Uma população de zumbis? Quando alguém da direita diz isso, é sinal de que há muitas dissonâncias cognitivas a serem solucionadas.

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Disse um usuário do Facebook, de direita (o qual definirei como X, para proteger sua identidade), que ele se sentia como o sujeito da imagem acima, isto é, em um mundo onde ele vê a realidade, mas o resto da população não.

Em termos de jogo interno, o resultado desta mensagem é devastador, o suficiente para praticamente desabilitar alguém a participar do jogo político.

X automaticamente chama os eleitores que acreditaram nas bobagens do PT e do restante da esquerda de “zumbis”, que seriam pessoas que aceitam suas idéias sem questionar, tornando-se quase autômatos ao seguir um governo corrupto e imoral.

Vamos traduzir o absurdo dessa concepção para dois outros universos: o daquele que vai pegar mulher em uma balada, e o do diretor de marketing.

No primeiro caso, o sujeito vai para a balada, sai de mãos abanando (ou seria outra coisa balançando, mas é melhor deixar pra lá), e sentencia: “São todas mulheres zumbis, pois não sabem o que fazem, por não me escolherem”.

No segundo caso, ao descobrir que todos os seus concorrentes vendem muito mais, o diretor de marketing define: “Esses compradores são zumbis, pois não sabem o que é um produto bom, e este é o meu produto”.

Só que nos dois casos está ocorrendo a manifestação de uma arrogância auto-destrutiva, e transferência de culpa de um responsável para aqueles que não tem responsabilidade.

Quem está na direita e age da mesma forma, está despreparado para participar do jogo político, pois entende que a responsabilidade das ações é da massa, mas não dos intelectuais que devem direcionar a massa.

A população em geral não tem tempo para ler 100 livros por ano. Não adianta alimentar ilusões: o chapeiro do bar, o torneiro mecânico, a garçonete e o operador de telemarketing, salvo raríssimas exceções, estão preocupados com o almoço do dia seguinte, e não vão correr atrás de conhecer o que é de fato o pensamento de direita ou esquerda. Muitos deles nem sabem a diferença entre um e outro.

Exatamente por isso, a massa delega aos intelectuais esse direcionamento, e estão pronto a aceitar as opiniões desses intelectuais como se fosse a verdade absoluta. Tecnicamente, não é diferente da postura de alguém perante o médico da família, em quem ele confia sem reservas.

Em síntese: a massa transfere, mesmo que inconscientemente, a tarefa de direcionamento à uma classe intelectual que tem tempo para e se dedica a produzir conteúdo intelectual. Por isso, muitos dizem, ao ler um texto de Arnaldo Jabor: “Ele está certo!”. Outros escolhem intelectuais da esquerda. E assim a vida segue. (Note que não estou dizendo que Jabor é um intelectual de fato, mas sim um intelectual orgânico, e é focado no esquerdismo obamista)

Alguém poderia contra-argumentar dizendo: “Mas o povo está mal acostumado com o assistencialismo”.

Bem, este é um problema a ser resolvido, mas novamente a responsabilidade recai para a direita: por que não priorizar outros pontos agora, enquanto se luta para construir um cenário onde é possível fazer uma luta contra o assistencialismo? Para isso, é preciso aumentar o tamanho da classe C, e este processo já está em andamento. (Não por responsabilidade do PT, diga-se, mas apesar dele)

Portanto, nem mesmo algumas decisões populares consideradas equivocadas por nós (como apoiar o bolsa-família) são um argumento para desqualificar a opinião da população, e esconder as próprias fragilidades da atuação da direita.

A base da democracia é a participação do povo nas decisões do governo, e este povo está pronto a comprar idéias da direita, desde que esta se manifeste adequadamente, vendendo-lhes suas idéias de forma adequada.

O ditado “A voz do povo é a voz de Deus” não é uma hipocrisia, mas um fato. Ao ignorarmos que a decisão da massa é soberana, esquecemos do que significa a democracia de fato.

A direita se importa muito mais com os riscos da tirania do que a esquerda, que é feita para ajudar a tirania a se sustentar. Mesmo assim, alguns da direita se esquecem de que a opinião do povo é soberana. Isso não pode ser definido de outra forma que não dissonância cognitiva.

A solução para resolver essa dissonância é passar pelo doloroso processo de reconhecer nossos erros, não em relação aos valores ideológicos que assumimos, mas em relação à forma pela qual os comunicamos à massa. Ao invés de culparmos uma “população de zumbis”, precisamos aceitar a cruel realidade nos mostrando que aqueles que se comportam como zumbis são alguns intelectuais da direita, e não a população.

