Objeção: Ao invés do ceticismo político, a junção do ceticismo purista da velha guarda com o tribunal kantiano não é mais desejável?

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Pirro de Elis

Vamos primeiro à terminologia: o que chamo de ceticismo purista da velha guarda vem desde os tempos de Pirro.

Pirro reconhecia que qualquer alegação poderia ser colocada sob disputa diante de argumento igualmente válidos. Isso o levou à noção de que não podíamos conhecer a própria natureza das coisas, sendo eternos escravos de julgamentos subjetivos. Dizia Pirro:

O caminho do sábio, é perguntar-se três questões. Primeiro deve perguntar o que são as coisas e de que são constituídas. Segundo, como estamos relacionados a estas. Terceiro, perguntar qual deve ser nossa atitude em relação a elas. Sobre o que as coisas são, podemos apenas responder que não sabemos nada. Sabemos apenas de sua aparência, mas somos ignorantes de sua substância íntima. A mesma coisa aparece diferentemente a diferentes pessoas, e assim é impossível saber qual opinião é a correta. A diversidade de opiniões entre os sábios, como entre os leigos, prova isso. A cada afirmação pode-se contrapor outra contraditória, mas com base igualmente boa, e qualquer que seja minha opinião, a opinião contrária é defendida por alguém que é tão inteligente e competente para julgar quanto eu. Podemos ter opiniões, mas certeza e conhecimento são impossíveis. Daí nossa atitude frente às coisas (a terceira pergunta) deve ser a completa suspensão do julgamento. Não podemos ter certeza de nada, mesmo as afirmações mais triviais.

Para Pirro, sendo que a coisa em si (como trataria futuramente Kant) não pudesse de fato ser conhecida, o animal humano deveria criar uma atitude de suspensão intelectual, onde nenhuma afirmação pode ser considerada melhor que a outra. O resultado seria a ataraxia (despreocupação), que tem muito a ver com o paradigma do agnosticismo de Thomas Huxley mas até mais ainda com o neo-agnosticismo de Robert Anton Wilson. Em outras palavras: provar a existência de Deus ou desprová-la deixaria de ser algo com que nós nos preocuparíamos, e deixando “a coisa rolar”.

Pirro viveu até os 90 anos de idade, e sempre se precavia de perigos, o que nos mostra que seu ceticismo era, na verdade, relacionado às questões que não impactavam o seu interesse pessoal. Ou seja, se um tigre estivesse do lado de fora de sua cabana, ele não iria “suspender o juízo” a respeito da existência ou não de um tigre lá fora. Senão, teria morrido muito cedo.

Seja lá como for, desde os tempos de Pirro virou um costume da filosofia “cética” dizer como nós deveríamos encarar a realidade. Por outro lado, cada vez mais a psicologia evolutiva e a dinâmica social nos dizem como de fato encaramos o mundo que nos rodeia e como nós formamos nossas crenças.

Os seres humanos em geral, incluindo cientistas e intelectuais, não fazem a “suspensão de juízo”, mas, ao contrário, assumem suas ideias com base em seus interesses pessoais, além de todos estarem limitados por suas armadilhas mentais. Ao mesmo tempo em que as pessoas são influenciadas por essas armadilhas mentais (que geram as vulnerabilidades, pelas quais propagandas e falácias surtem efeito), estas também possuem interesses.

Um exemplo claro é o de uma negociação, onde existem informações a respeito do desempenho de fato a respeito de um produto sob discussão. O vendedor vai ignorar informações que prejudiquem o valor do produto, enquanto um comprador vai ressaltar possíveis defeitos. Isto é, o vendedor quer o seu produto valorizado o máximo possível, pois isso aumentará sua comissão, enquanto o comprador quer desvalorizar o produto o máximo possível, pois isso aumentará seu desconto. Ambos buscam seus benefícios pessoais.

Voltemos à objeção inicial: “Ao invés do ceticismo político, a junção do ceticismo purista da velha guarda com o tribunal kantiano não é mais desejável?”.

Antes de responder à essa questão, deixemos claro que o “ceticismo purista da velha guarda” não foi praticado nem pelo próprio Pirro que, em questões de seu interesse, tomava partido conforme necessário. E, se ele vivesse hoje em dia e fosse um vendedor, isso muito provavelmente não o faria “suspender o juízo” e deixar de atribuir um valor alto ao produto que ele estivesse vendendo.

