berros.
    Hoje, temos um sistema educacional voltado para a criação de servos, uma cultura de servidão fruto de mais de século de ditaduras, e um governo totalitarista avidamente disposto a experimentos de educação totalitária em massa, que prepare um enorme rebanho de vaquinhas mansinhas que sempre se contentem com seu pasto. Ou mais exatamente que transforme o país numa senzala continental.
    Há pelo menos três formas de atuação governamental nesse sentido de “didática totalitária”:
    • Impunidade ostensiva de criminosos. Transformados em nossos carcereiros, livres pelas ruas enquanto vivemos reclusos atrás de grades, muros e sistemas de vigilância.
    • Leis de criminalização em massa, como a Lei Seca de Transito, a Maria da Penha e o Estatuto do Desarmamento, entre outras.
    • Manipulação cotidiana por todos os meios, exigindo de cada um responsabilidades que não nos cabem, não foram exigidas de nossos avós e que nos mantém num ansioso estado mental de constante dívida para com a sociedade: Responsabilidade Social, Pegada de Carbono, Economia de Água, etc..
    Uma iniciativa interessante tem sido os institutos europeus de documentação e estudo dos totalitarismos.
    É uma utopia, talvez, mas sonho um Instituto de Prevenção do Totalitarismo aqui no Brasil, que alem de se ocupar em analisar em profundidade e abrangência o fenômeno totalitário, também ofereça cursos de graduação em áreas tão importantes como estatística, psicologia, ciências sociais, artes cênicas, pedagogia e outras que lidam diretamente com o estabelecimento dos eventos totalitários, no sentido de formar profissionais éticos e atentos ao seu combate.

    • Já que nós estamos falando de filmes, totalitarismo, dinâmica de grupo e manipulação da opinião pública, tenho um filme aqui que é imperdível: A Onda, de 1981.
      http://www.youtube.com/watch?v=36Rsp2aQnK4
      O curioso é que dois professores de História comunistas pra caramba passaram esse filme pra mim. E a juventude maoísta foi a mesma coisa do filme. Essa obra pode ser facilmente usado contra qualquer esquerdista.
      O filme inteiro está no link, e é baseado em um história real. Acho que merece até um post dedicado a ele.

      • Obrigado pela dica, Leo. Apesar de que naquela época o cinema politiqueiro (ainda) estava “em alta” no Brasil, somente agora =^.^= é que fiquei sabendo dessa obra, “talvez porque” em 1981, eu estava ocupado demais, tentando me adaptar à correria da Escola Politécnica =^.^=

        Só pra completar, aqui vai a página sobre o filme no imdb dot com:

        http://www.imdb.com/title/tt0083316/

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