O Bule Voador entricheirou-se no “estado laico”. Qual será a resposta dos teístas? Agora, vou assistir de camarote!

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Segundo o texto Resposta ao ataque de Rachel Sheherazade ao estado laico, o Bule Voador resolveu, espertamente, se “entricheirar” no termo “estado laico”. Conforme previsto pelo meu jogo de rótulos, o termo estado laico é sempre positivo, pois é uma demonstração de tolerância com todas as religiões. Quem usar esse rótulo, já toma a dianteira, obviamente.

O Bule também lançou uma petição, para dar sustentação à ações de recurso neo-ateísta à decisão da justiça. Prestem atenção à carta anexada na petição deles:

Para:
Conselho Monetário Nacional

Assinei esta petição endereçada ao Conselho Monetário Nacional.

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Remova ou substitua a frase antilaica das cédulas de real

Em resposta ao procurador substituto do MPF em São Paulo Pedro Antonio de Oliveira, que em respeito ao artigo 19 da Constituição pediu a remoção da frase “Deus seja louvado” das cédulas de real, o Banco Central disse que “A República Federativa do Brasil não é anti-religiosa ou anti-clerical, sendo-lhe vedada apenas a associação a uma específica doutrina religiosa ou a um certo e determinado credo.” A resposta do BC se auto-refuta: acreditar em “Deus” não é algo que consta na crença de todos os brasileiros, é uma doutrina religiosa específica de um determinado credo. Os cidadãos brasileiros têm o direito de serem ateus ou acreditarem em vários deuses, ou, se acreditam num só deus, têm o direito de dar outro nome a ele além do que é dado no cristianismo. Portanto, exigimos que o Conselho Monetário Nacional respeite a Constituição imediatamente e pare de imprimir esta frase nas cédulas.
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Sinceramente,

Atenciosamente,
[Seu nome]

Claramente, pode-se notar que a luta ficou entre “defensores do estado laico” (rótulo usurpado pelos humanistas) e “ofensores do estado laico” (rótulo ingenuamente aceito pela maioria absoluta dos cristãos). E quem criou essas categorias foram, de maneira muito bem pensada, os humanistas. Os cristãos apenas continuam caindo no joguinho.

Enquanto isso, um outro leitor cristão me sugeriu que o rótulo de “estado laico” deveria ser dado ao oponente logo de uma vez. Algo como: “já que eles insistem tanto, que fiquem com ele”. Já o leitor Conde Loppeux argumentou o seguinte:

Rachel sherazade fez uma ironia aos “defensores do Estado laico”. Mas meu caro Ayan, foi por essa tolice de não querer chutar a barraca dos rótulos, que a direita está levando surra durante quarenta anos. Ao querer agradar aos rótulos que a esquerda impõe, o direitista médio quer ser mais esquerdista na linguagem do que a própria esquerda. O discurso do Estado laico, que na prática é do Estado ateu, naõ tem a menor relevância. Foda-se a nomenclatura do Estado laico. Ela não tem a menor importância. Precisamos sim, denunciar a máscara que está por trás da hegemonia cultural e não colaborar com ela.

Eu fico imaginando o que seria “chutar a barraca dos rótulos”? No mundo corporativo deve ser mais ou menos assim: o gerente X convence a patuléia de que é o cara dos “resultados”. O gerente Y, ao invés de demonstrar que ele é o cara dos “resultados”, mais do que o outro, diz: “ah, esses caras que trazem resultados não são bons para a empresa”. Quer dizer, ingenuidade tem limites! O Gerente Y merece apanhar mesmo e ser motivo de escárnio pelos corredores.

Se o Conde disse que o “discurso do estado laico na prática é do estado ateu”, isso ocorreu mais por ingenuidade dos cristãos do que por esperteza dos anti-religiosos. Mas essa é uma culpa do Conde e dos seus, não dos esquerdistas. Eles estão jogando o jogo, enquanto do lado dos cristãos vemos ingenuidade e teimosia.

Mas essa mistura de ingenuidade e teimosa deve ter limites. Já passou da hora dos humanistas ganharem essa batalha das cédulas de lavada, de forma HUMILHANTE. Desculpem-me a franqueza: essa mistura de ingenuidade com teimosia não pode ficar impune. Em termos de análise do jogo político, minha análise é crua: a derrota cristã, nesse caso, é mais que merecida.

A grande diferença é que, neste caso, surgiu um analista tático da guerra política que avisou antes. Por isso, a derrota será mais dolorida aos teimosinhos. Mas também será capaz de ensinar uma coisa ou duas.

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9 COMMENTS

  1. A melhor resposta seria enviar outra carta com petiçäo ao banco central, mas desta vez desmascarando os supostos “defensores do laicismo” e mostrando quem eles realmente são com links para postagens difamatórias nos sites dos mesmos e demonstrando que os mesmos estão lutando por interesses próprios e puro capricho.

  2. Pra que tanta preocupação com a carta dos neo-ateus?
    A alegação deles não inseriu qualquer argumento novo, tampouco enfraquece ou expõe contradição à decisão já tomada pela procuradoria do conselho monetário.

    Talvez o ponto fraco dos neo-ateus é que se eles porventura tentassem mobilizar os segmentos religiosos minoritários, na sua maioria esmagadora encontrariam quem coadune com a nomenclatura “Deus”. O peso do sincretismo e do ecumenismo (ambos podem ser escritos/lidos entre aspas, sem prejuízo do entendimento, aqui), ironicamente, é muito maior que a birra infantil dos neo-ateus.

    • Andarilho,

      A preocupação não é com a carta, mas com o uso inteligente do rótulo “estado laico” por eles (mesmo que eles queiram beneficiar os anti-religiosos contra os teístas, e portanto, violam o estado laico), ao mesmo tempo em que alguns teístas deram o rótulo para eles.

      A questão é: eles conseguirão marcar posição? Sim ou não. A meu ver, se o rótulo “estado laico” não for disputado pelos teístas, eles tem muitíssima chance de levar essa.

  3. Ah! E digo mais: a insistência de neo-ateus nesse assunto é que configura uma contradição, em especial no argumento utilizado na cartinha:

    Ora, se ser ateu é negar a existência do logos, neo-ateu algum pode lançar mão de uma (portanto) falsa argumentação com base em crenças religiosas. Ao tomar uma possível restrição do vocábulo “Deus” face a entendimentos politeístas, por exemplo, do sobrenatural como argumento contra o seu emprego, o neo-ateu coloca-se a serviço da defesa da fé (ainda que de forma oblíqua), de alguma fé. Torna-se um pouco menos ateu, o que, na prática é a sua verdade. Sabe-se, por confissão, que uma parcela considerável dos declarados neo-ateus são, mais precisamente, apóstatas.

    Quando o (falso) ateu aceita admitir a possibilidade de existência do logos e toma o viés da “liberdade de crença ou não”, não só ele se isola ainda mais em sua condição de minoria, mas se coloca na condição de antidemocrático (o que, aliás, não é surpresa alguma, ultimamente).

  4. Não é o bule que ficou entrincheirado no “estado laico”.
    A própria ação do MP é proposta com base no “estado laico” (e na histeria de quem se incomoda com a frase)

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