Mas, ainda assim, não seria interessante que em algumas situações, o ser humano conseguisse superar suas contingências naturais (auto-interesse sendo a principal dessas contingências) para realmente chegar ao estado de ataraxia em muitas questões?

Também devemos lembrar que o fato de algo ser desejável não implica que esse algo seja verdade e nem que vá acontecer. Portanto, essa objeção é o mesmo que questionar: “Não seria interessante se nós não morrêssemos?” ou mesmo “Não seria interessante se nós não tivéssemos jogos políticos nas empresas?” ou até “Não seria interessante que nós conseguíssemos superar nossas emoções ao fazer julgamentos?”. Embora eu não respondesse “sim” automaticamente para todas essas questões (pois para isso teríamos que fazer uma análise das consequências e os efeitos colaterais resultantes), em alguns casos a tendência é responder afirmativamente. Só que, novamente para não deixar dúvidas, mesmo que algo seja desejável isso não implica em que devamos esperar que isso ocorra inexoravelmente ou mesmo que já ocorre (sem termos provas de que de fato ocorre).

Além de questões metafísicas, questões ideológicas também poderiam se acomodar com a filosofia de Pirro. Junto com uma perspectiva empírica, poderíamos “aguardar” até termos informações para a tomada de decisão objetiva (sustentadas pelo tribunal mental proposto por Kant), no qual teríamos as decisões corretas garantidas tanto pelo ceticismo pirrônico, até um certo ponto, quanto pela legislação do tribunal mental kantiano, quando tivermos dados para sustentar essas decisões objetivas. Em suma, o ceticismo de suspensão de juízo, junto com a tomada de decisões objetivas (conforme possível), criaria o melhor dos mundos e estabeleceria o principado da razão.

Mas a verdade é que a história da política sempre nos mostrou exatamente o oposto. Mesmo os alegadores tanto da representação do ceticismo como da razão kantiana não raro eram pegos cometendo falácias e fraudes intelectuais. Mesmo que o ceticismo purista e o tribunal kantiano sejam coisas desejáveis, não temos evidências de que ambos ocorram conforme seus proponentes alegavam que iria ocorrer. E, enquanto isso, os seus proponentes capitalizavam politicamente fazendo os outros acreditarem que eles agiam conforme declaravam. O problema é que tanto o ceticismo purista (ou mesmo o posterior ceticismo “científico”) como o paradigma do tribunal mental kantiano eram apenas alegações sobre planos mentais.

Por isso, mesmo que existam componentes desejáveis no discurso (o ceticismo purista e o tribunal mental kantiano), o mero fato de alguém alegar ter estes componentes não serve para provar, por si só, que estes componentes existem na mente e no comportamento daquele que alegou possui-los. Enfim, o papo é reto: não podemos acreditar na auto-validação humana, mesmo que este componente auto-alegado como existente fosse desejável. Acreditar que algo vá ocorrer apenas por que desejamos que isso vá ocorrer não passa da falácia da esperança (wishful thinking).

Por isso, mesmo reconhecendo como boa a esperança em que façamos a “auto-validação”, isso em nada muda o fato de que o ceticismo político é a ferramenta ideal para questionarmos pessoas que alegam possuir o ceticismo purista ou o tribunal kantiano em suas mentes, mas não comprovam, com ações congruentes com o discurso, que esses componentes de fato existam em sua mente.

Isto serve para refutar alguns críticos meus que dizem que, ao propor o ceticismo político, estou “deixando de lado” o ceticismo purista junto com o tribunal mental kantiano (onde alguém mantém sua suspensão de juízo, até ter informações suficientes para tomar decisões somente com base na objetividade, e, é claro, no “bem comum”). Pelo contrário, estou colocando “pressão” naqueles que dizem que existem componentes como o ceticismo purista e o tribunal mental kantiano em suas mentes, ao mesmo tempo em que estou avaliando se o seu comportamento é congruente com aquilo que eles alegaram existir em suas mentes. Resumindo, eu não sou contra os componentes pirrônicos e kantianos, e torço para que eles existam na mente daqueles que alegam possuí-los, e a forma para averiguar se estes componentes existem mesmo na mente deles é o ceticismo político.

