Como trabalha um investigador de fraudes intelectuais

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Eu sempre falei do ceticismo político, do duelo cético, do framework de investigação de fraudes e de diversos outros modelos de atuação que julgo indispensáveis para a atuação de qualquer um dos lados em qualquer debate atual. A análise da guerra política atual nos diz que os esquerdistas e humanistas (incluindo neo-ateus) são exímios praticantes de fraudes intelectuais, enquanto seus oponentes têm dificuldade de perceber essas fraudes.

De qualquer forma, creio que fiquei devendo um exemplo prático da aplicação desses métodos. É o momento em que devo sanar este “gap”.

Abaixo está uma imagem do livro “The Portable Atheist”, de Christopher Hitchens, que, segundo recomendações, seria uma excelente fonte de fraudes intelectuais neo-ateístas. Por isso, adquiri-o, em formato eBook.

the-portable-atheist

A ideia de Hitchens, neste livro, foi criar um compêndio de todos os principais autores humanistas da história, para fornecer aos seus leitores uma “base” de ataque. Tecnicamente, a pesquisa de Hitchens teve intuito de criar um arsenal para seus leitores, como aquele pessoalzinho da ATEA, do Bule Voador e quaisquer outras organizações neo-ateístas da Internet. Banners, vídeos, discursos de qualquer tipo… o material de Hitchens serve como munição para esta atuação.

O livro possui nada mais nada menos que 45 capítulos, cada um deles dedicado a um autor que, segundo Hitchens, teria material importante para os neo-ateus. Para um investigador de fraudes intelectuais aplicando o ceticismo político, como eu, a oportunidade é fantástica.

Vamos agora a como eu uso o livro de Hitchens para a criação de um arsenal reverso, isto é, as rotinas mapeadas, que podem neutralizar todas as implementações das rotinas.

Abaixo, uma imagem da avaliação do capítulo 4, chamado “Theological-Political Treatise”, baseado em uma análise dos materiais de Baruch de Spinoza. (Clique para ampliá-la)

fraud_investigator

O aplicativo Kobo, da Livraria Cultura, é um dos vários que utilizo para leitura de eBooks. No caso dos livros que adquiro por lá, este é o aplicativo que uso, e é muito bom.

Um dos recursos legais é o uso das anotações, que são feitas nos textos, e, para cada anotação, eu faço uma referência a ser consultada depois.

Para facilitar sua visualização, observe a imagem abaixo (clique para ampliá-la), em que eu exibo todas as rotinas que mapeei no capítulo 4:

anotacoes_sozinhas

Para um capítulo de 11 páginas (um dos menores de todo o livro, que, como eu mencionei anteriormente, possui 45 capítulos), foi possível mapear 6 rotinas, as quais, de uma forma ou de outra, são usadas diariamente no material de propaganda neo-ateísta na Internet.

Eis que pode surgir a pergunta: qual o método para o mapeamento?

Vamos a um framework.

  1. Identifique os lados da guerra política, neste caso humanistas do lado ofensor, e os cristãos e demais religiosos do lado atacado
  2. Entenda a agenda do lado que você está investigando, no caso a agenda humanista – esta é a análise de agenda, que falei na série A perspectiva do investigador de fraudes
  3. Rastreie todas as alegações que for possível, mas dê atenção especial àquelas que constituem uma alegação política. Isto significa a execução do ceticismo político, um dos principais métodos que elaborei. Sempre lembrando que uma alegação é política quando, se aceita, confere um benefício ao lado que a proferiu.
  4. Cada uma dessas alegações políticas deve ser testada tendo em mente um guia de falácias, a dialética erística (assim como os demais padrões de fraudes argumenativas), entendimento do fator psicológico a ser obtido com a aceitação da possível fraude, avaliação dos dados fornecidos, e todos os métodos necessários para validar ou não a alegação.
  5. Se no passo anterior foi encontrada uma fraude, basta descrevê-la de forma sucinta como a fraude se constitui, e de que forma neutralizá-la.

Note que estes passos acima são apenas para o mapeamento das fraudes. As dicas de como usar os mapeamentos de rotinas nos debates são para o outro momento.

Eu costumo não misturar as coisas, e parto do princípio que, quando estou mapeando fraudes, é preciso de um nível de detalhe e foco, e, quando atuo em debates, estou basicamente usando o conhecimento adquirido com este mapeamento, ou com a análise da base de conhecimento que crio com esses mapeamentos ou mesmo a análise feita por outros autores que avaliam criticamente o conteúdo dos neo-ateus.

Entretanto, o diferencial do meu método (em minha opinião, pois não quero ser arrogante) é que ele dá um senso de organização.

Por exemplo, observem a seção abaixo, da página Rotinas Neo-ateístas (mais uma vez, clique para ampliar):

rotinas

Aqui temos cinco rotinas mapeadas especificamente para as falácias Ad Hitlerum, que, no contexto deste tipo de debate, foca em tentar, de forma difamatória, leviana e mentirosa dar algum tipo de responsabilidade ao cristianismo pelo nazismo.

Esta forma organizada de achar as rotinas, a meu ver, é uma de minhas metas, pois entendo que, de acordo com a gestão do conhecimento, o importante não é apenas o conhecimento que conseguimos armazenar, mas principalmente aquele que conseguimos recuperar (e, na ótica da gestão do conhecimento, isso significa obtê-lo em uma base, para utilização) de forma ágil. Na gestão do conhecimento, o nível da “sabedoria” é um nível acima do conhecimento, e esta sabedoria só ocorre quando usamos o conhecimento armazenado.

Enfim, creio que como introdução, era este o meu objetivo. Mostrar-lhes, de forma clara, como eu trabalho de forma a gerar conhecimento a respeito das fraudes neo-ateístas.

Como os neo-ateus (ao menos os funcionais, ou seja, quase todos que não estão na elite intelectual dos neo-ateus, e estes poucos são os que lançam livros e fazem palestras) não são seres humanos racionais, mas sim executores de rotinas que autores como Dawkins, Hitchens e Harris lhes ensinaram a aplicar, o conhecimento destas rotinas é o mais poderoso antídoto contra eles.

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1 COMMENT

  1. Só esclarecendo que Spinoza não era ateu, mas ao exatamente ao contrário, ele era extremamente religioso e toda sua obra é voltada para provar a existência de Deus e sua ligação intrínseca com o Homem. É fato que ele não aceitava o Deus transcendente do judaísmo (e também cristão), e sua obra Tratado Teológico-Político visa mostrar que este Deus foi “formatado” por Moisés e os posteriores profetas para fundar e gerir um Estado nos primórdios da nação judaica, que poderia desaparecer a qualquer momento nas quase diárias guerras entre as tribos. Em nenhum momento do livro ele nega a existência de Deus. Em suma: nada a ver com o ateísmo em geral e muito menos com o ateísmo moderno de Hitchens. Luciano, anote aí mais uma rotina neo-ateísta: pegar autores complexos, retirar suas frases do contexto, e lhes atribuir opiniões ateístas.

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