A piscina perigosa do humanismo: uma religião com tudo de ruim e nada de bom

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Um leitor neo-ateu (sim, alguns deles ainda passam por aqui de vez em quando) dia desses questionou o seguinte: “Se hoje em dia vivemos em um estágio de superação do cristianismo e da religião revelada, o que vamos colocar no lugar?”

O argumento dele se baseava em dizer que, mesmo com todas as críticas que possam ser feitas ao humanismo, pelo poder de consolo e sentido da vida dado aos seus adeptos, ela ainda seria útil. Ademais, para ele, a presença do humanismo evitaria que muitos voltassem para a religião tradicional.

Pelo que se nota, a ideia era comparar a religião tradicional com a religião política, definir que o mundo deveria ficar livre da religião tradicional, e, mesmo que a religião política fosse inválida logica e factualmente, não deveria ser criticada por causa de seu poder de consolo, preenchendo uma lacuna deixada pela religião tradicional.

Os problemas nessa proposta não são poucos, gerando questões como: Por que é preciso eliminar a religião tradicional? E sem a religião tradicional, por que é preciso preencher uma lacuna? E, se for preciso preencher esta lacuna, por que deveria ser com o humanismo?

Como Daniel Dennett propõe que seja criado um guia do consumidor das religiões, eu amplio o conceito para a definição de um guia do consumidor das religiões como um todo, sejam elas tradicionais ou políticas. Os que “compraram” o humanismo, pensam em adquiri-lo ou mesmo decidiram não comprá-lo (e mesmo assim são afetados por ele) devem estar bem informados do que constituem essas idéias disponíveis no mercado de crenças.

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Selecionei 10 critérios para investigação comparada entre religião política e religião tradicional, mas creio que este é apenas o início desta análise. Por isso, os critérios podem aumentar. Se algum leitor quiser sugerir mais critérios para investigações comparadas, ótimo. Aqui estão, portanto, os 10 primeiros critérios:

  1. Evidência empírica de seus dogmas centrais
  2. Literalidade
  3. Absolutismo
  4. Relação com a ciência
  5. Validação pelo darwinismo
  6. Uso para apelo à autoridade
  7. Registro de impactos históricos negativos
  8. Tolerância à visão oponente
  9. Uso de propaganda
  10. Contribuição moral

Vejamos cada um deles.

Em relação a (1), evidência empírica de seus dogmas centrais, a religião revelada, incluindo o cristianismo, de fato não consegue evidências empíricas para o nascimento virginal, nem para a ressurreição de Cristo. Por outro lado, o humanismo possui evidências em contrário, conforme tratarei ao falar dos itens 4 e 5. Em termos mais simples: em termos de evidências, o humanismo está na zona de rebaixamento.

A análise do segundo critério, (2) literalidade, resulta em um problema maior para a religião política do que para a religião revelada, isto por que, se não há evidências para alguns dogmas centrais destas religiões (e, como já mostrei, para a religião política, a coisa é ainda pior, pois temos evidências em contrário), ao menos em alguns casos há metáforas a serem interpretadas na religião tradicional. Isto não ocorre no humanismo, em que as crenças injustificadas defendidas por eles são interpretadas literalmente. Um exemplo: o apocalipse não é interpretado literalmente por muitos cristãos, e alguns chegam a dizer que a transformação apocalíptica é mais mental do que relacionada ao mundo empírico. Mas o governo ultra-altruísta criando um paraíso global (se for totalitário, é claro) não é uma crença metafórica, mas literal. Nenhum humanista diz que o “governo global desejado” é uma transformação que vai ocorrer em sua mente. A expectativa dele se baseia em uma transformação factual, que afetaria a vida dos outros.

Isto nos leva ao terceiro critério, que é: (3) absolutismo. Neste ponto, a religião tradicional afeta a vida dos que nela não creem, como, por exemplo, influenciar leis que proíbem eutanásia, aborto e outras. Alguém pode ser proibido de praticar a eutanásia, mesmo que não creia em nenhuma variação da religião revelada. Portanto, a religião tradicional pode ser acusada de impactar a vida daqueles que nela não creem. Mas a religião política pode sofrer a mesma acusação mas com muito mais intensidade. Todas as leis geradas pelo esquerdismo são frutos do humanismo, e todas elas impactam a vida dos descrentes no humanismo. Exemplo: tolerância ao crime, incitação ao genocídio, alta taxa de impostos.