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4 COMMENTS

  1. Luciano, achei interessante a sua exposição. Gostaria de saber qual é a sua fonte sobre Pirro, pois a referencia de que ele viveu 90 anos é citada por Diogenes Laertios como vinda de Ainesídemos confirmando a ideia de que ele era um homem precavido e que só exercitava a epoché como atividade filosófica teorética. No entanto ao longo de todo o capitulo 11 do Livro IX das Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres em dez livros do autor supra citado (Diogenes Laertios). Pirro é mencionado como coerente com a sua filosofia. Como eu também não sei o quanto vc é familiarizado com a tese de Pierre Hadot sobre a filosofia como modo de vida e exercício espiritual. fica ainda mais complicado. Penso que, se a fonte de Diogenes Laertios estiver correta e me parece que está pq inclusive nos lembra que Pirro (que era um dos soldados da Campanha de Alexandre, o grande pelo médio oriente) estudou pintura com o filho de Stílpon de Mégara famoso sofista que por sua vez foi aluno de Euclides também de Mégara e fundador da escola dos Megáricos que foi grande adversária de Aristóteles e da filosofia platônica entre o fim do século IV a.c e século III D.C.

    Tendo estudado pintura com o filho de Stílpon provavelmente teve contato com a erística ensinada em Mégara, além da confirmação de Diogenes Laertios do seu contato com os Magos (Persas) e os Ginosofistas (Índia). Muito provavelmente a akatalepsia (o agnosticismo de Pirro) deve ter sido constituido pela formação erística do filósofo, pois a impossibilidade de conhecer o objeto seguindo o racícionio que vc expõe sobre o ceticismo pirrônico é oriundo de uma lógica empregada na erística que retira o objeto referencial de cena (Um bom lugar para ver a diferença entre erística e filosofia é no diálogo Eutidemo de Platão, se vc tiver interesse posso inclusive te indicar um texto sobre as duas lógicas presentes no diálogo). Aristóteles com a teoria da predicação e com o princípio de não contradição faz um esforço para refutar este tipo de lógica erística (ver Livro IV da Metafísica de Aristóteles).

    Então, eu penso que se a fonte Laertiana estiver certa então o seu argumento contra o ceticismo clássico de Pirro fracassa, por isso quero ver suas fontes (pode ser que eu não conheça o material e aprendo algo novo). Sobre Kant como imagino que vc deve saber bem como funciona as antinomias da razão pura na Crítica da razão pura, ela faz uma tese e uma antítese sobre os problemas fundamentais discutidos pelo filósofo alemão. Eu particularmente penso que Kant é mal compreendido pela maioria dos seus leitores, pq muita gente que lê a Crítica da razão pura ignora que o esforço kantiano é tentar enquadrar a metafísica como ciência seguindo o modelo Newtoniano.

    E apesar do tenebroso fim da Crítica da Razão pura com a qual fica patente que só conhecemos fenômenos, na Fundamentação da Metafísica dos costumes e na Crítica da Razão Prática, Kant recupera a liberdade e com ela Deus e a imortalidade da alma ( sabemos o que Nietzsche pensa disso, o chamou de teológo). O que me parece razoavel em Kant é que na Crítica da razão prática ele ao recuperar estas três entidades metafísicas reconhece que a razão dá saltos e que o caráter especulativo da razão precisa ser controlado pelo tribunal da razão, metafóra empregada pelo filósofo de Könisberg.

    A respeito de Kant, eu sou tentado a pensar como Camus em “O homem revoltado” na qual o filósofo francês com muita lucidez nos mostra que o ser humano sempre troca “6” por “meia dúzia” substituindo um sistema metafísico por outro a partir de suas crenças. Apesar de eu não ser ateu e nem agnóstico ou cético, eu sou declaradamente um realista, penso que a intuição caminiana não é equivocada e esta sim poderia nos levar a pensar numa epoché conscientes de que fazemos como diriam os antigos: ” haíresis” isto é, uma escolha de um modo de vida filósofico ou religioso, político.

    Por fim, estas são as minhas considerações, queria mesmo era saber a fonte sobre o pirronismo, já que sou um helenista e o assunto me interessa.

    abraço.

