A final da Copa Sul-Americana e uma lição sobre política

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A tendência de muitos conservadores de direita, em debates, é pensarem aristotelicamente, como se estivessem em um mundo imaginário no qual os homens lutam pela busca da verdade, e que os oponentes podem se juntar para “chegar lá”. Por isso, muitos perdem todos os duelos políticos de que participam para esquerdistas, especialistas no jogo.

Muitas vezes é difícil explicarmos o quanto o ser humano atua politicamente, assim como explicarmos que, se alguém renegar esta visão de mundo, automaticamente vai ajudar o seu adversário. É como diz a música do Metallica, Sad But True…

Eu não estou dizendo que se o seu oponente mente, que você deva mentir também. Não é isso. Mas sim que enquanto o seu oponente agir em benefício dele (e é o que ele fará), mesmo mentindo, você deve contra-atacá-lo na mesma medida, desmascarando as mentiras dele. Note que existem apenas duas opções em relação a um ataque malicioso: mentir igual o oponente ou desmascará-lo. Qualquer outra opção dará vitória a ele.

E o que o jogo entre São Paulo e Tigres, pela final da Copa Sul-Americana tem a ver com isso? Absolutamente tudo. Como não ligo para futebol e não torço para nenhum dos dois times (e ainda assim, torço para um time que nem é de São Paulo), ao menos nesta questão eu consigo ver a questão “de fora”. Mas os ocorridos durante o jogo, e especialmente após ele, são um claro exemplo de como funciona a dinâmica da guerra política.

Ontem, em um happy hour, vi um corintiano e um são-paulino conversando. O corintiano dizia: “O título do São Paulo é um meio-título, está manchado, e o correto seria a eliminação do São Paulo, assim como a disputa de um novo jogo de outro time com o Tigres”. Já o são-paulino dizia: “O título do São Paulo é superior a qualquer outro título, pois é a primeira vez em que um time argentino fugiu no intervalo, e o Tigres ainda deveria ser eliminado das competições sul-americanas por sua atitude anti-desportiva”. Caramba! Isso sim é uma questão polarizada, mas é assim que as coisas são quando tratamos de embates específicos.

Segundo matéria do UOL, o time do São Paulo prestou esclarecimentos à Comnebol (organizadora do torneio). De acordo com a matéria: “O dirigente do São Paulo acredita que o fato de que o B.O (Boletim de Ocorrência) do clube argentino ser realizado sem constar a suposta ameaça com arma de um segurança do São Paulo pesa no sentido de comprovar uma farsa.”

Segundo outra matéria, do mesmo UOL, Rogério Ceni, goleiro do São Paulo, disse que o time do Tigres não teve uma atitude profissional: “Sabíamos da superioridade do nosso time, eles só tinham bola parada, mas achei vergonhoso que eles foram a campo apenas para brigar. Uma coisa é a dividida, jogo pegado, outra coisa é agredir, querer machucar. Quando eles levaram 2 a 0, tomaram a decisão de arrumar confusão e nem voltar para o segundo tempo. Se estivesse 0 a 0, voltariam normalmente e tentariam carregar o jogo até os pênaltis”.

Do lado do Tigres, o técnico Néstor Gorosito disse: “O treinador [do São Paulo] é um ‘maricón’ (equivalente a ‘uma bicha’, em português). Quando vieram aqui são os reis da cortesia, mas lá diz que só queríamos brigar, que somos covardes. Uma loucura”.

Isso foi uma resposta ao que o técnico do São Paulo, Ney Franco, havia dito: “É um título muito importante, principalmente pelo jogo. No primeiro tempo os caras vieram com proposta de catimba mais uma vez. Vimos uma equipe argentina literalmente pipocar numa final, isso foi muito legal”. Claramente uma resposta em tom de zombaria.

Caso tenham notado, eu consigo fazer uma avaliação “do lado de fora” por não ter nenhum interesse nessa questão, pois não torço para o São Paulo, e muito menos estava envolvido nas notícias (esse apartidarismo, no entanto, é impossível na maioria das questões políticas). Mas os envolvidos, por outro lado, fazem o que se espera do ser-humano: puxar a sardinha para o seu lado. Duelos de provocações, trocas de ofensas, acusações fortes e capitalizações políticas. Tudo isso faz parte do jogo político.

Quem acredita que este tipo de contingência humana pode ser superada está vendendo uma ilusão aos outros e especialmente a si próprio. É um ser humano adulto que, infelizmente, convive com uma ingenuidade que não podemos tolerar a qualquer um que tenha passado dos 12-13 anos. Este tipo de ingenuidade torna essa pessoa um risco não só para si próprio como para os seus.

A capacidade de ser ácido e enérgico em relação a um oponente, assim como a capacidade de não deixar barato nada que possa servir politicamente ao outro lado (e para isto não é obrigatório mentir, é bom sempre relembrarmos esse detalhe – e quem tiver tremores ao ler este texto, recomendo ler esse post sobre o livro de Saul Alinsky) é o diferencial. Acusar fortemente, sem dó nem piedade, e saber lançar provocações, também  fazem parte do arsenal de recursos indispensáveis.

Imaginem, por exemplo, a questão da acusação feita pelos humanistas de que “Hitler era cristão”, rotina já tratada aqui. Os humanistas querem demonstrar que Hitler era cristão, mas para isso precisam omitir todos os discursos dele no qual declarava que era anti-cristão. Alguns cristãos já descobriram o truque, mas em muitos casos apenas diziam aristotelicamente: “Isso não é verdade, pois aqui estão as provas de que Hitler esteve mais alinhado a grupos seculares do que cristãos, e atacou os cristãos”. Mas essa resposta não tem o tom de assertividade e agressividade necessários em um confronto político.

Em um confronto político, caso alguém seja pego mentindo é preciso ridicularizá-lo, desmascará-lo e apontá-lo (para a platéia, sempre) de forma que pague o preço por sua mentira. Observe a assertividade dos dois lados da questão entre São Paulo e Tigres e veja que a coisa tem que ser levada neste tom. É com este tipo de tonalidade de discurso que a brincadeira começa.

Enfim, o que nós podemos aprender de toda essa situação? Nos confrontos esportivos, como esse, as duas partes opostas em uma questão agem de forma tão combativa, aguerrida e assertiva por qual motivo senão a busca de seus objetivos? Será que eles fazem todo esse esforço por que estão perdendo o foco ou por que estão na verdade mantendo o foco adequado? Fica claro que é a segunda opção. Eles agem assim, pois, de outra maneira, perderiam.

Esta é a conscientização mais urgente que nunca para o nosso lado: se não lutarmos fortemente pelo nosso lado nas questões políticas (e com a mesma intensidade do adversário) e ao mesmo tempo pensarmos politicamente, estamos criando a nossa ruína, em benefício do oponente.

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