Tentativas de refutar os estudos deste blog sobre os perigos do humanismo se tornam humor involuntário… divirtam-se

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O texto “A piscina perigosa do humanismo” já gerou seus frutos. Geralmente, isto reside na revolta de alguns humanistas. No Facebook, dois deles lançaram um sem-número de truques para tentar capitalizar um pouco. Uma pena que eles estavam diante de alguém que criou um framework de ceticismo político, que se tornou ainda mais sólido depois da seguinte associação em cadeia: estratégia -> agenda -> rotinas ->  técnicas de propaganda -> alegações. (Antes eu não havia mapeado as técnicas de propaganda, e, como já disse, conhecê-las torna o rastreamento de fraudes muito mais rápido e intuitivo)

Isto significa que, no contexto do debate político, a partir do momento em que conhecemos a agenda de um dos lados da guerra política, basta deixarmos as verbalizações do lado de lá ocorrerem, entender qual item da agenda está sendo implementado, através de quais rotinas, as quais embutem uma ou mais técnicas de propaganda, usando para isso alegações mais ou menos complexas. Depois é só usar o guia de falácias, encontrar as fraudes, e expor ao público. Sim, refutar o humanismo e o esquerdismo não é nada mais do que isso.

Vamos a alguns truques:

1.    Luciano Ayan é um falso ateu, pois ao atacar o humanismo, defende a religião tradicional (by Peterson)

Os truques de propaganda aqui são simples: envolvem tanto o uso de palavras virtuosas (Peterson seria um verdadeiro ateu, contra os falsos) como rotulagem (do oponente, como inimigo dos ateus, mesmo que este seja um ateu). A agenda é simples: Peterson quer se impor como o “representante dos ateus”, de forma a legitimar tudo o que ele disser para o público ateu. As rotinas podem ser vistas aqui: 1, 2 e 3. Como se vê, todas fraudulentas.

As “provas” que ele apresentou a seu favor são todas patéticas. Segundo ele, é injustificável que um ateu ataque tanto os “ateus”. O problema é que eu não ataco os ateus, mas sim os neo-ateus, e a religião política como um todo. Esse tipo de mentira será propagada por ele em ritmo bate-estaca, pois sua propaganda depende disto. Em um lance desesperado, Peterson disse: “Ok, só que eu não acredito que você seja ateu”, em uma ridícula falácia da credulidade/incredulidade pessoal. Exemplo: “X não é válido, pois eu não acredito que X seja válido”.

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Vamos aos fatos: ser um ateu, e defensor do estado laico, não implica em ter que defender a religião política. Pelo contrário, se um ateu não-humanista já entendeu os riscos da teocracia, então deve se precaver ainda mais dos riscos do humanismo, por suas tendências totalitárias. O abandono da religião tradicional não deve implicar em uma nova religião, mas na rejeição de todas elas. Logo, não há um argumento plausível para definir que um ateu obrigatoriamente deva abraçar a religião política. Vai aí pelo ralo o “caso” do neo-ateu Peterson na ideia de que um ateu não pode atacar a religião política.

2.    Não é justo chamar o humanismo de religião política, pois não é religião (by Peterson)

Aqui o truque é puramente semântico. Quando eu critico a religião política, estou criticando um tipo específico de religião, que é bem diferente da religião tradicional. Logo, não estou dizendo que a religião política é exatamente igual à religião tradicional, mas, pelo contrário, mesmo que tenha vários componentes da religião tradicional, é ainda mais perigosa por usar todos os componentes de fé não comprovada para ações que vão muito além de metáforas sobre auto-iluminação. A religião política, ao invés de falar de mudanças interiores no crente, fala de mudanças sociais, as quais, pelo seu tom totalitário, são perigosas. Portanto, não faz sentido dizer que religião política é religião no mesmo sentido das religiões tradicionais, mas sim que religião política é uma cosmovisão que transfere coisas como crença em Deus para crença no homem (estado inchado, governos totalitários, etc.), e por este motivo, juntamente com outros motivos, é extremamente perigosa e deve ser combatida. A religião política não precisa da crença em Deus, mas sim da crença no homem. Somente a religião tradicional precisa de crença em Deus.

Peterson tenta o mesmo truque de fingir que alguém que está criticando os neo-ateus está criticando “os ateus”, para fingir que alguém que está criticando a religião política está dizendo que “humanismo é religião, igual cristianismo”. A estratégia aqui é a tradicional simulação de falso entendimento.

3.    É justo atacar apenas a religião tradicional, pois os membros da religião tradicional assumem sua visão como “a correta”(by Peterson)

Esta rotina já foi mapeada como falsa, aqui mesmo. É esta: O problema dos religiosos é que eles assumem sua visão com certa, mesmo sem evidências.

