Acho que o fim está próximo mesmo: até Paulo Ghiraldelli Jr. dá um puxão de orelha em Wladimir Safatle por suas demandas bizarras em relação à PUC!

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Fonte: Paulo Ghiraldelli Jr.

Li três vezes este trecho: “…há de se falar com clareza: no interior da República, não há espaço para universidades católicas, protestantes, judaicas ou islâmicas, mas universidades dirigidas por católicos, dirigidas por protestantes etc., o que é algo totalmente diferente.” (Folha de São Paulo, 11/12/2012). Ele foi escrito por Wladimir Safatle, professor marxista da USP. Li três vezes porque achei que estava pulando alguma coisa, pois não consegui acreditar no trecho. Sinceramente, fiquei pasmo!

Safatle não está contente em dizer o que deve ser a universidade pública, mas agora ele também está definindo a universidade em geral, em abstrato, e resolveu afirmar que no interior da República não há espaço para universidades religiosas. Bem, que não haja espaço para que religiosos imponham sua regras particulares na universidade pública, eu sabia. Mas que as universidades fundadas por religiões históricas, que construíram o Brasil, não possam ser universidades religiosas, é uma regra que eu realmente não conhecia. Eu e mais ninguém. Afinal, desde quando o Brasil é laico? Não! A República é laica, mas a nação não, ela é plurirreligiosa e os intelectuais laicos inteligentes sabem o quanto a religião é parte integrante e formadora de nossa cultura. A República de Safatle é alguma coisa muito própria dele, não é a República brasileira. Só pode ser isso. Ou então …

Ou seja, inventamos a República laica exatamente para que o Estado fosse neutro em matéria religiosa, de modo a poder manter sua universidade pública laica e também neutra, mas não a inventamos para que ela viesse a ser uma ditadura louca que poderia dizer aos católicos, aos padres, que tipo de PUC nós vamos permitir dentro do Brasil. Jamais pensamos nisso! Felizmente! Nós brasileiros, nem mesmo nossos marxistas do passado, como Florestan Fernandes, cogitou algo assim.

Mas Safatle não para por aí, ele também faz ameaças. Ele diz que a PUC-SP funciona com dinheiro público! Ou seja, ele acredita que a PUC, por receber bolsas dos órgãos de fomento à pesquisa, deveria seguir critérios que não são os da Igreja, mas os do Estado laico. Ora, mas as bolsas são cedidas com a avaliação dos projetos apresentados. Safatle quer negar a bolsa antes de avaliar os projetos porque agora a PUC, uma universidade católica, se diz católica? Também não consigo entender a lógica do professor marxista.

Safatle continua! Ele diz que a Igreja é contra a legalização do aborto, e então pergunta o que fará com professores que fazem aborto! Ora, mas que professor da PUC faz aborto?  O aborto é ilegal, nenhum professor da PUC vai ser punido pela PUC se faz aborto sem antes ser punido pela lei comum! Do que Safatle está falando?

Eu creio que o professor marxista não deve conhecer a história do Brasil corretamente. As PUCs já passaram por ondas conservadoras e progressistas. A Igreja e as PUCs sempre foram maiores que tais ondas. Aliás, a PUC-SP foi o lugar em que todos os perseguidos da Ditadura Militar se refugiaram, onde puderam ter seus empregos. E a PUC-SP de tal época não era necessariamente progressista. Ela tinha professores altamente conservadores, padres altamente conservadores e padres progressistas e então incorporou mais professores de esquerda. Será que hoje é diferente? Não creio. As crises internas da PUC-SP, seja por dinheiro seja por questões doutrinárias, nunca colocaram tal universidade como uma universidade de segunda categoria. Ao contrário, essas crises sempre trouxeram a PUC-SP, após embates, novamente para o ringue externo, e ela sempre apareceu mais pujante. Safatle deve desconhecer completamente essa história de São Paulo e do Brasil. Deve estar pegando o bonde andando, só pode ser isso.

