Ingenuidade e esperteza em Chesterton

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Chesterton tem muitos admiradores, e até eu mesmo acho alguns de seus escritos bem interessantes e realistas. Mas não posso deixar de lembrar algumas de suas palavras escritas em “Ortodoxia” que, depois da dinâmica social, me soam como um giz arranhando a lousa de tão agoniantes e desconfortantes.

Elas estão logo no começo do livro, quando Chesterton resolve atacar o culto a razão. Ele afirma:

A imaginação não gera a insanidade. O que gera a insanidade é exatamente a razão. Os poetas não enlouquecem; mas os jogadores de xadrez sim. Os matemáticos enlouquecem, e os caixas; mas isso raramente acontece com artistas criadores. Como se verá, não estou aqui em nenhum sentido, atacando a lógica: só afirmo que esse perigo está na lógica, não na imaginação.

Em outro momento, ele diz:

O louco não é um homem que perdeu a razão. O louco é um homem que perdeu tudo exceto a razão.

Em relação à marca e o elemento principal da insanidade, Chesterton afirma que

podemos dizer, em resumo, que é a razão usada sem raízes, a razão no vazio. O homem que começa a pensar sem os apropriados primeiros princípios fica louco; começa a pensar do lado errado.

Ao que parece, Chesterton faria um ataque à razão, certo? Errado, pois no final de “Ortodoxia” ele se declara um racionalista:

Gosto de ter alguma justificativa intelectual para minhas intuições. Quando estou tratando do homem como um ser decaído, é para mim uma conveniência intelectual acreditar que ele caiu; e eu acho, por alguma estranha razão psicológica, que posso lidar melhor com o exercício humano do livre-arbítrio acreditando que o homem dispõe dele.

Sua “razão” para crer no cristianismo é bastante racional, ao reconhecer os limites da razão humana, e define que os mesmos motivos que o levam a crer no cristianismo são os que levam um descrente a não crer em Deus:

Se me perguntarem, num sentido puramente intelectual, por que acredito no cristianismo, só posso responder assim: “Pela mesma razão que faz um agnóstico inteligente não acreditar nele”. Acredito no cristianismo de modo totalmente racional, com base na evidência. Mas a evidência no meu caso, como no caso do agnóstico inteligente, não está nesta ou naquela alegada demonstração; está num acúmulo de fatos pequenos, mas unânimes.

A sequência é ainda mais interessante:

Não se deve culpar o secularista porque suas objeções ao cristianismo são heterogêneas e desconexas, pois são precisamente essa provas desconexas que de fato convencem a mente.

Mesmo que em outros momentos Chesterton ache que temos uma distância maior dos outros animais em relação ao que o darwinismo nos diz, sua análise sobre a limitação da razão humana dá de 10 a 0 em qualquer análise humanista recente.

Para Chesterton, o homem é capaz de ser racional, quando possível e lhe for necessário, mas em essência é um ser emocional, movido por suas paixões. As decisões sobre questões metafísicas não são inerentemente racionais, mas, ao serem tomadas, podem ser racionalizadas a um certo limite. É nesse ponto que, ao entender a limitação de conhecimento, Chesterton mostra que não é contra a razão, mas sim a favor da razão que pode ser observada e testada, e é aquela que foi comprovada por Freud, sustentada posteriormente pelos estudos de Damasio, e nunca foi refutada cientificamente.

A existência de um tribunal mental kantiano nunca passou de uma ilusão, mesmo assim governos totalitários foram implementados por sustentarem o slogan de que eram “a razão, contra a superstição”. Na verdade, era auto-interesse contra auto-interesse, e um dos lados capitalizou melhor por usar a expressão “razão” em maior quantidade. Isso é o que defino como controle de frame.

Infelizmente, mesmo com toda a lucidez de sua constatação, não posso deixar de notar uma ingenuidade imperdoável (e este um defeito incorrigível de minha parte: a dificuldade de perdoar erros inadmissíveis) de Chesterton quando ele diz que há um problema como “a razão”.

A situação dele é similar a de um sujeito que chega em um baile de carnaval e grita “bumbum perto de mim não”. Todos começam a achar que ele é um baita de um boiola. Daí ele explica direitinho: “bumbum de baranga longe de mim, mas de gostosas, estou dentro a qualquer momento”. Mas aí não adianta mais, pois o filme já estará queimado.

