As mulheres e os cafajestes: armadilhas mentais, truques e rotinas, e o que tudo isso tem a ver com o ceticismo político?

2
132

cafajeste

Uma vez me fizeram a pergunta: “A revelação contínua de truques de um determinado grupo não criará mais pessoas aptas a realizarem truques?”

A resposta é sim, mas ao mesmo tempo teremos mais pessoas aptas a se precaverem destes mesmos truques. Seja lá como for, meu paradigma de auto-iluminismo (onde as pessoas são orientadas a aprenderem cada vez mais os truques implementados pelos outros, e que limitam seu acesso à realidade), junto com o ceticismo político e o duelo cético (onde a obrigação de questionamento aos truques do oponente é nossa, ao invés do oponente), mostra que não sabermos estes truques sempre é benéfico ao nosso oponente, em detrimento de nosso grupo, ou de nós mesmos.

Embora eu reconheça a incerteza das consequências dos meus paradigmas, uma certeza ao menos é possível ter: se não conhecermos os truques que nossos oponentes tem usado contra nós, e não nos conscientizarmos da natureza destes truques, assim como entendermos como podemos reagir a eles, perderemos sempre. A lógica vem da Segurança da Informação: a ignorância em relação aos crackers de sistemas, só tem a beneficiar aos crackers. Você, enquanto ignorante, sairá perdendo sempre.

Por isso, tenho a consciência de que estou moralmente justificado a escrever textos que revelem truques, estratagemas e rotinas, utilizados por um dos lados da guerra política. Se meus adversários encontrarem truques, estratagemas e rotinas em meu discurso, ótimo, que façam o mapeamento também. Eu definitivamente joguei a m… no ventilador com o meu método. (Aliás, depois de meu método, tenho buscado estruturar cada vez melhor minha abordagem, responder cada vez mais objeções, e até abandonar pontos que eram inviáveis… Isso pode ser explicado também pela tese do duelo cético)

Sendo assim, vou tratar de 3 termos que geralmente causam incômodo em alguns, mas não pararei de utilizá-los. Pelo contrário, os utilizarei em cada vez mais constãncia. São eles: armadilhas mentais, truques e rotinas.

Para ilustrar o que estes termos significam, vejamos uma matéria do UOL que dá explicações científicas para o fato das mulheres, em geral, terem mais atração por cafajestes.

Um dos leitores, indignado, disse: “E eu que acreditava que o ser humano era racional, capaz se se livrar de seus instintos”. É, acreditou por que quis (ou por que foi induzido a tal), pois a ciência nunca nos levou a ter essas crenças. Deixemos que humanistas e esquerdistas caiam no mesmo delírio, mas já temos condições de saber que a transcendência aos nossos instintos é uma ilusão.

Um pouco mais da matéria, que fala sobre o estudo que visa responder a questão: “As mulheres preferem os cafajestes?”. Leia abaixo:

[…] a professora da Universidade do Texas (EUA) Kristina Durante fez três estudos com mulheres de 18 a 45 anos, durante o período de ovulação delas. A conclusão foi publicada neste ano com o título “Ovulation Leads Women to Perceive Sexy Cads as Good Dads (“Ovulação leva as mulheres a perceberem homens sexy e cafajestes como bons pais”, em tradução livre).  O resultado surpreendeu até a pós-doutora em psicologia social: todas essas mulheres, independentemente da idade, se sentiram mais atraídas aos homens “cafajestes” durante a ovulação e atribuíram a eles características de bons pais e parceiros estáveis para toda a vida. A pesquisa também concluiu que, quando se tratava de enxergar os mesmos cafajestes com outras mulheres, a história era outra: as entrevistadas voltavam a vê-los como aventureiros a se evitar. Para piorar a situação dos homens que valorizam a fidelidade e querem ser maridos e pais, a ovulação não causou a mesma mudança nas mulheres em relação a eles.