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O leitor neo-ateu que propôs o desafio disse que, ao menos, a religião política nos “traz ciência”. Falemos agora do critério (4): relação com a ciência. É fato que algumas religiões tradicionais, em algumas variações específicas, entrem em conflito com a ciência – embora outros tantos religiosos convivem muito bem com ela, especialmente os que possuem conhecimentos mais profundos em teologia e filosofia. Por outro lado, a religião política é totalmente anti-científica, e, para piorar, diz que “representa a ciência”, quando na verdade se opõe a ela. Nota-se que é possível existir uma concordância entre ciência e religião tradicional, mas em relação à religião política, esta tem usado a ciência como um escudo para suas ideias políticas, e, portanto, disvirtuando a ciência. Neste caso, o dano à ciência é terrível e irreparável. Pode-se declarar o humanismo como inimigo da ciência.

Uma extensão deste critério é o item (5): validação pelo darwinismo. Selecionei este critério pois falamos da espécie humana, e nada melhor do que o darwinismo para nos falar a respeito. O darwinismo 100% puro (sem nenhuma intervenção divina) entra em conflito com várias visões religiosas tradicionais, e isto é um fato. Mesmo assim, é possível que um religioso tradicional diga: “Ei, sobre a falibilidade humana que vocês, darwinistas, descobriram com Darwin, nós já sabíamos disso há 2.000 anos”. Enfim, a mesma conclusão sobre o ser humano, por meios diferentes. Não que seja um ponto a favor da religião revelada, mas ao menos é interessante. Por outro lado, não há acordo com a religião política: ao dizer que o ser humano pode mudar sua contingência para criar um paraíso em Terra, subvertem por completo a teoria da evolução. Não é exagero chamá-los de anti-darwinistas, mesmo que eles digam em público que “gostam da teoria da evolução”. Mas se gostam, por que duvidam dos achados não só da teoria da evolução como de todas as pesquisas científicas sobre a natureza humana que se seguiram ao darwinismo? Por isso, se a relação de alguns cristãos com o darwinismo é por vezes complicada, a relação do humanismo com o darwinismo é antagônica por completo, mesmo que eles declarem o oposto.

No item (6), uso para apelo à autoridade, a religião tradicional pode sim ser utilizada em prol deste apelo. As escrituras geralmente dizem que Deus já mandou o seu filho, e ninguém pode falar em nome dele. Mas alguém, ainda assim, poderá distorcer os textos bíblicos para dizer “Deus me mandou, sou melhor que vocês por isso, portanto creiam em mim, e me dêem o poder já”. Logo, a religião tradicional pode ser utilizada para apelo à autoridade moral, mas somente se for deturpada. O problema é que no caso da religião política, esta foi feita somente para a obtenção de autoridade moral. O discurso deles dizerem que estão “pela ciência e razão, para trazer o mundo lindo” é pura e simplesmente a tentativa de capitalização pela obtenção da autoridade moral.

Isto explica por que, no item (7), no registro de impactos históricos negativos, a coisa fica definitivamente nublada para os humanistas. O humanismo foi a espinha dorsal de todos os sistemas genocidas do século XX, já que é um sistema de pensamento feito unicamente para a obtenção de autoridade moral, e quando se luta por autoridade moral injustificada, é claro que temos um jogo de poder. Os genocídios de Hitler, Stalin, Pol Pot e Mao são apenas “cases” de sucesso da conquista do poder formal através da obtenção da autoridade moral, conquistada pelo uso de vários recursos, em especial o programa humanista. Claro que o mesmo pode ser feito com o uso da religião tradicional, mas aí é preciso distorcê-la. No caso da religião política, basta utilizá-la à risca.

