Entrando na arena: o passo a passo do ceticismo político

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Alguns leitores, especialmente os que conversam comigo no Facebook, sempre me perguntam: “Como eu faço para conseguir refutar os meus oponentes com a facilidade que você faz?”

Antes de sair meu livro, que incluirá um manual para céticos políticos atuarem em um contexto de guerra política, aqui vai um aperitivo: um passo a passo para ir lhe ajudando.

Eis então os passos básicos que todo cético político deve executar.

Passos básicos

  1. Identifique a estratégia oponente
  2. Identifique os itens da agenda a serem tratados
  3. Identifique as rotinas que ele utiliza (as rotulagens também são micro-rotinas, e não se esqueça destas, pois são até mais eficientes em termos de conquista da “mente” da platéia)
  4. Identifique as técnicas de propaganda que ele quer implementar em cada uma das rotinas acima
  5. Para cada técnica de propaganda, isole a alegação contida nela, e “teste” as alegações
  6. Em caso da alegação ser inválida, refute-a, desmascarando o seu oponente em direção à plateia. Neste ato de desmascaramento, não se esqueça de explicar o que está sendo refutado, as fraudes contidas nas alegações, associada às rotinas, com suas técnicas de propaganda, tudo relacionado à quais itens de agenda, os quais estão anexados a uma estratégia.

Material básico:

  • Guia de Falácias
  • Conhecimento do objeto em questão sob debate

Skills e métodos essenciais:

  • Auto-iluminismo
  • Perspectiva do investigador de fraudes
  • Ceticismo de combate
  • Estratégia de guerra
  • Contra-propaganda
  • Perspectiva do triângulo
  • Noção de ampliação do debate

Agora, vejamos como tudo ocorre na prática.

No passo (1), Identifique a estratégia oponente, temos algo que você vai fazer toda vez, naturalmente. Aliás, quanto mais conhecimento prévio você tiver a respeito da estratégia, melhor.

Neste tutorial, vou usar como exemplo a questão do neo-ateísmo, pois eu já tinha lido os livros de 4 autores neo-ateístas antes de adentrar em vários debates com eles. Portanto, a estratégia que implementavam já era manjada por mim. (No livro, omitirei a questão neo-ateísta para definir um modelo mais “universal”)

A cada interação com um neo-ateu, eu identificava a estratégia de forma automática, pois não passava do padrão básico: “Demonizar e ridicularizar a religião, usando todas as técnicas de propaganda possíveis, para retirá-los do debate público”. Então, em termos de estratégia, não há muito mistério.

Usando como base o livro “Deus, um Delírio” (para o qual a refutação completa também será lançada este ano, e de acordo com o framework que estou apresentando aqui), uma refutação completa ao livro pode incluir a menção à estratégia logo na introdução.

Em seguida, vamos ao passo (2), Identificar os itens da agenda. Isto significa entender “o que o oponente quer fazer, de acordo com sua estratégia”.

Avaliando somente o capítulo 1 de “Deus, um Delírio”, aqui estão os itens da agenda: (a) Associar a si mesmo à ciência, (b) Distorcer conceitos sobre ateísmo, teísmo, deísmo e demais para engordar “seu time”, (c) Citar nomes relevantes da ciência para simular que fazem parte de “seu time”, (d) Implementar critérios “estranhos” para sugerir que as difamações que ele fará são legítimas dizendo que “religiosos não aceitam críticas, por isso reclamam dos neo-ateus”.

Como se nota, todos os itens da agenda (a, b, c, d) estão todos “linkados” de alguma forma à estratégia.

No caso da refutação a Dawkins, no início de cada capítulo refutado, eu adiciono os itens da agenda que estou tratando.

Em relação ao passo (3), Identificar as rotinas utilizadas, já vamos para um contexto que você já viu com facilidade em debates virtuais. É o uso das rotinas, de acordo com cada item da agenda acima. Muitos funcionais, durante um debate, não tem a ação planejada como Dawkins tem em seu livro, mesmo assim, ele apreendeu as rotinas, e as utiliza muitas vezes em sequência impressionante.

No caso do livro de Dawkins, as rotinas pululam aos borbotões, e muitas delas foram criadas por Dawkins, e outras são utilizadas a partir de escritos de outros autores, como Bertrand Russell, Robert Ingersoll e daí por diante. Não importa se são rotinas novas ou adaptadas, o processo de identificação das rotinas é o mesmo. Atenção especial para o jogo de rótulos, pois grande parte das rotinas são baseadas em rótulos, e o conhecimento do jogo de rótulos torna a identificação das rotinas relacionadas a rótulos mais ágil. Exemplos de rotinas no capítulo 1 de Dawkins:

Em relação ao passo (4), Identificação das técnicas de propaganda, basta compreender que cada rotina está associada a uma ou mais técnicas de propaganda. Não é exagero dizer que todo o discurso humanista e/ou esquerdista é baseado em propaganda enganosa. É só mapear as técnicas, portanto. O interessante em entender as técnicas de propaganda é que elas atendem a padrões, então as alegações das rotinas serão feitas para atender a estes padrões. O benefício de conhecer as técnicas de propaganda é tornar a refutação muito mais rápida e intuitiva. (Aliás, o mapeamento das técnicas de propaganda “fechou” o conceito do meu framework)

Agora, estamos chegando no momento chave, (5) Isolar e testar as alegações, que é o de “quebrar” todo o conteúdo das rotinas (as rotulagens são uma forma de rotinas, não se esqueça), de acordo com as técnicas de propaganda necessárias para implementar a agenda, em “micro-alegações”, cada uma a ser testada de acordo com sua validade.  Basta, então, “testar” as alegações, e para isso você irá tanto investigar fatos como usar o pleno domínio dos bons guia de falácias que existem por aí. Atenção: eu não estou falando de conhecimento “preliminar”, mas sim um “domínio”. De preferência, adquira uns 2 ou 3 livros sobre o assunto. Eu tenho uns 10 a 12 livros somente sobre o assunto.

O passo (6), Refutar as alegações e desmascarar o oponente, envolve o desmascaramento, perante o público, de todas as fraudes contidas no discurso. O entendimento das técnicas de propaganda irá facilitar sua explicação, pois o rastreamento das técnicas dentro do discurso oponente darão um norte de como explicaremos ao público a estratégia da fraude. Claro que você só deve refutar o que é falso, e deixar pra lá o que não for.

Vamos a um exemplo nesta rotina em específico: Ateus liberais e tradicionais são iguais aos neo-ateus.

Caso você ler o texto que escrevi no link, notará que eu não esqueci de quase nada, pois citei as técnicas de propaganda lá, mesmo que não tenha utilizado seus nomes. Exemplo: A alegação de que deístas e ateus liberais (ao invés de neo-ateus) são iguais a ele (Dawkins), contém um exemplo do uso da técnica de propaganda efeito dominó, onde alguém tenta dizer que seu grupo é maior do que é, como também um exemplo do uso da técnica da transferência, ao tentar obter as sensações positivas relacionadas a estes não-radicais para o grupo radical dele.

Não se preocupe tanto com a associação rotina -> técnica de propaganda -> alegação. Uma rotina pode conter apenas uma alegação, e somente uma técnica de propaganda, como também várias técnicas de propaganda. Não deixe este detalhe te tirar o foco, que é: não deixar nenhuma alegação falsa sem ser refutada, usando o mapeamento das técnicas de propaganda para não esquecer nada do que está na rotina. Se a alegação for igual à rotina, ótimo. Se a rotina tiver mais de uma alegação, tanto melhor.

O que importa é que, neste último passo, você seja capaz de explicar, para a plateia, a fraude (ou o conjunto delas) praticada pelo outro lado (vista nas rotinas, e portanto nas alegações dentro das rotinas), associando-a, caso necessário, aos itens da agenda, e, é claro, à estratégia.

No caso da minha refutação à Dawkins, eu menciono a estratégia logo na introdução, então não preciso ser repetitivo. De qualquer forma, estes 6 passos formam o “molde” de minha forma de ação na refutação de todo e qualquer conteúdo humanista e/ou esquerdista.

Atenção: tudo que eu falei até agora vale tanto para uma refutação formal em formato texto, como para a refutação a um vídeo no YouTube, ou uma resposta no Facebook. A diferença é apenas o nível de agilidade que o meio exige.

Agora, deixe-me falar de alguns “skills”, que você deverá dominar, sendo o primeiro deles o Auto-iluminismo, que é a busca interior de se tornar cada vez menos ingênuo em relação às interações externas. Especialistas em investigação de fraudes tem muito trabalho ao lidar com isso, e este auto-aperfeiçoamento deve ser contínuo. Busque literatura que te tornará cada vez menos ingênuo. Leia o máximo possível sobre dinâmica social e política. Veja minha “mini-biblioteca”.

A perspectiva do investigador de fraudes irá te focar em identificar as agendas (explícitas ou implícitas), e facilitará o teu trabalho na identificação de fraudes. Mas e se o oponente não for um fraudador intencional? Não há problema, pois ele estará transmitindo a fraude divulgada por um outro autor. Caso ele seja realmente alguém honesto, ao ser desmascarado, ele poderá recuar. Neste caso, o diálogo pode ser feito de uma forma dialética, mas isso é muito raro no caso de humanistas e esquerdistas. Portanto, não tenha medo de entrar de sola, pois se o sujeito “comprou” um argumento fraudulento de um autor como Dawkins ou Harris, deve pagar o preço de sua ingenuidade. “Peninha”, no contexto da dinâmica social da guerra política, é coisa para fracos.

O ceticismo de combate te conscientizará da importância de que não apenas a refutação, como também o desmascaramento e a ridicularização do oponente, são necessários. Seus conhecimentos para o embate político ficarão mais “azeitados” caso você conheça tudo que for possível de estratégia de guerra. Até por que o combate ideológico é uma guerra política. Leia Sun Tzu, Maquiavel, Clausewitz e Robert Greene.