Mais uma vez, segue abaixo um motivo pelo qual não dá para estudar a dinâmica social sem a psicologia evolutiva. A matéria reconhece que a “culpa” de tudo isso é da evolução:

O que explica a mudança no comportamento durante a ovulação é a genética e a evolução. Segundo Kristina, as características dos cafajestes são ligadas a altos níveis de testosterona, sistema imunológico mais eficaz e, portanto, condições genéticas melhores. “A interpretação para isso é que somos mais atraídas por esses homens porque podemos passar seus bons genes aos nossos filhos. Em centenas de milhares de anos atrás, nossas crianças, se tinham esses sistemas imunológicos mais eficazes, tinham mais probabilidades de sobreviver nas condições ambientais dos nossos ancestrais”, explica a pesquisadora em entrevista ao UOL. A pesquisa considerou apenas as mulheres no período de ovulação, excluindo, portanto, meninas que ainda não entraram na puberdade, que usam métodos contraceptivos que inibem produção de hormônio ou mulheres que passaram da menopausa. Kristina acredita que quando as mulheres não estão ovulando têm uma visão mais realista dos cafajestes.

Aliás, quanto mais jovens, mais as mulheres seriam vulneráveis aos cafajestes:

As mulheres com mais hormônio estrogênio tendem a cair mais facilmente na lábia dos cafajestes, de acordo com Kristina. “Então, se pensarmos nos níveis de estrogênio ao longo da vida, mulheres que são mais férteis, com 20 e poucos anos de idade, mais provavelmente se iludiriam com os cafajestes e sexy. Provavelmente, as mais jovens mostrariam mais esse efeito do que as mais velhas”, diz. E a pesquisadora revela que já foi “vítima” dos hormônios na juventude (e que a experiência pessoal foi um dos fatores que motivaram sua linha de estudo). “Eu já fui uma garota de 20 e poucos anos que esteve com garotos que provavelmente não seriam bons companheiros de longa data. Meus amigos e parentes deviam pensar ‘ele não é um cara legal’, mas quando eu estava junto do meu cafajeste sexy eu o percebia de forma diferente, através de lentes coloridas. Depois, olhando para trás, eu percebia que estava me iludindo”.

Como toda “armadilha mental” (tema do qual falarei daqui a pouco), as pessoas não tem consciência destas vulnerabilidades:

A pesquisadora acredita que o fato de todas as mulheres do estudo terem atribuído aos cafajestes características de bons pais indica um mecanismo criado por elas, sem se darem conta. Seria uma forma de justificar o conflito que sentem por saberem que estão lidando com um homem que não deveriam, mas serem impelidas a ter relações sexuais com ele. “Quando você está ovulando, se sente mais atraída por canalhas, mas, por saber que eles não são do tipo estável, e para se sentir melhor, você pensa que talvez, apenas com você, as coisas sejam diferentes e ele poderia se tornar um bom marido, um bom pai. É uma maneira de  reduzir a ansiedade que sentimos por estarmos atraídas por eles. Pensamos: ‘ele pode não ser tão ruim’”.

Por isso, como diz o psiquiatra Elko Perissinotti, vice-diretor do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, as mulheres preferem, sim, esse tipo de homem, mas não sabem disso:

“É um saber não sabido, mas sendo executado (na fantasia, pelo menos), sobretudo ao sabor da ovulação ou de bebidas alcoólicas. Mas sabemos muito bem que esse é apenas um exercício de genética, hormônios e desejos, porque a cultura bloqueia isso pela lei moral e pela modificação parcial da mente. Assim, o que faríamos de fato é transformado em objeto de desejo”, diz ele.

A antropóloga Mirian Goldenberg, professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), afirma que as mulheres são de fato ludibriadas pelas técnicas de sedução dos cafajestes, mas logo se dão conta do erro e pulam fora. Mais da matéria:

Segundo ela, esses homens são minoria –em sua pesquisa, algo em torno de 7%. E eles jamais se intitulam cafajestes. “Dizem que são poligâmicos por natureza e não podem trair o próprio desejo. Que precisam da sedução, da aventura, da conquista”. O que os diferencia de outros homens, para a pesquisadora, é a capacidade de seduzir e dizer o que as mulheres querem ouvir. No fim das contas, esse cafajeste é malvisto por mulheres e homens, acredita Mirian: “Ele simboliza para os outros homens o fracasso da arte da sedução. Porque se só o cafajeste consegue aquilo que as mulheres querem, a maioria se sente extremamente derrotada. E para as mulheres representa tudo o que ela não quer”.

