Por que Niemeyer era um ícone do humanismo, ao contrário do que diz Constantino

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Segundo texto publicado no Globo, Rodrigo Constantino diz o seguinte sobre Niemeyer:

Tanto Stalin como Hitler eram monstros, da mesma forma que o comunismo e o nacional-socialismo são igualmente nefastos. Que grande humanista foi esse homem que defendeu até seu último suspiro algo tão desumano assim? Acho compreensível o respeito pela obra de Niemeyer, ainda que gosto seja algo subjetivo e que a simbiose com o governo mereça críticas. Entendo o complexo de vira-lata que faz o povo babar com os poucos brasileiros famosos mundialmente. Mas acho inaceitável misturarem as coisas e o colocarem como um ícone do humanismo. Não faz o menor sentido.

Constantino erra em absolutamente tudo! Claro que faz todo o sentido colocarem Niemeyer como ícone do humanismo. Aliás, é um de seus maiores símbolos com certeza.

Toda a crença esquerdista, especialmente a de linha marxista, depende do humanismo, que tem como sua coluna central a crença no homem. Crença no homem significa a crença em que o ser humano irá, por sua ação política, mudar suas contingências (gregarismo, territorialismo, auto-preservação) para enfim a criação de um mundo planejado, universalmente fraterno e com garantia de “justiça para todos”. A crença humanista vai além, pois sustenta a crença no homem a partir da crença de que o ser humano é um animal à parte dos outros animais, e portanto pode fugir de suas contingências.

Entretanto, o humanismo nada mais é que a alegação de suporte que o marxismo precisa. Serve também como alegação de suporte para nazismo, fascismo e qualquer outro sistema de esquerda. (Até algumas formas de pensamento direitistas, como o neo-conservadorismo de Francis Fukuyama, aceitaram o humanismo, mas aí já é um “humanismo pero no mucho”)

Relembremos o que eu falei sobre a alegação de suporte, que é toda alegação que, se aceita, dá sustentação a outras alegações consequentes. Citei um exemplo naquele texto:

Imagine um sujeito que quer sair com uma garota que é apaixonada por histórias de vampiros. Ela conhece decor e salteado todos os livros da série Crepúsculo. Ele tem a seguinte idéia: “que tal fingir que sou um vampiro, e convencê-la de que tenho mais poder que os outros homens, sendo capaz até de entrar na mente dela e viver para sempre?”. Mas temos um problema. Se ele disser isso a ela, provavelmente ele será motivo de chacota, e o truque não vai funcionar. Ele pode resolver isso com uma estratégia. Pedir para 2 amigos se relacionarem com a garota, e trocarem informações com ela sobre a EXISTÊNCIA DE FATO de vampiros. Obviamente, terão que usar truques de sugestão, engodos, retórica, etc. O objetivo é fazê-la acreditar que VAMPIROS EXISTEM. Depois desse trabalho feito (e é um árduo trabalho), ele agora chega e vai tentar conquistá-la, aí com uma possibilidade factual, simulando ser um vampiro. Nesse caso também temos duas alegações: (1) eu sou um vampiro, e por isso tenho mais poder que os outros homens que você conhece, e sou capaz de te proteger mais, (2) vampiros existem. Novamente, (2) é a alegação de suporte para que talvez seja possível implementar a alegação (1).

Transferindo o exemplo da relação necessária entre o humanismo e o marxismo, podemos dizer que o humanismo é a alegação de suporte (“o ser humano pode fugir de suas contingências para criar o paraíso em Terra”), enquanto o marxismo é uma das principais alegações consequentes que se deriva do humanismo (“criaremos a sociedade sem classes, a partir de uma ditadura do proletariado”). A alegação marxista depende do aceite da alegação humanista.

Niemeyer foi tão fiel em seu humanismo que levou-o às últimas consequências, ou seja, aceitou a alegação marxista de forma apaixonada, tanto que aceitou todos os sacrifícios feitos em nome dessa “causa”. Mas Niemeyer só aceitou tais sacrifícios, pois acreditou que esse mundo utópico proposto era possível, mas ele só acreditou nisso por que o humanismo é a religião política que lhe deu essa crença. Enfim, o humanismo não passa da alegação de suporte para qualquer ideologia que dependa da crença no homem.

Se Rodrigo Constantino optou por crer no humanismo por causa de doutrinação sofrida em universidades (ou por ter lido Bertrand Russell ou Carl Sagan, o que dá no mesmo), o que o leva a criticar o humanismo de Niemeyer é que, ao invés do arquiteto recém falecido, Constantino criou um duplipensar, em que ao mesmo tempo crê no homem (por ser humanista) como também descrê em projetos de remodelação do ser humano (por odiar o marxismo). Mas isso significa apenas que Constantino é um humanista em duplipensar, enquanto Niemeyer era um humanista puro-sangue.

O humanismo não passa de uma mania que ao mesmo tempo é ridícula e infantil, mas também perigosíssima, por ser a alegação de suporte para todo e qualquer sistema totalitário de pensamento. Se humanistas em duplipensar como Rodrigo Constantino não conseguem se livrar do vício em crer no humanismo, por que não procuram um tratamento à base de Prozac? Ou mesmo medicamentos que aumentem a liberação de Dopamina no cérebro? Enfim, qualquer coisa que dê um substituto emocional e cause motivação pode servir.