Não há uma razão para se usar frases que possam ser utilizadas pelos seus adversários contra você. Chesterton foi inteligentíssimo ao notar uma faceta da mente humana que a ciência desvendou em maiores detalhes no futuro, mas extremamente ingênuo ao usar uma linguagem que deu o rótulo de “dono da razão” aos seus oponentes.

Quando Chesterton disse “O louco é um homem que perdeu tudo exceto a razão”, provavelmente não tinha noção de que perdeu o duelo de frames, dando ao público a noção de que “do lado da razão estão seus oponentes”. Eu diria além: louco não é o homem que perdeu tudo exceto a razão, mas, no debate político, louco é o homem que não disputa o rótulo “da razão” quando este é utilizado de forma injustificada por seu oponente.

Ou louco, ou ingênuo. Ou ambos.

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17 COMMENTS

  1. Hehe.
    Chesterton teria uma resposta irônica e matadora para a sua crítica, possivelmente.
    Mas ele não está mais vivo para se defender, então você pode se satisfazer com o prazer de o ter criticado.

    Se ele errou, a seu ver, quanto ao uso da crítica à razão, por “dar munição ao inimigo”, me parece que você é quem está errando e dando munição ao inimigo agora, esforçando-se para criticar Chesterton.

    Incensada pelo seu prestígio junto a seus leitores, a crítica pode tomar forma de investida com objetivo de descrédito. Impossível ver vantagem nisso a esse ponto ainda tão inicial da difusão de tão bom autor conservador.

    • Andarilho,

      Note que eu texto não é só uma crítica a Chesteston, mas o apontamento de ingenuidade em um momento, e brilhantismo em outro.

      Abs,

      LH

  2. A situação dele é similar a de um sujeito que chega em um baile de carnaval e grita “bumbum perto de mim não”.

    /\
    kKKKKKKKKKkkkkkkkkkkkkk…

  3. Luciano já fez uma crítica ao Dr. Craig, mas não foi no campo intelectual acadêmico e sim sobre a estratégia política e sobre a maneira de pensar numa guerra política. Dentro deste contexto eu aceitei a crítica, apesar de ser admirador e fan n° 1 de Craig. Não teria aceitado se a crítica fosse sobre os argumentos usados por Craig, se Luciano dissesse que ele não é um bom apologeta, se dissesse que não é um bom filósofo… aí sim eu não teria aceitado. Mas a crítica na verdade foi apenas uma avaliação de como Craig se sairia numa guerra política, caso permanecesse fixo apenas em seus princípios de Teólogo e filósofo.
    Já os princípios de um jornalista permitem o conhecimento da guerra política. Logo, falhar neste ponto seria imperdoável para um jornalista, e Chesterton era um jornalista.
    Mas não estou dizendo que não haja argumentos que anulem o meu raciocínio. Só não conheço tais argumentos.

    Pensei no seguinte: Será que Snowball vai aparecer pra dar um parecer? Rs.

  4. Pera lá Luciano…. essa é uma frase de efeito, para trazer interesse ao leitor, somente fora de contexto ela pode ser entendida como uma declaração de inimizade da razão, vc mesmo diz isso. E não vejo ingenuidade aí, mas uma fina ironia, uma pilhéria. E o pior que a relação entre excesso de racionalismo e loucura tem muito de verdade.

    O cara conseguia desarticular os seus opositores usando elegancia, fineza, poesia, lógica e classe. Eu nunca vi nada assim.

    E acho que ele não estava pensando politicamente quando escreveu isso. Ele estava realmente buscando expressar a verdade. E como vc mesmo notou, a frase tem um contexto, se tirada do contexto pode dar a idéia de que ele era contra a razão. Mas quem lê o contexto sabe evidentemente que não.

    Quanto a loucura, é tem um certo sentido essa intuição dele.

    O delírio não é exatamente um erro de lógica. Das premissas seguem as conclusões. Se vc acredita que um conspiração da CIA e da KGB estão te perseguindo segue que é possível, neste contexto, que eles possam mandar te sequestrar ou grampear teu telefone, ou esconder uma bomba no seu porta-malas.

    O problema não está no raciocínio em si, mas nas crenças infundadas de base. É por isso que é tão difícil debater com um paranóico, ele tem resposta para tudo e pode simplesmente te deixar sem resposta, criando um sistema extremamente lógico e coerente, embora delirante, embora com pés de barro.