A parte mais interessante, segundo Mirian, é que os cafajestes aprenderam mais cedo o que as mulheres querem, e portanto, podem demonstrar fidelidade, muitas vezes convencendo-as de que são até mais leais do que os outros homens. Ela diz:

“As mulheres dizem que querem o homem fiel, em primeiro lugar, então elas jamais ficariam com um cafajeste se soubessem que ele é um”.

Ela nos diz que o desprezo das mulheres pela poligamia é apenas cultural, pois o instinto primitivo de nossa espécie é feito para a preservação da espécie com os genes fortes, que seriam propiciados por um macho forte e saudável, e é isso que atesta a pesquisa da Universidade do Texas. Segundo ela, as nossas convenções sociais buscam refrear os desejos animais. Mais a partir dela:

 “Divórcios frequentes e aventuras extraconjugais mostram claramente que não podemos fugir completamente de nossa herança animal poligâmica”.

Uau, barra pesada, não?

Descobrir esse tipo de compenente inerente ao ser humano, entender como ele funciona, e como as relações humanas funcionam diante do conjunto destes componentes. Tudo isso é o que defino como dinâmica social. Dinâmica social, enquanto estudo, significa entender as relações humanas, em todos os seus componentes, não apenas a partir das explicações filosóficas e racionalizações de auto-justificação, mas também a partir de como elas efetivamente se processam, e o motivo pelo qual elas existem. Envolve também entender o quanto é possível ou não nos livrarmos de certos componentes. O quanto esses componentes são intrínsecos à natureza humana?

Agora, vamos transpor tudo isso para o meu método, utilizando os três termos que prometi ilustrar. De novo: armadilhas mentais, truques e rotinas.

No exemplo das mulheres atraídas por cafajestes, a armadilha mental é o instinto (inconsciente, portanto não tão protegido pelo neocórtex como algumas gostariam) para a proteção dos genes fortes, em termos de espécie. A armadilha mental, portanto, é como se fosse uma característica de uma rede de computadores que gera uma vulnerabilidade. Este é mais um motivo pelo qual meu paradigma surgiu a partir da mente de alguém acostumado a investigar fraudes corporativas. Em termos de Segurança de TI, precisamos descobrir as vulnerabilidades, que podem ser exploradas. Assim como existem vulnerabilidades, em redes de computadores, que podem ser exploradas, existem as vulnerabilidades na mente humana. Capazes de serem exploradas por alguém muitas vezes mal intencionado, estas vulnerabilidades atendem pelo nome de armadilha mental.

Segundo a matéria, os cafajestes podem explorar essas “brechas” na mente humana, e daí, a partir de uma série de ações, obter o desejo das mulheres. Claro que um sujeito pode ser cafajeste de forma “natural”, mas em muitos casos isso pode ser um comportamento simulado, a partir de um “nice guy”, de forma a obter um resultado. Esse resultado é obtido a partir da exploração das armadilhas mentais de uma mulher. (Que as feministas não comecem com gritaria, pois eu não estou dizendo que somente as mulheres possuem armadilhas mentais, pois os homens também as possuem. A mente humana é um território fértil de armadilhas mentais, e alguém mal intencionado poderá encontrá-las, como faria um rastreador de brechas de uma rede tencionando invadi-la)

Para exploração destas armadilhas mentais temos os truques. Os sinônimos para truques são ardis, artimanhas, estratagemas, tramóias ou qualquer tipo de manobra para obter um resultado afim. Assim, cada forma de se explorar uma armadilha mental é um truque. Quando vocês me virem utilizar o termo truque, é disto que estou falando.