O fato é que o ser humano aceita sua visão de mundo com “a correta”. Mesmo assim, devemos lutar por um mundo secular e laico, no qual as pessoas que não compartilham de uma fé consigam ter seus direitos respeitados. A isso chamo de secularismo, que é bem diferente do humanismo. Humanismo é uma religião política, que quer se impor sobre as outras e obrigar os outros a seguir seus dogmas ridículos, e claramente devemos questioná-los. De fato, encontramos alguns religiosos tradicionais que não aceitam pessoas de visão oposta como dignas de direitos humanos, mas o secularismo (não o humanismo), já tem argumentos contra isso. Em relação a esse tipo de intolerância, o humanismo é muito pior. Por isso o secularismo deve se afastar do humanismo mais até do que se afasta da religião tradicional.

Peterson trouxe a visão de que adotava um “panenteísmo científico”, e que, portanto, isso o qualificava, através da técnica de propaganda das palavras virtuosas, como “melhor que os religiosos tradicionais”. Mas é pura bobagem, pois é fácil psicologicamente para um não-teísta colocar Deus como uma hipótese científica, portanto o tal “panenteísmo científico” não significa nada em favor de prová-lo como mais “científico” que os teístas – aliás, tratar de um tema não-científico fingindo que ele é científico é uma postura completamente pseudo-científica, diga-se, de passagem. Para validar esta abordagem (a de que Peterson é mais “científico” que seus oponentes teístas pelo fato de colocar Deus como hipótese científica), teríamos que provar que, em questões que envolvem crenças de valor fundamental (para ele), Peterson adotaria o método científico também. Mas a própria crença humanista, de que o ser humano pode mudar suas contingências, não é científica, e, se aceitarmos como premissa tudo aquilo que a ciência tem a nos dizer, todo o empreendimento dele de “salvação do mundo pelo fim da religião” perde o sentido.

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Como se vê, quando é para tratar a sua crença de valor fundamental (a crença no homem, enfiada goela abaixo dele pelo humanismo), ele foge da ciência como o diabo da cruz. Quem já leu The Righteous Mind, de Jonathan Haidt, sabe que este comportamento de Peterson é ultra-previsível.

4.    A ressurreição de Cristo deve ser tratada como teoria científica (by Peterson)

Se este é o tal “panenteísmo científico” que ele promove, dá para notar que Peterson não sabe nada de ciência. A ciência não diz o que pode ou não acontecer, mas, dentro de um escopo definido de análise, elabora modelos preditivos, com maior ou menor grau de confiabilidade do que outros.

Vamos a um exemplo: suponhamos que uma espécie não possa ser julgada junto com as outras, por não estar de acordo com as expectativas da teoria da evolução, e não possuir uma linhagem que a conecte com as demais. O que pode ter acontecido? Será que os engenheiros, conforme o filme Prometheus, não criaram essa espécie para ficar por aqui durante um tempo para uma experimentação?

Isto foge de toda e qualquer teoria científica que temos. E qual o problema? As leis e teorias científicas não foram feitas para determinar o que pode ou não acontecer, mas sim para explicar, diante de um escopo restrito de análise, eventos do mundo que podem ser colocados dentro de um modelo.

A ciência não serve para dizer se um milagre pode ter ou não ocorrido há 2.000 anos. A ciência não diz sequer que suas leis e teorias não podem ser violadas, mas sim que, se forem violadas, outros modelos explicativos devem surgir para termos uma explicação científica, mas nem sequer isso serve para dizer que “evento X não pode ter acontecido”.

Usar uma variação de “panenteísmo científico” para tentar tornar sua cosmovisão mais científica é também mais um truque psicológico do que uma avaliação dos fatos, das crenças e do mundo que nos rodeia. E nem se prova a si própria como científica.

Se eu, como ateu, reneguei as cosmovisões teístas, faço o mesmo com o “panenteísmo científico” de Berkeley, que de científico não tem nada, pois nesta altura do campeonato, tentar ganhar o jogo com deturpação do que é ciência não tem nada a nos acrescentar em termos de conhecimento científico. Pelo contrário, só traz prejuízo à ciência. Deixemos a ciência para os cientistas sérios, e não para um bando de picaretas desonestos que ficam mentindo dizendo que “representam a ciência” somente para capitalização política ao mesmo tempo em que não tem nada a nos acrescentar em produção científica de verdade.

5.    O problema de Luciano Ayan é que ele é parcial, mas eu não (by Peterson)

O quinto estratagema nesta primeira sequência de Peterson é nada mais nada menos que o truque de simulação de imparcialidade, no qual ele tenta fingir que seu oponente não é imparcial, mas ele sim.

Para tentar convencer a plateia de que é imparcial, ele citou o exemplo de alguns juízes, que “conseguem ser imparciais”. Daí o argumento é mais ou menos assim:

  • A imparcialidade existe
  • Eu digo que sou imparcial, mas meu oponente não
  • Logo, eu sou imparcial, e meu oponente não

Não é preciso estudar muita lógica para ver o quanto é falacioso o raciocínio acima.