Em relação às técnicas de propaganda eu já deixei tudo prontinho e mastigadinho aqui: Propaganda. Mas lembre-se que contra-propaganda não é ilegítima, desde que não seja propaganda enganosa. Se o seu oponente é um mentiroso, isso não implica que você deva sê-lo também. E você terá que usar a contra-propaganda.

Não se esqueça de que a perspectiva do triângulo é um método criado por mim para lhe lembrar de que você não debate para deixar seu oponente mais ou menos chateado, mas sim para dar uma satisfação aos seus e à plateia do debate. Se os seus oponentes ficarem “tristinhos”, problema deles, o que importa é esclarecimento que você dá aos seus e à plateia neutra.

Por fim, não se esqueça de que o debate público não é apenas aquele debate formal que vemos em debates de Oxford, em um palanque, mas sim algo que ocorre em todos os lugares a todo momento, independente de sua vontade de participar ou não. Alguém lançou um vídeo no YouTube? E você respondeu com outro vídeo? Mesmo que o lançador do primeiro vídeo não te assistiu, o “debate público” está ocorrendo em direção a uma platéia. Meu método é feito para o debate público, não importando se estou refutando um livro de Richard Dawkins ou respondendo a uma mensagem no Facebook. (Lembre-se que no último caso você deve ser o mais rápido em sua explicação quanto possível, embora o “mindset” dos 6 passos seja o mesmo, e os skills utilizados também sejam os mesmos)

Enfim, creio que é isso para começarmos.

Para qualquer um interessado no “segredo de meu sucesso” em refutações tão rápidas, que deixam meus oponentes estirados no chão, eu simplesmente uso o framework deste blog. É um passo a passo que, com o tempo, se tornou parte de meu DNA, sendo executado com uma velocidade impressionante. É exatamente como dirigir um carro. Para quem não tem carro automático, deve-se lembrar de um passo a passo dizendo como pisar na embreagem, trocar a marcha, etc. Mas depois de algum tempo isso ocorre de maneira praticamente inconsciente. É assim que já faço, e no começo mesmo que você ainda pense “Será que entendi os itens da agenda dele? Identifiquei as rotinas?”, no futuro isso ficará automático. Aliás, minha base de conhecimento de rotinas pode lhe poupar trabalho: Rotinas neo-ateístas. Em 2014, focarei em criar uma base focada especificamente no esquerdismo, enquanto o ano de 2013 será focada no término do mapeamento de técnicas neo-ateístas/humanistas.

O objetivo deste post foi claro: dizer como eu penso, como ajo e meu método de ação. Agora, meus objetivos são outros: permtir que cada vez mais pessoas possam fazer o que eu faço. Snowball foi um de meus melhores “alunos” (não sei se ele gostará deste termo), e até me contestou algumas vezes. Já vi outros agindo com muito talento no Facebook, que também lêem este blog. Ótimo. Mas ainda acho pouco. Quanto mais fizerem isso, melhor.

O que devo dizer é que confio plenamente que este método (o ceticismo político), se aplicado (de acordo com minha tese do duelo cético) de forma sistemática por um bom número de pessoas, é capaz de abalar o status quo do humanismo e do esquerdismo, hoje o pensamento hegemônico no Ocidente.

Alguns poderiam me perguntar: mas e se os esquerdistas/humanistas usarem o seu método também? Não há esse risco, pois os esquerdistas/humanistas usam um método que não é parecido com o meu, mas é muito amplo também, só que baseado em mentir o máximo que conseguirem. Avaliem as técnicas de propaganda e notem que não há absolutamente nada no discurso deles que não seja propaganda enganosa. Em suma, hoje em dia a direita não tem mais o que perder, mas eles sim. Eles estão como hegemonia. Eles estão na mesma posição da Igreja Católica quando esta se alinhou com os monarcas para sustentar o poder destes. Eles é que podem ser afetados. Nós estamos na posição de sermos franco-atiradores.

O método que defendo é o ceticismo político, e aqui está o método, em um passo a passo para que ele possa ser reproduzido.

Sobraram dúvidas em relação à como aplicar o método? A caixa de comentários, o meu e-mail ou meu perfil do Facebook estão a disposição. O método funcionou para você? Fez alguma adaptação útil? Tem alguma experiência a compartilhar no uso do método? Ótimo.

Que o jogo comece!

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3 COMMENTS

  1. Essa cena das bigas é inacreditável, parece mentira que foi feita em 1959. Imagino esse pessoal fazendo esse filme hoje com os recursos que temos… em tempo, ótimo post.

  2. Luciano você por acaso trabalha na area de T.I? Caso afirmativo, achei fascinante a forma com que você adaptou a terminologia e os conceitos para o embate politico, quando leio seus posts tenho a impressão de estar lendo a documentação de um framework, o que não deixa de ser verdade 🙂

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