Um contra-argumento poderia ser: “Ah, mas as vezes as pessoas da massa erram”. Claro que erram! O ser humano é assim, e na democracia também temos o direito ao erro.

Mas, se você acha que eles estão apostando nas opções erradas, por que não é capaz de demonstrar-lhes qual a opção correta? Detalhe: não é chamando-os de zumbis que você conseguirá obter a aceitação da massa para as suas idéias, mas sim definindo-os como soberanos.

No momento em que a direita assumir que a responsabilidade pelo destino da direita está em suas próprias mãos, e não no “julgamento leviano” da opinião pública, começa enfim uma atuação com foco em resultados.

Eu acredito que assumir os próprios erros (especialmente de comunicação e estratégia política) é o primeiro passo para construimos estratégias e táticas adequadas para a guerra política.

E a esquerda faz isso há muito tempo: Antonio Gramsci foi um severo crítico de várias manias esquerdistas. Ele foi impiedoso com vários orgulhinhos bobos e até infantis que a esquerda marxista nutria em sua época. Isso já em 1925, antes dele ir para a prisão. Vários outros esquerdistas posteriormente fizeramo mesmo tipo de crítica.

Isso mostra que eles estão 90 anos à nossa frente em termos de estratégia. Temos que correr atrás do prejuízo, o que começa com a eliminação da noção de que a vontade do povo não é soberana. Ao proibir esse pensamento em nossa mente, com muito treino, assumimos que a vontade do povo sempre é a que vale, e, a partir daí, todas as estratégias e táticas devem ser construídas com essa noção em mente.

Por isso, antes de tacharmos a população como uma massa de zumbis (como já mostrei, deve-se tornar esse pensamento proibido em sua mente), melhor acordar alguns intelectuais da direita que estão agindo feito zumbis.

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1 COMMENT

  1. Luciano, já que hoje em dia há essa obsessão dos marxistas-humanistas com minorias, a ponto de até inventarem algumas (vide os assexuais) ou quererem criar falsas maiorias (vide os “negros” brasileiros em contexto religioso político brasileiro, em que querem que acreditemos que a junção das categorias “preto” e “pardo” do IBGE magicamente africanizaria os mestiços, mesmo aqueles que não têm africanos em sua ancestralidade), não seria uma boa estratégia trabalhar em cada um desses setores fazendo ações-espelho? Imagine aí algo como o Gays de Direita, mas ampliado.
    O movimento Nação Mestiça é tranquilo de lidar, pois ele próprio está contrário ao que o PT vem fazendo independente de algum político ou ideólogo ir lá dar uma estimulada. Com sede em Manaus, isso por si só é autoexplicativo em relação à contrariedade de querer transformar pardo em negro. Porém, seria preciso pensar mais naqueles que são têm a cultura africana como parte forte de suas vidas. Esses acabaram por se tornar presas fáceis da cantilena dos religiosos políticos e não há oposição significativa àquilo que eles dizem e que lentamente começa a permear o imaginário dessa parte da população.

    O mesmo vale aqui para as mulheres, que os marxistas-humanistas estão nadando de braçada ao conseguir implantar aquelas políticas que fariam Valerie Solanas, Ti-Grace Atkinson, Andrea Dworkin e outras sorrirem de um canto a outro do rosto. E, a exemplo de outros rituais religiosos políticos, acaba afetando tanto quem não crê na religião política de tal matiz como também os religiosos tradicionais (vide a lenha que descem no cristianismo).
    Claro que haveria o risco de na abordagem apenas e tão somente repetir as mesmas políticas daqueles a quem se quer combater, por vezes indo de reboque, o que significa ser necessário pensar em como abordar tais setores da população em uma forma que pregue a harmonia e a não-distinção por características, de maneira a evitar os tais bantustões que querem promover (e que, por sorte, a população brasileira ainda não mordeu a isca totalmente, ainda que já se note no discurso certa assimilação de tais ideias). Obviamente que teria aí de também haver uma coordenação e harmonização com os setores nos quais os conservadores tradicionalmente têm porto seguro, uma vez que poderia haver gente com resquícios inconscientes de marxismo-humanismo que poderia se digladiar e gerar tensões internas.

    Ainda naquela sugestão que venho lhe passando sobre explorar mais o uso das tensões internas da religião política de matiz marxista-humanista-neoateísta contra ela própria, não esqueçamos que há o Movimento Negro Socialista, que é contrário à adoção de cotas, o que por si só cria algum ponto de contato entre ideologias diferentes que pode ser usado pela maioria dos que são contrários a tal expediente, que com certeza não são religiosos políticos.

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