    • Brener,

      Eu não entendi onde eu teria sido refutado na questão sobre o ceticismo pirrônico, pois meu texto é claro ao dizer que: “Por isso, mesmo reconhecendo como boa a esperança em que façamos a “auto-validação”, isso em nada muda o fato de que o ceticismo político é a ferramenta ideal para questionarmos pessoas que alegam possuir o ceticismo purista ou o tribunal kantiano em suas mentes, mas não comprovam, com ações congruentes com o discurso, que esses componentes de fato existam em sua mente.”

      Em suma, quando alguém diz que suspendeu seu juízo, e consegue viver sua vida assim em relação a todas as questões centrais, ainda assim está falando sobre “um componente existente em sua mente”, e podemos questionar se este componente de fato está lá.

      Em relação à idade de Pirro, já vi várias fontes, e duas delas me falam que ele viveu entre 360 a.C. e 270 a.C., o que dá 90 anos. Uma delas é o novo “Livro da Filosofia”. Mas se tiver uma fonte com outra idade para ele, e que refute a minha, vou investigar.

      Em relação a Kant, veja o como você conclui: “eu sou declaradamente um realista, penso que a intuição caminiana não é equivocada e esta sim poderia nos levar a pensar numa epoché conscientes de que fazemos como diriam os antigos: ” haíresis” isto é, uma escolha de um modo de vida filósofico ou religioso, político.”

      Mas é exatamente isso que está sob questionamento diante de meu ceticismo político.

      Enquanto você fala de uma “teoria de como podemos ser”, meu ceticismo investiga se de fato “podemos ser”, ou até mesmo “as pessoas que dizem que são como ‘podemos’ ou ‘devemos’ ser, realmente possuem suas ações congruentes com o que dizem ser’.

      Ai você pode chamar o meu ceticismo até de meta-ceticismo. 😉

      Abs,

      LH

      • Luciano,

        A minha fonte confirma a sua a respeito da idade de Pirro, pelo que vi sua citação vem de um manua de filosofia, a minha fonte é primária, isto é, é uma obra datada do séc III d.c, pelo sei é a fonte mais antiga sobre as escolas do periodo helenistíco, pois como já havia dito as obras destes autores em sua maioria se perderam com o tempo. A citação de Diogenes Laertios em questão é: “Sua vida foi coerente com a sua doutrina: o filósofo não saía do seu caminho por coisa alguma e não tomava qualquer precaução; ao contrário, mostrava-se indiferente em face de todos os perigos que se lhe deparavam, fossem eles carros, precipícios ou cães, nada deixando ao arbitrio dos sentidos. Mas, de acordo com o testemunho de Antígonos de Caristos, eram os amigos, seus acompanhantes habituais, que o salvavam dos perigos. Ainesídemos, entretanto, afirma que na filosofia Pírro aplicava o princípio da suspensão do juízo, porém na vida cotidiana não lhe faltava precaução. Pírro viveu até os noventa anos.” (Diogenes Laertios, Vidas e doutrinas dos filósofos Ilustres IX,11,62) Esta é a passagem à que me referia quando te falava. Não questionei a idade de Pírro e sim a possibilidade de ele ter sido coerente ou não com o seu filosofar, já que Ainesídemos é o único citado por Laertios sobre a sua não coerencia, entendeu? No mais achei o seu texto bem interessante, muito articulado e tal não fiz objeções ao seu “meta-ceticismo” apenas a fonte citada por Pirro.

        abraço. Brener.

  2. Há algum tempo atrás, eu achava que pessoas podiam ser imparciais e em busca da “verdade”…
    A verdade é que… a maioria das pessoas que defendem com unhas e dentes uma coisa em busca da tal “verdade” nada mais é que um auto-interesse naquilo que ele crê no mais profundo… Ultimamente a ciência está em duas vertentes: a bem conhecida ciência das teorias e a pouco conhecida (até mesmo no meio acadêmico) e desprezada ciência dos fatos que é tudo (é muita coisa mesmo) que não se encaixa nas teorias e são descartadas, e isso ao meu ver teria impulsionado a ciência a grande passos largos, como no tempo de max planck, bhor, einsten… entre outros…

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