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Aliás, realmente a imparcialidade existe, mas eu expliquei a ele a impossibilidade de imparcialidade em questões políticas quando temos pessoas de cada um dos lados envolvidas. Este truque dele foi bobinho.

6.    O humanismo não pode ser atacado, pois pelo menos é responsável por nossos direitos sociais (by Luis Filipe)

Essa asserção (outra técnica de propaganda), baseado no argumento do “menor dos males” (para variar, outra técnica de propaganda, para qual farei um verbete logo), surgiu do nada a partir de um outro debatedor, que alegava que devemos ao humanismo coisas como direitos humanos, libertação dos escravos e direito ao voto para as mulheres. Na verdade, isso é mais falso que nota de 3 reais.

A verdade nua e crua é que devemos estas conquistas simplesmente ao ceticismo político (que na época não havia sido mapeado como um método, e o que eu faço neste blog é exatamente este procedimento), mas não só a ele, como também à ação política. Ou seja, afirmações de grupos que diziam que “X não devia ocorrer por Y”, sem apresentar argumentos consistentes para isso, foram contestadas, pois tais afirmações, se aceitas, davam benefício a um grupo/pessoa, em detrimento de outro grupo/pessoa.

Logo, as conquistas sociais devem-se ao questionamento do status quo, e à motivação criada em algumas pessoas a lutarem contra o status quo, mais do que ao humanismo. Não há uma relação lógica que defina a necessidade de se ter humanismo para que o questionamento ao status quo exista.

7.    Este argumento de Luciano Ayan é errado, e o exemplo de Thomas Paine comprova isso, pois ele questionou a autoridade da Igreja, como faz o humanismo hoje, portanto era humanista (by Luis Filipe)

Isto aqui é uma racionalização bem bobinha, que não me refuta, e sem querer  endossa tudo que falei anteriormente.

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O fato é que o humanismo tenta se impor como uma nova religião (no caso, uma religião política, é bom deixar bem claro, mas humanistas fingirão não ter entendido, portanto não fará diferença para eles), que traz um conjunto de dogmas e um caudal absurdo de apelos à autoridade. Tecnicamente, hoje o humanismo faz o que alguns Papas fizeram na época dos monarcas: obtenção do poder, através do apelo à autoridade. (Este poder, é claro, não é para funcionais como Peterson e Luis Filipe, mas para políticos profissionais que usarão este poder; mas funcional não tem direito de escolha, exatamente por isso ele é um “funcional”)

Thomas Paine fez em sua época aquilo que eu faço hoje em relação ao humanismo e ao esquerdismo: questionou os apelos à autoridade lançados por uma parte a qual ele se opunha e que não estava logicamente justificada a fazê-lo.

É claro que o humanismo coloca como um de seus princípios a luta contra a autoridade das religiões reveladas, e contra a moral religiosa, mas esse tipo de questionamento já existia muito antes do humanismo. Na verdade, vem desde o tempo de Pirro e Sexto Empírico. Se o humanismo “acoplou” ao seu pacote de princípios este questionamento, o fez por que isso atendia aos seus objetivos. O problema é que o humanismo tem muitos outros princípios além deste, como por exemplo tentar usar o apelo à autoridade fingindo que “é da ciência”, quando na verdade a renega, ou mesmo dizer que o ser humano é um animal apartado dos outros animais, o que é mais uma ficção que eles criaram para capitalização política do que fatos sobre um mundo empírico.

O questionamento à autoridade moral injustificada, como aquele feito no Iluminismo, independe do humanismo em absolutamente tudo. Na verdade, o humanismo prejudica a conquista de direitos, por dar munição à totalitários, que adoram desrespeitar direitos.

O argumento de Peterson é simplesmente este:

  • Thomas Paine questionou a autoridade da Igreja um dia
  • Hoje em dia os humanistas questionam a autoridade da Igreja
  • Logo, Thomas Paine era um humanista.

Claro que é uma das falácias mais ridículas e patéticas possíveis, pois compartilhar uma característica não faz um objeto ser igual ao outro. É por isso que uma banana tem casca, e uma maçã também tem casca, e o fato de algo ter casca não faz isso automaticamente ser uma banana ou uma maçã só por ter casca.

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É assim, neste nível de erros lógicos inacreditáveis e fraudes intelectuais grotescas, que humanistas tem tentado me refutar, mas não chegam a causar um arranhão sequer no que eu escrevi no post sobre a piscina perigosa do humanismo.

Com defensores deste tipo, nota-se que basta jogarmos os humanistas na arena que eles se complicam com uma facilidade impressionante. Se a religião política não fosse tão perigosa e sanguinária, com certeza serviria como diversão garantida por seu humor involuntário.

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