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Hoje em dia, nota-se que quanto ao item (8), tolerância à visão do oponente, a maioria dos teístas acostumou-se a viver em um mundo plural. Os que pensam contra eles tem o direito de viverem suas vidas e buscarem sua felicidade, mesmo que quase todos achem a visão daquele de doutrina diferente alguém errado em termos doutrinários. Mas, como Jonathan Haidt nos diz, isso não é culpa de uma doutrina ou de outra, mas sim do instinto humano de perceber o seu paradigma moral como “o certo”. Os humanistas também possuem a mesma sensação, e a mesma relação com seu sistema de crenças. Eles o percebem como o “sistema correto”, excluindo os outros. Pena que os humanistas não consigam conviver com os diferentes, e sempre partam para a visão totalitária. Nos genocídios ocorridos, conseguiram calar a dissidência derramando rios de sangue. Mas em momentos de paz temporária no Ocidente, como nas últimas décadas pós Segunda Guerra Mundial, ainda assim eles manifestam postura totalitária. Em síntese, a religião política não aceita e nem tolera a visão daqueles que nela não creem, enquanto os religiosos tradicionais estão mais acostumados a conviver com a diferença.

Quem estuda técnicas de propaganda, diz que o item (9), uso de propaganda, está presente em várias alegações da religião tradicional. Por exemplo, a afirmação “Aquele que não está comigo, está contra mim”, é um recurso de polarização, ou do pensamento preto-e-branco. Técnica de propaganda, naturalmente. Mas todo e qualquer discurso humanista é simplesmente o uso de propaganda e nada mais, sem a presença de raciocínios mais elaborados. Já na religião tradicional, se usam parábolas, ensinamentos e outras coisas além da mera propaganda, mas na religião política não há um conteúdo tão elaborado, e todo o tempo de discurso se resume à técnicas de propaganda. Eu também defendo o uso de técnicas de propaganda (até para realizar a contra-propaganda), mas é preciso ter um conteúdo lógico e coerente além destas técnicas. Quando o discurso se resume à técnicas de propaganda, como é o do material da religião política, há danos severos ao raciocínio, à cultura e ao pensamento. Nada termina sendo mais contra o livre-pensamento do que a forma pela qual os humanistas visualizam o uso do discurso. Neste ponto, eu e os religiosos tradicionais concordamos que existe vida política e intelectual além da propaganda.

Em relação ao item (10), contribuição moral, a religião tradicional fez contribuições para a nossa sociedade em termos de estipular valores morais que, mesmo vistos pela ótica secular, servem como uma compilação do que a tradição tem a nos dizer. Nesse caso, a religião tradicional “tem” um sistema moral, que pode e deve ser discutido, seja pela ótica religiosa ou pela ótica secular. Mas o humanismo não tem nenhum sistema moral, pelo contrário, apenas se baseia em seguir os sistemas morais influenciados tanto por manifestações teístas e seculares (detalhe: secularismo não é o mesmo que humanismo), mas não apresenta nada. Pior ainda: agora alguns ideólogos do humanismo defendem que o sistema moral “certo” é um que será entregue pela ciência um dia. Claro que é uma mentira esfarrapada, mas, como não tem nada a oferecer, dizem que “um dia trarão o seu sistema moral, que virá da ciência”. É o truque de Sam Harris em “The Moral Landscape”. Daí eles podem ao mesmo tempo fingir para o público que “são da ciência”, mesmo que sejam contra ela, e que “tem a moral certa, que virá da ciência”, mesmo que isso não vá acontecer. Não passa de uma senha para dizer: “Não temos um sistema moral, mas vamos dizer que no futuro teremos um que virá da ciência, aí por enquanto não precisamos apresentar nenhum sistema moral, bastando esperar que ninguém perceba o truque, e enquanto isso capitalizamos fingindo que ‘somos da ciência’”. Nada é mais imoral que esta forma humanista de encarar a moralidade.

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Dennett disse que a religião tradicional deveria ser investigada, sem medo de chegarmos à conclusão de que ela poderia ser uma “piscina perigosa”, que é algo sobre o qual todos devem estar informados. Ele também disse que estudos da religião tradicional podem levar à conclusões, em caso de elaboração de um guia do consumidor das religiões, dizendo que a religião deve ser exposta para as crianças da mesma forma que leões e lobos são expostos no zoológico, com afirmações dizendo “Olhem esses animais, mas cuidado, não chegue perto deles, pois são perigosos”.