  5. Você está querendo pegar Chesterton e transportá-lo para um tempo onde as pessoas pensam através de memes, sendo que ele escreveu o livro em uma época onde as pessoas pensavam através da obra.
    Ele não cometeu um erro político porque simplesmente para o seu tempo as coisas eram bem diferentes.

    • Maxell, só uma coisa, na época de Chesterton, o iluminismo já havia ocorrido, e foi lá que o jogo de rótulos eliminou todo e qualquer debate. A partir dali, o rótulo “da razão” foi usado para capitalização política.

  6. Luciano, para usar um raciocínio evolucionista: por que raios a cauda do pavão é tão atraente para fêmeas? Justamente por se um pavão consegue sobreviver com aquele trambolho lindo apesar de inútil, ele tem bons genes. É por isso que a estética de Chesterton é atraente, ele pode ser dar o luxo de “atacar a razão” quando, na verdade, não a está atacando de fato. E o mesmo tipo de atração que exerce o forte que não usa sua força, ou a usa com regra e temperança. Gandhi usou a passividade e venceu. Jesus deu a outra face e venceu.

    • Alexandre,

      Aí é que está. Mas o fato é que os que usaram o discurso de “sou da razão”, sem sê-lo, conseguiram a hegemonia. E a análise política é crua e cruel ao mesmo tempo: os conservadores da velha guarda fracassaram em seus objetivos. Criaram ótimos raciocínios, mas, em termos de efetividade em conquistas políticas, hoje em dia temos que aturar um ocidente inteiro pagando 40% de impostos, sustentando políticas de “welfare state” e o pensamento de esquerda cada vez mais vigente. Em suma, os conservadores da velha guarda “perderam” no ambito político.

      Eu acho que é momento de reavaliarmos o que aconteceu, pois as idéias da esquerda são fraudulentas, o discurso deles é cheio de rotinas e a ideologia é extremamente perigosa. SE é assim, pq venceram?

      Abs,

      LH

  7. Essa é uma pergunta dificil, mas uma das razões foi a pouca quantidade de intelectuais da qualidade de Chesterton e de uma militancia para desfazer possíveis usos fraudulentos e fora do contexto de frases deste autor. Em outras palavras, não acho que Chesterton devesse modificar o estilo dele em nome da estratégia, ele poderia continuar no seu estilo pavão, desde que não estivesse só, ou praticamente só.

  8. O que Cheserton quer dizer quando diz que louco é o homem que perde tudo, menos a razão, é que o ser humano é um ser dotado de faculdades múltiplas, dentre as quais a razão é apenas um atributo dentro de uma miríade de outros. O homem que se dedica somente à razão, pode tornar-se um grande racionalista, mas tornar-se-á um aleijado no que concerne às outras atividades e atributos humanos.

    • Otávio, eu sei disso. Mas é por isso que eu citei é o exemplo do sujeito que chega no carnaval e diz “bumbum longe de mim”, mas depois complementa com outra informação, que vista no contexto não significa que o cara não gosta de mulher. Mas o que critiquei é o uso de uma expressão perigosa, que poderia ser usada muito bem pelos seus oponentes.

  9. “Para Chesterton, o homem é capaz de ser racional, quando possível e lhe for necessário, mas em essência é um ser emocional, movido por suas paixões. ”

    Errado de novo. Amigo, você não entendeu Chesterton, volte, releia tudo, sua compreensão está deficiente.
    Chesterton jamais afirmou isso. O que Chesterton quer dizer é que não se pode tornar certas faculdades humanas (razão) o centro de tudo. Me admiro que uma pessoa com sua percepção tenha feito uma leitura tão desarrazoada de Chesterton.

    • Otávio,

      Vamos reler aqui: ” o homem é capaz de ser racional, quando possível e lhe for necessário, mas em essência é um ser emocional, movido por suas paixões”.

      E você disse que “não se pode tornar certas faculdades humanas (razão) o centro de tudo”.

      O que eu interpretei de Chesterton, então?

      É que, além da razão, o ser humano toma decisão com base em outras faculdades, como o instinto, a emoção, etc. E ele reconhece isso.

      Abs,

      LH

  10. Imagine uma pessoa que só se dedique à visão, e perde todos os outros sentidos: a audição, o tato, o paladar, o olfato. Tal pessoa se torna mais deficiente que um cego, mesmo enxergando muito bem. Não há problema nenhum com a visão, nem com a razão…

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