Creio que a ideia de universidade que Safatle defende não se sustenta no Brasil. Aqui, as universidades confessionais podem, sim, caso queiram, ter aulas de sua doutrina. Podem, inclusive, se desejarem, voltar a colocar a teologia no pico do controle burocrático e transformar todo o ensino em algo mais afeito à doutrina da igreja mantenedora. O fato do ensino superior ser uma concessão estatal de maneira alguma impede isso, do mesmo modo que não impede os meios de comunicação de ocuparem sua programação com um tanto de horas religiosas. Caso o Mackenzie ou a PUC queiram, por meio de seus doutrinadores mais conservadores, começarem a berrar que o darwinismo é um erro crasso e que até mesmo no curso de engenharia haverá aulas de criacionismo, isso é perfeitamente legítimo. Nem o Mackenzie e nem a PUC farão isso, porque as ciências tomaram a dianteira mesmo no interior dos cleros correspondentes. E para o público atual, as questões religiosas e as questões científicas podem conviver sem embate – há modos racionais de conciliação dessas coisas, o que um bom filósofo sempre sabe fazer, caso seja necessário. Mas, se alguma autoridade religiosa mais tacanha quiser criar situações passadistas, terá o direito sim, como não?

De onde Safatle tirou a ideia de que a República não pode permitir uma universidade religiosa ser de fato e de direito religiosa se a República foi criada não para ser posicionada contra as religiões, mas para ser neutra exatamente para garantir a liberdade religiosa?

Eu tenho profundo incomodo com religiosos, pois eles facilmente se tornam dogmáticos.  Mas eu tenho profundo incômodo quando o marxismo volta a ser uma forma de impor pequenas ditaduras, que as grandes ele não tem mais força para colocar.

Sinceramente, o professor Safatle não está bem.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, escritor e professor da UFRRJ.

Meus comentários

Safatle é um dos raros esquerdistas brasileiros que admiro, não pelas coisas em que crê (até por que ele é um esquerdista de perfil marxista), mas sim pelas estratégias que delineia para a esquerda, e que devem ser reaproveitadas pela direita. Em termos de estratégia, com certeza Safatle é um dos melhores que a esquerda brasileira possui, ainda que ele esteja muito distante de estrategistas como Alinsky e Gramsci.

Porém, Safatle errou estrategicamente em avançar demais em sua proposta de achar que a PUC, mesmo sendo uma instituição privada e de origem católica, não tem o direito a ser regida por princípios católicos. Ou seja, na PUC, quem deve mandar é um séquito de estudantes marxistas. Ao menos é isso que Safatle deseja.

As boas regras da guerra política dizem que há um certo limite até onde você pode ir, pois, se for longe demais, pode atrair problemas para você próprio e o seu grupo. Este tipo de regra é o que faz com que um hipotético movimento radical LGBT não peça o direito de ir a uma igreja ejacular na cara de um padre em plena missa, com o salvo conduto garantido para que ninguém o proíba (e, se alguém tentar proibir, poder-se-ia abrir um caso de “homofobia”). Pedir isso seria ir longe demais, em termos de guerra política. Resumo da ópera: Safatle simplesmente foi longe demais.

Tanto que até um esquerdista utópico como Ghiraldelli, como sempre um picareta intelectual da pior espécie, lhe dá um puxão de orelha. A situação me lembra uma hipotética cena em que dois assaltantes estão para invadir um orfanato, pois sabem que há um cofre lá cheio de grana. O diálogo seria mais ou menos assim:

  • X: Vamos invadir à noite, quando há apenas um segurança dormindo, e os sistemas de segurança são falhos.
  • Y: Para mim está ótimo. Tenho os códigos de segurança aqui!
  • X: Vamos degolar o segurança, para evitar problemas.
  • Y: Estou com uma faca bem afiada aqui!
  • X: Depois do segurança morto, vamos para o aposento 406, pois quero estuprar duas daquelas crianças, e depois vamos dar um fim nelas também…
  • Y: Espere, aí não. Aí já é demais…

É mais ou menos que ocorreu neste texto de Ghiraldelli. Simplesmente, Safatle foi longe demais.

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9 COMMENTS

    • O Ghiraldelli é um adepto de toda e qualquer forma de humanismo e seu esquerdismo obamista o faz pensar que ele está “além da direita e esquerda”. Daí resta ele tentar refutar seu oponente dizendo “ele perdeu” ou “ele tem mágoa”. Até o discurso é igualzinho ao do pessoal da Carta Capital. Enquanto o sujeito usar provocações de parquinho e estratagemas já conhecidos com um investigador de fraudes intelectuais como eu, é claro que ele não vai pontuar.

      Abs, LH

      • Dois minutos de glória tem este e outros senhores dos quais nunca havia ouvido falar antes de me tornar leitor deste blog e de outros.

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