Os truques são implementados através de pequenos padrões de linguagem, que foram percebidos como úteis através dos tempos. A estas formas específicas de implementar os truques, dou o nome de rotinas. No caso de um mágico, um truque pode ser implementado através de várias rotinas, ou mesmo várias rotinas podem ser usadas em conjunto para implementar um truque. (Aliás, uma rotina, ou um truque, pode estar alinhado com uma ou mais técnicas de propaganda)

Alguém poderia questionar: mas não poderíamos considerar truques e rotinas a mesma coisa? Tecnicamente não haveria problemas, mas como várias rotinas se agrupam para um mesmo objetivo, se conseguirmos um concatenador para estas rotinas, tudo fica mais fácil em termos de criação de uma base de conhecimento de truques e rotinas. Por exemplo, na seção rotinas neo-ateístas, temos várias rotinas que atendem ao mesmo truque: a tentativa de associar o grupo oponente a Hitler. O truque é a falácia Ad Hitlerum. A armadilha mental humana é achar que qualquer associação a Hitler tecnicamente é maléfica, e, portanto, isso se reflete em uma vulnerabilidade em cair em armadilhas que demonizam um grupo através da sugestão da associação (mesmo que inexistente, ou falaciosa) deste grupo com Hitler.

Mas veja quantas rotinas são feitas para isso:

Convenhamos: em termos de organização do pensamente criação de uma taxonomia, tudo fica mais fácil quando temos como mapear as várias formas de executar um truque (as rotinas), ao invés de chamar tudo de truque.

Quando eu leio o conteúdo vindo de um autor humanista ou esquerdista, basicamente eu identifico as rotinas, que perfazem truques, os quais exploram as armadilhas mentais dos que não estão conscientes destas armadilhas mentais, e, portanto, em muitos casos não percebem que o oponente está de fato executando um truque para obter benefício.

Quando alguém tenta vender a si próprio como “representante da ciência”, está executando um truque, e para isso, irá utilizar-se de várias rotinas, para obter sucesso na execução do truque. A armadilha mental humana tende a levar os incautos a acreditarem que como a ciência aumenta o seu potencial de sobrevivência (medicamentos, cirurgias, tecnologia, etc.), então aquele que está “representando a ciência”, automaticamente ter maior valor de sobrevivência para ele.

Este tipo de framework, que seria mais um padrão de pensamento, é o resultado da mistura da perspectiva do investigador de fraudes corporativas com a análise do discurso político através da dinâmica social. Estes são modelos que sustentam a forma pela qual defendo que o ceticismo político seja aplicado.

A partir deste texto, creio que fica mais claro o motivo de minha terminologia, ao menos no que diz respeito aos termos armadilhas mentais, truques e rotinas.

Anúncios

2 COMMENTS

  1. Bom, eu já conhecia alguns precedentes dessa “descoberta” (aspas indicando ironia) em meus estudos independentes de Zoologia — em várias espécies de mamíferos, a fêmea só ovula se experimentar *dor suficiente* durante o acasalamento. Essa « dor suficiente » pode vir através de dentadas na região do pescoço, ou através de espinhos situados na glande do órgão do macho.

    Agora, o que não dá pra agüentar é essa inexatidão própria do jornaleirismo “divulgador de ciência”. Não adianta ter altas doses de testosterona no sangue, se a *sensibilidade* dos tecidos a esse hormônio for baixa ou nula. 😉 E pra variar, continuam aceitando *suposições* sobre o passado de nossos ancestrais remotos como se isso já fôsse uma “verdade histórica com firma reconhecida em cartório”. 😛

    Pô, Luciano, o teu ceticismo parece que anda muito seletivo ultimamente, troque os Red Bull por uns baldes de café sem açúcar — isto é uma ordem médica. 😛

    • JMK,

      Eu não foquei tanto na validade da matéria em si, mas sim em dar um exemplo dos 3 termos avaliados no contexto dessa hipótese.

      O que eu queria dizer é que, tomando como válidas as afirmações da reportagem, então X é um exemplo de truque, Y é um exemplo de rotina, e Z um exemplo de armadilha mental.

      Eu não tomo nada como absoluto, embora use o paradigma da teoria da evolução como um modelo explicativo coerente de nossos instintos.

      Abs,

      LH

Deixe uma resposta