O que Dennett nunca quis, é claro, foi incluir sua religião humanista neste tipo de avaliação, mas eu acho que, como ateu, e descrente tanto quanto a religião tradicional como quanto a religião política, esse guia do consumidor das religiões tem que incluir todas as religiões, e as religiões políticas não podem ficar de fora. Se Dennett quer nos vender humanismo, ela faz parte do catálogo, e como tal tem que ser avaliada de forma comparada.

Nessa comparação, pode-se notar que o humanismo não tem concorrentes em relação ao posto de sistema religioso mais perigoso e injustificado. Se formos usar a metáfora de Dennett da piscina perigosa, o humanismo seria uma piscina cheia de piranhas. Se formos considerar a análise da periculosidade como no exemplo do zoológico, em uma jaula com a placa “humanismo”, poderíamos ter leões que não se alimentam a uma semana. A humanidade não precisa do humanismo para nada. Diálogos seculares, convivendo com a religião tradicional, ou até contestando-a, podem ser feitos mas sempre deixando claro que o humanismo é muito mais nocivo em termos sociais do que qualquer outra religião.

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Em resumo, o humanismo é tudo de ruim, e nada de bom.

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8 COMMENTS

  1. Muito bom esse texto.
    (eu não respondi o seu último post do ooooutro texto porque a conversa já estava bastante desvirtuada)

    Obviamente que aqui as mesmas coisas me intrigam, mas vou tentar uma outra abordagem.
    Até porque a gente tem essa mania mesmo, vício da conduta religiosa, de se simpatizar e já sair defendendo sem conhecer (no caso do neoateismo), ou pelo contrário, criticar sem pesquisar melhor outras posturas. O religioso pega um certo vício da onisciência.

    Portanto esse meu flerte com o humanismo, tende, mas não está tão totalmente arraigado graças a uma constante inquietação socrática.
    A empatia humanista é uma coisa que vem desde quando eu assistia Star Trek, Jornada nas estrelas, nacional kid (não deve ser do seu tempo…eheh) complexo do super herói, sabe…star trek tinha aquele mundo laico perfeito e cheio de aventuras, todas as culturas convivendo em paz (menos os Klingon)…eheh
    Mas a Bíblia, a epifânia religiosa, também fez parte disso, fundindo-se. A tal ponto que mesmo hoje eu sendo agnóstico, distante de deus, ainda tenho simpatia pelas idéias de cristo. (e tenho quase certeza que você também tem)

    Por isso gostaria que você entendesse a minha história como testemunho vivo dos fatos e respeitasse essa história tanto quanto respeita seus compêndios pois estes valem quando não há testemunho. Livros, matemática, ciência, são feitos para descrever, desvendar situações que não viveu, mas ora, se tem alguém vivo que pode dizer como é Marte, porque usar um telescópio e uma calculadora?

    E eu digo, minha história mostra que (agora senta que lá vem blasfêmia) a “religião” humanista, com esse messianismo científico, é sim filha do cristianismo e não poderia existir sem ele. E eu até arriscaria uma outra blasfêmia que repito muito a amigos meus debatedores, até o próprio comunismo deriva da idéia messiânica cristã. Tá tudo lá na Bíblia….novo homem…nova terra…novo futuro…
    Ok. Não demonstro..não provo. Mas me dou ao direito de dizer, porque você até agora no meu entender não “provou” que esse humanismo moderno vai dar no que diz que vai dar, e que na dialética não poderá dar em outra coisa melhor do que imagina, já que é INEVITÁVEL.
    NÃO. NÃO ACREDITO NO SHANGRILÁ PROMETIDO PELA CIENCIA E PELO HUMANISMO.
    Mas acredito que as pessoas, o mundo, precisam de um norte. Se será um norte cristão, ok…. Se será um norte humanista, sei lá…Se será um norte do darwinismo da lei do mais forte…fazer o que?

