Técnica de propaganda: Uso de historias pessoais tristes

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Última atualização: 15 de fevereiro de 2013 – [Índice de Propaganda][Página Principal]

Esta técnica deve ser utilizada com cuidado, pois em muitos casos a sensação de tristeza causada no público pode ter um efeito negativo. Em publicidade de produtos, este recurso é raramente utilizado. Em estratégias para motivação à guerra, é utilizado de forma breve. Mas são os ideólogos populares e políticos que fazem uso do truque de forma mais talentosa.

Veja um exemplo retirado do livro O Mundo Assombrado pelos Demônios, de Carl Sagan:

Meus pais morreram há anos. Eu era muito ligado a eles. Ainda sinto uma saudade terrível. Sei que sempre sentirei. Desejo acreditar que sua essência, suas personalidades, o que eu tanto amava neles, ainda existe . Real e verdadeiramente. Em algum lugar. Não pediria muito, apenas cinco ou dez minutos por ano, para lhes contar sobre os netos, pô-los ao corrente das últimas novidades, lembrar-lhes que eu os amo. Uma parte minha, por mais infantil que pareça, se pergunta como é que estarão: “Está tudo bem?”, desejo perguntar. As últimas palavras que me vi dizendo a meu pai, na hora de sua morte, foram: “Tome cuidado”.

Agora observem um trecho de Deus, um Delírio, de Richard Dawkins:

Depois de ler Deus, um delírio, o dr. David Ashton, um médico britânico, escreveu-me contando da morte inesperada, no Natal de 2006, de seu adorado filho Luke, de dezessete anos. Pouco antes, os dois haviam conversado elogiando a entidade sem fins lucrativos que estou montando para incentivar a razão e a ciência. No enterro de Luke, na ilha de Man, seu pai sugeriu à congregação que, se alguém quisesse fazer algum tipo de contribuição em memória do filho, deveria enviá-la a minha fundação, como Luke gostaria. Os trinta cheques recebidos somaram mais de 2 mil libras, incluindo mais de seiscentas libras arrecadadas num evento no público local. O garoto era obviamente muito querido. Quando li o livreto da cerimônia fúnebre, chorei, literalmente, embora não conhecesse Luke, e pedi permissão para reproduzi-lo no RichardDawkins.net. Um gaitista solitário tocou o lamento local “Ellen Vallin”. Dois amigos fizeram discursos de homenagem, e o dr. Ashton recitou o belo poema “Fern Hill” [“Monte das samambaias”] (“Era eu jovem e tranqüilo, debaixo das macieiras”* — que evoca tão dolorosamente a juventude perdida). E então, e tenho de respirar fundo para contar, ele leu as primeiras linhas de meu Desvendando o arco-íris, linhas que havia tempos eu tinha separado para o meu próprio enterro.

Se você reparou bem nas duas citações, poderá identificar o componente em comum a elas: o uso de historinhas pessoais tristes, relacionadas de uma forma ou de outra com o propagandista (no caso, alguém vendendo a si próprio ou a sua causa, ao leitor). Tecnicamente, é uma variação da chantagem emocional.

O objetivo é simples: tentar obter uma identificação com o receptor da propaganda, pois alguém que tem histórias tristes em sua vida, e se emociona ao contá-las, é alguém “com sentimentos”. Essa sensação tende a provocar empatia nos leitores incautos. São “incautos” pois quem prestar bem atenção no conteúdo dos dois livros citados, verá que eles são promoções de causas cientificistas, e, portanto, a citação de historinhas pessoais de “morte de familiares” ou “morte de um leitor” não tem absolutamente nada a ver com o escopo do assunto tratado. Fica claro que são inserções para obter o efeito emocional.

Não é muito diferente da seguinte cena de um antigo filme dos Trapalhões:

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10 COMMENTS

  1. Outra técnica muito utilizada , é que quando expõe-se que muitas decisões políticas feitas pela esquerda fazem parte de uma agenda política , é dizer – ” essa ideia de militância não existe ,é uma conspiração barata,pra polarizar a discussão …”

      • Não seria essa história de “essa ideia de militância não existe” algo análogo àquela acusação de “teoria da conspiração” quando alguém mostra algo bem estranho que poucos estão noticiando, apenas mudando o alvo (“militância não existe” quando o sujeito é o acusado, “teoria da conspiração” quando é quem acusa)? De repente, é técnica de duas mãos.

  2. (OFF) Luciano, dá uma olhada nos comments dos vídeos do Pizzaria Brasil(vlogger do youtube) sobre o ateísmo militante. Ele(o vlogger) é pouco incisivo e mau debatedor, só que fez um bom trabalho em levantar a rage da galera rs . A quantidade de pérolas por parte dos neo-ateus reclamando naquele espaço é astronômica. Não sei se você já chegou a mapear/comentar tais rotinas, mas aí vão algumas pérolas de base: ”os anti militância dizem que ateu bom é ateu calado e são contra nossa liberdade de expressão”, e uma solta pelo ”wingman” Maestro Bogs (coloquei o comment numa forma resumida): ”você está reclamando de gente que luta contra o preconceito, que luta contra fanáticos que espancam e oprimem seus filhos por causa de preconceito, que quer interferir no estado e no aspecto público de toda a nação…”. Ou seja: pode fazer merda porquê tem precedentes.

    • Olha Valdir, a maioria destes pontos pode ser rastreado a técnicas de propaganda.

      Nesta página, estou criando aos poucos verbetes para cerca de 100 técnicas, que eles usam. Aí aos poucos vou encaixando estes exemplos nas técnicas.

      http://lucianoayan.com/propaganda/

      Mas é bem isso aí: aos poucos começa a ficar fácil mapear os truques contidos no discurso deles, e podemos notar que em muitos casos eles não passam de propagadores de rotinas que implementam técnicas de propaganda, e estas rotinas geralmente foram criadas por alguém mais inteligente que a maioria absoluta deles.

      Valeu pelas dicas de exemplos, tratarei vários deles ainda a frente por aqui.

      Abs,

      LH

      • Valeu pela atenção , Luciano.
        A propósito , esqueci de mandar e agora recomendo também ( e fortemente) esse vídeo relativamente antigo de um dos militantes relacionados ao ”conexão ateísmo” no youtube. Fala extamente do memso assunto: ateus/agnósticos/descrentes que se opõem à militância atéista como está hoje(grupo que inclui eu,você e vários outros.).
        Dá pra dissecar um sem número de rotinas aí.Prato cheio pra você rs

  3. Huahuahuahuahauha… essa dos trapalhões foi foda!

    Quem usa de sentimentalismo para a manipulação emocional do público é suspeito de imoralidade.

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