Seria bem melhor do que viver em duplipensar para ficar preenchendo um vazio interior em busca de um sentido artificial para a existência, vivendo de falsas ilusões e criando uma projeção de futuro que é tanto irrealista como perigosa. Para Niemeyer, que foi um humanista puro-sangue, este provavelmente fez bom uso (político ou psicológico) de seu humanismo. Mas para humanistas “pero no mucho”, como Constantino, procurar alguma forma de arrumar um substituto emocional para as sensações que obtém ao crer no humanismo poderia ser uma solução.

E ele nem precisa me agradecer!

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12 COMMENTS

    • Matheus, respeito seu ponto de vista e acho que você estaria correto se dissesse que é absurdo odiar alguém por uma obra de arte que não tenha cunho ideológico. Entretanto, criticar ou até ter raiva de alguém por sua ideologia é justificável e é uma manifestação de liberdade de consciência. No geral, quanto a Niemeyer, diz-se que ele foi um gênio da arquitetura, e um idiota em termos ideológicos.

    • Acontece que ele punha seu trabalho a serviço de sua ideologia. Suas obras tem traços marcantes da revolução esquerdista. Apenas um exemplo: Seu ateísmo marxista negou o divino no formato de suas igrejas.

  1. Os libertários, de forma geral, são assim: humanistas em oposição aos marxistas, porém envergonhados. Enquanto aqueles absolutizam o homem em sua dimensão individual, estes o tornam absoluto em seu aspecto coletivo. Duas faces da mesma moeda.

  2. Semi-OT:

    1) Se Brasília é tão boa, por que o Niemeyer não morava lá?

    2) Se o Copan é tão “genial”, por que o Oscarzinho não foi morar lá?

    3) Se as residências cada vez menores e cada vez mais caras são boas, por que os engenheiros e arquitetos dos séculos 20 e 21 não moram nas arapucas que eles mesmos projetam e constróem?

    4) De maneira geral, a assim-chamada arquitetura moderna É uma abominação, que inclui entre seus objetivos “inconscientes” matar a privacidade e implantar à força uma espécie de “vivência coletiva” (entenda-se: uma população de pessoas super-stressadas e *neurotizadas*) >_<

  3. Desculpe, admiro muito seu trabalho mas assim a direita não vai a lugar nenhum. Enquanto a esquerda é mais coesa, a direita troca farpas entre sí, não abraça os de centro, os liberais da economia, os independentes e não cativa a tal maioria silenciosa.
    Deixemos esses detalhes p’ra lá, concepções são e sempre serão subjetivas,o que importa é nos unirmos contra um inimigo comum: o esquerdismo exacerbado maléfico que assola o Brasil e o mundo.

    • Vera, eu discordo. A esquerda só cresceu por que criou internamente uma cultura de crítica aos próprios esquerdistas. Se vc vir um frankfurtiano e um gramsciano, verá que eles se criticam entre eles. Se vc vir o material de Gramsci, notará que ele critica muita coisa de Lenin. É assim que se cresce! E não com concordâncias artificiais. O que importa é que eu e Constantino sejamos LETAIS em nossos ataques à esquerda. Mas no momento em que não estamos atacando o oponente, devemos criar uma cultura de crítica mútua. Esse é meu ponto de vista, claro,

      Abs, LH

    • Esse cara apareceu aqui uma vez e tomou tanta surra que não voltou mais, e nem teria como.

      Basicamente, ele sabe jogar e realizar truques psicológicos, quanto a isso eu o respeito. Não o respeito por causa de suas mentiras, mas de suas estratégias. Por exemplo, a quantidade de vezes em que ele chama Rodrigo Constantino de mentiroso no vídeo é uma estratégia que defendo. Quanto mais o oponente for chamado de mentiroso, melhor.

      Claro que o mentiroso é o tal do cara da Página Vermelha, por exemplo, quando ele diz que vários historiadores reportam números diferentes para mortos na Rússia. Entretanto, esse truque dele é manjadíssimo, pois é claro que em uma época, alguém poderia achar que haveria 1 milhão, e depois, com novas investigações, esses números podem aumentar, ou diminuir. Obviamente, as fontes mais recentes apontam para os maiores números.

      Entretanto, ele finge que isso é uma contradição, e, pasme, finge que os diversos números FORAM APRESENTADOS PELA MESMA PESSOA, quando ele dá o exemplo de alguém que diz que tem 5 carros na garagem, e logo em seguida diz que tem 600.

      Este tipo de truque por si só já o desqualifica.

      Outro truque é quando ele diz que não havia críticas ao Niemeyer enquanto ele era vivo? Mas onde? As críticas a Niemeyer, Lula, Hobsbawn, Saramago ou qualquer outro apoiador de marxismo são feitas em vida ou após a morte deles.

      O fato dele ter fingido que o oponente somente criticou “após a morte” não passa de uma encenação safadíssima.

      Enfim, o cara da página vermelha é um safado, mentiroso e mentalmente desequilibrado, alguém beirando a sociopatia. Alguém a quem deve ser lançada rejeição social, e nem um momento de debate dialético, apenas o desmascaramento contumaz de toda e qualquer fraude praticada por ele.

      Abs,

      LH

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