    Você pode perguntar, ora, mesmo que a influência cristã seja verdade, o que tem a ver ? Porque acho que o futuro humanista é inevitável?
    Tem a ver que, não sei se você percebeu, as igrejas católicas estão se esvaziando, com ou sem humanismo (por causa do esclarecimento que faz as pessoas questionarem as coisas, criarem coragem, e isso se choca com dogmas monolíticos). As igrejas neo-pentecostais, com a tal teologia da prosperidade, estão cheias, ok…mas só até que as pessoas passem por esse calvário da ascensão social. Logo, em algumas gerações, “SE” nos tornarmos um país que leve esclarecimento a todos como em países desenvolvidos, essas igrejas também encolherão.

    Mas ainda, e daí ?
    E daí que eu creio que tem que começar agora uma discussão sim de um meio termo, PORQUE É INEVITÁVEL que com o esclarecimento cada vez maior, a humanidade se perca num vazio de objetivos.
    Darwinismo social, aliado a esse vazio religioso e superpopulação não vai ser uma boa química não.
    E também por enquanto não consigo visualizar que suas propostas, paradigmas, sirvam para TODOS a não ser um punhadinho de ateus muito bem sucedidos e dotados intelectualmente, e que estes paradigmas contemplem uma solução para o desencantamento religioso crescente. (eu pra falar a verdade ainda não pude ve-los por aqui descritos, no meio das críticas ostensivas aos neo-ateus.) Se puder me apontar eu fico grato.

    Abraço

    • Doug,

      Gostei de suas observações, mesmo que dentro delas, exista um raciocínio falacioso. Mesmo assim, eu acho que meu caso contra o humanismo (e, em consequência, contra o esquerdismo, e até mesmo contra alguns da direita que, em duplipensar, adotem variações inspiradas no humanismo, como a visão de Fukuyama para um governo global) começou muito sólido, mas pode ficar ainda mais sólido com o tratamento a todas essas objeções, incluindo as suas.

      Farei isso em maior detalhe em uma série de posts, onde tratarei também as questões do Felipe Rangel, que escreveu à pouco.

      Uma coisa: esta ideia de “eu me questiono mais, por ser humanista” não é um fato, mas uma propaganda em muitos casos enganosa. Eu fiz a teoria da cadela manca exatamente por isso: http://lucianoayan.com/2012/02/29/qual-a-semelhanca-entre-uma-cadelinha-manca-e-neo-ateus-que-dizem-que-sao-da-razao-ou-da-ciencia/

      Note que não estou te chamando de “mentiroso à partida”, mas sim de alguém que tem alguma reações, que refletem-se em eventos no mundo, e outras pessoas reagem a esses eventos (lhe dando “afagos” emocionais), e vc “sente” esses afagos como bons, por isso continua com isso. Mas a leitura de livros até pop com o “You’re not so smart” podem lhe dizer mais detalhes: http://www.amazon.com/You-Are-Not-Smart-ebook/dp/B0052RE5MU/ref=sr_1_2?ie=UTF8&qid=1359825503&sr=8-2&keywords=you+are+not+so+smart

      Eu já tratei esse complexo de super-herói em um post: http://lucianoayan.com/2010/07/08/kick-ass-e-a-mentalidade-revolucionaria/

      Em termos de “religião”, eu não disse que humanismo é uma religião tradicional, mas, ao invés disso, uma religião política. Eric Voegelin já tratou do assunto, e autores como John Gray e Olavo de Carvalho deram sequência: http://lucianoayan.com/2013/02/01/eric-voegelin-o-filosofo-da-consciencia/

      Tanto o comunismo como humanismo em si são de fato interpretações extrapoladas da crença cristã, e a obra de John Gray nos diz isso em mais detalhes.

