Gramsci: Além do fatalismo

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Quando observam dois direitistas de alguma influência discordando entre eles, muitos anti-esquerdistas dizem: “Como se já não bastasse a esquerda lutando contra nós, ainda temos que ver pessoas da direita brigando entre elas”.

Depois de ter me aprofundado em Gramsci, passei a assumir a perspectiva de que essa é uma preocupação desnecessária e até contraprodutiva. Isso por que Gramsci ensinou uma lição à esquerda (e que deveria ser aprendida pela direita), de que a crítica, mesmo forte, àqueles que estão ao seu lado ideologicamente são necessárias, especialmente para correção de rota.

A principal das críticas de Gramsci à Internacional Comunista (ele começou a militar politicamente, entre 1915 e 1925, antes de Mussolini enviá-lo para a cadeia) era contra o fatalismo da maioria dos marxistas de sua época. Os fatalistas diziam que o comunismo era inevitável, e, quando surgisse o colapso do capitalismo, a sociedade sem classes seria implementada.

Gramsci não se conformava com este ponto de vista, e se opôs ferrenhamente a ele. Para Gramsci, achar que o comunismo é o resultado inevitável de um colapso capitalista que estaria por vir, afastaria cada vez mais todos do projeto comunista. Isto por que a esperança de algo inevitável funcionaria como um “tranquilizante” para a ação. Ao contrário, ele propunha o abandono de qualquer fatalismo: a sociedade marxista jamais iria ocorrer se não fosse por uma ação direcionada de forma a implementar o marxismo.

Observem que a crítica de Gramsci não era tanto ideológica, mas principalmente focada na estratégia. Aguardar um futuro inexorável significava para ele deixar esse futuro cada vez mais distante. Desprezar as esperanças do inevitável, e lutar pelo futuro seria muito mais produtivo. As críticas apontadas por Gramsci eram duríssimas, levando até a picos de alta rivalidade entre o PCI (Partido Comunista Italiano), fundado por Gramsci e Amadeo Bordiga, e o PSI (Partido Socialista Italiano), do qual o PCI era uma dissidência.

O PSI defendia a revolução armada, no estilo bolchevista, enquanto o PCI acreditava em uma via cultural. A luta armada do PSI viria, naturalmente, após o colapso “inevitável” do capitalismo, enquanto a luta cultural defendida pelo PCI deveria ser feita em sucessivas camadas de transformação do senso comum.

Como eu defendo a reconstrução de Gramsci, é importante ressaltar que eu não acredito nas teses do marxismo, e todas as expectativas de Gramsci em um “futuro marxista” iam em direção oposta às minhas intenções. O que me interessa é o seu método, válido tanto para a esquerda como para a direita, embora até hoje apenas os esquerdistas o tenham utilizado.

Estando isto esclarecido, podemos tomar como ponto de partida a análise de Gramsci a partir de algumas premissas: (1) O método de Gramsci pode ser válido tanto para a direita como para a esquerda, pois o que importa é o método, e não as esperanças de Gramsci no marxismo, a ser alcançado pelo seu método, (2) Não devemos ter medo de criticar as estratégias de outras pessoas que compartilham de nossa ideologia, se temos em mente uma estratégia que achamos funcionar melhor, pois a crítica mútua leva ao aprimoramento, (3) Qualquer orientação fatalista e injustificada deve ser rejeitada (a não ser quando a visão inexorável for provada como inexorável), em troca de uma visão focada na práxis, ou seja, somos nós que construímos nosso destino.

Adotando estas 3 premissas, entendo ser possível começar a analisar Gramsci de forma apartidária, sem medo do que vamos encontrar, e apreendendo todas as características do método criado por ele para a ação de ambos os lados da guerra política, esquerda e direita. Claro que a esquerda não tem muito a ganhar com a análise que proponho aqui, pois ela já é baseada em Gramsci do início ao fim. Para equilibrar o jogo, proponho que nós também tomemos Gramsci como um autores dos esquerdista que podem nos fornecer diretrizes para a ação.

Voltando à luta contra o fatalismo, e já estando claro que toda a perspectiva assumida aqui tem a ver com a forma como a direita deve encarar o jogo político, devemos relembrar uma das lições principais da guerra política, conforme David Horowitz: “As armas da política são símbolos que evocam medo e esperança”.

Tenho visto muitas pessoas da direita acreditando que “tudo está perdido”, e que, estamos assistindo o totalitarismo inevitável. Outros dizem que após esse totalitarismo de esquerda, surgirá um colapso, dando novas chances novamente ao pensamento de direita. Na visão de Gramsci, tudo isso seriam fatalismos, crenças no destino e no inevitável, que na verdade não tem outra função servir como um “Prozac” mental para nos desestimular à ação.

Além do mais, eu entendo que não sabemos exatamente o que vai ocorrer no futuro. Podemos apostar, apenas, baseado nas suspeitas que temos, mas chamar algo de inevitável já é demais (a não ser quando isto for comprovadamente inevitável, ressalto novamente). Antes do ataque do 11 de setembro, muitos apostavam que os Estados Unidos seriam a nação a capitanear o governo global. Hoje, muitos duvidam que os Estados Unidos sequer esteja na concorrência por este posto. Este é um exemplo de que não temos futuros garantidos, seja tanto para a visão mais otimista possível quanto a mais pessimista imaginável.

Por outro lado, essa conscientização também não pode resultar em desleixo. Ignorar os riscos também é contra-produtivo, mas sempre é muito importante entender os perigos de não tomarmos uma ação, e quais as possibilidades que temos em relação à ação. Para Gramsci, a principal pergunta a ser respondida é: “O futuro que queremos depende de nós. Estando claro, o que faremos a respeito?”.

Começar com esta postura (na qual tanto o otimismo conformista como o desespero desalentador sejam substituídos pela avaliação imediata dizendo: “Temos esta situação, com estes riscos, e são estas as possibilidades; agora o que vamos fazer?”) significa adotar a práxis, em estilo gramsciano, superando maneiras fatalistas de encarar a questão da guerra política.

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1 COMMENT

  1. Um vídeo antigo, mas que imediatamente me fez lembrar do seu blog. Fiquei impressionado em ver como os jornalistas estão “contaminados”. A estratégia Gramsciana parece que cumpriu perfeitamente sua missão. Mas fiquei satisfeito vendo como o entrevistado rebatia o ataque furioso dos entrevistadores. Em tempo: sempre gostei do Dr. Enéas. Uma pena que seu jeitão caricato tenha comprometido (aos olhos do povo) suas ideias.

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