      Você diz que eu não “provei no que o humanismo vai dar no que eu disse que vai dar”, mas para isso basta eu citar a história. Todos os genocídios do século XX foram baseados neste discurso. Na verdade, a mania vem desde a Revolução Francesa. O truque é simples:
      1. Ao invés de reconhecer o homem como ele é, com suas contingências naturais, finge-se que ele é perfectível (Rousseau)
      2. Se é perfectível, mas ainda assim existem males na sociedade, define-se um grupo causador destes males (burgueses, no caso do comunismo, judeus, no caso do nazismo, todos os religiosos, no caso dos humanistas extremistas neo-ateus)
      3. Após convencer a patuleia disso, usa-se uma série de rótulos positivos (técnica de propaganda: Palavras Virtuosas, para as quais farei o verbete ainda hoje), para o seu grupo, dizendo-se como “sou da ciência”, “sou da razão”, “sou do bem comum”
      4. A combinação das palavras virtuosas para o seu grupo, e a demonização/desumanização do oponente, passa a servir como instrumento para consolidação do poder

      Governos que chegam lá pelo uso deste discurso, tendem a consolidar poder totalitário mais fácil (até pq o próprio discurso é totalitário), e genocídios são apenas uma consequência da conquista de poder totalitário.

      Se você diz que há um esvaziamento das igrejas católicas (mas ao mesmo tempo tem surgido um aumento das igrejas evangélicas, que você espera que vá diminuir, mas veremos…), isso ocorre por que foi lançado sobre a igreja um descrédito. Mas assim como foi feito com a Igreja Católica, pode ser feito contra os humanistas também. O fato é que, se os truques dos humanistas forem demonstrados (como é fácil fazer) como truques que são, qual o efeito destes truques?

      Ou seja, se os humanistas “esclareceram” as pessoas de que a religião tradicional é frágil e não fornece as respostas, cabe agora aos anti-humanistas virem com uma segunda onda de esclarecimento (este é o novo iluminismo), no qual aquela avalanche de críticas e contestações à religião revelada deve ser lançada à religião política também. Em suma, do lado dos humanistas deve acabar a moleza: tem que ir para a arena também.

      Minha ação só seria injustificada caso a SOLUÇÃO FINAL fosse o “humanismo”, mas, como a história nos mostra, é uma solução perigosíssima em termos sociais, um veículo perfeito para indivíduos sedentos de sangue saciarem sua sede. É uma doutrina inteiramente baseada em apelo à autoridade. Quer dizer, se o problema é de superpopulação, não vai ser uma boa química termos uma cultura humanista de criação de bodes expiatórios. Com o discurso humanista, pode-se facilmente justificar o extermínio de um continente inteiro, tornando isso um “ato moral”. Por isso, a questão de que o humanismo é a piscina mais perigosa de todas.

      Quanto às minhas propostas: elas servem para QUALQUER UM que duvide de pessoas que se baseiem em APELO À AUTORIDADE INJUSTIFICADO. Como o humanismo só serve para isso, é uma vítima fácil de meus questionamentos. Mas se surgir um líder de direita usando os mesmos truques do humanismo, você pode usar meu método para questioná-lo também.

      Se você quer “a solução” que eu trago, ou a “religião” que deve ficar no lugar das religiões tradicionais (se é que é preciso substitui-las), esse não é o meu trabalho. Meu trabalho é questionar os fraudadores, e é nesse ponto que eu faço a demolição do humanismo.

      Foi por isso que criei meu paradigma de ceticismo político, e, posteriormente, defini a tese do duelo cético.

      Abs,

      LH

  2. Luciano, algumas dúvidas:

    1) Exatamente o que na teoria darwinista atesta para a incapacidade humana de superar suas contingências? Gostaria de detalhes nesse ponto.

    2) Como transmitir a ideia em (1) durante um debate? Por mais que o argumentador tenha razão e esteja desferindo, em teoria, um golpe mortal no adversário humanista, me parece problemático convencer a platéia de que ideais como “paraíso em terra” e “governo perfeitamente justo e altruísta” não passam de fantasias. O ouvinte comum certamente resistirá a essa quebra de ingenuidades, o que dá excelentes brechas para o humanista rotular o adversário de “imoral” e afins.

    Abraço.

  3. Estou discutindo com um cara no facebook onde você postou essa matéria.
    Ele fala que você não é ateu, disse que um ateu não gosta de religiões.

    hahahaha
    Mesmo eu dizendo que existem religiões com ateus, como algumas vertentes do budismo, mesmo eu dizendo que para ser ateu basta não acreditar em divindades, ele continua nessa ideia.

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